segunda-feira, junho 09, 2003

A notícia, se calhar não tão bombástica assim mas de qualquer modo significativa: Isidoro Rodrigues é cantor! A Caderneta da Bola viu, com estes quatro olhos que a terra há-de comer, o árbitro Isidoro Rodrigues a cantar no programa de Manuel Luís Goucha, algo como 'Ando louco para te ver' ou título similar de assinalável gosto. Depois de Neno, O Guarda-Redes cantor, o Júlio Iglésias Português (e protagonista de um dos mais macabros incidentes que o futebol português já viu, quando numa defesa mais efusiva abocanhou as redes, ficando pendurado e deslocando o maxilar), é o homem de preto que se lança nas lides. Isidoro vestia um pull-over vermelho e calças caqui e agitava o braço direito estalando os dedos, enquanto cantava algo entre o pimba (no refrão) e o canto gregoriano (nos versos). Isidoro é, como certamente recordarão, o árbitro que despontou para a ribalta num célebre União da Madeira-Sporting, jogo em que multiplicou cartões como Cristo fez aos pãezinhos, chegando ao cúmulo de manchar a vermelho o currículo do pastor Marco Aurélio, proeminente líder espiritual dos Atletas de Cristo, actualmente perdido em terras transalpinas, depois de passear a sua classe e o seu sorriso estupidamente imaculado por Alvalade.
Há uma informação bombástica que vamos divulgar nas próximas horas. Fiquem atentos.
Para arrumar temporariamente esta questão, acrescentamos que comparável a Constantino no panteão leceiro, talvez apenas Serifo. O guineense Serifo Soares Cassamá, kuíca familiar de Bambo Cassamá, contabiliza 12 épocas ao serviço do Leça FC, em 4 escalões diferentes do nosso futebol. Um resistente, um combatente, um lutador. Tudo isso, menos avançado e marcador de golos, que era aquilo que se lhe pedia. Serifo, ao longo de 12 anos e 105 jogos com a camisola verde e branca, conseguiu a proeza de marcar apenas 21 golos. Custa-nos comentar tanta falta de eficácia, tanta aptidão para tarefas defensivas, tanta inaptidão para o futebol kuíca para o desporto em geral. Porquê? Porque conseguiu a proeza paralela de contabilizar mais cartões amarelos do que golos, 29 ao todo. E 5 vermelhos! É de homem, mas é algo estranho para um avançado, convenhamos. Um avançado de qualquer equipa que não o Leça, perdão. Palavras para quê?
Pedindo desculpa aos nossos leitores pelo atraso, vamos agora retomar a análise da equipa do Leça Futebol Clube. Depois do "Aranhiço de Lovnica" Vladan e da dupla defensiva Matias e Alfaia, seria legítimo pensar que pouco mais haveria a dizer desta equipa... Mas não. Se o Leça nos habituou a alguma coisa, foi ao facto de possuir, desde sempre, jogadores portadores de características que importa relembrar até à exaustão. E é para isso que aqui estamos amigos! Aqui na Caderneta desafiamos os leitores a encontrarem, na história do Leça FC, um jogador denominado na gíria de 'criativo'. Um fantasista, um nº10, um maestro, um Milinkovic, um Abílio, um Hajry. É inútil: não há. O meio campo do Leça FC é uma faixa de relva povoada de artistas com torcicolos, de verem passar a bola de Vladan para os avançados. E quando ela passava por eles, a bola, essa, era como se não existisse. Senão vejamos: que dizer de Cao? Um trinco que só lhe faltava trincar tudo o que mexia. Não muito rápido, como convém a um cão de luta, não muito falador, como convém a um mercenário, não muito tecnicista, como convém a um centro-campista de uma equipa cujo objectivo é sempre permanecer na divisão onde se encontra jogando o pior futebol possível. E atenção, estamos a falar de um internacional português (como o foram Bambo, Vado, Tavares e outros...) de um jogador que se tivesse o apelido Vidigal até poderia estar a jogar na 2ª Divisão espanhola ou italiana. Para além de Cao, também sem características de maestro, mas noutro quadrante, temos Zé da Rocha, um extremo, não poucas vezes referenciado como avançado. As sete épocas consecutivas de Zé da Rocha no Leça FC fazem dele, quer se queira quer não queira, um histórico deste clube. Aquando da sua promoção à primeira divisão em 95, os leceiros foram às compras a Barcelos e adquiriram este natural de Cabo Verde, depositando nele todas esperanças de ver um futebol um pouco melhor do que o suburbio cinzento do Porto alguma vez vira. Contudo, e apesar de uma média de jogos absolutamente notável (sempre acima de 20 jogos por época ao longo dos sete campeonatos ao serviço do Leça), Zé da Rocha não conquistou o título de rei no coração dos adeptos leceiros. Era um homem que cumpria, regular e que nunca atirava a toalha ao chão, porém, em Leça esperava-se um pouco mais dele, esperava-se talvez um desiquilibrador, um homem que decidisse um jogo sozinho, mas, sejamos objectivos, Zé da Rocha era bom, mas não era nenhum Pedro Miguel. Talvez o homem que conquistou o coração dos tiffosi de Leça da Palmeira tenha sido mesmo o endiabrado Constantino. Constantino, era, e isto é importante, um filho do proletariado. Despontou para a relva no Sport Comércio e Salgueiros, onde nunca chegou a marcar mais de 6 golos por época e daí seguiu para uma travessia no deserto de Águeda e pelo operariado infantil do Vale do Ave. Foi do Desportivo das Aves (ou Desportivo de Neca) que saíu para ingressar no União de Lamas, na altura na 2ª B, onde fez uma época estrondosa, com 34 jogos e 21 golos. Assinalável sucesso no AC Milan do Alto Douro. Esses 21 golos foram assim o passaporte para a zona da Petrogal, onde se assumiu como um ícone. Em duas épocas facturou 14 tentos e levou o Leça da 2ª de Honra à 1ª, com um impacto assinalável no volume de assistências aos jogos, que desceu vertiginosamente face à categoria do futebol apresentado. Depois, amigos, foram 3 épocas 3, a marcar entre 12 e 15 tentos, a esmagadora maioria dos quais em contra-ataque e nos descontos. Não, o Leça não jogava melhor, não, o Leça não praticava bom futebol, mas Constantino era ídolo e retribuía com golos. Estavam reunidas assim condições para uma aventura no estrangeiro. Porém, o Salamanca já tinha fechado as portas depois de ter contratado metade do plantel do Belenenses durante várias épocas a fio, e o destino foi assim o Levante. Esperava Constantino que o Levante levantasse a sua carreira mas tal não aconteceu. Ao que parece, havia demasiados passes a surgir do meio campo e demasiado poucos a surgir de pontapés de baliza e alívios da defesa, e o nosso homem não singrou. Falta de hábito, dizemos nós. Mas só vantagens: voltou a Campo Maior, aos relvados lusitanos, daí voltou à terra de Lamas, onde conhecera em tempos o sucesso e daí de novo a Leça, já no ano passado, onde a sua marca esteve francamente abaixo daquilo que os leceiros já viram. Constantino Roberto, angolano, não deixa contudo de ser um jogador à imagem da equipa: baixinho, forte, rápido, uma finta aqui e ali para encher o olho (mas sem exageros, que a criatividade é non grata) e um sorriso largo e constante de Fernando Festas após cada empate a 1 golo. Sic Transit Gloria Leça.

sábado, junho 07, 2003

Convidamos agora os nossos leitores para uma "trip down memory lane" até 1987. Um dos nossos colaboradores contou-nos uma história, confirmada também por outra das nossas fontes, relativa às eleições no Benfica desse ano. Tendo em conta que mais de 15 anos nos separam dos factos relatados, pedimos desculpa por qualquer imprecisão ou excessiva frieza nas palavras proferidas. No Benfica perfilavam-se dois candidatos presidenciais. Presidente desde 1981, Fernando Martins enfrentava João Santos, candidato estreante que ganharia este escrutínio e que viria a ser substituído por Jorge “Jabba The Hutt” Brito uns anos mais tarde. A nação benfiquista vibrava por esse mundo fora, dividida entre ambos os candidatos. A RTP2, cedendo à vontade dos sócios encarnados, organizou um debate entre ambos. O conteúdo do debate, não nos recordamos (não nos peçam de mais), porém, o referido “embate” produziu uma das pérolas futebolísticas mais cintilantes de que há memória. O ainda presidente Fernando Martins proferiu algumas frases do género “o Benfica é o maior clube de Portugal, “kuíca” da Europa” ou “O Valdo é o melhor número 10 da Europa, “kuíca” do mundo”, etc... O que interessa aqui reter é que o referido senhor repetiu a palavra “kuíca” algumas vezes, em contextos diferentes e, não necessariamente, nos termos referidos em cima. “Kuíca”?!?! Interrogou-se o nosso colaborador, que ficou absolutamente estarrecido com aquela preciosidade linguística que, de todo, desconhecia... Até que uns minutos mais tarde se tornou óbvio que a palavra que o presidente Fernando Martins procurava era “quiçá”! “Quiçá”!! De “quiçá” a “kuíca”, vai a mesma distância do Benfica dos anos 80 ao dos últimos anos, e este episódio longínquo, devido ao seu valor inestimável, tem sem dúvida potencialidades que justificam a sua adição ao conjunto das doces histórias da bola lusa que a Caderneta se tem esforçado por recuperar... Mais uma vez pedimos aos nossos leitores que nos relatem episódios de que se recordem com particular afeição, já que nós, por enquanto, só somos dois e não podemos fazer tudo. Contactem. caderneta-da-bola@megamail.pt
Desde já fazemos uma vénia de agradecimento ao Gato Fedorento (http://gatofedorento.blogspot.com) pelas palavras tecidas em favor da Caderneta. Tomamo-las como um estímulo, como uma forte brisa de norte que ajudará esta caravela a navegar pelo mar do esquecimento e a resgatar para a memória colectiva de um povo os fenómenos mais sumarentos do nosso rico futebol nacional. Quanto à vossa sugestão, devemos afirmar que esse tópico já tinha sido discutido entre nós para futura publicação. Tentaremos, se a inspiração e a memória ajudarem, reintroduzir o tema dos comentadores da bola nas suas mais variadas vertentes e potencialidades. Porém, prioridades editorais "lá de cima", já foram traçadas e dessas... não conseguimos fugir.

sexta-feira, junho 06, 2003

Regressando ao domínio historiográfico. Depois do Gil de Caciolli, do Leiria de Pedro "O Cigano d´Ouro" Miguel, e antes do Chaves de Matute e do Tirsense de Best... eis o Leça Futebol Clube! O Leça de quem?!? Por onde começar...? Pela baliza? Pelo ataque? Esbarramos inevitavelmente na complexidade desse mantra, um fratal eterno de dívidas, barretes e futebol muito duvidoso. Assim, na dúvida, comecemos pelo princípio. E no princípio era o verbo, ao qual se seguiu, rapidamente, Vladan. O goleiro Vladan, também conhecido por Stojkovic, o Aranhiço de Lovnica, para quem as balizas sempre foram pequenas demais, foi anos a fio a maior esperança dos adeptos do subúrbio industrial do Porto. Era em Vladan que residia a confiança quando tudo parecia falhar, quando Fernando Festas era contratado pela 18ª vez, quando Alfaia perdia aquela bola preciosa para Dino, era para os quase dois metros deste sérvio que os olhos se voltavam nos momentos de maior aperto. Rápido entre os postes, lento em tudo o mais, uma gritante inaptidão para jogar com os pés, inaptidão que porém compensava com o seu sorriso característico e sempre constante (sorriso aliás que só teve paralelo em Portugal naquele que andou anos a fio estampado na boca de Milton Mendes). Extra-futebol, este Jorge Campos balcânico era também ele um esteta. Não é por acaso que foi por si que, a norte do Mondego, a moda da calça preta almofadada pegou de vez (apesar de correntes teóricas algo duvidosas associarem esta moda a Busquets do Barça ou a Kralj do FCPorto). Na defesa, referiremos apenas dois exemplares do rigor defensivo. Matias e Alfaia! Matias... o que dizer? Começar pela estética ou pelas aptidões futebolísticas? Central de vasto currículo, calcorreou clubes como o Gil Vicente e até mesmo o Futebol Clube do Porto (nada a ver com uma "ajudinha" um ano antes da sua contratação num jogo contra o FCP) mas foi no Leça que evidenciou todo o esplendor do seu futebol musculado e quase-autómato, de uma eficácia impressionante na difícil arte do alívio para onde está virado. Portador de um bigode que já não se via em relvados lusos desde Chalana e Frasco, jogava de igual forma com ambos os pés mas não necessariamente bem com nenhum deles. Foi também uma inspiração para as gerações seguintes. O mui aclamado central Gaspar viu em Matias o seu mentor, por exemplo, tendo inclusive actualizado o bigode para uma barba consistente. Passemos agora a rigorosa lupa historiográfica sobre Alfaia, seu companheiro timorense. Alfaia, o Xanana de Leça, não era, paradoxalmente, um arauto dos direitos humanos. Desconfia-se aqui na Caderneta que o próprio apelido, seu último nome e nome de guerra nas lides da bola, terá sido um exercício premonitório dos seus progenitores acerca da futura relação do seu rebento com os atacantes adversários. Alfaia começou em Portugal a carreira com uma travessia no Alentejo, entre o Portalegrense e o Elvas, até assinar pela Tuna da briosa, onde manteve a sua média elevadíssima de jogos por época, algures pelos 27 jogos. Depois da tuna, o Rio Ave (e decerto que haverá quem o relembre com saudades em Vila do Conde - Rui estás desmarcado, olha o passe em profundidade!) e, depois de um fugaz regresso a Elvas, ingressa no Leça para, em dois anos, ser um dos pilares da campanha de ascensão à primeira divisão. Era um central rápido e aguerrido, de esgar intimidatório e olhar algo vítreo. Um interessante contraste com Vladan dos Olhos Doces e com Matias. Foram épocas a fio (3, mais precisamente) na primeira e finalmente a descida à 2ª, tendo partilhado uma série de situações dramáticas, como ordenados em atraso, trabalhar com Joaquim Teixeira (sim, esse que "supostamente" encomendou a Paula para o estágio da selecção de todos nós), Rodolfo Reis e sucessivas humilhações nos media face à fraca prestação colectiva da sua equipa. Uma palavra de homenagem para Alfaia... continuou em Leça apesar de tudo isto e foi lá que terminou a carreira em 2000. Agora estamos a ser expulsos da redacção por uma ameaça de bomba (chamada anónima da zona de Chelas). Continuaremos mais tarde.
Esta manhã apetece-nos gritar bem alto: João Manuel Pinto, o Dread Malaico de Chelas! Pronto. Já gritámos. Devemos dizer que o modus operandi deste vivaço nunca nos enganou e não foi, por isso, com espanto que verificámos que o sujeito é dos mais puros produtos da cantera de Chelas, possuidora de toda a escola de futebol suburbano (o remate em jeito para não acertar nos carros estacionados, o jogo interrompido por causa do vidro partido da vizinha, a cuspidela ocasional no adversário e respectiva rixa entre bairros...). De notar também a relação estreita entre a escolinha de Chelas e o maior rival do Clube Futebol Benfica. Também Miguel, consagrado ícone do submundo lisboeta, nasceu para a bola em Chelas e agora é titular de águia ao peito. E também Miguel partilha com o Dread Malaico da pêra à D'Artagnan uma apetência para a confusão, ou partilhava, já que o castelhano Camacho tratou de refrear um pouco a fera, que esteve prestes a ser enjaulada depois de 2 amarelos em 30 segundos nas Antas, uma média de fazer corar Paulinho. Enfim, enough ie enough, e a Caderneta não veio ao mundo para relatos da ribalta mediática. Paramos por aqui a relação Chelas SLB e demais anexos e prosseguimos para outra.
Congratulamos uma vez mais a vaga revivalista em torno de figuras lendárias (e não do triste fado, caros comparsas do terceiro anel, não digam isso que nos dói a alma) mas não sem antes deixarmos de demonstrar ao éter o desencanto perante o silêncio demasiado ensurdecedor: "Fó-Fó", perdão Clube Futebol Benfica, é para continuar no esquecimento? Prometemos investir a fundo, apesar do silêncio, apesar das contrariedades.

quarta-feira, junho 04, 2003

A Caderneta, ao efectuar uma incursão pelos seus arquivos e fontes documentais com o objectivo de descobrir algures perdidas no meio dos anos 90 outras equipas cujos planteis fossem níveis de menção, descobriu informações saborosas sobre o Estrela da Amadora (Bem-vindos de volta à primeira!!). Ao contrário do que poderiam pensar os nossos estimados leitores, este post, não é dedicado ao Estrela, antes, através da análise do plantel dos amadorenses, descobrimos que essa (mais uma) promessa por cumprir, de seu nome Calado, antes de rumar à Amadora, militou nos planteis do segundo, para muitos primeiro, maior clube da freguesia de Benfica. Falo do Clube Futebol Benfica, apelidado pelos adeptos do Sport Lisboa de “Fó-Fó”. “Fó-Fó o caralho!”, diriam certamente os adeptos do CFB, e nós aqui na Caderneta assumimos que jamais nos referiríamos a este clube nesses termos depreciativos. O Clube Futebol Benfica tem história, e gloriosa também. Não pensem que as modalidades mais representativas deste clube são os dardos, a sueca ou o dominó. Não. O CFB chegou a ser campeão nacional de hóquei e hóquei em campo, além de ser um autêntico viveiro de futuras grandes promessas, não só no futebol, mas também em voleibol, andebol de sete, basquetebol, rugby, atletismo, ginástica, pesca desportiva, natação, ténis de mesa e "karaté". Este post pode ser considerado como uma justa homenagem a um clube que viu o seu rival de sempre lá da freguesia alcançar grandes conquistas aquém e além mar. Vivendo na clandestinidade, e suportando décadas de insultos e de humilhações, o Clube de Futebol Benfica manteve a sua identidade e cultivou um sentimento “anti-lampião” que os adeptos do FC Porto ou do Sporting jamais sonharão possuir. Neste clube estão os adeptos que mais repulsa sentem pelo SLB. Perguntem-lhes se tiverem coragem! Mas não lhe chamem “Fó-Fó”!! A não ser que a vossa integridade física não seja uma prioridade. Voltando a Calado. Os adeptos do CFB, num complexo paradoxo emocional, choraram de tristeza ao ver o seu menino de cabelos dourados partir para a Amadora, mas de alegria ao ver um filho da casa singrar na primeira divisão. Porém, nada podia preparar os adeptos do “Fó-Fó”, perdão, Clube Futebol Benfica, para o que se iria passar. Então não é que o seu menino, o seu ídolo, o seu surfista da bola, assinou pelo SLB?!? Não é possível, pensaram os tiffosi do CFB!! “O Record enganou-se pá”. “Alguma vez?”. Mas, infelizmente, era verdade. Uma onda de indignação e revolta deixou a freguesia de Benfica numa quase lei marcial, havendo mesmo notícias não confirmadas de atentados bombistas junto ao mercado de Benfica. Um fanático do CFB contactado agora mesmo via telemóvel a partir da Redacção da Caderneta confirma o cenário "Benfica a ferro e fogo" por causa da infame transferência do agora apelidado "Judas de Benfica". Não é por acaso que mais tarde, esta personalidade dos passes longos viu o seu percurso manchado por vis calúnias de autor incerto que nos recusamos a relembrar (apesar de vontade não nos faltar). Quem os consegue, afinal, censurar, doridos da alma e fúnebres que desde então viveram, os míticos de Sete Rios? Apenas conseguimos imaginar o que lhes perpassou pela alma...
(menos lúcido e convencido dos seus actos ficou Emílio Peixe quando, no mesmo jogo, atirou Semedo contra os placards publicitários, num dos tackles mais deslizantes e esvoaçantes de que há memória)
Zim e Pú, o perfume do futebol africano! A Caderneta congratula os recuerdos! De outros quadrantes ( http://blogueio.blogspot.com ) somos saudados e saudamos também, rejubilando com a recuperação de Kiki. Advertimos que chamar-lhe gorilão é que não é nada bonito e prevemos fazer-lhe em breve justiça, se para tal nos ajudar o engenho e a arte. Agora, porém, é altura de retomar o fio dessa brilhante meada que são os duelos sanguinários do nosso futebol. Desta feita, o episódio remonta à época de 93-94 e a uma visita da turma leonina às Antas. O Sporting ostentava na altura um plantel onde inexplicavelmente cabia tanto Balakov como Amaral e o Porto ia sobrevivendo muito graças à contratação do sniper sérvio Drulovic ao Gil Vicente (não era bem assim, nem no caso do Sporting nem do Porto, mas não percamos mais tempo). O duelo em causa opôs duas feras do futebol nativo, uma de créditos mais firmado na paródia do que outra, um português outro estrangeiro, um mais moreno, outro mais louro. Caía então uma mecha de jogadores de uma e de outra equipa sobre a linha lateral esquerda de quem ataca para norte, quando sobressaíem engalfinhados um no outro o Fernando Couto e Andrezj Juskowiak. Fernando Couto é um rapaz simpático que caíu em desgraça na imprensa lusa graças ao tristemente célebre episódio com a repórter do N Amadores já esta época. Andrezj Juskowiak, apresentado como "André, o Polaco" por Sousa Cintra, era um ponta-de-lança louro, alto, forte e espadaúdo, de bigodinho aparado e cara de quem vinha de ganhar um galardão de melhor marcador nos Jogos Olímpicos de Barcelona'92 (e vinha mesmo, vejam lá bem isto!). Continuando, estão engalfinhados um no outro, Couto agarrando Jusko pela cintura, Jusko agarrando Couto por outro sítio que não os cabelos, um dá a volta ao outro, agarrão para aqui e Jusko é projectado, permanecendo em pé, para cima da linha lateral enquanto Couto segue altaneiro com a redondinha nos pés. Aqui, e as imagens televisivas comprovam-no, Juskowiak tem uma sequência de reacções absolutamente notáveis e que espelham bem a diferença entre o futebol português e o polaco. Se Juskowiak tivesse sido formado nas escolas de um Desportivo de Elvas, ter-se-ia atirado para o chão agarrado à cara, encenando um atentado brutal e virulento. Mas não: o polaco levanta a cabeça, abre os braços e chama o árbitro da partida, reclamando uma falta não assinalada. Chama uma vez, chama duas, o árbitro manda seguir e já Couto pensa para onde vai a bola a seguir. Jusko não se conforma e se não é vingado de uma maneira, é vingador de outra. Assim que o árbitro confirma com o tradicional 'não há nada' (tão ouvido nas Antas épocas a fio), Jusko fixa Couto e arranca lesto para o alvo, desferindo um low kick às pernas de Fernando. Foi um pontapé de raiva sem qualquer intenção de jogar a bola, um pontapé que arrumou de imediato Couto durante uns minutos. E um pontapé como deve ser: joelho na coxa, canela na canela e chuteira a varrer o corpo do adversário por baixo. André, O Polaco, fitou Couto de cima, deitado aos seus pés, e contemplou o cenário destruído com olhos rasos de vingança. Evidentemente que a seguir foi expulso, mas tal como no caso de Jokanovic (hoje e sempre, Joka), isso era o menos importante. Foi o 3º Capítulo dos Duelos Sanguinários da Caderneta da Bola.
E a Caderneta saúda a Curva ( http://curva.blogspot.com ) e responde ao desafio. Joel, o menino da Ria, extremo direito diabólico, era de facto a next big thing, com uma ressalva necessária: nunca chegou a ser, de facto, big, a não ser na fabulosa época de 96-97, em que a Veneza portuguesa foi ao rubro com o seu diamante. Joel tinha um futebol jovem, esguio mas algo incipiente. Era um jogador de rasgos e (torna-se já um hábito no nosso futebol) um extremo que rematava mais do que cruzava, à imagem de Tulipa ou Vítor Vieira. Que é feito dele, pergunta-se na Curva? Pois é, Joelito foi premiado com uma contratação pelo Boavista e teve muita sorte em não ir parar ao Leiria, como aliás é costume da maior parte dos 'empurrados do Bessa'. Foi, em vez disso, para Chaves, ainda na ressaca da despedida de Milinkovic e de Carlos Alvarez (o espanhol que nunca fez esquecer Toniño). Fontes que preferem permanecer anónimas dizem-nos que a opção por Chaves se deveu à proximidade da sua terra natal, Bragança. Mas em Chaves, não foi, uma vez mais, feliz e daí zarpou para Moreira de Cónegos, terra conhecida por ter um clube de futebol. No Moreirense, uma temporada ao mais médio nível, com 19 jogos, 2 golos e certamente inúmeras assistências para avançados completamente desconhecidos à altura, em 99-00. Do Moreirense, saltitou para Gondomar e daí... A-ha! ...daí para a Galiza, em busca do sonho de um dia alinhar pela equipa principal do Celta de Vigo. Estávamos no ano do 7-0 e era perfeitamente natural que qualquer jovem quisesse rumar à equipa que acabara de o concretizar. Mas não, Joelito ficou-se pela equipa B, e tão traumatizante deve ter sido esta estadia em terras de prestígio, que Joel desceu à capital para representar... o Casa Pia. E chegando à Casa Pia, ficamos por aqui, obviamente.
Companheiros do Terceiro Anel: que nos dizem de Porcel? Recordamos o substantivo, faltam-nos os adjectivos. É a senda sul-americana, não lhe podemos escapar.
Continuando no clube do Lis, cumprimos o que prometemos: Bambo. Triste sina, triste fim, triste fado de Bambo, jogador que chegou a alinhar pelas selecções de esperanças ao lado de grandes nomes da Europa do Futebol, como o ex-Fafe Rui Costa e o ex-Pastilhas Luís Filipe Madeira F. Nascido na Guiné Bissau, terá crescido com a redondinha colega aos pés, pelo que cedo demonstrou apetência pela miséria na grande e na pequena área. Foi no Boavista que começou a dar nas vistas mas 11 jogos em três épocas atiraram-no para o mundo dos saltimbancos da bola. Começou no Leiria, integrando o já referido Pentágono, e fazendo parte do Pack Económico Boavisteiro (Álvaro, Fua, Bertolazzi e Bambo - leve os 4 e pague quando lhe der mais jeito). Em Leiria, jogou 15 jogos mas apenas marcou 1 golo (repetimos: terá sido um golo espantoso e pagamos a quem tiver memória do mesmo). Depois dessa época, 94-95, bamboleou pelo Estrela da Amadora e fez uma época bambástica repartida entre o Farense e o Felgueiras, clube de onde partiu para o Nacional. No Nacional, acabou. Quiseram os deuses que a pérola do atlântico fosse a desgraça do nosso menino de ouro negro, pois ao fim de 7 jogos, o ímpeto dos verdadeiros puros sangue, fê-lo galgar os placards publicitários para ir buscar a bola numa reposição em jogo. Fora o sétimo jogo com a camisola alvinegra. Salta os placards e o esférico está nas mãos do apanha-bolas. A partir desse momento, em que Bambo está no ar com o apanha-bolas a 3 metros de si, tudo se passou demasiado rápido. Bambo correu, trocou umas palavras com o moço, tendo de seguida o jovem tarefeiro caído no chão prostrado, já a bola repousava nas mãos de Bambo Cassamá. Agressão? Pedagogia um pouco mais viril? Pressa? Desgosto e frustração por não ter singrado como outros? Bambo, responde-nos, que nós aqui não sabemos porque te desgraçaste. Regressou ao relvado, foi expulso, suspenso, acabou em lágrimas uma carreira, apesar de ainda ter passado pelo Esposende, pela Naval e pelo Ribeira Brava, de novo na Madeira. Mas foi aquele momento fatídico que o matou para o futebol. Injustamente, pensámos nós. Raio do puto, pensámos nós. Porra, Bambo, porquê?! Consta que naquele jogo, Cristiano Ronaldo estava na bancada a assistir e jurou daí vingar para sempre o feiticeiro africano.
(é claro que o epíteto "clube satélite do Rio Ave FC" foi uma laracha própria da emoção de encontrar um plantel de genuínos companheiros!)
E agora, senhoras e senhores, Nelson Bertolazzi. Forte, lutador, de boa técnica, este avançado de ascendência italiana, conjuga por isso as duas maiores escolas de futebol do mundo, o calcio com o brasileirão. Tecnicista, imponente no um-para-um, vem para Leiria mostrar o quão enganados estavam os dirigentes do Boavista ao deitar às urtigas tamanha pérola. Urtigas, salvo seja, pois Leiria foi o palco onde este artista deliciou plateias tratando o esférico por tu e o guarda-redes por 'quem és tu?'. O único parceiro à altura de Pedro Miguel e com quem, coadjuvado por Bambo, Reinaldo e Fua, integrava o quinteto sinfónico que os melhores hinos ao futebol de ataque Leiria um dia ouviu. Bambo (triste fim para uma carreira de um genuíno campeão, já lá iremos), Fua (um angolano explosivo que também se perdeu) e Bertolazzi vieram os três do Boavista, empurrados sem honra nem glória e sem um electrodoméstico de recordação. Que tristeza, sr. Major. Alguns anos depois, regressou ao Brasileirão onde a Portuguesa o acolheu e pela qual marcou 2 golos, em 1998. Em jeito de síntese, é triste verificar que estes 5 mágicos andam hoje no limbo dos anjos caídos da bola lusa. É por isso que nós aqui estamos. Para se fazer justiça a quem a merece.
Deixando Tirsenses, Baronis e quejandos em banho-maria, viramos as atenção para o domínio historiográfico que justificou o aparecimento da Caderneta. As análises cuidadas, os relatos detalhados, o prazer da bola. Viramo-nos agora para a União de Leiria. Poderíamos ter escolhido um Desportivo de Chaves ou um Leça, mas, tal como no caso do Tirsense, são equipas demasiado ricas para a complicada altura pessoal em que nos encontramos presentemente. Requerem mais do que uns minutos entre trabalhos, requerem vidas inteiras de teses de doutoramento, requerem total dedicação e espírito de missão. Requerem, enfim, coisas que só poderemos dar na próxima semana. O clube do Lis sempre foi um viveiro recheado das lagostas futebolísticas mais saborosas que temos provado. Confessamos que, por isso, temos alguma dificuldade em começar a vistoria. Há no entanto um homem que, pela sua importância e dimensão maior, merece ser referido em primeiro lugar. Falamos de Pedro Miguel. Pedro Miguel. Nome aparentemente vulgar que o terá votado já ao esquecimento em muitos lares lá da terra. Nem todos podem ter a sorte de se chamar Bertolazzi, mas já lá vamos. Nascido no ambiente fabril do Barreiro antes do 25 de Abril, em 1970, perseguia o sonho de singrar no mundo da bola, tendo recorrido por isso à cantera mais produtiva do Campo Grande: o Sporting Clube de Portugal. Aí o menino se fez homem, aí Pedro Miguel se fez avançado volante, veloz e volátil. De cabelo ao vento, passeou a sua classe entre os leões uma breve época de juniores, até voltar sebastiânico à  terra que o viu nascer, já em meados de 89, onde em duas épocas apontou 1 golo. Terá sido um golaço de bandeira, pois a União de Leiria viu nele o seu Van Halen salvador e contratou-o. Não se deu mal, Pedro Miguel em Leiria, e 6 golos em 29 jogos levaram-no para Paranhos, já na primeira divisão. Era a glória burguesa do filho da classe operária barreirense. Abreviando, a época no Salgueiros foi uma merda da pior espécie e Pedro percebeu que o seu destino era Leiria, afundada e orfã na Segunda de Honra. Mas o Messias do Barreiro torna a levar a sua equipa de sempre à  Primeira, com uma época sublime, onde em 32 jogos apontou 13 golos. Era assim, Pedro Miguel: decisivo, mortal, vagabundo do vale do Lis, o rei do castelo, o Silence4 da bola. Longa melena, cara angulosa, barba por fazer. Pedro. Porém, os deuses, invejosos do seu sucesso, voltaram a não permitir à estrela o brilho que lhe era devido, e Pedro ficou-se pelos 15 jogos e 1 único golo, em 94-95. Aí começou um longo calvário, por Braga e Belenenses, até regressar a... adivinhem lá: Leiria, com uma vez mais o Leiria na Segunda de Honra. (um parentesis para reclamar que estes tipos da União não aprendem que cada vez que o despedem, descem de divisão). Mas aí, nessa época, acabou o sonho. Leiria já não era a terra simpática do castelo que o aclamara um dia, e tratava-o como mais um. Não, Pedro, tu não merecias isto. Vai daí, e Pedro vinga-se. Pedro Miguel, o Justiceiro, embala a trouxa e parte para Santa Maria da Feira. E aí, meus amigos, o Barreiro voltou a ter orgulho no filho que um dia viu partir. Uma meia época colossal contra até o que dizem as estatísticas, que contabilizam apenas 9 jogos e 1 golo. Porque as estatísticas não contam as salvas de palma da assistência, as estatísticas não contam os olhos esbugalhados dos defesas que o viam passar mais lesto sem lhe apanhar a matrícula, as estatísticas são números, não contabilizam magia. E Pedro Miguel era um desses, um mágico. Depois, foi o ocaso. Sábio como só os grandes sabem ser, retirou-se no auge e alinha agora pelo Amora, discreto, onde vai passando o que sabe aos mais novos sem que ninguém dá muito por isso. O nosso muito obrigado, Pedro Miguel, e perdoa Leiria, que eles não sabem o que fazem.

terça-feira, junho 03, 2003

A propósito do Tirsense, a Caderneta está a preparar um exaustivo dossier sobre o clube português com mais descidas de divisão consecutivas. De Caetano a Paredão, de Marcelo a Christian. Nos próximos dias, talvez próximos tempos...
Já que estamos numa maré de reptos, aqui fica mais um: Filipe, se nos estás a ler, contamos contigo para descreveres a colossal assistência de Ronald Baroni, caído no chão sobre a meia-esquerda, a isolar Rui Barros em Santo Tirso! Escreve! Queremos o relato de quem saltou do sofá nesses dois segundos absolutamente irrepetíveis! É contigo!