sexta-feira, junho 06, 2003

Regressando ao domínio historiográfico. Depois do Gil de Caciolli, do Leiria de Pedro "O Cigano d´Ouro" Miguel, e antes do Chaves de Matute e do Tirsense de Best... eis o Leça Futebol Clube! O Leça de quem?!? Por onde começar...? Pela baliza? Pelo ataque? Esbarramos inevitavelmente na complexidade desse mantra, um fratal eterno de dívidas, barretes e futebol muito duvidoso. Assim, na dúvida, comecemos pelo princípio. E no princípio era o verbo, ao qual se seguiu, rapidamente, Vladan. O goleiro Vladan, também conhecido por Stojkovic, o Aranhiço de Lovnica, para quem as balizas sempre foram pequenas demais, foi anos a fio a maior esperança dos adeptos do subúrbio industrial do Porto. Era em Vladan que residia a confiança quando tudo parecia falhar, quando Fernando Festas era contratado pela 18ª vez, quando Alfaia perdia aquela bola preciosa para Dino, era para os quase dois metros deste sérvio que os olhos se voltavam nos momentos de maior aperto. Rápido entre os postes, lento em tudo o mais, uma gritante inaptidão para jogar com os pés, inaptidão que porém compensava com o seu sorriso característico e sempre constante (sorriso aliás que só teve paralelo em Portugal naquele que andou anos a fio estampado na boca de Milton Mendes). Extra-futebol, este Jorge Campos balcânico era também ele um esteta. Não é por acaso que foi por si que, a norte do Mondego, a moda da calça preta almofadada pegou de vez (apesar de correntes teóricas algo duvidosas associarem esta moda a Busquets do Barça ou a Kralj do FCPorto). Na defesa, referiremos apenas dois exemplares do rigor defensivo. Matias e Alfaia! Matias... o que dizer? Começar pela estética ou pelas aptidões futebolísticas? Central de vasto currículo, calcorreou clubes como o Gil Vicente e até mesmo o Futebol Clube do Porto (nada a ver com uma "ajudinha" um ano antes da sua contratação num jogo contra o FCP) mas foi no Leça que evidenciou todo o esplendor do seu futebol musculado e quase-autómato, de uma eficácia impressionante na difícil arte do alívio para onde está virado. Portador de um bigode que já não se via em relvados lusos desde Chalana e Frasco, jogava de igual forma com ambos os pés mas não necessariamente bem com nenhum deles. Foi também uma inspiração para as gerações seguintes. O mui aclamado central Gaspar viu em Matias o seu mentor, por exemplo, tendo inclusive actualizado o bigode para uma barba consistente. Passemos agora a rigorosa lupa historiográfica sobre Alfaia, seu companheiro timorense. Alfaia, o Xanana de Leça, não era, paradoxalmente, um arauto dos direitos humanos. Desconfia-se aqui na Caderneta que o próprio apelido, seu último nome e nome de guerra nas lides da bola, terá sido um exercício premonitório dos seus progenitores acerca da futura relação do seu rebento com os atacantes adversários. Alfaia começou em Portugal a carreira com uma travessia no Alentejo, entre o Portalegrense e o Elvas, até assinar pela Tuna da briosa, onde manteve a sua média elevadíssima de jogos por época, algures pelos 27 jogos. Depois da tuna, o Rio Ave (e decerto que haverá quem o relembre com saudades em Vila do Conde - Rui estás desmarcado, olha o passe em profundidade!) e, depois de um fugaz regresso a Elvas, ingressa no Leça para, em dois anos, ser um dos pilares da campanha de ascensão à primeira divisão. Era um central rápido e aguerrido, de esgar intimidatório e olhar algo vítreo. Um interessante contraste com Vladan dos Olhos Doces e com Matias. Foram épocas a fio (3, mais precisamente) na primeira e finalmente a descida à 2ª, tendo partilhado uma série de situações dramáticas, como ordenados em atraso, trabalhar com Joaquim Teixeira (sim, esse que "supostamente" encomendou a Paula para o estágio da selecção de todos nós), Rodolfo Reis e sucessivas humilhações nos media face à fraca prestação colectiva da sua equipa. Uma palavra de homenagem para Alfaia... continuou em Leça apesar de tudo isto e foi lá que terminou a carreira em 2000. Agora estamos a ser expulsos da redacção por uma ameaça de bomba (chamada anónima da zona de Chelas). Continuaremos mais tarde.
Esta manhã apetece-nos gritar bem alto: João Manuel Pinto, o Dread Malaico de Chelas! Pronto. Já gritámos. Devemos dizer que o modus operandi deste vivaço nunca nos enganou e não foi, por isso, com espanto que verificámos que o sujeito é dos mais puros produtos da cantera de Chelas, possuidora de toda a escola de futebol suburbano (o remate em jeito para não acertar nos carros estacionados, o jogo interrompido por causa do vidro partido da vizinha, a cuspidela ocasional no adversário e respectiva rixa entre bairros...). De notar também a relação estreita entre a escolinha de Chelas e o maior rival do Clube Futebol Benfica. Também Miguel, consagrado ícone do submundo lisboeta, nasceu para a bola em Chelas e agora é titular de águia ao peito. E também Miguel partilha com o Dread Malaico da pêra à D'Artagnan uma apetência para a confusão, ou partilhava, já que o castelhano Camacho tratou de refrear um pouco a fera, que esteve prestes a ser enjaulada depois de 2 amarelos em 30 segundos nas Antas, uma média de fazer corar Paulinho. Enfim, enough ie enough, e a Caderneta não veio ao mundo para relatos da ribalta mediática. Paramos por aqui a relação Chelas SLB e demais anexos e prosseguimos para outra.
Congratulamos uma vez mais a vaga revivalista em torno de figuras lendárias (e não do triste fado, caros comparsas do terceiro anel, não digam isso que nos dói a alma) mas não sem antes deixarmos de demonstrar ao éter o desencanto perante o silêncio demasiado ensurdecedor: "Fó-Fó", perdão Clube Futebol Benfica, é para continuar no esquecimento? Prometemos investir a fundo, apesar do silêncio, apesar das contrariedades.

quarta-feira, junho 04, 2003

A Caderneta, ao efectuar uma incursão pelos seus arquivos e fontes documentais com o objectivo de descobrir algures perdidas no meio dos anos 90 outras equipas cujos planteis fossem níveis de menção, descobriu informações saborosas sobre o Estrela da Amadora (Bem-vindos de volta à primeira!!). Ao contrário do que poderiam pensar os nossos estimados leitores, este post, não é dedicado ao Estrela, antes, através da análise do plantel dos amadorenses, descobrimos que essa (mais uma) promessa por cumprir, de seu nome Calado, antes de rumar à Amadora, militou nos planteis do segundo, para muitos primeiro, maior clube da freguesia de Benfica. Falo do Clube Futebol Benfica, apelidado pelos adeptos do Sport Lisboa de “Fó-Fó”. “Fó-Fó o caralho!”, diriam certamente os adeptos do CFB, e nós aqui na Caderneta assumimos que jamais nos referiríamos a este clube nesses termos depreciativos. O Clube Futebol Benfica tem história, e gloriosa também. Não pensem que as modalidades mais representativas deste clube são os dardos, a sueca ou o dominó. Não. O CFB chegou a ser campeão nacional de hóquei e hóquei em campo, além de ser um autêntico viveiro de futuras grandes promessas, não só no futebol, mas também em voleibol, andebol de sete, basquetebol, rugby, atletismo, ginástica, pesca desportiva, natação, ténis de mesa e "karaté". Este post pode ser considerado como uma justa homenagem a um clube que viu o seu rival de sempre lá da freguesia alcançar grandes conquistas aquém e além mar. Vivendo na clandestinidade, e suportando décadas de insultos e de humilhações, o Clube de Futebol Benfica manteve a sua identidade e cultivou um sentimento “anti-lampião” que os adeptos do FC Porto ou do Sporting jamais sonharão possuir. Neste clube estão os adeptos que mais repulsa sentem pelo SLB. Perguntem-lhes se tiverem coragem! Mas não lhe chamem “Fó-Fó”!! A não ser que a vossa integridade física não seja uma prioridade. Voltando a Calado. Os adeptos do CFB, num complexo paradoxo emocional, choraram de tristeza ao ver o seu menino de cabelos dourados partir para a Amadora, mas de alegria ao ver um filho da casa singrar na primeira divisão. Porém, nada podia preparar os adeptos do “Fó-Fó”, perdão, Clube Futebol Benfica, para o que se iria passar. Então não é que o seu menino, o seu ídolo, o seu surfista da bola, assinou pelo SLB?!? Não é possível, pensaram os tiffosi do CFB!! “O Record enganou-se pá”. “Alguma vez?”. Mas, infelizmente, era verdade. Uma onda de indignação e revolta deixou a freguesia de Benfica numa quase lei marcial, havendo mesmo notícias não confirmadas de atentados bombistas junto ao mercado de Benfica. Um fanático do CFB contactado agora mesmo via telemóvel a partir da Redacção da Caderneta confirma o cenário "Benfica a ferro e fogo" por causa da infame transferência do agora apelidado "Judas de Benfica". Não é por acaso que mais tarde, esta personalidade dos passes longos viu o seu percurso manchado por vis calúnias de autor incerto que nos recusamos a relembrar (apesar de vontade não nos faltar). Quem os consegue, afinal, censurar, doridos da alma e fúnebres que desde então viveram, os míticos de Sete Rios? Apenas conseguimos imaginar o que lhes perpassou pela alma...
(menos lúcido e convencido dos seus actos ficou Emílio Peixe quando, no mesmo jogo, atirou Semedo contra os placards publicitários, num dos tackles mais deslizantes e esvoaçantes de que há memória)
Zim e Pú, o perfume do futebol africano! A Caderneta congratula os recuerdos! De outros quadrantes ( http://blogueio.blogspot.com ) somos saudados e saudamos também, rejubilando com a recuperação de Kiki. Advertimos que chamar-lhe gorilão é que não é nada bonito e prevemos fazer-lhe em breve justiça, se para tal nos ajudar o engenho e a arte. Agora, porém, é altura de retomar o fio dessa brilhante meada que são os duelos sanguinários do nosso futebol. Desta feita, o episódio remonta à época de 93-94 e a uma visita da turma leonina às Antas. O Sporting ostentava na altura um plantel onde inexplicavelmente cabia tanto Balakov como Amaral e o Porto ia sobrevivendo muito graças à contratação do sniper sérvio Drulovic ao Gil Vicente (não era bem assim, nem no caso do Sporting nem do Porto, mas não percamos mais tempo). O duelo em causa opôs duas feras do futebol nativo, uma de créditos mais firmado na paródia do que outra, um português outro estrangeiro, um mais moreno, outro mais louro. Caía então uma mecha de jogadores de uma e de outra equipa sobre a linha lateral esquerda de quem ataca para norte, quando sobressaíem engalfinhados um no outro o Fernando Couto e Andrezj Juskowiak. Fernando Couto é um rapaz simpático que caíu em desgraça na imprensa lusa graças ao tristemente célebre episódio com a repórter do N Amadores já esta época. Andrezj Juskowiak, apresentado como "André, o Polaco" por Sousa Cintra, era um ponta-de-lança louro, alto, forte e espadaúdo, de bigodinho aparado e cara de quem vinha de ganhar um galardão de melhor marcador nos Jogos Olímpicos de Barcelona'92 (e vinha mesmo, vejam lá bem isto!). Continuando, estão engalfinhados um no outro, Couto agarrando Jusko pela cintura, Jusko agarrando Couto por outro sítio que não os cabelos, um dá a volta ao outro, agarrão para aqui e Jusko é projectado, permanecendo em pé, para cima da linha lateral enquanto Couto segue altaneiro com a redondinha nos pés. Aqui, e as imagens televisivas comprovam-no, Juskowiak tem uma sequência de reacções absolutamente notáveis e que espelham bem a diferença entre o futebol português e o polaco. Se Juskowiak tivesse sido formado nas escolas de um Desportivo de Elvas, ter-se-ia atirado para o chão agarrado à cara, encenando um atentado brutal e virulento. Mas não: o polaco levanta a cabeça, abre os braços e chama o árbitro da partida, reclamando uma falta não assinalada. Chama uma vez, chama duas, o árbitro manda seguir e já Couto pensa para onde vai a bola a seguir. Jusko não se conforma e se não é vingado de uma maneira, é vingador de outra. Assim que o árbitro confirma com o tradicional 'não há nada' (tão ouvido nas Antas épocas a fio), Jusko fixa Couto e arranca lesto para o alvo, desferindo um low kick às pernas de Fernando. Foi um pontapé de raiva sem qualquer intenção de jogar a bola, um pontapé que arrumou de imediato Couto durante uns minutos. E um pontapé como deve ser: joelho na coxa, canela na canela e chuteira a varrer o corpo do adversário por baixo. André, O Polaco, fitou Couto de cima, deitado aos seus pés, e contemplou o cenário destruído com olhos rasos de vingança. Evidentemente que a seguir foi expulso, mas tal como no caso de Jokanovic (hoje e sempre, Joka), isso era o menos importante. Foi o 3º Capítulo dos Duelos Sanguinários da Caderneta da Bola.
E a Caderneta saúda a Curva ( http://curva.blogspot.com ) e responde ao desafio. Joel, o menino da Ria, extremo direito diabólico, era de facto a next big thing, com uma ressalva necessária: nunca chegou a ser, de facto, big, a não ser na fabulosa época de 96-97, em que a Veneza portuguesa foi ao rubro com o seu diamante. Joel tinha um futebol jovem, esguio mas algo incipiente. Era um jogador de rasgos e (torna-se já um hábito no nosso futebol) um extremo que rematava mais do que cruzava, à imagem de Tulipa ou Vítor Vieira. Que é feito dele, pergunta-se na Curva? Pois é, Joelito foi premiado com uma contratação pelo Boavista e teve muita sorte em não ir parar ao Leiria, como aliás é costume da maior parte dos 'empurrados do Bessa'. Foi, em vez disso, para Chaves, ainda na ressaca da despedida de Milinkovic e de Carlos Alvarez (o espanhol que nunca fez esquecer Toniño). Fontes que preferem permanecer anónimas dizem-nos que a opção por Chaves se deveu à proximidade da sua terra natal, Bragança. Mas em Chaves, não foi, uma vez mais, feliz e daí zarpou para Moreira de Cónegos, terra conhecida por ter um clube de futebol. No Moreirense, uma temporada ao mais médio nível, com 19 jogos, 2 golos e certamente inúmeras assistências para avançados completamente desconhecidos à altura, em 99-00. Do Moreirense, saltitou para Gondomar e daí... A-ha! ...daí para a Galiza, em busca do sonho de um dia alinhar pela equipa principal do Celta de Vigo. Estávamos no ano do 7-0 e era perfeitamente natural que qualquer jovem quisesse rumar à equipa que acabara de o concretizar. Mas não, Joelito ficou-se pela equipa B, e tão traumatizante deve ter sido esta estadia em terras de prestígio, que Joel desceu à capital para representar... o Casa Pia. E chegando à Casa Pia, ficamos por aqui, obviamente.
Companheiros do Terceiro Anel: que nos dizem de Porcel? Recordamos o substantivo, faltam-nos os adjectivos. É a senda sul-americana, não lhe podemos escapar.
Continuando no clube do Lis, cumprimos o que prometemos: Bambo. Triste sina, triste fim, triste fado de Bambo, jogador que chegou a alinhar pelas selecções de esperanças ao lado de grandes nomes da Europa do Futebol, como o ex-Fafe Rui Costa e o ex-Pastilhas Luís Filipe Madeira F. Nascido na Guiné Bissau, terá crescido com a redondinha colega aos pés, pelo que cedo demonstrou apetência pela miséria na grande e na pequena área. Foi no Boavista que começou a dar nas vistas mas 11 jogos em três épocas atiraram-no para o mundo dos saltimbancos da bola. Começou no Leiria, integrando o já referido Pentágono, e fazendo parte do Pack Económico Boavisteiro (Álvaro, Fua, Bertolazzi e Bambo - leve os 4 e pague quando lhe der mais jeito). Em Leiria, jogou 15 jogos mas apenas marcou 1 golo (repetimos: terá sido um golo espantoso e pagamos a quem tiver memória do mesmo). Depois dessa época, 94-95, bamboleou pelo Estrela da Amadora e fez uma época bambástica repartida entre o Farense e o Felgueiras, clube de onde partiu para o Nacional. No Nacional, acabou. Quiseram os deuses que a pérola do atlântico fosse a desgraça do nosso menino de ouro negro, pois ao fim de 7 jogos, o ímpeto dos verdadeiros puros sangue, fê-lo galgar os placards publicitários para ir buscar a bola numa reposição em jogo. Fora o sétimo jogo com a camisola alvinegra. Salta os placards e o esférico está nas mãos do apanha-bolas. A partir desse momento, em que Bambo está no ar com o apanha-bolas a 3 metros de si, tudo se passou demasiado rápido. Bambo correu, trocou umas palavras com o moço, tendo de seguida o jovem tarefeiro caído no chão prostrado, já a bola repousava nas mãos de Bambo Cassamá. Agressão? Pedagogia um pouco mais viril? Pressa? Desgosto e frustração por não ter singrado como outros? Bambo, responde-nos, que nós aqui não sabemos porque te desgraçaste. Regressou ao relvado, foi expulso, suspenso, acabou em lágrimas uma carreira, apesar de ainda ter passado pelo Esposende, pela Naval e pelo Ribeira Brava, de novo na Madeira. Mas foi aquele momento fatídico que o matou para o futebol. Injustamente, pensámos nós. Raio do puto, pensámos nós. Porra, Bambo, porquê?! Consta que naquele jogo, Cristiano Ronaldo estava na bancada a assistir e jurou daí vingar para sempre o feiticeiro africano.
(é claro que o epíteto "clube satélite do Rio Ave FC" foi uma laracha própria da emoção de encontrar um plantel de genuínos companheiros!)
E agora, senhoras e senhores, Nelson Bertolazzi. Forte, lutador, de boa técnica, este avançado de ascendência italiana, conjuga por isso as duas maiores escolas de futebol do mundo, o calcio com o brasileirão. Tecnicista, imponente no um-para-um, vem para Leiria mostrar o quão enganados estavam os dirigentes do Boavista ao deitar às urtigas tamanha pérola. Urtigas, salvo seja, pois Leiria foi o palco onde este artista deliciou plateias tratando o esférico por tu e o guarda-redes por 'quem és tu?'. O único parceiro à altura de Pedro Miguel e com quem, coadjuvado por Bambo, Reinaldo e Fua, integrava o quinteto sinfónico que os melhores hinos ao futebol de ataque Leiria um dia ouviu. Bambo (triste fim para uma carreira de um genuíno campeão, já lá iremos), Fua (um angolano explosivo que também se perdeu) e Bertolazzi vieram os três do Boavista, empurrados sem honra nem glória e sem um electrodoméstico de recordação. Que tristeza, sr. Major. Alguns anos depois, regressou ao Brasileirão onde a Portuguesa o acolheu e pela qual marcou 2 golos, em 1998. Em jeito de síntese, é triste verificar que estes 5 mágicos andam hoje no limbo dos anjos caídos da bola lusa. É por isso que nós aqui estamos. Para se fazer justiça a quem a merece.
Deixando Tirsenses, Baronis e quejandos em banho-maria, viramos as atenção para o domínio historiográfico que justificou o aparecimento da Caderneta. As análises cuidadas, os relatos detalhados, o prazer da bola. Viramo-nos agora para a União de Leiria. Poderíamos ter escolhido um Desportivo de Chaves ou um Leça, mas, tal como no caso do Tirsense, são equipas demasiado ricas para a complicada altura pessoal em que nos encontramos presentemente. Requerem mais do que uns minutos entre trabalhos, requerem vidas inteiras de teses de doutoramento, requerem total dedicação e espírito de missão. Requerem, enfim, coisas que só poderemos dar na próxima semana. O clube do Lis sempre foi um viveiro recheado das lagostas futebolísticas mais saborosas que temos provado. Confessamos que, por isso, temos alguma dificuldade em começar a vistoria. Há no entanto um homem que, pela sua importância e dimensão maior, merece ser referido em primeiro lugar. Falamos de Pedro Miguel. Pedro Miguel. Nome aparentemente vulgar que o terá votado já ao esquecimento em muitos lares lá da terra. Nem todos podem ter a sorte de se chamar Bertolazzi, mas já lá vamos. Nascido no ambiente fabril do Barreiro antes do 25 de Abril, em 1970, perseguia o sonho de singrar no mundo da bola, tendo recorrido por isso à cantera mais produtiva do Campo Grande: o Sporting Clube de Portugal. Aí o menino se fez homem, aí Pedro Miguel se fez avançado volante, veloz e volátil. De cabelo ao vento, passeou a sua classe entre os leões uma breve época de juniores, até voltar sebastiânico à  terra que o viu nascer, já em meados de 89, onde em duas épocas apontou 1 golo. Terá sido um golaço de bandeira, pois a União de Leiria viu nele o seu Van Halen salvador e contratou-o. Não se deu mal, Pedro Miguel em Leiria, e 6 golos em 29 jogos levaram-no para Paranhos, já na primeira divisão. Era a glória burguesa do filho da classe operária barreirense. Abreviando, a época no Salgueiros foi uma merda da pior espécie e Pedro percebeu que o seu destino era Leiria, afundada e orfã na Segunda de Honra. Mas o Messias do Barreiro torna a levar a sua equipa de sempre à  Primeira, com uma época sublime, onde em 32 jogos apontou 13 golos. Era assim, Pedro Miguel: decisivo, mortal, vagabundo do vale do Lis, o rei do castelo, o Silence4 da bola. Longa melena, cara angulosa, barba por fazer. Pedro. Porém, os deuses, invejosos do seu sucesso, voltaram a não permitir à estrela o brilho que lhe era devido, e Pedro ficou-se pelos 15 jogos e 1 único golo, em 94-95. Aí começou um longo calvário, por Braga e Belenenses, até regressar a... adivinhem lá: Leiria, com uma vez mais o Leiria na Segunda de Honra. (um parentesis para reclamar que estes tipos da União não aprendem que cada vez que o despedem, descem de divisão). Mas aí, nessa época, acabou o sonho. Leiria já não era a terra simpática do castelo que o aclamara um dia, e tratava-o como mais um. Não, Pedro, tu não merecias isto. Vai daí, e Pedro vinga-se. Pedro Miguel, o Justiceiro, embala a trouxa e parte para Santa Maria da Feira. E aí, meus amigos, o Barreiro voltou a ter orgulho no filho que um dia viu partir. Uma meia época colossal contra até o que dizem as estatísticas, que contabilizam apenas 9 jogos e 1 golo. Porque as estatísticas não contam as salvas de palma da assistência, as estatísticas não contam os olhos esbugalhados dos defesas que o viam passar mais lesto sem lhe apanhar a matrícula, as estatísticas são números, não contabilizam magia. E Pedro Miguel era um desses, um mágico. Depois, foi o ocaso. Sábio como só os grandes sabem ser, retirou-se no auge e alinha agora pelo Amora, discreto, onde vai passando o que sabe aos mais novos sem que ninguém dá muito por isso. O nosso muito obrigado, Pedro Miguel, e perdoa Leiria, que eles não sabem o que fazem.

terça-feira, junho 03, 2003

A propósito do Tirsense, a Caderneta está a preparar um exaustivo dossier sobre o clube português com mais descidas de divisão consecutivas. De Caetano a Paredão, de Marcelo a Christian. Nos próximos dias, talvez próximos tempos...
Já que estamos numa maré de reptos, aqui fica mais um: Filipe, se nos estás a ler, contamos contigo para descreveres a colossal assistência de Ronald Baroni, caído no chão sobre a meia-esquerda, a isolar Rui Barros em Santo Tirso! Escreve! Queremos o relato de quem saltou do sofá nesses dois segundos absolutamente irrepetíveis! É contigo!
A Caderneta saúda e mostra-se sensibilizada com a atenção dispensada por Rui Malheiro, promissor artilheiro da historiografia da bola, nas duas últimas épocas ao serviço do Terceiro Anel Futebol Clube ( http://terceiroanel.blogspot.com ), clube satélite do Rio Ave FC que por ora se mostra bem mais interessante que o próprio. Aqui na Caderneta vergamo-nos à destreza com que maneja um vastíssimo e impressionante reportório factual e contamos com a sua sapiência nessa nobre arte que é legar às gerações vindoiras os talentos esquecidos da bola lusitana. Rui, tu e o teu Terceiro Anel são uma inspiração e um blog irmão, com quem esperamos profícuas trocas de informações. Agora, há aqui algo que não pode passar em claro. Aliás, duas questões nos assolam neste momento: 1. Chicabala, que é feito do jovem Vieri de Vila do Conde? 2. E o centro-campista Niquinha (um dos favoritos cá da Caderneta, a par de Sérgio China)?

segunda-feira, junho 02, 2003

Já a seguir (ou amanhã, ou depois...): o resto da pandilha - Ronald Baroni e Alejandro Diaz! Não perca! E entretanto vá escrevendo: caderneta-da-bola@megamail.pt
Em homenagem ao fã número 1 da Caderneta, e depois do esplendoroso naco de história em torno de Nicolau de Melo, parte-se agora para o já prometido esmiuçar do quarteto sul-americano que um dia aterrou nas Antas na senda de um sonho. O sonho de jogar de Revigrés ao peito e o duro pesadelo de não serem, de facto, os Francescolis e os Maradonas que se anunciavam à partida. Mas o erro não terá sido deles nem de Reinaldo, e sim do grotesco polvo mediático que se habitua a torturar os intérpretes de futebol bonito, qual Pedro Barny marcando Forbs. São esses senhores os responsáveis por respirarmos o fétido perfume da suspeição em vez do frutado aroma do futebol das pampas, aqui no nosso futebol. Enfim, vamos ao que interessa: Walter Paz, o primeiro e mais proeminente da pandilha, o Deco que nunca chegou a ser Deco, o centrocampista cujo toque de bola não foi suficiente para tirar lugar a jogadores explosivos como Kulkov, Semedo ou Emerson "O Príncipe do Soul Glo". A verdade, nua e crua, é esta: o argentino Walter Paz podia muito bem estar agora a jogar em vez de Alenitchev no actual FQP em vez de estar a dar pérolas a porcos num obscuro Tiro Federal de Rosario. Não era muito rápido, é certo, mas jogava tanto no meio como nas alas, tinha visão de jogo, poder de passe e um visual bastante mais sóbrio do que os seus restantes companheiros. E é pelo visual que importa começar a sucinta dissertação sobre o avançado com o cabelo mais bem tratado das Antas na década de 90, o argentino Roberto Mogrovejo. Roberto Mogrovejo nunca teve oportunidade de mostrar o seu valor e aqui na Caderneta arriscamos que terá sido mesmo votado ao ostracismo por ter defraudado as expectativas dos dirigentes e da massa associativa portista. Uma palavra de apreço, Roberto: a concorrência era fortíssima. Eles já não se lembram, Roberto, mas tu tiveste pela frente Mandla Zwane, Ettiene N'Tsunda, Ronald Baroni, Domingos e Iuran, só para citar alguns. Mas eles têm de saber, Roberto: tu eras alto, tu não eras rápido mas experimentem centrar para a tua cabeça contigo ao pé da marca do penalti e tu mostras-lhes. E agora, senhores responsáveis do futebol deste país, onde está Roberto Mogrovejo, depois do exílio a que foi obrigado? Nós na Caderneta temos registos de um Roberto Mogrovejo a jogar na Primera C (4ª divisão argentina) no J.J. Urquiza, mas será ele? Quem nos traz de volta aquilo que é nosso? Quem?
A Caderneta da Bola inicia com este post uma reflexão acerca de personagens lendárias que gravitaram em torno do futebol português. Não nos interessamos apenas pelos jogadores que trataram a "redondinha" com carinho, ou por aqueles que trataram o seu colega de profissão com uma rudeza genghiskhaniana (?) (como os já referidos Latapy e Paulinho "O Carniceiro da Antas" Santos). Abrimos aqui as hostilidades para tecer considerações sobre os lendários comentadores desportivos. Gabriel Alves? Era muito fácil... já tudo se disse sobre esta instituição. Perguntamos nós... Quem se lembra de José Nicolau de Melo?? É verdade... este comentador nortenho, possuidor de um timbre vocal absolutamente inconfundível é, porventura, o mais injustiçado de todos. Todos falam de Gabriel Alves, de Ribeiro Cristóvão, de Rui Tovar... mas e José Nicolau de Melo? Renegado para o esquecimento? Não! Nunca! A Caderneta não deixará que isso aconteça, e para tal, vamos contar uma aventura de José Nicolau num Boavista-Sporting sito algures na primeira metade da década de 90. A época... não sabemos (irrelevante), o local... Estádio do Bessa. José Nicolau de Melo inicia a transmissão em directo com os comentários da praxe enquanto as duas equipas entram em campo, de seguida anuncia que a emissão vai passar por momentos para a 5 de Outubro (outra forma de dizer, "Tomem lá o anúncio da Singer seus camelos!" - a propósito, avisamos os nossos leitores para aguardarem um post com uma reflexão sobre o anuncio da Singer que há 15 anos pelo menos passa antes dos jogos). Mas continuando... quando a emissão volta ao Bessa, passam-se alguns segundos nos quais não se houve José Nicolau de Melo... até que de repente... "Epá... tem cuidado caralho... olha essa merda pá! Olha essa merda pá!!", seguido de um silêncio sepulcral de alguns segundos e um nervoso "...estamos então de regresso ao Estádio do Bessa...". O que se passou com José Nicolau, não fazemos ideia. Mas o que sabemos é que nos anos seguintes, esta instituição televisiva, abandonou o comentário de jogos de futebol à noite para se dedicar exclusivamente às modalidades amadoras na RTP2 no fim-de-semana à tarde, hóquei, andebol e voleibol. A Caderneta pede, humildemente, à SportTV que integre o saudoso José Nicolau no seu naipe genial de comentadores (fazendo companhia a Vitor Manuel e Mozer), já que se encontrará, porventura, numa qualquer prateleira da RTP, local onde nós, simples mortais, jamais poderemos privar com a sapiência de tão lendária instituição.
Deveras oportuna a lembrança de Russel Latapy, mas serve a evocação para lembrar que há jogadores que não devem ser separados uns dos outros. Na Caderneta, honramos os laços de sangue, de pátria e de paridade da vã-glória futebolística. Por isso, há determinados jogadores que nos recusamos a separar uns dos outros. Latapy será talvez um caso excepcional, pois ostenta um currículo dourado por campeonatos ao serviço do FCP, presenças na Liga dos Campeões pelos azuis das Antas e de Glasgow e mesmo uma conquista da taça da Escócia ao serviço do Hibernians (clube onde começou a saga escocesa e de onde partiu para os Rangers). Apesar de excepção, todavia, é injusto falar de Latapy sem referir os outros dois elementos da Santíssima Trindade Tobaguenha que passeou o perfume de futebol do caribe pelos relvados lusos. Fala-se de Clint e de Lewis. Não nos alongamos em descrições, apenas referimos que Felgueiras só conseguiu momentos tão animados como os jogos com Lewis e Sérgio Conceição nas alas, agora que Fatinha foi ver jogos do Fluminense contra o São Caetano. E que Santa Maria de Lamas deve a Clint alguns dos mais bonitos detalhes futebolísticos de que há memória no seu estádio. Ok, não tão bons como os de Deocliciano Tavares, essa gazela da savana futebolística que em tempos esteve para explodir no Boavista, mas de calibre aproximado. Isto apenas, em jeito de apontamento breve, pois grupos de jogadores inseparáveis sempre frutificaram entre nós. Citamos, como exemplos, os sul-americanos de Robson, os argentinos do Sporting de Covilhã (mítico dia em que a Serra viu jogar Del Bosco), Zwane e N'Tsunda (diamantes negros) e a "quinta de Toniño" em Chaves. O futuro é pródigo e basto, aqui na Caderneta. Felizmente.
Voltando ao Gil Vicente, importará passar à vasta panóplia de artilheiros gilistas. "Ah, Paulo Alves!" Não, ainda não, havemos de lá chegar se o destino deixar, até porque estamos a falar de um jogador que, para além de ter passado pelo Sporting e pelo Marítimo, terá sido o segundo jogador português (depois do mítico extremo-esquerdo Folha) a marcar um golo pela selecção num relvado sintético de Toronto. [Fazemos aqui um voto solene de comentar futuramente essa mítica digressão pela América do Norte por ocasião da Skydome Cup] Da panóplia de artilheiros, dizíamos, resolvemos aqui destacar dois jogadores que encantaram a plateia barcelense durante a década de 90. Dois porque um seria Yin e outro Yang, um seria Sol e outro Lua, um não seria certamente sem o outro. Um com a Força, outro com a Técnica, um com a Finalização, outro com a Assistência. Em suma, um Mangonga, outro Nené Santarém. Makpoloka Mangonga, o zairense decisivo, tinha por hábito marcar golos na segunda-parte. Baixo, letal em frente à baliza, de poucas palavras, foi mais uma personalidade que viveu uns tempos à sombra de Drulovic. Injustamente, diga-se. Olhando à distância, reparamos que nunca teve uma selecção nacional à sua altura e nunca um clube se dignou a olhar para ele com olhos de gente a não ser o Gil. Era tosco, sim, mas para a técnica, naquela Armada ofensiva, estava Nené Santarém. Nené Santarém , brasileiro ex-Paysandu, teve que suar para ganhar o coração dos adeptos a Roberto Carlos, um avançado trintão com bigode de matador, que andou um par de épocas a fazer miséria no Nacional da Madeira. Bons pés, brinca na areia, mas de uma estética perigosamente parecida com a do seu homónimo cantor. O que só beneficiou Nené. Nené Santarém era um avançado baixinho (tradição gilista, com excepções ao já citado Paulo Alves e a Lim, matador da cantera gilista) mas de grande compleição técnica. Era o complemento ideal de Mangonga e não é à toa que os seus futuros misters (chegou a Barcelos em 1994) lhe aproveitaram a polivalência para ganhar um defesa evoluído. Foi nessa condição que jogou no Desportivo das Aves já em 2001. Desconhecida é, ainda hoje, a origem do epíteto "Santarém", dado a António Carlos Baía de Lima. Alvíssaras, a quem souber. E aqui terminam, provisoriamente, os relatos gilistas.