segunda-feira, junho 02, 2003

Já a seguir (ou amanhã, ou depois...): o resto da pandilha - Ronald Baroni e Alejandro Diaz! Não perca! E entretanto vá escrevendo: caderneta-da-bola@megamail.pt
Em homenagem ao fã número 1 da Caderneta, e depois do esplendoroso naco de história em torno de Nicolau de Melo, parte-se agora para o já prometido esmiuçar do quarteto sul-americano que um dia aterrou nas Antas na senda de um sonho. O sonho de jogar de Revigrés ao peito e o duro pesadelo de não serem, de facto, os Francescolis e os Maradonas que se anunciavam à partida. Mas o erro não terá sido deles nem de Reinaldo, e sim do grotesco polvo mediático que se habitua a torturar os intérpretes de futebol bonito, qual Pedro Barny marcando Forbs. São esses senhores os responsáveis por respirarmos o fétido perfume da suspeição em vez do frutado aroma do futebol das pampas, aqui no nosso futebol. Enfim, vamos ao que interessa: Walter Paz, o primeiro e mais proeminente da pandilha, o Deco que nunca chegou a ser Deco, o centrocampista cujo toque de bola não foi suficiente para tirar lugar a jogadores explosivos como Kulkov, Semedo ou Emerson "O Príncipe do Soul Glo". A verdade, nua e crua, é esta: o argentino Walter Paz podia muito bem estar agora a jogar em vez de Alenitchev no actual FQP em vez de estar a dar pérolas a porcos num obscuro Tiro Federal de Rosario. Não era muito rápido, é certo, mas jogava tanto no meio como nas alas, tinha visão de jogo, poder de passe e um visual bastante mais sóbrio do que os seus restantes companheiros. E é pelo visual que importa começar a sucinta dissertação sobre o avançado com o cabelo mais bem tratado das Antas na década de 90, o argentino Roberto Mogrovejo. Roberto Mogrovejo nunca teve oportunidade de mostrar o seu valor e aqui na Caderneta arriscamos que terá sido mesmo votado ao ostracismo por ter defraudado as expectativas dos dirigentes e da massa associativa portista. Uma palavra de apreço, Roberto: a concorrência era fortíssima. Eles já não se lembram, Roberto, mas tu tiveste pela frente Mandla Zwane, Ettiene N'Tsunda, Ronald Baroni, Domingos e Iuran, só para citar alguns. Mas eles têm de saber, Roberto: tu eras alto, tu não eras rápido mas experimentem centrar para a tua cabeça contigo ao pé da marca do penalti e tu mostras-lhes. E agora, senhores responsáveis do futebol deste país, onde está Roberto Mogrovejo, depois do exílio a que foi obrigado? Nós na Caderneta temos registos de um Roberto Mogrovejo a jogar na Primera C (4ª divisão argentina) no J.J. Urquiza, mas será ele? Quem nos traz de volta aquilo que é nosso? Quem?
A Caderneta da Bola inicia com este post uma reflexão acerca de personagens lendárias que gravitaram em torno do futebol português. Não nos interessamos apenas pelos jogadores que trataram a "redondinha" com carinho, ou por aqueles que trataram o seu colega de profissão com uma rudeza genghiskhaniana (?) (como os já referidos Latapy e Paulinho "O Carniceiro da Antas" Santos). Abrimos aqui as hostilidades para tecer considerações sobre os lendários comentadores desportivos. Gabriel Alves? Era muito fácil... já tudo se disse sobre esta instituição. Perguntamos nós... Quem se lembra de José Nicolau de Melo?? É verdade... este comentador nortenho, possuidor de um timbre vocal absolutamente inconfundível é, porventura, o mais injustiçado de todos. Todos falam de Gabriel Alves, de Ribeiro Cristóvão, de Rui Tovar... mas e José Nicolau de Melo? Renegado para o esquecimento? Não! Nunca! A Caderneta não deixará que isso aconteça, e para tal, vamos contar uma aventura de José Nicolau num Boavista-Sporting sito algures na primeira metade da década de 90. A época... não sabemos (irrelevante), o local... Estádio do Bessa. José Nicolau de Melo inicia a transmissão em directo com os comentários da praxe enquanto as duas equipas entram em campo, de seguida anuncia que a emissão vai passar por momentos para a 5 de Outubro (outra forma de dizer, "Tomem lá o anúncio da Singer seus camelos!" - a propósito, avisamos os nossos leitores para aguardarem um post com uma reflexão sobre o anuncio da Singer que há 15 anos pelo menos passa antes dos jogos). Mas continuando... quando a emissão volta ao Bessa, passam-se alguns segundos nos quais não se houve José Nicolau de Melo... até que de repente... "Epá... tem cuidado caralho... olha essa merda pá! Olha essa merda pá!!", seguido de um silêncio sepulcral de alguns segundos e um nervoso "...estamos então de regresso ao Estádio do Bessa...". O que se passou com José Nicolau, não fazemos ideia. Mas o que sabemos é que nos anos seguintes, esta instituição televisiva, abandonou o comentário de jogos de futebol à noite para se dedicar exclusivamente às modalidades amadoras na RTP2 no fim-de-semana à tarde, hóquei, andebol e voleibol. A Caderneta pede, humildemente, à SportTV que integre o saudoso José Nicolau no seu naipe genial de comentadores (fazendo companhia a Vitor Manuel e Mozer), já que se encontrará, porventura, numa qualquer prateleira da RTP, local onde nós, simples mortais, jamais poderemos privar com a sapiência de tão lendária instituição.
Deveras oportuna a lembrança de Russel Latapy, mas serve a evocação para lembrar que há jogadores que não devem ser separados uns dos outros. Na Caderneta, honramos os laços de sangue, de pátria e de paridade da vã-glória futebolística. Por isso, há determinados jogadores que nos recusamos a separar uns dos outros. Latapy será talvez um caso excepcional, pois ostenta um currículo dourado por campeonatos ao serviço do FCP, presenças na Liga dos Campeões pelos azuis das Antas e de Glasgow e mesmo uma conquista da taça da Escócia ao serviço do Hibernians (clube onde começou a saga escocesa e de onde partiu para os Rangers). Apesar de excepção, todavia, é injusto falar de Latapy sem referir os outros dois elementos da Santíssima Trindade Tobaguenha que passeou o perfume de futebol do caribe pelos relvados lusos. Fala-se de Clint e de Lewis. Não nos alongamos em descrições, apenas referimos que Felgueiras só conseguiu momentos tão animados como os jogos com Lewis e Sérgio Conceição nas alas, agora que Fatinha foi ver jogos do Fluminense contra o São Caetano. E que Santa Maria de Lamas deve a Clint alguns dos mais bonitos detalhes futebolísticos de que há memória no seu estádio. Ok, não tão bons como os de Deocliciano Tavares, essa gazela da savana futebolística que em tempos esteve para explodir no Boavista, mas de calibre aproximado. Isto apenas, em jeito de apontamento breve, pois grupos de jogadores inseparáveis sempre frutificaram entre nós. Citamos, como exemplos, os sul-americanos de Robson, os argentinos do Sporting de Covilhã (mítico dia em que a Serra viu jogar Del Bosco), Zwane e N'Tsunda (diamantes negros) e a "quinta de Toniño" em Chaves. O futuro é pródigo e basto, aqui na Caderneta. Felizmente.
Voltando ao Gil Vicente, importará passar à vasta panóplia de artilheiros gilistas. "Ah, Paulo Alves!" Não, ainda não, havemos de lá chegar se o destino deixar, até porque estamos a falar de um jogador que, para além de ter passado pelo Sporting e pelo Marítimo, terá sido o segundo jogador português (depois do mítico extremo-esquerdo Folha) a marcar um golo pela selecção num relvado sintético de Toronto. [Fazemos aqui um voto solene de comentar futuramente essa mítica digressão pela América do Norte por ocasião da Skydome Cup] Da panóplia de artilheiros, dizíamos, resolvemos aqui destacar dois jogadores que encantaram a plateia barcelense durante a década de 90. Dois porque um seria Yin e outro Yang, um seria Sol e outro Lua, um não seria certamente sem o outro. Um com a Força, outro com a Técnica, um com a Finalização, outro com a Assistência. Em suma, um Mangonga, outro Nené Santarém. Makpoloka Mangonga, o zairense decisivo, tinha por hábito marcar golos na segunda-parte. Baixo, letal em frente à baliza, de poucas palavras, foi mais uma personalidade que viveu uns tempos à sombra de Drulovic. Injustamente, diga-se. Olhando à distância, reparamos que nunca teve uma selecção nacional à sua altura e nunca um clube se dignou a olhar para ele com olhos de gente a não ser o Gil. Era tosco, sim, mas para a técnica, naquela Armada ofensiva, estava Nené Santarém. Nené Santarém , brasileiro ex-Paysandu, teve que suar para ganhar o coração dos adeptos a Roberto Carlos, um avançado trintão com bigode de matador, que andou um par de épocas a fazer miséria no Nacional da Madeira. Bons pés, brinca na areia, mas de uma estética perigosamente parecida com a do seu homónimo cantor. O que só beneficiou Nené. Nené Santarém era um avançado baixinho (tradição gilista, com excepções ao já citado Paulo Alves e a Lim, matador da cantera gilista) mas de grande compleição técnica. Era o complemento ideal de Mangonga e não é à toa que os seus futuros misters (chegou a Barcelos em 1994) lhe aproveitaram a polivalência para ganhar um defesa evoluído. Foi nessa condição que jogou no Desportivo das Aves já em 2001. Desconhecida é, ainda hoje, a origem do epíteto "Santarém", dado a António Carlos Baía de Lima. Alvíssaras, a quem souber. E aqui terminam, provisoriamente, os relatos gilistas.
Justamente no dia em que Paulinho Santos arruma as chuteiras, menos usadas ao longo da carreira do que as cotoveleiras, a Caderneta da Bola acha por bem recordar aquele que terá sido o duelo mais obscuro da sua vida, injustamente ofuscado pelos embates Santos-Vieira Pinto (hoje comoventemente selado com uma troca de camisola e um aperto de mão mudo) e Santos-Acosta. Esse duelo, como aliás ja foi revelado aqui, foi o que opôs o truculento caxineiro a essa eterna jovem promessa nunca confirmada, Bino. A história conta-se em poucas palavras pois infelizmente momentos destes são difíceis de resgatar da obscuridade cultural a que estes factos têm sido votados. Corria Bino pela direita, algures no Belenenses ou no Marítimo (desculpem-nos a imprecisão, mas concordarão que será irrelevante) quando, após uma jogada em que fintou Paulinho, resolve tentar a façanha. Nada de especial, aparentemente. Acontece que Paulinho dispara uma entrada meio carrinho meio joelhada-conhecida-na-gíria-como-paralítica e atira com Bino para a maca e daí para a cama do hospital. Nada de especial, ou não fosse Paulinho um agressor quotidiano. O insólito da história está, tal e qual no embate Jokanovic-Latapy, nas declarações do hospital. Terá dito, na altura, Bino que Paulinho Santos o havia avisado que lhe partia a perna caso voltasse a fintá-lo naquele jogo. Dois comentários, duas morais, nesta história: 1. Paulinho é um homem responsável e de palavra. Prometeu e cumpriu, num acto de lealdade que não é vulgar no futebol de hoje em dia. De Paulinho nunca poderão dizer "é só garganta!" ou "cantas bem mas não m'alegras!". E Bino, grato e reconhecido, não teve pudor em mostrar esse facto ao mundo. 2. Os jogadores, em contexto hospitalar, abrem o livro e despejam a alma. A Caderneta deixa passar esta abébia e deixa a nota aos jornalistas desportivos deste país. Depois não digam que vão daqui.
Interrompendo agora por momentos a pertinente reflexão sobre o glorioso plantel do Gil Vicente Futebol Clube, os dois cromos que escrevem nesta Caderneta lembram que também se debruçarão sobre dados jogos ou acontecimentos que, por uma razão ou por outra, felizmente nunca esqueçeram. Recordamos ainda a temporada de 94/95. O saudoso União da Madeira - constituido por 4 brasileiros, 3 jugoslavos, 3 portugueses e 17 brasileiros naturalizados (mais coisa, menos coisa) - recebia o Futebol Clube do Porto no Estádio dos Barreiros. A dado momento, o jugoslavo e centro-campista Pedrag Jokanovic, portador de um porte físico impressionante (1,87m e 84k) e melhor marcador do União nessa época com 7 golos (!), recupera uma bola a meio-campo e parte para a defensiva azul-branca. O que Pedrag não reparou foi que atrás de si vinha Russell Latapy (lembram-se??), internacional das ilhas de Trinidad e Tobago que viveu na sombra (injustamente) do seu compatriota do Manchester United Dwight Yorke. Mas voltanto ao jogo... Jokanovic inicia o ataque do seu União quando é vítima de uma "tesoura" por trás do referido Latapy. Todos os adjectivos que, eventualmente, poderiam ser utilizados para descrever a dureza absolutamente assassina do referido "tackle" revelar-se-iam bastante insuficientes. O que se passou a seguir foi Pedrag Jokanovic rebolando no chão com o pé algo desalinhado da perna (tipo Rui Àguas em Kiev lembram-se?) e um cartão amarelo para o Tobagenho. Uma semana mais tarde ao folhear o "Record" vejo uma peça jornalística com o título "Latapy nem me veio visitar" e com uma foto do jugoslavo (ainda algo abalado) numa cama de hospital depois de ser operado e com a perna engessada. Jokanovic ficou, salvo o erro, seis meses sem poder jogar. Mas a história não acaba aqui... qual Conde de Montecristo, Jokanovic dedicou o tempo em que esteve impedido de espalhar o seu futebol pelos relvados nacionais a preparar a vingança daquele que lhe "lixou" a vida. Uns quantos meses mais tarde (na época seguinte se não me engano) reencontram-se União da Madeira e FCP. Jokanovic iniciou o jogo no banco pelo União, Latapy foi titular pelo FCP. Num glorioso momento de sanidade, o treinador do União resolve colocar o jugoslavo em campo. Acho que esteve cerca de 2 ou 3 minutos em jogo. O jugoslavo, ainda fresquinho por ter acabado de entrar procura o tobagenho e executa um carrinho de lado a pés juntos ao joelho de Latapy. O cartão vermelho foi imediatamente mostrado. Jokanovic levanta-se e sem olhar para o àrbitro dirige-se para os balneários com uma expressão de dever cumprido na cara. É para não deixar cair estas estórias no esquecimento que este blog existe. Mais uma vez apelamos aos nossos leitores que nos contactem e partilhem acontecimentos do glorioso futebol lusitano que achem demasiado bons para serem esquecidos. Próximo post subordinado ao tema "Duelos Sanguinários" : Paulinho Santos vs Bino !

domingo, junho 01, 2003

Antes de Vitor Vieira, no entanto, a ala direita do clube de Barcelos conhecera outros nomes proeminentes (a esquerda teve um Deus, Drulovic, sendo qualquer comentário redutor e simplista face ao esplendor dessa época). A Caderneta escusa-se a delongas sobre a história dos extremos direitos do GVFC e limita-se a dissertar sobre aquele que mais próximo terá estado do panteão gilista depois de Drulovic. Muitos tomaram-no como aspirante a Drulovic mas nós aqui reconhecemos-lhe mais qualidades: fazia a ala, sim, mas também construía jogo e recuperava bolas a meio-campo; cruzava, é certo, mas também fazia assistências milimétricas para a finalização de Mangonga (lá chegaremos, lá chegaremos...). Sósia de Atílio Lombardo, estamos evidentemente a falar de Cacioli. Milton Cacioli Junior, brasileiro de ascendência italiana, um jogador maduro e acutilante, espalhara antes de Barcelos o seu perfume por Braga. A imprensa da época refere-o como "indispensável", epíteto que veio a honrar mais tarde também no Farense. Era o motor do Gil Vicente, a alma de uma equipa destroçada pela queda do seu anjo montenegrino. Ao jeito de Zidane, e não só pela careca, era em torno de si que a equipa jogava. Todos perceberam isso a não ser o selecionador do escrete, que acabara de ganhar um Campeonato do Mundo com um meio campo onde brilhavam Dunga e Raí. Quem é que tem coragem de nos dizer que Cacioli *não* era uma síntese dos dois?
Continuando. No que concerne ao Gil Vicente Futebol Clube, o verdadeiro festival de artesãos da filigrana futebolística começa no meio-campo. "Nada disto é novo" pensarão uns, "Ultraje! Os centro-campistas não jogavam, a bola ia do Vital para os avançados!", pensarão outros. A verdade, como em tudo o mais na vida, estará algures no meio. No meio do campo, aliás. E se há jogadores que não enganam, que transportam a verdade seminal que mora no centro do esférico e que só alguns resgatam para deleite dos adeptos, esses jogadores são os filhos do Galo barcelense. Lirismos à parte, a verdade é que poucas torcidas tiveram a oportunidade de aplaudir os dribles de um verdadeiro extremo salta-pocinhas como a torcida do Gil Vicente. Falamos, por exemplo, de Vítor Vieira, o gémeo perdido de Luís Filipe Madeira F. Protótipo do jogador saltimbanco, requer a honra de não ver exposto aqui o seu currículo pois a valência deste reside precisamente na variedade. Passou por muitos sítios, viu muitas coisas, encontrou milhares de laterais pela frente, a maior parte dos quais futuros e ex-colegas. Mas, e o futebol de Vieira? Rápido, vadio, tão depressa alheado do jogo (temporadas a fio, dirão alguns) como explosivo na altura do remate. Era um extremo que rematava mais do que cruzava, assim ao jeito de um Tulipa (promessa nunca confirmada) ou de um Paulão (que passou pelo glorioso plantel do Espinho de Dagoberto, Carvalhal e o mortífero Bolinhas). Empolgante e dos raros futebolistas da nossa terra a animar o mercado de transferências de Dezembro entre clubes que lutam pela manutenção.

sábado, maio 31, 2003

A Caderneta da Bola é coleccionada, obviamente, em equipa. No caso, trata-se de um conjunto de pessoas não inferior a 1 e não superior a 3, que a seu devido tempo discutirá a divulgação pública da sua identidade. Todavia, e porque este não é um projecto exclusivista, as potenciais colaborações são inúmeras e de uma riqueza incomensurável. Para tal, basta o envio de correspondência para: caderneta-da-bola@megamail.pt Agradecíamos que entrasse em contacto connosco quem tiver notícias sobre o paradeiro de Sérgio Cruz e de Miguel: há uma ambição secreta por parte da Caderneta de juntar, à mesa, o quarteto defensivo do Gil Vicente, temporada 94-95. Muito obrigado pela atenção.
Jogadores de enorme craveira pontificaram na linha defensiva do Gil Vicente, em meados dos anos 90. A Caderneta fala de nomes como Sérgio Cruz (possante no tackling e perigoso, para os espectadores, nos remates de longe, também passou pelo Paços de Ferreira), Wilson (ainda em actividade, angolano, que se estreou na 1ª divisão em Barcelos, precisamente, vindo do Caldas), Neves (mais um jogador tirsense, lateral direito, chegou a alinhar no Belenenses e, salvo erro, nas Antas) e Miguel. E aqui, ponto de ordem. Miguel era um defesa central que não deixou saudades no Sporting mas que no Gil Vicente cimentou, ao longo de 5 épocas, um posto seguro no centro da defesa. Miguel, facilmente reconhecível pelos dentes enormes e desproporcionais, foi internacional A. Aqui na Caderneta ainda estamos a tentar apurar quem foi o responsável pela convocatória de Miguel na altura e daremos conta dos factos na altura devida (tranquilidade e serenidade, a justiça irá funcionar). Mas sejamos francos: a selecção A teve alguns eleitos cuja categoria não destoa da de Miguel e a jogar em posições de maior tradição, ao longo dos tempos. Ou quem não se lembra (ou não quer lembrar!) da digressão pela América do Norte em que a camisola número 10 era envergada por Vado, esse tecnicista endiabrado que conseguia ser mais baixo do que Jorge Maria "Vital"? Voltando a Miguel, será mais justo falar dele enquanto histórico do Gil Vicente do que enquanto defesa leonino, por duas razões: a primeira refere-se a 5 épocas em Barcelos vs 2 épocas em Lisboa, se tanto. A segunda concerne ao facto do vimaranense Miguel ser um central (que também descaía para a esquerda) aguerrido, algo duro de rins, jogador à queima, com escassa ou nula aptidão para sair a jogar. Nesse sentido, só uma equipa com apurado senso para o catenaccio minhoto como o Gil Vicente é que poderia aproveitar toda a compleição técnico-táctica de um jogador como ele, ao lado de Sérgio Cruz, por exemplo. E Miguel agradeceu e retribuíu, com exibições medíocres de enorme categoria.
(parentesis para deixar uma achega que emergiu súbita no espírito da caderneta: a bola não é só feita de artistas dentro das quatro linhas. que fique bem claro que a Caderneta não negligenciará os homens de negro e os arautos mediáticos do espectáculo futebolístico. daí, um nome, para relembrar e quiçá desenvolver nos próximos dias: José Nicolau de Melo.)
E agora, onde está Vital, perguntam vocês. Conseguimos aqui apurar que Vital é neste momento treinador de guarda-redes do Sporting de Braga. E aqui se vê a importância fundamental das figuras que, na sombra, trabalham arduamente com os melhores, para os melhores. Se esta informação se confirmar (a Caderneta pede encarecidamente ajuda nesta busca da verdade), Vital é hoje um segundo pai, um mentor, para o guarda-redes suplente da selecção-de-todos-nós, Quim. Com este dado singelo arrumamos aqueles que no início do relato se questionaram sobre a pertinência da abordagem a Vital.
Há que desfazer alguns mitos em torno de Jorge Maria: primeiro, temos fontes documentais fidedignas que nos asseguram que a sua altura é 1 metro e 72 centímetros. Desenganem-se aqueles que julgam lembrar-se de ver Vital aos pinotes a tentar, sem sucesso, tocar na barra da baliza. Uma vez que a barra da baliza está elevada 2 metros e 44 centímetros acima do solo, estamos a falar precisamente de uma distância de 72 centímetros entre o topo da cabeça de Jorge Maria e o bordo inferior da trave. Se a 72 centímetros descontarmos aproximadamente 40 centímetros de braços, restam 32 centímetros, facilmente atingíveis por anos de treino de impulsão a dois pés. Outro dos mitos em torno de Vital, é o da sua origem geográfica. Senhor de uma fisionomia indistinta (oscilante entre o minhoto de barba de uma semana e o risco ao lado de um beirão, com uns olhos castanhos tristes e alentejanos) e de um percurso futebolístico erróneo (antes de Barcelos estivera em Santo Tirso, de onde saíu deixando o pórtico bem entregue a essa promessa da baliza balcânica chamada Goran), a Jorge Maria foi difícil traçar uma origem. Arrumemos o assunto: Vital nasceu em Tomar. Ponto final.
Começávamos a escrever o post sobre o guarda-redes de camisola com matizes rosáceos e boné de pala na cabeça que encantava as hostes no Campo Adelino Ribeiro Novo quando o computador foi abaixo. É muito curioso. Quem nos quis impedir de recuperar Jorge Manuel Domingos Maria, nome de guerra "Vital"? Quem tentou censurar a questão que se impõe: "onde estás tu agora, Vital?"
Há muito trabalho para fazer aqui e o primeiro post é sempre um dilema. A quem dedicá-lo, se ao quarteto sul-americano que em meados de 90 passou pelas Antas, se a Marlon Brandão, se aos planteis do Leça da Palmeira ou do Desportivo de Chaves ao longo dos tempos... Porém, e após um complicado processo de decisão, resolvemos abrir aqui um capítulo, que contamos ir desenvolvendo nos próximos dias, dedicado ao Gil Vicente. Por razões logísticas e porque na Caderneta privilegiamos a análise aprofundada e comentada ao replay de dois ângulos logo a seguir ao lance, deter-nos-emos agora apenas sobre o guarda redes e a defesa. Podem tomar, caros leitores, esta síntese como um exemplo da perspectiva diacrónica que aqui se adoptará doravante.
Há noites que têm o condão de nos recordar que cada qual tem uma missão no mundo. Parte da nossa consiste em partilhar e manter vivo um património que não pode cair nos anais do esquecimento. Aqui se dá início a esta odisseia historiográfica. Sejam muito benvindos e não hesitem em contactar-nos se for caso disso: caderneta-da-bola@megamail.pt.