quinta-feira, setembro 16, 2004

Numa altura em que o amante do esférico acariciado nesta nossa ocidental praia lusitana se encontra prepassado por um complexo paradoxo emocional; se por um lado rejubila de alegria ao ver o mítico “ganês” Mariano Barreto regressar ao nosso futebol, por outro ainda não se encontrará totalmente refeito do esgar de dor que o assolou aquando da descoberta que as transmissões televisivas da divisão maior do nosso futebol estariam a cargo da televisão do lendário semanário desportivo “Contra-Ataque”; a Caderneta da Bola, como que flectindo da esquerda para o meio, numa diagonal entre os centrais e, partindo de posição legal, estoira certeiro ao ângulo do nosso dicionário Português-Futebolês para procurar dissecar mais uma reluzente pérola do nosso patriomónio comentarista: a visão de jogo. Esta expressão, assim como a já analisada “defesa a dois tempos”, não pode deixar de ser considerada particularmente reducionista. Utilizada usualmente com os adjectivos “excelente” ou “boa”, visa sublinhar a acção de um jogador que seja necessariamente produto de um correcto visionamento do terreno de jogo e da colocação dos restantes jogadores para assim poder criar um desiquilibrio e, consequentemente, uma situação de perigo para o adversário. O desajustado emprego da expressão “visão de jogo”, prende-se com a assumpção de que bastará o uso de um dos cinco sentidos do ser humano, a visão, quando aplicada ao terreno de jogo para se poder falar de uma “boa” ou “excelente” “visão de jogo”. A pergunta que aqui deixamos em jeito de “amortie” é a seguinte: não estarão todos os jogadores a visionar o jogo? Porque é esta expressão utilizada somente a espaços? Aqui do alto da torre da Caderneta acreditamos que estamos perante mais um caso de escolha errada de palavras, derivada talvez do pouco rigor semântico tão habitual nas várias escolas comentaristas lusas ou então produto de uma inaceitável economia de esforço, que para mais não servirá do que para confundir os verdadeiros predestininados desiquilibradores que pisam os nossos campos da bola com o restante refugo de vulgaridade que a história, sensatamente, se encarrega de esquecer. Imaginemos que um génio do quilate do “zizou” gilista Caciolli, do “mujahedin” farense Hajry, ou de Pedro “Papa-Croissants” Barbosa, se encontra numa manobra de contra ataque da sua equipa e, ao receber a bola no miolo, em vez de abrir de primeira no ponta que se encontra a meio caminho da diagonal que o leva da linha lateral ao centro, temporiza um pouco o lance, para endossar no momento certo a bola para o médio que acompanha a jogada nas suas costas, tirando assim partido da movimentação do ponta que provocou um maior desafogo espacial no centro do terreno e surpreendendo os defensores contrários ao mesmo tempo que coloca o médio cara-a-cara com o guarda-redes. A uma jogada desta natureza seria certamente aplicado o jargão “excelente visão de jogo” pelo comentador ou paineleiro de serviço, não considerando que não foi a visão do homem da assistência que determinou o desenrolar do lance. Esta foi sim o método de recolha da informação necessária, imediatamente sujeita a uma complexa e rápida análise dialéctica dos factores espacio-temporais “em jogo”: movimentação dos jogadores, número de atacantes vs número de defensores, lei do fora de jogo, factor surpresa, e outros ainda que também ajudam a constituir a equação bolística na cabeça do predestinado e que nós, meros mortais, não conseguimos apreender. Todos os intervenientes em campo têm “visão de jogo” e, se a capacidade ocular o permitir, será sempre “boa” ou “excelente”. Porém, nem todos têm a faculdade de, numa fracção de segundo, conseguir utilizar a informação que a sua visão recolhe para, num único lance, desiquilibrar o jogo a favor da sua equipa, através de uma genial análise dialéctica de cariz espacio-temporal passível de prurir quer o espectador, quer o adversário. Esta capacidade poucos têm, e quando posta em prática pode valer por um campeonato inteiro de mediocridade, mediocridade esta que encontra o seu reflexo na bagagem comentarista que tende a tomar a parte pelo todo, negligenciando e reprimindo verbalmente o raro talento que poucos têm, mas que legiões sonham ter.

Sem comentários: