quarta-feira, junho 04, 2003

(menos lúcido e convencido dos seus actos ficou Emílio Peixe quando, no mesmo jogo, atirou Semedo contra os placards publicitários, num dos tackles mais deslizantes e esvoaçantes de que há memória)
Zim e Pú, o perfume do futebol africano! A Caderneta congratula os recuerdos! De outros quadrantes ( http://blogueio.blogspot.com ) somos saudados e saudamos também, rejubilando com a recuperação de Kiki. Advertimos que chamar-lhe gorilão é que não é nada bonito e prevemos fazer-lhe em breve justiça, se para tal nos ajudar o engenho e a arte. Agora, porém, é altura de retomar o fio dessa brilhante meada que são os duelos sanguinários do nosso futebol. Desta feita, o episódio remonta à época de 93-94 e a uma visita da turma leonina às Antas. O Sporting ostentava na altura um plantel onde inexplicavelmente cabia tanto Balakov como Amaral e o Porto ia sobrevivendo muito graças à contratação do sniper sérvio Drulovic ao Gil Vicente (não era bem assim, nem no caso do Sporting nem do Porto, mas não percamos mais tempo). O duelo em causa opôs duas feras do futebol nativo, uma de créditos mais firmado na paródia do que outra, um português outro estrangeiro, um mais moreno, outro mais louro. Caía então uma mecha de jogadores de uma e de outra equipa sobre a linha lateral esquerda de quem ataca para norte, quando sobressaíem engalfinhados um no outro o Fernando Couto e Andrezj Juskowiak. Fernando Couto é um rapaz simpático que caíu em desgraça na imprensa lusa graças ao tristemente célebre episódio com a repórter do N Amadores já esta época. Andrezj Juskowiak, apresentado como "André, o Polaco" por Sousa Cintra, era um ponta-de-lança louro, alto, forte e espadaúdo, de bigodinho aparado e cara de quem vinha de ganhar um galardão de melhor marcador nos Jogos Olímpicos de Barcelona'92 (e vinha mesmo, vejam lá bem isto!). Continuando, estão engalfinhados um no outro, Couto agarrando Jusko pela cintura, Jusko agarrando Couto por outro sítio que não os cabelos, um dá a volta ao outro, agarrão para aqui e Jusko é projectado, permanecendo em pé, para cima da linha lateral enquanto Couto segue altaneiro com a redondinha nos pés. Aqui, e as imagens televisivas comprovam-no, Juskowiak tem uma sequência de reacções absolutamente notáveis e que espelham bem a diferença entre o futebol português e o polaco. Se Juskowiak tivesse sido formado nas escolas de um Desportivo de Elvas, ter-se-ia atirado para o chão agarrado à cara, encenando um atentado brutal e virulento. Mas não: o polaco levanta a cabeça, abre os braços e chama o árbitro da partida, reclamando uma falta não assinalada. Chama uma vez, chama duas, o árbitro manda seguir e já Couto pensa para onde vai a bola a seguir. Jusko não se conforma e se não é vingado de uma maneira, é vingador de outra. Assim que o árbitro confirma com o tradicional 'não há nada' (tão ouvido nas Antas épocas a fio), Jusko fixa Couto e arranca lesto para o alvo, desferindo um low kick às pernas de Fernando. Foi um pontapé de raiva sem qualquer intenção de jogar a bola, um pontapé que arrumou de imediato Couto durante uns minutos. E um pontapé como deve ser: joelho na coxa, canela na canela e chuteira a varrer o corpo do adversário por baixo. André, O Polaco, fitou Couto de cima, deitado aos seus pés, e contemplou o cenário destruído com olhos rasos de vingança. Evidentemente que a seguir foi expulso, mas tal como no caso de Jokanovic (hoje e sempre, Joka), isso era o menos importante. Foi o 3º Capítulo dos Duelos Sanguinários da Caderneta da Bola.
E a Caderneta saúda a Curva ( http://curva.blogspot.com ) e responde ao desafio. Joel, o menino da Ria, extremo direito diabólico, era de facto a next big thing, com uma ressalva necessária: nunca chegou a ser, de facto, big, a não ser na fabulosa época de 96-97, em que a Veneza portuguesa foi ao rubro com o seu diamante. Joel tinha um futebol jovem, esguio mas algo incipiente. Era um jogador de rasgos e (torna-se já um hábito no nosso futebol) um extremo que rematava mais do que cruzava, à imagem de Tulipa ou Vítor Vieira. Que é feito dele, pergunta-se na Curva? Pois é, Joelito foi premiado com uma contratação pelo Boavista e teve muita sorte em não ir parar ao Leiria, como aliás é costume da maior parte dos 'empurrados do Bessa'. Foi, em vez disso, para Chaves, ainda na ressaca da despedida de Milinkovic e de Carlos Alvarez (o espanhol que nunca fez esquecer Toniño). Fontes que preferem permanecer anónimas dizem-nos que a opção por Chaves se deveu à proximidade da sua terra natal, Bragança. Mas em Chaves, não foi, uma vez mais, feliz e daí zarpou para Moreira de Cónegos, terra conhecida por ter um clube de futebol. No Moreirense, uma temporada ao mais médio nível, com 19 jogos, 2 golos e certamente inúmeras assistências para avançados completamente desconhecidos à altura, em 99-00. Do Moreirense, saltitou para Gondomar e daí... A-ha! ...daí para a Galiza, em busca do sonho de um dia alinhar pela equipa principal do Celta de Vigo. Estávamos no ano do 7-0 e era perfeitamente natural que qualquer jovem quisesse rumar à equipa que acabara de o concretizar. Mas não, Joelito ficou-se pela equipa B, e tão traumatizante deve ter sido esta estadia em terras de prestígio, que Joel desceu à capital para representar... o Casa Pia. E chegando à Casa Pia, ficamos por aqui, obviamente.
Companheiros do Terceiro Anel: que nos dizem de Porcel? Recordamos o substantivo, faltam-nos os adjectivos. É a senda sul-americana, não lhe podemos escapar.
Continuando no clube do Lis, cumprimos o que prometemos: Bambo. Triste sina, triste fim, triste fado de Bambo, jogador que chegou a alinhar pelas selecções de esperanças ao lado de grandes nomes da Europa do Futebol, como o ex-Fafe Rui Costa e o ex-Pastilhas Luís Filipe Madeira F. Nascido na Guiné Bissau, terá crescido com a redondinha colega aos pés, pelo que cedo demonstrou apetência pela miséria na grande e na pequena área. Foi no Boavista que começou a dar nas vistas mas 11 jogos em três épocas atiraram-no para o mundo dos saltimbancos da bola. Começou no Leiria, integrando o já referido Pentágono, e fazendo parte do Pack Económico Boavisteiro (Álvaro, Fua, Bertolazzi e Bambo - leve os 4 e pague quando lhe der mais jeito). Em Leiria, jogou 15 jogos mas apenas marcou 1 golo (repetimos: terá sido um golo espantoso e pagamos a quem tiver memória do mesmo). Depois dessa época, 94-95, bamboleou pelo Estrela da Amadora e fez uma época bambástica repartida entre o Farense e o Felgueiras, clube de onde partiu para o Nacional. No Nacional, acabou. Quiseram os deuses que a pérola do atlântico fosse a desgraça do nosso menino de ouro negro, pois ao fim de 7 jogos, o ímpeto dos verdadeiros puros sangue, fê-lo galgar os placards publicitários para ir buscar a bola numa reposição em jogo. Fora o sétimo jogo com a camisola alvinegra. Salta os placards e o esférico está nas mãos do apanha-bolas. A partir desse momento, em que Bambo está no ar com o apanha-bolas a 3 metros de si, tudo se passou demasiado rápido. Bambo correu, trocou umas palavras com o moço, tendo de seguida o jovem tarefeiro caído no chão prostrado, já a bola repousava nas mãos de Bambo Cassamá. Agressão? Pedagogia um pouco mais viril? Pressa? Desgosto e frustração por não ter singrado como outros? Bambo, responde-nos, que nós aqui não sabemos porque te desgraçaste. Regressou ao relvado, foi expulso, suspenso, acabou em lágrimas uma carreira, apesar de ainda ter passado pelo Esposende, pela Naval e pelo Ribeira Brava, de novo na Madeira. Mas foi aquele momento fatídico que o matou para o futebol. Injustamente, pensámos nós. Raio do puto, pensámos nós. Porra, Bambo, porquê?! Consta que naquele jogo, Cristiano Ronaldo estava na bancada a assistir e jurou daí vingar para sempre o feiticeiro africano.
(é claro que o epíteto "clube satélite do Rio Ave FC" foi uma laracha própria da emoção de encontrar um plantel de genuínos companheiros!)
E agora, senhoras e senhores, Nelson Bertolazzi. Forte, lutador, de boa técnica, este avançado de ascendência italiana, conjuga por isso as duas maiores escolas de futebol do mundo, o calcio com o brasileirão. Tecnicista, imponente no um-para-um, vem para Leiria mostrar o quão enganados estavam os dirigentes do Boavista ao deitar às urtigas tamanha pérola. Urtigas, salvo seja, pois Leiria foi o palco onde este artista deliciou plateias tratando o esférico por tu e o guarda-redes por 'quem és tu?'. O único parceiro à altura de Pedro Miguel e com quem, coadjuvado por Bambo, Reinaldo e Fua, integrava o quinteto sinfónico que os melhores hinos ao futebol de ataque Leiria um dia ouviu. Bambo (triste fim para uma carreira de um genuíno campeão, já lá iremos), Fua (um angolano explosivo que também se perdeu) e Bertolazzi vieram os três do Boavista, empurrados sem honra nem glória e sem um electrodoméstico de recordação. Que tristeza, sr. Major. Alguns anos depois, regressou ao Brasileirão onde a Portuguesa o acolheu e pela qual marcou 2 golos, em 1998. Em jeito de síntese, é triste verificar que estes 5 mágicos andam hoje no limbo dos anjos caídos da bola lusa. É por isso que nós aqui estamos. Para se fazer justiça a quem a merece.
Deixando Tirsenses, Baronis e quejandos em banho-maria, viramos as atenção para o domínio historiográfico que justificou o aparecimento da Caderneta. As análises cuidadas, os relatos detalhados, o prazer da bola. Viramo-nos agora para a União de Leiria. Poderíamos ter escolhido um Desportivo de Chaves ou um Leça, mas, tal como no caso do Tirsense, são equipas demasiado ricas para a complicada altura pessoal em que nos encontramos presentemente. Requerem mais do que uns minutos entre trabalhos, requerem vidas inteiras de teses de doutoramento, requerem total dedicação e espírito de missão. Requerem, enfim, coisas que só poderemos dar na próxima semana. O clube do Lis sempre foi um viveiro recheado das lagostas futebolísticas mais saborosas que temos provado. Confessamos que, por isso, temos alguma dificuldade em começar a vistoria. Há no entanto um homem que, pela sua importância e dimensão maior, merece ser referido em primeiro lugar. Falamos de Pedro Miguel. Pedro Miguel. Nome aparentemente vulgar que o terá votado já ao esquecimento em muitos lares lá da terra. Nem todos podem ter a sorte de se chamar Bertolazzi, mas já lá vamos. Nascido no ambiente fabril do Barreiro antes do 25 de Abril, em 1970, perseguia o sonho de singrar no mundo da bola, tendo recorrido por isso à cantera mais produtiva do Campo Grande: o Sporting Clube de Portugal. Aí o menino se fez homem, aí Pedro Miguel se fez avançado volante, veloz e volátil. De cabelo ao vento, passeou a sua classe entre os leões uma breve época de juniores, até voltar sebastiânico à  terra que o viu nascer, já em meados de 89, onde em duas épocas apontou 1 golo. Terá sido um golaço de bandeira, pois a União de Leiria viu nele o seu Van Halen salvador e contratou-o. Não se deu mal, Pedro Miguel em Leiria, e 6 golos em 29 jogos levaram-no para Paranhos, já na primeira divisão. Era a glória burguesa do filho da classe operária barreirense. Abreviando, a época no Salgueiros foi uma merda da pior espécie e Pedro percebeu que o seu destino era Leiria, afundada e orfã na Segunda de Honra. Mas o Messias do Barreiro torna a levar a sua equipa de sempre à  Primeira, com uma época sublime, onde em 32 jogos apontou 13 golos. Era assim, Pedro Miguel: decisivo, mortal, vagabundo do vale do Lis, o rei do castelo, o Silence4 da bola. Longa melena, cara angulosa, barba por fazer. Pedro. Porém, os deuses, invejosos do seu sucesso, voltaram a não permitir à estrela o brilho que lhe era devido, e Pedro ficou-se pelos 15 jogos e 1 único golo, em 94-95. Aí começou um longo calvário, por Braga e Belenenses, até regressar a... adivinhem lá: Leiria, com uma vez mais o Leiria na Segunda de Honra. (um parentesis para reclamar que estes tipos da União não aprendem que cada vez que o despedem, descem de divisão). Mas aí, nessa época, acabou o sonho. Leiria já não era a terra simpática do castelo que o aclamara um dia, e tratava-o como mais um. Não, Pedro, tu não merecias isto. Vai daí, e Pedro vinga-se. Pedro Miguel, o Justiceiro, embala a trouxa e parte para Santa Maria da Feira. E aí, meus amigos, o Barreiro voltou a ter orgulho no filho que um dia viu partir. Uma meia época colossal contra até o que dizem as estatísticas, que contabilizam apenas 9 jogos e 1 golo. Porque as estatísticas não contam as salvas de palma da assistência, as estatísticas não contam os olhos esbugalhados dos defesas que o viam passar mais lesto sem lhe apanhar a matrícula, as estatísticas são números, não contabilizam magia. E Pedro Miguel era um desses, um mágico. Depois, foi o ocaso. Sábio como só os grandes sabem ser, retirou-se no auge e alinha agora pelo Amora, discreto, onde vai passando o que sabe aos mais novos sem que ninguém dá muito por isso. O nosso muito obrigado, Pedro Miguel, e perdoa Leiria, que eles não sabem o que fazem.

terça-feira, junho 03, 2003

A propósito do Tirsense, a Caderneta está a preparar um exaustivo dossier sobre o clube português com mais descidas de divisão consecutivas. De Caetano a Paredão, de Marcelo a Christian. Nos próximos dias, talvez próximos tempos...
Já que estamos numa maré de reptos, aqui fica mais um: Filipe, se nos estás a ler, contamos contigo para descreveres a colossal assistência de Ronald Baroni, caído no chão sobre a meia-esquerda, a isolar Rui Barros em Santo Tirso! Escreve! Queremos o relato de quem saltou do sofá nesses dois segundos absolutamente irrepetíveis! É contigo!
A Caderneta saúda e mostra-se sensibilizada com a atenção dispensada por Rui Malheiro, promissor artilheiro da historiografia da bola, nas duas últimas épocas ao serviço do Terceiro Anel Futebol Clube ( http://terceiroanel.blogspot.com ), clube satélite do Rio Ave FC que por ora se mostra bem mais interessante que o próprio. Aqui na Caderneta vergamo-nos à destreza com que maneja um vastíssimo e impressionante reportório factual e contamos com a sua sapiência nessa nobre arte que é legar às gerações vindoiras os talentos esquecidos da bola lusitana. Rui, tu e o teu Terceiro Anel são uma inspiração e um blog irmão, com quem esperamos profícuas trocas de informações. Agora, há aqui algo que não pode passar em claro. Aliás, duas questões nos assolam neste momento: 1. Chicabala, que é feito do jovem Vieri de Vila do Conde? 2. E o centro-campista Niquinha (um dos favoritos cá da Caderneta, a par de Sérgio China)?

segunda-feira, junho 02, 2003

Já a seguir (ou amanhã, ou depois...): o resto da pandilha - Ronald Baroni e Alejandro Diaz! Não perca! E entretanto vá escrevendo: caderneta-da-bola@megamail.pt
Em homenagem ao fã número 1 da Caderneta, e depois do esplendoroso naco de história em torno de Nicolau de Melo, parte-se agora para o já prometido esmiuçar do quarteto sul-americano que um dia aterrou nas Antas na senda de um sonho. O sonho de jogar de Revigrés ao peito e o duro pesadelo de não serem, de facto, os Francescolis e os Maradonas que se anunciavam à partida. Mas o erro não terá sido deles nem de Reinaldo, e sim do grotesco polvo mediático que se habitua a torturar os intérpretes de futebol bonito, qual Pedro Barny marcando Forbs. São esses senhores os responsáveis por respirarmos o fétido perfume da suspeição em vez do frutado aroma do futebol das pampas, aqui no nosso futebol. Enfim, vamos ao que interessa: Walter Paz, o primeiro e mais proeminente da pandilha, o Deco que nunca chegou a ser Deco, o centrocampista cujo toque de bola não foi suficiente para tirar lugar a jogadores explosivos como Kulkov, Semedo ou Emerson "O Príncipe do Soul Glo". A verdade, nua e crua, é esta: o argentino Walter Paz podia muito bem estar agora a jogar em vez de Alenitchev no actual FQP em vez de estar a dar pérolas a porcos num obscuro Tiro Federal de Rosario. Não era muito rápido, é certo, mas jogava tanto no meio como nas alas, tinha visão de jogo, poder de passe e um visual bastante mais sóbrio do que os seus restantes companheiros. E é pelo visual que importa começar a sucinta dissertação sobre o avançado com o cabelo mais bem tratado das Antas na década de 90, o argentino Roberto Mogrovejo. Roberto Mogrovejo nunca teve oportunidade de mostrar o seu valor e aqui na Caderneta arriscamos que terá sido mesmo votado ao ostracismo por ter defraudado as expectativas dos dirigentes e da massa associativa portista. Uma palavra de apreço, Roberto: a concorrência era fortíssima. Eles já não se lembram, Roberto, mas tu tiveste pela frente Mandla Zwane, Ettiene N'Tsunda, Ronald Baroni, Domingos e Iuran, só para citar alguns. Mas eles têm de saber, Roberto: tu eras alto, tu não eras rápido mas experimentem centrar para a tua cabeça contigo ao pé da marca do penalti e tu mostras-lhes. E agora, senhores responsáveis do futebol deste país, onde está Roberto Mogrovejo, depois do exílio a que foi obrigado? Nós na Caderneta temos registos de um Roberto Mogrovejo a jogar na Primera C (4ª divisão argentina) no J.J. Urquiza, mas será ele? Quem nos traz de volta aquilo que é nosso? Quem?
A Caderneta da Bola inicia com este post uma reflexão acerca de personagens lendárias que gravitaram em torno do futebol português. Não nos interessamos apenas pelos jogadores que trataram a "redondinha" com carinho, ou por aqueles que trataram o seu colega de profissão com uma rudeza genghiskhaniana (?) (como os já referidos Latapy e Paulinho "O Carniceiro da Antas" Santos). Abrimos aqui as hostilidades para tecer considerações sobre os lendários comentadores desportivos. Gabriel Alves? Era muito fácil... já tudo se disse sobre esta instituição. Perguntamos nós... Quem se lembra de José Nicolau de Melo?? É verdade... este comentador nortenho, possuidor de um timbre vocal absolutamente inconfundível é, porventura, o mais injustiçado de todos. Todos falam de Gabriel Alves, de Ribeiro Cristóvão, de Rui Tovar... mas e José Nicolau de Melo? Renegado para o esquecimento? Não! Nunca! A Caderneta não deixará que isso aconteça, e para tal, vamos contar uma aventura de José Nicolau num Boavista-Sporting sito algures na primeira metade da década de 90. A época... não sabemos (irrelevante), o local... Estádio do Bessa. José Nicolau de Melo inicia a transmissão em directo com os comentários da praxe enquanto as duas equipas entram em campo, de seguida anuncia que a emissão vai passar por momentos para a 5 de Outubro (outra forma de dizer, "Tomem lá o anúncio da Singer seus camelos!" - a propósito, avisamos os nossos leitores para aguardarem um post com uma reflexão sobre o anuncio da Singer que há 15 anos pelo menos passa antes dos jogos). Mas continuando... quando a emissão volta ao Bessa, passam-se alguns segundos nos quais não se houve José Nicolau de Melo... até que de repente... "Epá... tem cuidado caralho... olha essa merda pá! Olha essa merda pá!!", seguido de um silêncio sepulcral de alguns segundos e um nervoso "...estamos então de regresso ao Estádio do Bessa...". O que se passou com José Nicolau, não fazemos ideia. Mas o que sabemos é que nos anos seguintes, esta instituição televisiva, abandonou o comentário de jogos de futebol à noite para se dedicar exclusivamente às modalidades amadoras na RTP2 no fim-de-semana à tarde, hóquei, andebol e voleibol. A Caderneta pede, humildemente, à SportTV que integre o saudoso José Nicolau no seu naipe genial de comentadores (fazendo companhia a Vitor Manuel e Mozer), já que se encontrará, porventura, numa qualquer prateleira da RTP, local onde nós, simples mortais, jamais poderemos privar com a sapiência de tão lendária instituição.
Deveras oportuna a lembrança de Russel Latapy, mas serve a evocação para lembrar que há jogadores que não devem ser separados uns dos outros. Na Caderneta, honramos os laços de sangue, de pátria e de paridade da vã-glória futebolística. Por isso, há determinados jogadores que nos recusamos a separar uns dos outros. Latapy será talvez um caso excepcional, pois ostenta um currículo dourado por campeonatos ao serviço do FCP, presenças na Liga dos Campeões pelos azuis das Antas e de Glasgow e mesmo uma conquista da taça da Escócia ao serviço do Hibernians (clube onde começou a saga escocesa e de onde partiu para os Rangers). Apesar de excepção, todavia, é injusto falar de Latapy sem referir os outros dois elementos da Santíssima Trindade Tobaguenha que passeou o perfume de futebol do caribe pelos relvados lusos. Fala-se de Clint e de Lewis. Não nos alongamos em descrições, apenas referimos que Felgueiras só conseguiu momentos tão animados como os jogos com Lewis e Sérgio Conceição nas alas, agora que Fatinha foi ver jogos do Fluminense contra o São Caetano. E que Santa Maria de Lamas deve a Clint alguns dos mais bonitos detalhes futebolísticos de que há memória no seu estádio. Ok, não tão bons como os de Deocliciano Tavares, essa gazela da savana futebolística que em tempos esteve para explodir no Boavista, mas de calibre aproximado. Isto apenas, em jeito de apontamento breve, pois grupos de jogadores inseparáveis sempre frutificaram entre nós. Citamos, como exemplos, os sul-americanos de Robson, os argentinos do Sporting de Covilhã (mítico dia em que a Serra viu jogar Del Bosco), Zwane e N'Tsunda (diamantes negros) e a "quinta de Toniño" em Chaves. O futuro é pródigo e basto, aqui na Caderneta. Felizmente.
Voltando ao Gil Vicente, importará passar à vasta panóplia de artilheiros gilistas. "Ah, Paulo Alves!" Não, ainda não, havemos de lá chegar se o destino deixar, até porque estamos a falar de um jogador que, para além de ter passado pelo Sporting e pelo Marítimo, terá sido o segundo jogador português (depois do mítico extremo-esquerdo Folha) a marcar um golo pela selecção num relvado sintético de Toronto. [Fazemos aqui um voto solene de comentar futuramente essa mítica digressão pela América do Norte por ocasião da Skydome Cup] Da panóplia de artilheiros, dizíamos, resolvemos aqui destacar dois jogadores que encantaram a plateia barcelense durante a década de 90. Dois porque um seria Yin e outro Yang, um seria Sol e outro Lua, um não seria certamente sem o outro. Um com a Força, outro com a Técnica, um com a Finalização, outro com a Assistência. Em suma, um Mangonga, outro Nené Santarém. Makpoloka Mangonga, o zairense decisivo, tinha por hábito marcar golos na segunda-parte. Baixo, letal em frente à baliza, de poucas palavras, foi mais uma personalidade que viveu uns tempos à sombra de Drulovic. Injustamente, diga-se. Olhando à distância, reparamos que nunca teve uma selecção nacional à sua altura e nunca um clube se dignou a olhar para ele com olhos de gente a não ser o Gil. Era tosco, sim, mas para a técnica, naquela Armada ofensiva, estava Nené Santarém. Nené Santarém , brasileiro ex-Paysandu, teve que suar para ganhar o coração dos adeptos a Roberto Carlos, um avançado trintão com bigode de matador, que andou um par de épocas a fazer miséria no Nacional da Madeira. Bons pés, brinca na areia, mas de uma estética perigosamente parecida com a do seu homónimo cantor. O que só beneficiou Nené. Nené Santarém era um avançado baixinho (tradição gilista, com excepções ao já citado Paulo Alves e a Lim, matador da cantera gilista) mas de grande compleição técnica. Era o complemento ideal de Mangonga e não é à toa que os seus futuros misters (chegou a Barcelos em 1994) lhe aproveitaram a polivalência para ganhar um defesa evoluído. Foi nessa condição que jogou no Desportivo das Aves já em 2001. Desconhecida é, ainda hoje, a origem do epíteto "Santarém", dado a António Carlos Baía de Lima. Alvíssaras, a quem souber. E aqui terminam, provisoriamente, os relatos gilistas.
Justamente no dia em que Paulinho Santos arruma as chuteiras, menos usadas ao longo da carreira do que as cotoveleiras, a Caderneta da Bola acha por bem recordar aquele que terá sido o duelo mais obscuro da sua vida, injustamente ofuscado pelos embates Santos-Vieira Pinto (hoje comoventemente selado com uma troca de camisola e um aperto de mão mudo) e Santos-Acosta. Esse duelo, como aliás ja foi revelado aqui, foi o que opôs o truculento caxineiro a essa eterna jovem promessa nunca confirmada, Bino. A história conta-se em poucas palavras pois infelizmente momentos destes são difíceis de resgatar da obscuridade cultural a que estes factos têm sido votados. Corria Bino pela direita, algures no Belenenses ou no Marítimo (desculpem-nos a imprecisão, mas concordarão que será irrelevante) quando, após uma jogada em que fintou Paulinho, resolve tentar a façanha. Nada de especial, aparentemente. Acontece que Paulinho dispara uma entrada meio carrinho meio joelhada-conhecida-na-gíria-como-paralítica e atira com Bino para a maca e daí para a cama do hospital. Nada de especial, ou não fosse Paulinho um agressor quotidiano. O insólito da história está, tal e qual no embate Jokanovic-Latapy, nas declarações do hospital. Terá dito, na altura, Bino que Paulinho Santos o havia avisado que lhe partia a perna caso voltasse a fintá-lo naquele jogo. Dois comentários, duas morais, nesta história: 1. Paulinho é um homem responsável e de palavra. Prometeu e cumpriu, num acto de lealdade que não é vulgar no futebol de hoje em dia. De Paulinho nunca poderão dizer "é só garganta!" ou "cantas bem mas não m'alegras!". E Bino, grato e reconhecido, não teve pudor em mostrar esse facto ao mundo. 2. Os jogadores, em contexto hospitalar, abrem o livro e despejam a alma. A Caderneta deixa passar esta abébia e deixa a nota aos jornalistas desportivos deste país. Depois não digam que vão daqui.
Interrompendo agora por momentos a pertinente reflexão sobre o glorioso plantel do Gil Vicente Futebol Clube, os dois cromos que escrevem nesta Caderneta lembram que também se debruçarão sobre dados jogos ou acontecimentos que, por uma razão ou por outra, felizmente nunca esqueçeram. Recordamos ainda a temporada de 94/95. O saudoso União da Madeira - constituido por 4 brasileiros, 3 jugoslavos, 3 portugueses e 17 brasileiros naturalizados (mais coisa, menos coisa) - recebia o Futebol Clube do Porto no Estádio dos Barreiros. A dado momento, o jugoslavo e centro-campista Pedrag Jokanovic, portador de um porte físico impressionante (1,87m e 84k) e melhor marcador do União nessa época com 7 golos (!), recupera uma bola a meio-campo e parte para a defensiva azul-branca. O que Pedrag não reparou foi que atrás de si vinha Russell Latapy (lembram-se??), internacional das ilhas de Trinidad e Tobago que viveu na sombra (injustamente) do seu compatriota do Manchester United Dwight Yorke. Mas voltanto ao jogo... Jokanovic inicia o ataque do seu União quando é vítima de uma "tesoura" por trás do referido Latapy. Todos os adjectivos que, eventualmente, poderiam ser utilizados para descrever a dureza absolutamente assassina do referido "tackle" revelar-se-iam bastante insuficientes. O que se passou a seguir foi Pedrag Jokanovic rebolando no chão com o pé algo desalinhado da perna (tipo Rui Àguas em Kiev lembram-se?) e um cartão amarelo para o Tobagenho. Uma semana mais tarde ao folhear o "Record" vejo uma peça jornalística com o título "Latapy nem me veio visitar" e com uma foto do jugoslavo (ainda algo abalado) numa cama de hospital depois de ser operado e com a perna engessada. Jokanovic ficou, salvo o erro, seis meses sem poder jogar. Mas a história não acaba aqui... qual Conde de Montecristo, Jokanovic dedicou o tempo em que esteve impedido de espalhar o seu futebol pelos relvados nacionais a preparar a vingança daquele que lhe "lixou" a vida. Uns quantos meses mais tarde (na época seguinte se não me engano) reencontram-se União da Madeira e FCP. Jokanovic iniciou o jogo no banco pelo União, Latapy foi titular pelo FCP. Num glorioso momento de sanidade, o treinador do União resolve colocar o jugoslavo em campo. Acho que esteve cerca de 2 ou 3 minutos em jogo. O jugoslavo, ainda fresquinho por ter acabado de entrar procura o tobagenho e executa um carrinho de lado a pés juntos ao joelho de Latapy. O cartão vermelho foi imediatamente mostrado. Jokanovic levanta-se e sem olhar para o àrbitro dirige-se para os balneários com uma expressão de dever cumprido na cara. É para não deixar cair estas estórias no esquecimento que este blog existe. Mais uma vez apelamos aos nossos leitores que nos contactem e partilhem acontecimentos do glorioso futebol lusitano que achem demasiado bons para serem esquecidos. Próximo post subordinado ao tema "Duelos Sanguinários" : Paulinho Santos vs Bino !

domingo, junho 01, 2003

Antes de Vitor Vieira, no entanto, a ala direita do clube de Barcelos conhecera outros nomes proeminentes (a esquerda teve um Deus, Drulovic, sendo qualquer comentário redutor e simplista face ao esplendor dessa época). A Caderneta escusa-se a delongas sobre a história dos extremos direitos do GVFC e limita-se a dissertar sobre aquele que mais próximo terá estado do panteão gilista depois de Drulovic. Muitos tomaram-no como aspirante a Drulovic mas nós aqui reconhecemos-lhe mais qualidades: fazia a ala, sim, mas também construía jogo e recuperava bolas a meio-campo; cruzava, é certo, mas também fazia assistências milimétricas para a finalização de Mangonga (lá chegaremos, lá chegaremos...). Sósia de Atílio Lombardo, estamos evidentemente a falar de Cacioli. Milton Cacioli Junior, brasileiro de ascendência italiana, um jogador maduro e acutilante, espalhara antes de Barcelos o seu perfume por Braga. A imprensa da época refere-o como "indispensável", epíteto que veio a honrar mais tarde também no Farense. Era o motor do Gil Vicente, a alma de uma equipa destroçada pela queda do seu anjo montenegrino. Ao jeito de Zidane, e não só pela careca, era em torno de si que a equipa jogava. Todos perceberam isso a não ser o selecionador do escrete, que acabara de ganhar um Campeonato do Mundo com um meio campo onde brilhavam Dunga e Raí. Quem é que tem coragem de nos dizer que Cacioli *não* era uma síntese dos dois?
Continuando. No que concerne ao Gil Vicente Futebol Clube, o verdadeiro festival de artesãos da filigrana futebolística começa no meio-campo. "Nada disto é novo" pensarão uns, "Ultraje! Os centro-campistas não jogavam, a bola ia do Vital para os avançados!", pensarão outros. A verdade, como em tudo o mais na vida, estará algures no meio. No meio do campo, aliás. E se há jogadores que não enganam, que transportam a verdade seminal que mora no centro do esférico e que só alguns resgatam para deleite dos adeptos, esses jogadores são os filhos do Galo barcelense. Lirismos à parte, a verdade é que poucas torcidas tiveram a oportunidade de aplaudir os dribles de um verdadeiro extremo salta-pocinhas como a torcida do Gil Vicente. Falamos, por exemplo, de Vítor Vieira, o gémeo perdido de Luís Filipe Madeira F. Protótipo do jogador saltimbanco, requer a honra de não ver exposto aqui o seu currículo pois a valência deste reside precisamente na variedade. Passou por muitos sítios, viu muitas coisas, encontrou milhares de laterais pela frente, a maior parte dos quais futuros e ex-colegas. Mas, e o futebol de Vieira? Rápido, vadio, tão depressa alheado do jogo (temporadas a fio, dirão alguns) como explosivo na altura do remate. Era um extremo que rematava mais do que cruzava, assim ao jeito de um Tulipa (promessa nunca confirmada) ou de um Paulão (que passou pelo glorioso plantel do Espinho de Dagoberto, Carvalhal e o mortífero Bolinhas). Empolgante e dos raros futebolistas da nossa terra a animar o mercado de transferências de Dezembro entre clubes que lutam pela manutenção.