quinta-feira, julho 03, 2003

Já algumas vezes referimos aqui este clube. Os motivos são vários. Jokanovic e o episódio Latapy, ou a legião vinda de terras de Vera Cruz que encontrou o amor na pérola atlântica e, consequentemente, a nacionalidade viriata. Falamos do União da Madeira, naturalmente. Um clube de que todo o português devia gostar pois no fundo, todo o português é um pouco sócio dele (pelo menos até ao fim da dinastia feudal). Trazemos de novo à baila, como prometido, o Chelsea português, devido a toda uma panóplia de factos do mais sumarento que se encontram nos últimos anos do futebol lusitano. O grande problema, uma vez mais, é o ângulo de abordagem. A questão dos 3 portugueses identificáveis no plantel da época 94-95 é um bom começo. Ao eixo Brasil-Balcãs voltaremos mais tarde. Comecemos por Nelinho, por sinal o único madeirense desta equipa. Fontes fidedignas asseguram-nos que foi formado nas escolas do União, o que introduz o interessante facto de, aparentemente, o União da Madeira ter uma escola de futebol na Madeira. A teoria de que *todos* os jogadores que alguma vez passaram pelo União foram comprados por um catálogo semelhante ao La Redoute ou ganhos em sorteios variados por esse Brasil fora é assim ferida de morte. Voltemos a Nelinho. Este defesa lateral direito com 1,65m pouco jogou. A concorrência era fortíssima: Milton Mendes, porventura o sorriso mais radioso que alguma vez iluminou os relvados insulares. Não. Mentimos. Não podemos ocultar a nossa admiração pelo sorriso do seu compatriota Marco Aurélio, o pastor dos Atletas de Cristo. Isto aliás levanta outra questão bastante interessante (ao contrário de Nelinho, que é bastante aborrecido): a teoria de que *todos* os jogadores brasileiros do União da Madeira e, segundo alguns autores malditos, *todos* os jogadores brasileiros a actuar em Portugal, são cristãos e fiéis da seita do Pastor Aurélio. Aqui na Caderneta pagamos a quem nos trouxer um médio ala sambista que seja ateu ou no mínimo agnóstico. Arrumado que está Nelinho, passemos ao segundo português: Germano. O lisboeta Germano chegou à madeira proveniente do Vitória de Guimarães para cumprir a sua 11ª época na 1ª divisão. Não é difícil recordar Germano, um autêntico arrastão do centro da defesa, quase 1,90m de cimento armado. Um central de marcação impiedoso e um espantoso controlador do tráfego aéreo da grande área unionista. Depois da doçura de Marco Aurélio, o amargo fel da violência futebolística. Adiante. O terceiro português do plantel é um senhor. Sérgio Lavos, o tornado da Marinha Grande. A Sérgio Lavos assenta que nem uma luva o epíteto do futebolês "médio volante": um médio que, qual volante, rodopia linha abaixo e linha acima arrastando consigo multidões de laterais esquerdos completamente aturdidos. Proveniente do União de Leiria, possuía também uma capacidade singular para a filigrana futebolística, chamada também no futebolês (tão cedo não nos calamos com o dialecto) de "drible curto". E por aqui nos quedamos, imundos e grossos, qual Adamastor afastando as naus do esquecimento. Próxima paragem: Jovo, Lepi e Simic - o tridente infernal do ataque madeirense (ah! e Beto, um porteiro de discoteca carioca confundido um dia com um ponta-de-lança!). Não perdem pela demora. Saudações cubanas ps: contamos também desenvolver as duas teses (Origem dos Jogadores Unionistas e Atletas de Cristo) nos próximos posts e aceitamos sugestões de robustecimento teórico.

terça-feira, julho 01, 2003

Caderneta da Bola: Só o passe já é mais de meio-golo! É só encostar para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Antes do cíclo José Eduardo (ex-jogador, ex-paineleiro, ex-docente de bola no DD, actual proprietário de uma empresa de catering) impõe-se um relato de mais uma historieta sobre comentadores desportivos. Reportamo-nos à época passada e a um jogo de início de campeonato entre Sporting e Alverca no Estádio de Alvalade. Transmitido pela SportTV (possuidora de um naipe absolutamente notável de profissionais da bola falada), este jogo contava na secção comentarista com Rui Teixeira na narração e Eurico Gomes (ex-Tirsense e ex-Benfica e único jogador português a ser campeão pelos três grandes) nos bitaites esféricó-contemplativos. Encontrávamo-nos no início da era Boloni e antes da era Jardel, o Sporting lutava sem sucesso para consolidar um onze competitivo e o dentista romeno do bloco de notas mudava de equipa mais rápido do que Vitor Vieira de clube. Neste jogo foram titulares dois jogadores que semanas mais tarde estavam naquele pedaço de terra coladinho ao Curdistão que um dia pariu Hakan Sukur e Emre. Falamos do croata Robert Spehar (um Suker que nunca chegou a ser) e Pavel Horvath (um checo com alguns problemas de peso e com visual algo semelhante a um cão de camionista texano). Voltando àquilo que nos traz à escrita, descrevamos Horvath. Médio-centro-lento. Muito lento. Barbosa ao pé deste é um Martelinho. Pé de eleição: esquerdo. Lento, também... Boa visão de jogo e bom passe em profundidade, ambos lentos... Adiante. Eurico Gomes reparou nesta profunda lentidão do checo e realçou-a, a dada altura, caracterizando Horvath como um jogador "muito pouco velocipédico". Dito isto, e perante a nossa estupefacção, procurámos atentamente uma bicicleta no horizonte... negativo. Contacto visual nulo. Então porquê o "velocipédico"? Deveria ser Horvath, o checo, um velocípede? Será isso legal à luz das leis do jogo e do regulamento da Liga? Senhor Major... o seu silêncio é ensurdecedor. O singular desta história é o facto da mesma expressão ter sido repetida pelo menos três vezes, à semelhança de um "kuíca" de Fernando Martins. Será isto um sinal revolucionário da prática futebolística? Estaremos numa fase embrionária do futebol-cyborg? Estará Eurico na origem de uma proposta teórica de um futebol avant-garde em que jogadores partilham a relva com carros-maca, ambulâncias e bicicletas? São demasiadas questões para tão parcas respostas em nossas mentes modernistas e românticas... Eurico... ajuda-nos. O que te passou pela cabeça? Oh Phillip K. Dick do gramado luso...

segunda-feira, junho 30, 2003

Inaugura-se aqui mais uma secção temática dentro da Caderneta, para acumular às já referidas Suicídios Futebolísticos (ainda estamos à espera do texto sobre o suicídio do Peixe, Pedro!), Duelos Sanguinários e Retrospectivas de Plantéis: o tão útil e indispensável dicionário Português-Futebolês, acervo de expressões cunhadas tanto nos relvados como nas arenas de comentarismo, paineleiro e de cabine, cá da terra. A ordem alfabética será amplamente desrespeitada, assim como quem se esqueceu anos a fio da regra dos "6 segundos com a bola na mão dá direito a livre indirecto, ó redes". Hoje, e porque a hora já avança manhã dentro, começamos com a letra D: D para "Defesa a dois tempos": Expressão amplamente difundida em português (e que não encontra paralelo em qualquer outra língua, que se saiba), tem uma origem incerta. Há correntes teóricas que a associam a repórteres de rádio no terreno, daqueles que dão as suas achegas de trás da baliza e cujas tácticas de auto-legitimação perante os Perestrelos que ficam na tribuna incluem precisamente o recurso a expressões deste quilate; outras ligam-na ao mais mediático linguista do futebolês da década de 90, Gabriel Alves. Aqui na Caderneta inclinamo-nos mais para a primeira, deixando ao analista o título de principal difusor da expressão. Ora esta expressão é utilizada correntemente como referência a uma defesa, por parte do guarda-redes, que não é consumada no imediato da recepção da bola a partir do remate do avançado. Trocado por miúdos, é quando o guarda-redes, ao efectuar a defesa, só agarra a bola firmemente contra si à segunda, deixando-a primeiro cair ou rechaçando-a para a frente. O que nos intriga é a questão do "dois tempos". Porquê tempos? Porque não 'modos', uma vez que à primeira já ele tinha defendido, apenas de maneira diferente (mais inseguro)? Ou porque não 'passos', numa visão mais evolucionista de que a diferentes defesas correspondem diferentes percursos, sendo assim a defesa um fim e todos os passos até lá, o trajecto para esse fim? O emprego do termo 'tempo' é uma falácia, porque implica que a defesas diferentes seja inerente um mesmo compasso, uma mesma cadência. Esta constância, esta regularidade axiológica não se coaduna com a evidência ontológica de existirem tantos guarda-redes como estilos distintos. A coincidência de compasso nas defesas de um Hubart e de um Brassard residirá, até prova em contrário, num casuísmo que destrói a possibilidade de se falar de 'dois tempos' genericamente. A não ser que se pressuponha que estes dois tempos são de duração distinta e variável entre si, o que para além de chutar a discussão para um nível de abstracção absolutamente ridículo, só vem trazer à baila mais questões passíveis de a refutar: se os tempos são distintos entre si, porquê falar de dois e não quatro (GR lança-se ao ar, GR defende para a frente, GR lança-se ao chão, GR agarra a bola)? E qual a relação entre o tempo e a acção, ou entre o tempo e o modo? São estas questões que complicam irreversivelmente a sociabilidade entre os praticantes quotidianos do futebolês e as pessoas um pouco mais obsessivas com o idioma camoniano. Ou só picuínhas. Ou que não liguem puto a bola e a estas coisas. De qualquer modo, quem não conhecia a expressão, já não vai estranhar, da próxima vez que o Gabriel vir, em directo, o Pedro Roma assustar os tunos depois de um remate do Sokota e empregar, com alívio, esta expressão. A isto, nós aqui gostamos de chamar serviço público.
Caderneta da Bola: Um blog para quem nunca teve dificuldade em distinguir o Chiquinho Conde do Chiquinho Carlos! Passes em profundidade para: caderneta-da-bola@megamail.pt
E porque aqui na Caderneta da Bola também somos blogoesféricos (mais para o esférico do que para o blogo), não escapamos às polémicas que vão assolando este mundinho. Diz-nos um leitor que faltámos ao respeito ao União da Madeira e que fomos imprecisos no relato sobre Jokanovic e Latapy. Sustenta que quando se deu a vingança, Jokanovic já estava no Marítimo e a agressão foi no túnel. Lançado o anátema da dúvida, compete-nos alvitrar que aqui na redacção somos jovens e saudáveis demais para que a memória nos traia num assunto com esta dimensão. Existe uma recordação nítida e fotográfica e uma comprovação posterior. O único ponto em que se admite a falibilidade, ainda que remota, é na camisola que Jokanovic envergava na altura. O que afinal, tratando-se à mesma de clubes pagos maioritariamente pelos contribuintes, acaba por não ser assim tão relevante. Ainda assim, regista-se e agradece-se a informação sobre a agressão no túnel (ainda carente de confirmação) e aproveitamos para referir que, como eventual redenção pela troca do União com o Marítimo, num futuro próximo (infelizmente, não demasiado), aqui se dará ao União de Zivanovic, Rodrigão, Lepi, Helinho e, claro, Milton Mendes, a atenção merecida, numa detalhada, apetitosa e, acima de tudo!, respeitosa resenha historiográfica. Saudações cubanas.
Na semana em que Mauro Airez volta à ribalta como carrasco, desta vez não de clubes do meio da tabela mas dos cofres do Benfica, a Caderneta não pode deixar passar em claro a oportunidade de recordar esse vagabundo das pampas. Mauro Gabriel Airez, nascido em Buenos Aires em Outubro de 1968, começou a jogar à bola nessa magnífica cantera peronista que é o Gimnasio y Esgrima de la Plata, em cujos balneários tomaram banho estrelas como Guly (actualmente no Milan) ou os irmãos Schelloto. O jovem Mauro, acabadinho de ascender dos juniores, com 20 anos, rubricou na sua primeira época de sénior 5 golos, ao longo de 30 partidas. A posição? Avançado, claro está, e não se fala mais nisso, para já. As temporadas que se seguiram, repartidas entre o Gimnasio, o Argentino Juniors e o Independiente, todas elas recheadas de golos e de exibições perfumadas, valeram-lhe um lugar num charter para Bari, onde a época lhe terá corrido tão bem ou tão mal que dali saíu, meses depois, ainda em 91, para o Belenenses, à altura na Segunda de Honra. É escusado dizer que foi no Belenenses que o delantero Maurito conheceu o esplendor. Nessa primeira época rubricou, ao longo de 32 jogos, 11 golos e os vizinhos da Casa Pia subiram à primeira divisão. Confessamos que Mauro sempre agradou de sobremaneira ao dueto caderneto. O seu jeito índio e a propensão para a pantomina do esférico, o carinho com que tratava a bola, a movimentação imprevisível em campo e um baloiçar constante entre as alas, faziam de Mauro um jogador de encher o olho. Para além disso, era um exemplar executante de pontapés acrobáticos, um artesão ocasional mas retumbante de guapíssimos golaços de placa. Abreviando, as épocas seguintes em Belém colocaram Mauro na lista dos avançados mais carismáticos a pisar os nossos relvados, a par de nomes como Hassan, Chiquinho Conde ou Karoglan. Foram 3 épocas e meia de glória azul-monárquica até à transferência para a Luz, em Janeiro de 96. Como em qualquer transferência do Belenenses para outro clube, esta também envolveu mais do que um jogador. O parceiro de Mauro foi, na ocasião, o brasileiro Luiz Gustavo, também avançado com cara de mau que chegou a Benfica com craque escrito na testa e acabou por deixar o clube sem que alguém tenha tido tempo, afinal, de se lembrar dessa mesma testa. O desperado Airez, por seu turno, veio parar numa má altura à segunda circular: a movida era intensa e marcada pela chegada de camiões de jogadores como Clóvis, Ailton, Paulão etc, multidão que tornou indistinto o talento do nosso argentino, que até chegou a ser convocado para a selecção das pampas por Carlos Bilardo. Arriscamos dizê-lo que nas duas épocas em que equipou de vermelho, o mais significativo que soube fazer foi marcar um golo naquela final da taça, cujo jogo propriamente dito foi apagado da memória dos adeptos de futebol pelo lançamento dum very-light. A partir daí, começou o declínio: chutado para a Reboleira para emparelhar com Mário Jorge (outra ex-next big thing do futebol português), acabando depois perdido algures pela 2a de Honra. Hoje em dia, Mauro Airez é um esmerado empresário e representante de colossos como Zarate (fulminante sul-americano que encantou Alverca) e vai passando os dias a tentar liquidar as dívidas que o impeçam de passar pela dramática penúria em que se viu envolvido após a sua passagem pelo relvado do Estoril. Penúria que uma Brigitte Martins ou um José Gabriel Quaresma deveriam ter tratado com mais atenção no seminal Contra-Ataque, escusando Mauro de a relatar com humilhante indiferença a um jornal desportivo na época. Resta-nos acrescentar que futuros alvos de recensões aqui na Caderneta, como Salam Sow (um leão indomável), David Embé (outro, que ainda por cima fugiu de Belém para a Grécia) ou Gilberto Monga (apenas para citar alguns exemplos), nunca fizeram esquecer no Restelo o mítico argentino. Caso para dizer que, sendo agora o titã azul-celeste o tutor legal de algumas das maiores promessas do futebol latino-americano (Zarate! Zarate!), o Belenenses bem pode recorrer ao sábio pai para encontrar um filho pródigo. Temos dito.

quinta-feira, junho 26, 2003

Devemos confessar que ficámos algo sentidos com o epíteto de " o mais conservador dos blogs portugueses" no Quinto dos Impérios (http://noquintodosimperios.blogspot.pt). Podemos mesmo considerar tais declarações como um tackle por trás, à margem da lei, passível de ser admoestado com a exibição directa do cartão vermelho. Neste nosso primeiro e último post de teor político (a malta curte é bola!) afirmamo-nos, sem qualquer tipo de reservas, como adventistas do futebolismo dialético. Esses comentários são, no fundo, a antítese que, opondo-se à nossa seminal tese, ajuda a germinar a nova aurora futebolística, a síntese revolucionária que pintará de liberdade os anais da história da bola, quais Pedros Miguéis a emergir do proletariado barreirense para o patamar das classes esclarecidas. Isso sim, nós conservamos.
Infelizmente não temos tempo para responder aos e-mails todos, mas muitas das questões colocadas, ficarão a seu tempo, resolvidas ou quase. A paciência é uma grande virtude, como aliás ficou demonstrado na carreira de Herivelto, brasileiro do Marítimo que suou as estopinhas para ganhar a titularidade a Jorge Andrade.
Um ataque extremamente agudo de irresponsabilidade leva-nos a interromper por breves minutos os nossos afazeres técnico-profissionais-ó-académicos e partilhar com a imensa minoria mais uma memória, mais um símbolo, mais uma viagem. Desta vez, aterramos no já célebre triângulo Chaves-Braga-Croácia e raptamos à bruma da história essa lenda que dá pelo nome de Karoglan. Mladen Karoglan, um nome que dá vontade de saborear. O primeiro 'a' aberto, um 'den' quase apocalíptico, uma pausa para respirar no desabar do mundo, e recomeçar, 'karo', a expirar o 'o', lentamente, como quem fuma o último cigarro antes da execução, e 'glan'. Karoglan. Decorria o ano de 1964, os Beatles rebentavam as tabelas, Nelson Mandela era preso no Apartheid, revolta nas ruas do Harlem, motins raciais, o primeiro transplante do pulmão, e, no dia 6 de Fevereiro, na pequena cidade de Imotski, a cidade dos dois lagos do condado de Split e da Dalmatia, nascia Mladen Karoglan. Peripécias múltiplas e altamente fastidiosas, as futebolísticas das quais certamente orquestradas por maneigers sem escrúpulos, trouxeram o jogador até Chaves. E se para trás do Marão mandam os que lá estão, para os avançados de leste abre-se sempre uma excepção (rima e é verdade!). Se na época de 91-92, fora Rudi, com 10 golos e pela segunda vez consecutiva, a ostentar o galardão de melhor marcador dos flavienses (feito que viria a repetir no altar que o tornaria um santo, a Capital do Móvel Paços de Ferreira), em 92-93, Karoglan aterra no aeródromo para singrar e ser a única luz numa época de trevas. (pequeno parentesis: a referência ao aeródromo não foi inocente. Foi também neste aeródromo que anos mais tarde a equipa do Sporting viria a aterrar para jogar uns quantos minutos de descontos de um jogo que acabara dias antes porque a luz veio abaixo. fim de parentesis.) Nessa época mefistofélica, em que o GD Chaves desceu à 2ª divisão acabando com 16 pontos, o último lugar e apenas 4 vitórias, todas elas em casa, Mladen Karoglan conseguiu ainda assim marcar 10 golos. Se compararmos a perfomance do croata com a de Serifo e quejandos, percebemos facilmente que aquele não era jogador para alinhar na divisão de honra. Atentos como sempre, Mesquita Machado e seus capitães repararam nisso e levaram-no para a Nápoles portuguesa, Braga, essa cidade idiossincrática que tanto pode parir uns Mão Morta como um Cónego Melo. Em Braga, na época de 93-94, o nosso croata ficou-se pelos 9 golos mas no posto de titular indiscutível, com 33 partidas jogadas. O melhor marcador da equipa. Nada mau, para uma época de ambientação. Porque é que Karoglan marcava tantos golos? Porque, caríssimos, estamos perante o típico exemplar do avançado balcânico. O arquétipo do avançado móvel, aguerrido, repentino, de técnica rápida e repertório imprevisível. As comparações chovem em catadupa: lembram-se de Pedrag Mijatovic? Karoglan tinha a barba um pouco mais comprida e nunca usou, que se saiba, bigode. De resto, umbilicalmente semelhantes. Porquê Mijatovic na selecção das camisas mais parecidas com toalhas de mesa de pizzaria e não Karoglan? Expliquem-nos... Na época seguinte, ainda no arcebispado, tornou a ser titular mas facturou um pouco menos: apenas 7 golos. Em 95-96, 8 golos, 28 partidas jogadas. A influência crescia. Via passar ao seu lado jogadores como Forbs (em forma, uma autêntica gazela) e Toni (uma viga com a técnica de uma traineira), por exemplo, e mantinha-se tão firme no onze como no coração dos Red Boys, os irredutibile tiffosi minhotos. Recapitulando, estamos com 24 golos em 3 épocas. Karoglan achou pouco e vai daí carimba as redes por 14 vezes na época seguinte, em 96-97, ano em que Jardel já jogava nas Antas, e pontificavam por esse campeonato fora estrelas como Gilmar (no Guimarães), 47 avançados brasileiros na Luz e o tridente ofensivo flaviense que carregava a cruz de fazer esquecer Mladen: Miner, Sabou e Matute. Se Karoglan já estava no panteão dos artilheiros e já se falava em transferências para os grandes, assim ao jeito de um Drulovic, o croata repetiu a dose em 97-98 com mais 14 golos e mais uma época de glória. Note-se que estamos a falar de um jogador com a provecta idade de 34 anos. Porquê falar de Karoglan, afinal? Razões de várias ordens, entre as quais o esquecimento a que figuras como estas (que conseguem aguentar tantos anos seguidos em Braga e ainda por cima a marcar golos) têm sido votadas, o exemplo pedagógico que este jogador pode constituir para todo o menino cujo sonho é ser o próximo Eusébio (Akwá, Edgar, Pepa: ponham os olhos no mestre!) e, por fim e porque nunca é demais lembrar, o delicioso aroma do futebol de leste e a tradição que tem vindo a cunhar, desde o início dos anos 90, nos relvados viriatos. Disso são exemplos Djukic, Zoran Ban (um jogador bigger than life que a Juventus emprestou ao Belenenses nos idos anos de 94). Milovac (o arranha-céus de Paranhos) e metade do plantel do União da Madeira, onde pontificaram a dada altura, Lepi, Jovo, Simic e o já aqui referido Jokanovic. Venha a nós o vosso Leste...

terça-feira, junho 17, 2003

Serà difícil tornar a escrever nos próximos dias... mas o regresso... esse será em grande! Não percam... A aventura historiográfica continua dentro de momentos.
Ah! E continuamos tristes com tanta visita e tão poucas palavras de apoio ao Clube Futebol Benfica. Só para ficarem a saber.
Corria o ano de 1995 e a Federação vivia ainda na ressaca da profecia de Queiroz no Monte de San Siro no final da qualificação falhada para o Mundial de 94, quando atirou as tábuas divinas ao chão e declarou ser preciso limpar muita porcaria antes de irmos com as quinas a algum lado. Passaram largos meses até as sábias palavras do Professor do bigode (não o prof. Neca) serem postas em prática, numa urdidura tortuosa e vingativa. A vingança, caríssimos, seria ali mesmo ao lado das terras onde deveríamos ter estado a mundializar. Canadá, país de Celine Dion e Brian Adams, mas também de Alex Bunbury e Fernando Aguiar. Foi aí que a selecção exorcisou o fantasma do falhanço queirosiano, no retorno ao tecto do mundo, a Taça da Cúpula do Céu, no original, Skydome Cup. Esta Cup, no entanto, entrou para os anais como o Torneio dos Sintéticos de Toronto, das chuteiras com pitons esquisitos para jogar em alcatifa e do elenco de destemidos que aceitaram ser atirados para a fogueira e ficarem célebres como "uma selecção de 2ª". Porque é que este episódio assume importância aqui no contexto cadernético? Por várias razões: a afirmação da tugalidade em contextos de disseminação pós-moderna da prática desportiva (trata-se da assunção do kitsch futebolístico, com o conjunto de jogadores que já iremos expôr!), a arqueologia do refugo e a perspectiva diacrónica sobre uma selecção que assume a sua intemporalidade por vezes das formas mais insólitas. Deixemo-nos de paleio intelectualóide e vamos aos factos. No dia 26 de janeiro, Portugal defrontava o país anfitrião, onde pontificavam Alex Bunbury e, a então jovem esperança do país da folha de plátano, Fernando Aguiar. A nossa selecção essa, apresentava um 11 inicial capaz de rivalizar com um União da Madeira. Senão vejamos: Na baliza tinhamos Neno (ele novamente! O nosso Julio Iglésias!). A defesa estava entregue a Jorge "Bicho" Costa, que tinha a acompanhá-lo à guitarra Rui Bento, jogando a líbero ou carro-vassoura (a posição de que nunca deveria ter saído), Paulo Madeira, acabadinho de ganhar a titularidade a Lula em Belém, e Carlos "êli não gozou!" Secretário, o maior mistério do futebol(?) português. No meio campo começam as dificuldades argumentativas. Na ala esquerda, uma pantera boavisteira, mesmo de encarnado: Nelo. Se calhar, aquela questão do 'equívoco Secretário' é mais duvidosa do que parecia à primeira vista. Nelo, extremo-esquerdo também defesa lateral, também nº 10, mas não polivalente. Polivalentes eram os treinadores que o colocavam em campo sem percebermos bem porquê. Um jogador sem características assinaláveis tirando a técnica do passe em balão e aquela que tem sido injustamente considerada ao longo dos anos como 'uma especialidade', uma técnica traduzida no jargão da bola pela frase "o gajo marca muita bem livres!". Transferido do Bessa para a Luz com o seu colega Tavares, constituía na Avenida da Boavista um diabólico tridente, juntamente com o, também ele internacional, Nogueira, jogador defensivo de parcos recursos mas notável distribuidor de fruta e visual algures entre o intelectual de esquerda e John Holmes. Na ala oposta, Caetano, mítico do Bessa e de Santo Tirso, onde chegou a presidente da colectividade. Rapidíssimo, pungentíssimo na assistência, doces caracóis dourados pendendo sobre os ombros, vivaço e sempre sempre colado à linha lateral. Ao meio, o já aqui referido Vado. Número 10. Atenção: n-ú-m-e-r-o 10! O pensador, o regista, o vagabundo, o estratego, o general, o commander in chief. A pérola maior da ostra atlântica, o ídolo do Funchal, jogava como uma criança feliz, com a mesma alegria, com a mesma espontaneidade, com a mesma ingenuidade, com a mesma apetência tanto para o melhor como para o completo ocaso. Ao seu lado, outro vadio que dispensa epítetos, Pedro Barbosa. Note-se o pendor criativo e fantasista deste meio campo! Na frente, entregues à bicharada dos centrais canadianos e à vã esperança de que alguma bola chegasse algum dia das alas, dois avançados. Avançados, não pontas de lança, que a selecção tinha um e estava, nesse primeiro jogo contra o Canada, no banco, qual arma secreta. Falamos assim de Folha e Sá Pinto. Folha, avançado a descair sobre a esquerda era bom de bola, sim e chegou mesmo à titularidade no Porto. Sá Pinto, protagonista da transferência da época para o Sporting juntamente com Pedrosa, um avançado explosivo, temperamental, uma espécie de Di Canio da Cedofeita com um toque pavloviano de dizer "pócaralho" a cada adversário que se aproximava a menos de 2 metros de si. O jogo, esse, acabou empatado a 1 bola, golo de Folha e Alex, português emprestado. Nesse jogo, foi também utilizado o suplente Calado, de quem nos abstemos de comentar por respeito ao Clube Futebol Benfica, Barroso pé-canhão ("e marca muita bem livres, dasse!") e a arma secreta, ponta-de-lança do qual falaremos a seguir. No jogo seguinte, contra a Dinamarca, apenas duas alterações no já de si caricato onze inicial. Para a baliza, entrou Alfredo, o gangster, Cappo de tutti cappi boavistieri. Facilmente inserível na categoria que Lineu designaria de "Armarius Vulgaris", dois por três, mogno e nada de contraplacados, era um guarda-redes com um faro raro para cruzamentos. Raro, porque raramente acertava num. A outra alteração é então a entrada do ponta-de-lança das quinas. O nome? Alves, Paulo Alves. Alto e desengonçado, ganhou uma bota de ouro (ou de outro metal qualquer), literalmente, sem saber ler nem escrever. Mas era o nosso melhor cabeceador, o nosso Jardel transmontano. De nariz à Júlio Isidro, tinha também uma capacidade fora do comum para arrastar consigo os defesas mais ingénuos, crentes que Alves poderia criar algum perigo fora de situações de canto. Era no entanto eficaz, e que o digam, uma vez mais, as gentes maritimistas e, mais tarde, os hooligans da Juve Leo e de Barcelos. Não é à toa que esse jogo contra a Dinamarca foi ganho com um tento solitário deste matador, sendo no entanto injusto negligenciar o trabalho colectivo e olhos de lince do seleccionador que, ao minuto 70, colocou em campo Tulipa, enfant-terrible suburbano oriundo de Gaia, capaz de destruir completamente uma defesa e ainda engatar umas miúdas ao mesmo tempo. Um extremo à moda antiga dos tempos modernos, enfim. Esses cinco dias em Janeiro saldaram-se com uma Taça nas mãos, mais um troféu para a já de si atolada saleta da FPF. No entanto, e recuperando Queiroz, impõem-se algumas considerações finais: Está bem que era necessário limpar a porcaria, mas não deveriam ter sido estas palavras entendidas numa ordem conjuntural? Não estaria o Professor a falar do sistema federativo em vez do sistema de jogo? Se sim, porquê Nelo e Barroso? Cremos estar perante uma estratégia, assaz comum no estrangeiro, de levar aos amigáveis os jogadores que mais se destacam na época em curso, independentemente do clube (vide o exemplo Rogério Matias na era Scolari) e só por isso, pela preocupação de mostrar ao mundo os nosso cromos, podemos aceitá-lo. De qualquer forma, tratando-se da Taça da Cúpula do Céu (não confundir com a Cúpula do Trovão de Mad Max), acreditamos também que a comunidade emigrante merecia mais do que aquele defesa esquerdo ou do que as palavras "Secretário passa a bola para Caetano". Se era para isto, então porque não uma equipa com Bizarro na baliza, Portela à direita e Rui Gregório à esquerda, Paixão e Pedro Barny ao meio, e um meio campo com Rui Esteves, Hélio, Taira e Carlos Costa, por exemplo, e um ataque viperino com o astro Pedro Miguel e Vinha a finalizar? Quais são, afinal, os critérios? É a pergunta que sempre se impôs. Nós aqui, com franqueza, não percebemos.
Devido a motivos que fogem totalmente ao nosso controlo, não conseguimos saciar a sede dos milhões (mesmo!) de internautas que se têm mutiplicado em elogios à Caderneta. Nós tentamos... mas não somos nenhum Rashid Yekini em plena época 93/94, facturando jornada após jornada para júbilo das gentes do Sado. Dentro de umas semanitas, se os Deuses ajudarem, talvez a nossa odisseia historiográfica volte a embalar em velocidade supersónica, qual Rui Dolores criando caos na ala direita. Dentro de momentos... a tão prometida análise profunda a uma saudosa digressão da selecção de todos nós por terras americanas da Commonwealth...

sábado, junho 14, 2003

Já que estamos numa de leonices, esta vai direitinha para o Terceiro Anel, que nós bem sabemos como a rapaziada adora estas coisas: que é feito Mario Cáceres, 'El Toro', que chegou a Alvalade há dois anos rotulado de matador para fazer esquecer Acosta?
Breve apontamento antigo sobre uma resenha do Terceiro Anel, kuíca para inaugurar uma nova secção, a dos Suicídios Futebolíticos: De novo o Sporting. Julian Kmet, astro argentino promissor e tudo o mais que já foi mais que falado, terá assinado a sua sentença de morte em Alvalade, não com as exibições prometedoras mas pouco concretizadoras cada vez que entrava na 2ª parte, mas sim com um gesto, um único gesto fatal. Numa certa pré-época que nos bem sabemos, o Sporting defrontou o Bahrein numa noite de verão. Julian Kmet pega na bola a meio do meio-campo do Bahrein, levanta a cabeça, arma o pé-canhão e desfere, a uns bons trinta metros da baliza, um tiro descomunal ao ângulo do tipo do Bahrein que naquela noite calhou estar à baliza. As centenas de espectadores que estavam no estádio reagiram entre o estupefacto e o medianamente contente por o Sporting marcar um golo a uma selecção cujo país poucos sabiam que existiam. E Kmet, como reagiu? Talvez acossado pela pressão, o virtuoso argentino despe a camisola do Sporting, atira-a para o chão e vira-lhe as costas. Às vezes, há gestos capazes de demonstrar todo um estado de alma e despoletar todo um terramoto, e nós aqui na Caderneta acreditamos que desde então, tanto Julian já não contava alinhar de verde e branco por muito mais tempo como as gentes leoninas deixaram de o querer por lá. A pergunta que se mantém é: e se Kmet tivesse corrido metade do campo até ao topo sul, abraçado as redes e tivesse deixado a camisola entregue à Juve Leo?
Depois, um sincero agradecimento às palavras amigas do blog http://traducaosimultanea.blogspot.com e do blog http://escala_estantes.blogspot.com . E agora, após prolongada ausência por motivos de força maior (são sempre, amigos, são sempre...), impõe-se um apontamento sobre o terceiro búlgaro. O Terceiro Búlgaro. Fomos dando aqui conta que já se pegou demasiado no Porto, no Boavista e no Benfica e ainda pouco no outro grande, o Sporting. Tempos virão em que traremos à baila o historial dos defesas laterais, desde Gil, o Baiano a Andrija "trabalho para ser melhor que Maldini" Balajic. Por enquanto, somos movidos pela urgência da justiça. A justiça de dedicar umas linhas ao búlgaro que chegou a Alvalade para singrar mas que ficou infelizmente na sombra de Balakov, Iordanov e Cherbakov (que não era búlgaro mas como tinha um apelido terminado em 'ov' acabava por funcionar como 'búlgaro emprestado'). Trata-se de um homem que carregou, ao longo da carreira, a cruz de ostentar um epíteto não terminado em 'ov' mas em 'ev'. (e todos nós sabemos que os 'evs' búlgaros circulam ali no vector que vai do Penev ao Iliev e tudo o mais é paisagem). É mas não devia ser. Bontcho. Bontcho Guentchev, oriundo de Tarnovo (terra natal também de Balakov), assim se chamava esse médio-ofensivo de altíssima craveira que pouco tempo esteve em Alvalade, algures ali por 92-93 e 93-94, precedente e procedente para o Ipswich Town. Dos tempos lisboetas, fica um punhado de bons apontamentos e um mítico pontapé de bicicleta, golaço de antologia, ao Benfica numa Taça de Lisboa, no Zézinho de Alvalade. Era um centro-campista volante, de futebol alegre mas que oscilava entre o inconsistente e o mágico, com maior pendor para o primeiro. No entanto, aqui na Caderneta, acreditamos que só facto de ter estado na sombra dos 'ovs' o impediu de alinhar ao lado de Paulo Sousa e Figo na alta-roda do futebol português até ao Natal. A comprová-lo está o estatuto de ídolo a que ascendeu no coração dos exigentes adeptos do Ipswich Town, que até lhe fizeram um cântico adaptado desse hit clássico da electrónica do início dos anos 90 "No Limits", dos 2 Unlimited. Várias épocas no Ipswich, outras quantas no Levski de Sofia, campanhas de Mundial'94 (glorioso mundial da Bulgária, em que foi suplente utilizado mas chegou a marcar um penalty ao Mexico) e Euro'96 e depois o ocaso, pelo Luton Town até aos amadores do Hendon. E agora, aos 39 anos, que faz Bontcho Guentchev, questionar-se-ão muitos por aí? Bontcho tem um bar, o Strikers, na zona de West Kensignton (ali como quem vem de Charleville Road para Stamford Bridge), em Londres, onde torce, empedernido e em família, pelo Chelsea e ao comando do qual cumpre a sua função social de indutor alcoólico das hordas de hooligans que dos 'blues' que aí se deslocam. Bontcho, se puderes contacta, que temos algumas perguntas para te fazer. Como é que te tornaste um Paulo China londrino? Porquê o Chelsea com tanto clube aceitável aí na zona? E que história é essa de deixares o Iarvo crescer com uma camisola do Chelsea vestida em vez de uma do Sporting? Isso é maneira de criar um filho? Aparece, pá, e traz cerveja.
Antes de mais nada, uma preciosa adenda do Filipe sobre (como ele lhe chama) o Anúbis dos Ovos Moles, o nosso Magdi: o robusto centro campista do Beira-Mar não só foi o único internacional daquele clube a alinhar no Itália'90 como chegou mesmo a facturar contra... a Laranja Mecânica, num jogo em que Gullit e muchachos não foram capazes de abalroar a nau capitaneada por AbdelGhani. Muito obrigado, Filipe, e não te esqueças do relato da assistência de Ronald Baroni para Rui Barros em Santo Tirso!

segunda-feira, junho 09, 2003

Magdi Abdelghani, o Mujahedin da Ria, o Ayatollah do Mário Duarte. Centro campista. Forte. Portentoso. Poderoso no passe. Incisivo na desmarcação. Algo lento. Visão Periférica. Barba farta. Encorpado. 1,78 metro. 77 quilos. 37º melhor jogador africano de sempre pelo France Futebol. 4º melhor jogador africano do ano de 1987 (quando ainda jogava no Al-Ahly do Cairo), distinguido pela mesma publicação, ficando à frente de nomes como Roger Milla e Abedi Pelé. Esteve no Beira-Mar e foi o único jogador desta equipa a alinhar no mundial Itália'90. A-b-d-e-l-g-h-a-n-i. Quem já se havia esquecido deste nome merece escolher entre trinta chibatadas auto-infligidas e um apedrejamento em praça pública. O faraó egípcio que passou como um cometa pelos nossos relvados. Onde quer que estejas, estamos aí.
A notícia, se calhar não tão bombástica assim mas de qualquer modo significativa: Isidoro Rodrigues é cantor! A Caderneta da Bola viu, com estes quatro olhos que a terra há-de comer, o árbitro Isidoro Rodrigues a cantar no programa de Manuel Luís Goucha, algo como 'Ando louco para te ver' ou título similar de assinalável gosto. Depois de Neno, O Guarda-Redes cantor, o Júlio Iglésias Português (e protagonista de um dos mais macabros incidentes que o futebol português já viu, quando numa defesa mais efusiva abocanhou as redes, ficando pendurado e deslocando o maxilar), é o homem de preto que se lança nas lides. Isidoro vestia um pull-over vermelho e calças caqui e agitava o braço direito estalando os dedos, enquanto cantava algo entre o pimba (no refrão) e o canto gregoriano (nos versos). Isidoro é, como certamente recordarão, o árbitro que despontou para a ribalta num célebre União da Madeira-Sporting, jogo em que multiplicou cartões como Cristo fez aos pãezinhos, chegando ao cúmulo de manchar a vermelho o currículo do pastor Marco Aurélio, proeminente líder espiritual dos Atletas de Cristo, actualmente perdido em terras transalpinas, depois de passear a sua classe e o seu sorriso estupidamente imaculado por Alvalade.