domingo, junho 01, 2003

Antes de Vitor Vieira, no entanto, a ala direita do clube de Barcelos conhecera outros nomes proeminentes (a esquerda teve um Deus, Drulovic, sendo qualquer comentário redutor e simplista face ao esplendor dessa época). A Caderneta escusa-se a delongas sobre a história dos extremos direitos do GVFC e limita-se a dissertar sobre aquele que mais próximo terá estado do panteão gilista depois de Drulovic. Muitos tomaram-no como aspirante a Drulovic mas nós aqui reconhecemos-lhe mais qualidades: fazia a ala, sim, mas também construía jogo e recuperava bolas a meio-campo; cruzava, é certo, mas também fazia assistências milimétricas para a finalização de Mangonga (lá chegaremos, lá chegaremos...). Sósia de Atílio Lombardo, estamos evidentemente a falar de Cacioli. Milton Cacioli Junior, brasileiro de ascendência italiana, um jogador maduro e acutilante, espalhara antes de Barcelos o seu perfume por Braga. A imprensa da época refere-o como "indispensável", epíteto que veio a honrar mais tarde também no Farense. Era o motor do Gil Vicente, a alma de uma equipa destroçada pela queda do seu anjo montenegrino. Ao jeito de Zidane, e não só pela careca, era em torno de si que a equipa jogava. Todos perceberam isso a não ser o selecionador do escrete, que acabara de ganhar um Campeonato do Mundo com um meio campo onde brilhavam Dunga e Raí. Quem é que tem coragem de nos dizer que Cacioli *não* era uma síntese dos dois?
Continuando. No que concerne ao Gil Vicente Futebol Clube, o verdadeiro festival de artesãos da filigrana futebolística começa no meio-campo. "Nada disto é novo" pensarão uns, "Ultraje! Os centro-campistas não jogavam, a bola ia do Vital para os avançados!", pensarão outros. A verdade, como em tudo o mais na vida, estará algures no meio. No meio do campo, aliás. E se há jogadores que não enganam, que transportam a verdade seminal que mora no centro do esférico e que só alguns resgatam para deleite dos adeptos, esses jogadores são os filhos do Galo barcelense. Lirismos à parte, a verdade é que poucas torcidas tiveram a oportunidade de aplaudir os dribles de um verdadeiro extremo salta-pocinhas como a torcida do Gil Vicente. Falamos, por exemplo, de Vítor Vieira, o gémeo perdido de Luís Filipe Madeira F. Protótipo do jogador saltimbanco, requer a honra de não ver exposto aqui o seu currículo pois a valência deste reside precisamente na variedade. Passou por muitos sítios, viu muitas coisas, encontrou milhares de laterais pela frente, a maior parte dos quais futuros e ex-colegas. Mas, e o futebol de Vieira? Rápido, vadio, tão depressa alheado do jogo (temporadas a fio, dirão alguns) como explosivo na altura do remate. Era um extremo que rematava mais do que cruzava, assim ao jeito de um Tulipa (promessa nunca confirmada) ou de um Paulão (que passou pelo glorioso plantel do Espinho de Dagoberto, Carvalhal e o mortífero Bolinhas). Empolgante e dos raros futebolistas da nossa terra a animar o mercado de transferências de Dezembro entre clubes que lutam pela manutenção.

sábado, maio 31, 2003

A Caderneta da Bola é coleccionada, obviamente, em equipa. No caso, trata-se de um conjunto de pessoas não inferior a 1 e não superior a 3, que a seu devido tempo discutirá a divulgação pública da sua identidade. Todavia, e porque este não é um projecto exclusivista, as potenciais colaborações são inúmeras e de uma riqueza incomensurável. Para tal, basta o envio de correspondência para: caderneta-da-bola@megamail.pt Agradecíamos que entrasse em contacto connosco quem tiver notícias sobre o paradeiro de Sérgio Cruz e de Miguel: há uma ambição secreta por parte da Caderneta de juntar, à mesa, o quarteto defensivo do Gil Vicente, temporada 94-95. Muito obrigado pela atenção.
Jogadores de enorme craveira pontificaram na linha defensiva do Gil Vicente, em meados dos anos 90. A Caderneta fala de nomes como Sérgio Cruz (possante no tackling e perigoso, para os espectadores, nos remates de longe, também passou pelo Paços de Ferreira), Wilson (ainda em actividade, angolano, que se estreou na 1ª divisão em Barcelos, precisamente, vindo do Caldas), Neves (mais um jogador tirsense, lateral direito, chegou a alinhar no Belenenses e, salvo erro, nas Antas) e Miguel. E aqui, ponto de ordem. Miguel era um defesa central que não deixou saudades no Sporting mas que no Gil Vicente cimentou, ao longo de 5 épocas, um posto seguro no centro da defesa. Miguel, facilmente reconhecível pelos dentes enormes e desproporcionais, foi internacional A. Aqui na Caderneta ainda estamos a tentar apurar quem foi o responsável pela convocatória de Miguel na altura e daremos conta dos factos na altura devida (tranquilidade e serenidade, a justiça irá funcionar). Mas sejamos francos: a selecção A teve alguns eleitos cuja categoria não destoa da de Miguel e a jogar em posições de maior tradição, ao longo dos tempos. Ou quem não se lembra (ou não quer lembrar!) da digressão pela América do Norte em que a camisola número 10 era envergada por Vado, esse tecnicista endiabrado que conseguia ser mais baixo do que Jorge Maria "Vital"? Voltando a Miguel, será mais justo falar dele enquanto histórico do Gil Vicente do que enquanto defesa leonino, por duas razões: a primeira refere-se a 5 épocas em Barcelos vs 2 épocas em Lisboa, se tanto. A segunda concerne ao facto do vimaranense Miguel ser um central (que também descaía para a esquerda) aguerrido, algo duro de rins, jogador à queima, com escassa ou nula aptidão para sair a jogar. Nesse sentido, só uma equipa com apurado senso para o catenaccio minhoto como o Gil Vicente é que poderia aproveitar toda a compleição técnico-táctica de um jogador como ele, ao lado de Sérgio Cruz, por exemplo. E Miguel agradeceu e retribuíu, com exibições medíocres de enorme categoria.
(parentesis para deixar uma achega que emergiu súbita no espírito da caderneta: a bola não é só feita de artistas dentro das quatro linhas. que fique bem claro que a Caderneta não negligenciará os homens de negro e os arautos mediáticos do espectáculo futebolístico. daí, um nome, para relembrar e quiçá desenvolver nos próximos dias: José Nicolau de Melo.)
E agora, onde está Vital, perguntam vocês. Conseguimos aqui apurar que Vital é neste momento treinador de guarda-redes do Sporting de Braga. E aqui se vê a importância fundamental das figuras que, na sombra, trabalham arduamente com os melhores, para os melhores. Se esta informação se confirmar (a Caderneta pede encarecidamente ajuda nesta busca da verdade), Vital é hoje um segundo pai, um mentor, para o guarda-redes suplente da selecção-de-todos-nós, Quim. Com este dado singelo arrumamos aqueles que no início do relato se questionaram sobre a pertinência da abordagem a Vital.
Há que desfazer alguns mitos em torno de Jorge Maria: primeiro, temos fontes documentais fidedignas que nos asseguram que a sua altura é 1 metro e 72 centímetros. Desenganem-se aqueles que julgam lembrar-se de ver Vital aos pinotes a tentar, sem sucesso, tocar na barra da baliza. Uma vez que a barra da baliza está elevada 2 metros e 44 centímetros acima do solo, estamos a falar precisamente de uma distância de 72 centímetros entre o topo da cabeça de Jorge Maria e o bordo inferior da trave. Se a 72 centímetros descontarmos aproximadamente 40 centímetros de braços, restam 32 centímetros, facilmente atingíveis por anos de treino de impulsão a dois pés. Outro dos mitos em torno de Vital, é o da sua origem geográfica. Senhor de uma fisionomia indistinta (oscilante entre o minhoto de barba de uma semana e o risco ao lado de um beirão, com uns olhos castanhos tristes e alentejanos) e de um percurso futebolístico erróneo (antes de Barcelos estivera em Santo Tirso, de onde saíu deixando o pórtico bem entregue a essa promessa da baliza balcânica chamada Goran), a Jorge Maria foi difícil traçar uma origem. Arrumemos o assunto: Vital nasceu em Tomar. Ponto final.
Começávamos a escrever o post sobre o guarda-redes de camisola com matizes rosáceos e boné de pala na cabeça que encantava as hostes no Campo Adelino Ribeiro Novo quando o computador foi abaixo. É muito curioso. Quem nos quis impedir de recuperar Jorge Manuel Domingos Maria, nome de guerra "Vital"? Quem tentou censurar a questão que se impõe: "onde estás tu agora, Vital?"
Há muito trabalho para fazer aqui e o primeiro post é sempre um dilema. A quem dedicá-lo, se ao quarteto sul-americano que em meados de 90 passou pelas Antas, se a Marlon Brandão, se aos planteis do Leça da Palmeira ou do Desportivo de Chaves ao longo dos tempos... Porém, e após um complicado processo de decisão, resolvemos abrir aqui um capítulo, que contamos ir desenvolvendo nos próximos dias, dedicado ao Gil Vicente. Por razões logísticas e porque na Caderneta privilegiamos a análise aprofundada e comentada ao replay de dois ângulos logo a seguir ao lance, deter-nos-emos agora apenas sobre o guarda redes e a defesa. Podem tomar, caros leitores, esta síntese como um exemplo da perspectiva diacrónica que aqui se adoptará doravante.
Há noites que têm o condão de nos recordar que cada qual tem uma missão no mundo. Parte da nossa consiste em partilhar e manter vivo um património que não pode cair nos anais do esquecimento. Aqui se dá início a esta odisseia historiográfica. Sejam muito benvindos e não hesitem em contactar-nos se for caso disso: caderneta-da-bola@megamail.pt.