Historiografia, narrativas e estatísticas de figuras e episódios lendários da bola, essa arte geométrica. Envia-nos mail para a.caderneta.da.bola@gmail.com .
quinta-feira, setembro 18, 2003
Um pequeno interlúdio informativo na travessia blaugrana para uns quantos agradecimentos e umas declarações à imprensa. A Caderneta tem-se apercebido, com algum agrado, de que há cada vez mais adeptos a preencher as bancadas do nosso recinto, qual Estádio Diogo José Gomes nesse Sunday Bloody Sunday em que o Odivelas FC abateu, com um só tiro, o Salgueiros num duelo da Taça de Portugal. Serve a ilustração para registar uma curiosa analogia, entre o acréscimo de público e a emergência dos valores individuais no trato do esférico: tal como a sensacional façanha do modesto Odivelas FC foi meticulosamente orquestrada pelos pés de um homem cujo valor seria reconhecido anos mais tarde por esses relvados fora, Paulo Vida, também na agradecida Caderneta, coincidem os elogios e o aumento de visitas com a emergência dos mitos flavienses e a estreia a titular do virtuoso Rui Malheiro. De resto, o agradecimento às referências elogiosas e às palavras da massa associativa, que entre confusões de identidade e de heroísmos de anonimato (não o era também Kumba Ialá nos seus dois anos de futebol algarvio, afinal?), vai envergando com brio a camisola 12. E já a seguir, prossegue-se no porta-Chaves, com mais umas considerações sobre a escola luso-brasileira de comentarismo desportivo pelo meio. Ripa na rapaqueca.
sexta-feira, setembro 12, 2003
Só que o pior, o pior veio depois. Milinkovic decide abandonar a amada Chaves, rumando até território espanhol, criando um vazio na famosa e mítica posição "10". O filão "ex-jugoslavo" - expressão muito cara aos dirigentes portugueses nos 90's - era a solução desejada e a cassete milagrosa lá chegou às mãos de Álvaro Magalhães que lutava com unhas - ele até tem onze nas mãos - e dentes pela manutenção. Matic. Ivan Matic. O seu nome começado por "M", acabado em "ic", aproximava-o de MilinkovIC, assim como a sua respeitosa envergadura física (1,85/83), pois para "cérebros tarrecos" lá chegaria o tempo do ex-Celta, Carlos Alvarez. O sempre prestável presidente Luis Carneiro até terá mesmo confessado, a propósito da aquisição de Matic, que "este até tem um nome mais fácil de dizer que o outro". A camisola "10" estava entregue então a Ivan Matic, um ex-Hadjuk Split, mas pouco. Pouco? Pois, é que em Split poucos se lembrarão de o ter visto actuar com a camisola mais amada da mui bela cidade croata que viu nascer, em Abril de 1971, tão cerebral rebento. Infelizmente para as cores flavienses, cedo se percebeu que Matic, o Ivan no balneário, estava bem distante do Niko, o marido de uma campeã de basquete jugoslava. Matic até era canhoto, mas desde logo os "índios" flavienses começaram a usar expressões como "este é mais lento que a minha falecida avózinha". Que Deus a tenha em paz e sossego. Matic era defacto lento. Sem velocidade, sem chama e sem talento. Do seu pé esquerdo nem um golo saiu para amostra em duas temporadas e foi-se arrastando lentamente até à dispensa em direcção aos Açores, ao Operário. Mas operariado e Matic realmente não combinavam. Matic nunca foi homem de correr atrás da bola, mas, em abono da verdade, também nunca teve tempo para correr com a bola. Era tudo uma questão de desarme, de pressão e o bom do Matic lá ficava a ver os navios passar. Desconhecemos se terá regressado à sua Croácia de navio, no entanto, sabemos que andou a arrastar-se, pós-Operário, em clubes da dimensão de um NK Posusje e de um NK Marsonia, clube pelo qual - pasme-se! - apontou 4 golos, mas também deixou marcas do seu mau feitio, com alguns cartões vermelhos a serem-lhe exibidos. Esse facto ter-lhe-á valido a dispensa e, segundo o que conseguimos apurar, o bom do Ivan, aos 32 anos, anda a procurar clube. À atenção, é claro, de alguns clubes da 2ªB e 3ª Divisão portuguesas que ainda procurem um estrateg"ic".
Deixando o Almirante da Armada para depois, avançamos rumo a Milinkovic. Nikola Milinkovic, Nico para os amigos. Ide perguntar com brio por quem é que os forcados ribatejanos gritavam em êxtase na ida temporada do Alverca em 2000. Ide a Chaves, visitai os sábios vividos plantados à sombra de árvores centenárias e perguntai-lhes quem foi o maior armador de jogo que Trás-os-Montes viu até hoje. Ide às nevadas montanhas austríacas, ao Tirol, falar com os ultras do Graz AK, e perguntai-lhes quem é aquele imponente maestro de 1,90, forjado na Bósnia e amadurecido na bola portuguesa.
Nikola Milinkovic era um jogador como já não se vê. Mágico e repentino, sem ser nervoso ou demasiado mexido, 190 metro a acabar com o reinado do número 10 franzino e bailarino. Um número 10 que literalmente empurra a equipa para a frente. Uma técnica diabólica, de elevar o futebol ao nirvana. Um fiorde na marcação de penaltis. E um semblante oprimido, austero e anguloso, sofrido. Não era só na alegria floreada que Nikola contrastava com a horda de usurpadores ao trono dos registas. Milinkovic transportava com a bola, a mágoa da sua alma. Atentemos na sua carreira: tal como um Miguel Torga do desporto rei, construíu a sua carreira por regiões como Trás-os-Montes, ou a galiza profunda e semi-urbana de Ourense, ou a lezíria plácida ao largo de Alverca, ou as inóspitas fendas cravadas no maciço austríaco. Um bucólico traduzido num futebol directo mas desencantado, apaixonado pelo simples que se faz onírico. Visto de si, o relvado era a densa e cruel Twin Peaks, e os escassos golos resultavam sempre em comemorações fantasmagóricas. De facto, no seu estilo bipolar, que de tão supremo parecia por vezes um caso clínico, criava, aos olhos do espectador atento, a ilusão de que à sua volta, em campo, jogavam apenas fantasmas.
Notícia de última hora: É com celestial prazer e fruição indescritível que partilhamos com a comunidade cadernética que a missão do enviado especial a parte incerta redundou num estupendo sucesso. E é com essa alegria que podemos confirmar finalmente - A Caderneta da Bola viu, com os olhos que a terra há-de comer, o Cigano d'Oiro Pedro Miguel. Todas as provações físicas e metafísicas compensaram. O enviado especial chegou vivo ao Estádio do Amora e pôde assistir in loco e unplugged a um treino da formação alviceleste da margem Sul. Na verdade, esta descoberta epifânica foi fruto do acaso. Ao largo do Estádio, há um vulto distinto que se destaca do plantel. Os olhos fecham para reabrir completamente pasmados. Pedro Miguel e seus apóstolos. Claro que toda a verdade contém dor, Pedro Miguel cortou o cabelo e, por causa da sua coluna, já não joga tão hirto e panorâmico sobre o campo. Ainda assim, transpira carisma e a classe inconfundível dos grandes timoneiros. Faça-se a vénia: Deus fez-te a ti e depois partiu o molde, Pedro.
Mais uma vez somos obrigados a interromper mais um, pensamos nós, sumarento relato historiográfico para nos direccionarmos para a dissipação de dúvidas e insinuações que à volta da Caderneta têm gravitado por essa blogoesfera fora.
No blog Alegria do Povo (http://alegriadopovo.blogspot.com/) foram tecidas considerações que, não só por serem infudadas, não deixam de provocar no seio da Caderneta algum desconforto.
Afirmamos desde já, sem reservas, que não somos os autores do "cautchú" do jornal "A Bola". Esses respeitaveis senhores, sem dúvida nenhuma grandes promessas da bola humurística, chegaram mesmo a treinar à experiência na Academia Caderneta XXII, não tendo no entanto convencido os responsáveis técnicos encarregados da capatação de jovens talentos que consideraram o que plantel já se encontrava fechado.
Desejamos, como o desejámos aquando da sua partida, as maiores felicidades às pessoas em questão, que consideramos irmãos nesta penosa cruzada materializada na primordial urgência de provar ao mundo que Gil tinha 20 anos no Mundial de sub-20 de 91.
terça-feira, setembro 09, 2003
Finda por ora o périplo pela defensiva flaviense, não sem antes uma palavra de apreço a dois homens que em muito contribuíram para o Chaves ser aquilo que é hoje. São eles Patrick - não confundir com o médio Patrick Vaz (rebento de cópula luso-francesa, a outra face, figurativamente falando, claro, de uma moeda boavisteira chamada Quevedo) - e Vinagre. Estes dois jogadores 'eternamente jovens' foram e serão os expoentes da vaga de laterais rápidos que um dia pôs fim ao primado de stoppers fecha-bem-a-ala de fidalgos como Amarildo, por exemplo. Para estes dois, o campo adversário era sempre a descer, como quem desce a serra do Marão de bicicleta, ou como quem aprende a conduzir no IP5, quando vai dar passeios ao Sul.
Enfim, como o tempo não existe, também não é a propósito destes dois bravos rapazes que o vamos inventar. Até porque adiante vem o Almirante Toniño, centro-campista e estratega de proa na Invencível Armada Espanhola que em tempos dominou airosa a terra Chaves.
Prosseguindo na flávia odisseia, eis-nos defronte de Parfait N'Dong. Excelso sapador gabonês, este portento é o protótipo do 'homem sem passado'. Nem a companhia, nunca confirmada além dos confins dos cafés do interior e do peão dos estádios secundários, do seu irmão N'Zé N'Dong ajuda a conferir a N'Dong (denominado em diversas sedes como apenas Parfait, numa curiosa acepção francófona do seu estilo de jogo) um carácter familiar, próximo, duradouro no tempo, uma carreira, até uma família, que certamente a terá. 'Homem sem passado' porque mesmo uma aturada busca nos registos cadernéticos é escassa para traçar a Parfait um percurso que vá além de 4 clubes em Portugal, o mais eminente dos quais o nosso GDC. 'Homem sem passado' porque Parfait N'Dong pura e simplesmente apareceu. Não veio de um clube, não granjeou uma fama de qualquer espécie, nada. Apareceu. Talvez fosse boa ideia inquirir os dirigentes do Amora que com ele assinaram contrato, no vetusto ano de 1994. Nessa época, o Shaka Zulu da Retranca alinhou em 21 jogos de camisola azul, manchando o prémio da montanha com uns indisputáveis 11 cartões amarelos e 1 vermelho. Em Novembro de 1995 assina pelo Maia, vergando os ímpetos à insustentável leveza da tutela de Vieira de Carvalho. Os 6 cartões amarelos em 22 jogos são afinal, a prova da brandura crescente. É depois da Maia que o guerreiro chega a Chaves. Em Chaves, caros leitores, Parfait faz 17 jogos em 2 épocas na 1ª Divisão. 9 cartões amarelos, ao todo. 17 jogos e a imortalidade no panteão flaviense aqui erigido? Mas por que carrinho a pés juntos é que alguém se lembra disto? Simples. O Chaves é, como Parfait, um clube cuja história pública é marcada pelo vazio, pelos hiatos. Também o Chaves, como Parfait, parece não existir quando não está no escalão principal ou a jogar contra um grande na Taça de Portugal. Também o Chaves encerra na sua tumba futebolística tesouros e mistérios, fantasistas bipolares como Milinkovic, heróis de pé face aos vendavais da bola como Paulo Alexandre, máquinas goleadoras como Matute. Uma tumba obscura e por resgatar, escondida como o Gabão se esconde atrás de um continente aos olhos portugueses.
Parfait, longe de ser perfeito, era um garboso defensor. Um 'homem sem passado' (e cujo futuro foi, depois de Chaves, o Penafiel e depois a penumbra, de novo) não tem nada a perder e N'Dong nunca perdia nada além dos jogos e dos rins, de vez em quando. Um jogador duríssimo, inexpressivo, um toque de bola que a impiedosa escola de comentaristas lusitrastes se habituou a alcunhar de exótico (com toda a carga etnocêntrica que lhe subjaz) e, no entanto, um retrato fiel de toda a história de um clube. Uma história que, mesmo aos olhos dos homens que fazem esse mesmo clube, ele não tem. E no entanto, não é preciso grande esforço para recordar a absoluta e ingénua ausência de medo neste defensor, e perceber rapidamente como, apesar do espécimen ser um jogador vulgar, constituir esse um dos traços mais raros da bola actual.
quarta-feira, agosto 27, 2003
Um interregno na saga do Chaves (estão avisados: o defesa que se segue é Parfait N'Dong) para uma entrada do Dicionário Português-Futebolês há muito em congeminação mas agora tornada imprescindível pela menção num e-mail recebido recentemente.
C para "Carregador de Piano".
Expressão imortalizada no léxico comentarista mas, de tão rebuscada e ilustrativa, decerto amplamente utilizada em palestras de balneário por esse Portugal fora. Estamos em crer que a expressão remonta ao tempo em que o piano era um instrumento central em qualquer soirée artística digna desse nome. Ainda hoje o solista ou colectivo orquestral conserva os louros da fruição pública, mas cabe ao carregador do piano a árdua tarefa de proporcionar as condições para que a magia aconteça. Por outras palavras, se não fosse o carregador de piano a (passe a redundância) carregar o piano, escada acima, num trabalho de simultânea força, perícia e sobriedade, nunca o artista poderia dar ao mundo um pedaço de si mesmo.
Voltando à bola, se não fôr o sapador de meio-campo a recuperar, constante e no limiar da invisibilidade, as bolas posteriormente bombeadas para as alas de onde saiem os cruzamentos ou desmarcações para o número 10 ou para o ponta-de-lança carimbar os corações dos adeptos de glória, poucas vezes todos nós conheceríamos o travo doce da mesma.
O "carregador de piano" é assim o centrocampista cuja função maior é estar em todo o lado e carregar a equipa, por assim dizer o piano, para a frente. Este carregar não é só o mero recuperar de bola para lançar a jogada. É também um complexo processo psicológico de potenciar motivação, empolgar os adeptos mas fazê-lo a dançar no paradoxo de não ser, ao mesmo tempo, o centro ou o culminar desse trabalho.
O bom "carregador de piano" transporta a equipa recuperando bolas, dobrando companheiros, abrindo espaços à subida do central ou à penetração dos médios ofensivos, lateralizando jogo e, ao mesmo tempo, incentivando, gesticulando, filtrando no campo as orientações tácticas vociferadas no banco.
Está claro que, dada a multiplicidade de funções e o requisito de qualidade e ubiquidade, a existência de "carregadores de piano" rareia no futebol luso de hoje em dia. Tanto que a própria expressão tem vindo a ser gradualmente ofuscada por outras de significado similar mas de alcance e profundidade claramente inferior, como é o caso de "jogador box-to-box" (e aqui, Gabriel Alves e a escola Sport TV assumem particular preponderância, num movimento de contornos quase escolásticos contra o monopólio vocabolar e aforístico da rádio).
A qualidade e o estatuto do "carregador de piano" também dependem do colectivo em que o jogador joga. Nos grandes, algumas referências por demais evidentes são os casos de Semedo e Douglas, no FCP e SCP, respectivamente, mas outros ilustram com maior amplitude a formulação idiomática, casos de Bobó no Boavista (o tal jogador citado no e-mail recebido) ou N'Dinga no Vitória de Guimarães. Ambos exemplos de uma força inexcedível, de um carisma intocável, de uma técnica que, não sendo basta, bastou, isso sim, para passar a bola, em boas condições e com todo o fulgar, a outros mais dotados, como Timofte no Bessa ou o tunisino Ziad, o astro magrebino da cidade-berço, o Ali Babá das 40 Assistências.
A emergência deste tipo de figuras no futebol português (e, sobretudo, na leitura comentada do futebol português) deve-se, a nosso ver, a dois factores: o primeiro é o facto de nunca ter sido desenvolvido de um modo próprio cá no burgo o estilo de jogo cunhado na Holanda por Rinus Michels, o 'futebol total', em que todo o jogador estaria virtualmente preparado para ocupar qualquer posição no terreno, apesar de especializado na sua posição específica. A dicotomia entre a técnica e a força (sempre ela, uma vez mais) segregou, durante largos anos, os tecnicistas dos jogadores duros, sendo o "carregador de piano" uma espécie de mediador diplomático entre as duas facções, responsável, em boa medida, pela paz na relva e glória nas balizas.
O segundo factor é a propensão nativa para a produção de anti-heróis na sombra dos ídolos, plastificados e nascidos já em apogeu e com pés de barro prontos a partir. O goleador da bola é idolatrado e exige-lhe-se, por assim dizer, o circo. Ao "carregador de piano" exige-se o pão, e a ele devolve-se o respeito. Daí o segundo nunca cair em desgraça, daí ser ele escassas vezes apontado como o responsável pelo falhanço da sinfonia.
Fazendo a ponte com o Chaves, e reforçando a tese do post anterior, Toniño era um homem assim.
quarta-feira, agosto 13, 2003
Um pequeno parêntesis à laia de glossário: o catenaccio transmontano. Desenho táctico desenvolvido por António Jesus e continuado depois pelo trainador-comentarista Vítor Manuel, assenta, até ao meio campo ofensivo, numa formação com dois laterais rápidos, dois centrais de marcação, um líbero a marcar à zona que também sobe para trinco, e ainda um outro trinco que subia no contra-ataque. Esta última era a posição ocupada pelo mítico centrocampista castelhano Toniño, homem de palavras brandas e pontapé fortíssimo. Caríssimos, se algum dia lerem que Toniño era número 10, fazei, por favor, orelhas moucas a tais ignomínias. Havemos de chegar a Toniño e dealbar toda esta historieta, esta advertência prévia é só para os mais incautos. Acrescente-se que, tanto era assim, que o substituto de Toniño no Chaves, o também espanhol Carlos Alvarez, já tinha um estilo de jogo cuja adequação a este lugar táctico não deixa margem para dúvidas (vide trabalho posterior do mesmo no Vitória de Guimarães).
Depois de Manuel Correia, a senda dos históricos Defensores de Chaves prossegue até Paulo Alexandre. Esta natural de Vilarelho da Raia, onde nasceu em 1970, joga no Desportivo de Chaves (dizemos joga porque alinhou ainda esta época que findou em Junho, e com a braçadeira de capitão) desde – abrir a boca de espanto, por favor – 1983, com apenas uma época de interregno (99-00), em que alinhou pelo Desportivo das Aves. Caso para dizer que, em 20 anos de carreira futebolística, o grande Paulo Alexandre, apenas deixou cair o “Ch” durante um deles. Afinal, até o clube no qual resolveu desanuviar do Marão se chama Desportivo e acaba em Aves.
Adiante. Em 1983 começa a jogar nos iniciados, fazendo a sua primeira época de sénior em 1989-1990. Os anos 80 foram portanto passados na pardacenta cidade transmontana a jogar na cantera chavista.
Definimo-lo anteriormente como um central que gosta de subir e marcar uns golos. Há que explicitar melhor esta afirmação. Na realidade, ao longo destes anos, Paulo Alexandre não marcou, pelo Chaves, mais do que 10 golos. No entanto, e tendo em conta que é jogador e defesa do Desportivo de Chaves, essa meta chega para caracterizá-lo como um central que marca alguns golos. Até porque, um dos pontos fortes deste jogador, mais ainda do que a característica “saber sair a jogar” (tanto quanto é possível no catenaccio transmontano) era o jogo aéreo. No rigor dos conceitos, Paulo Alexandre tanto era exímio no cabeceamento como no ocasional alheamento completo do fluir do jogo e consequente criação de espaços vazios à mercê do intruso adversário (uma postura, por si mesma, aérea, uma vez mais).
As estatísticas, no entanto, falam por si: de 1990 a 2001, nunca menos de 17 jogos por época. Seja a companhia Manuel Correia, Amarildo, Carvalhal, Parfait N’Dong, Correia, Luisão, Auri ou Jorge Neves (para citar apenas alguns), Paulo Alexandre estava lá, a segurar e a marcar, como central de marcação que era e é, o ponta de lança adversário.
As crónicas descrevem-no como sólido, um jogador com personalidade. Numa comparação aparentemente algo desfasada, imaginem, os que não o recordam, um Helguera arraçado de Jorge Soares. Algures, no mesclar de memórias futebolísticas, encontrarão o vosso, que também é nosso, homem. Agora, vira o jogo.
segunda-feira, agosto 11, 2003
Antes de falar dos defesas do Barça do Marão, uma palavra de solidariedade a esses esmerados operários, pelos duríssimos momentos em que, antes da partida, o treinador anunciava qual o guarda-redes que a pandilha ia ter atrás de si. Imaginamos os suores frios de Amarildo, as temporas latejantes de Paulo Alexandre ou os tremores contínuos nos joelhos do jovem Vinagre. E o perverso desta situação é que, durante algum tempo, o treinador dos flavienses foi, ironicamente, um ex-guarda-redes do Chaves, o tutelar e já mítico António Jesus.
Depois do gesto de solidariedade, o abraço sentido, não podemos senão continuar, e continuar num caminho espinhoso que nos obrigarão a alguns comentários menos bonitos sobre a zaga transmontana.
Já aqui falámos do catenaccio transmontano. Pode pensar-se, a partir desta expressão, que Chaves foi, duravelmente, um feudo impenetrável de defesas rudes, grosseiros no trato e no expôr do futebol, agressivos e de uma violência quase patológica na lida com o adversário. Não. É certo que vestiram aquela camisola, alguns exemplares dessa espécie, como é o caso de Luisão, o brasileiro que foi infeliz protagonista de momentos quase criminais, ou mesmo o central ex-Guimarães Auri, remanescente de uma época de ouro em que, na cidade-berço, pululavam senhores de um futebol monstruoso como Márcio Theodoro ou Arley (este íltimo um interessantíssimo case-study forense). Em Chaves, não era tanto assim. Aliás, a 'linha recuada' (mais um termo do futebolês que será tratado a seu tempo) flaviense sempre aliou o central cerebral (caso de Manuel Correia, o eterno capitão), o defesa central que gosta de subir e chega a marcar uns golos (caso de Paulo Alexandre), o central sombra de marcação, violento (caso de Parfait N'Dong ou o, hoje treinador esperança, ontem stopper de respeito, Carlos Carvalhal) e também o central rápido e razoavelmente móvel ao longo de toda a linha defensiva (caso de Amarildo). Comum a todos eles, um denominador: a raça. Todos eles eram jogadores raçudos. Essa coisa do saber jogar à bola deve ser entregue a quem joga mais à frente, terão pensado os responsáveis flavienses.
Destes vários nomes, destacam-se Manuel Correia, Paulo Alexandre e Parfait N'Dong.
Manuel Correia é, sem dúvida, a referência maior. A este nativo do Seixal não pode assentar outro epíteto que não o de patrão da defesa transmontana. Atentem: de 1989 a 1996, ano em que arrumou as chuteiras, fez mais de 250 jogos com a camisola do Desportivo de Chaves. Foram 7 anos de temporadas consecutivas acima dos 30 jogos por época e, numa equipa periclitante entre a 1a e a 2a, quantos cartões vermelhos, perguntam vocês? Um, e apenas um, e podemos afiançar que o primeiro amarelo nesse jogo foi mal mostrado ("não houve contacto!!"). Um defesa cerebral (prova disso é o bigode, sólido sem ser pesado, cuidado sem ser obsessivo), com um sentido posicional absolutamente assombroso, impressionando, por vezes, com uma invulgar capacidade de recriar a ubiquidade no relvado. Era, além disso, o pedagogo, o mestre em quem os novos bebiam referências sobre como estar e fazer jogar no Municipal de Chaves. E é, por fim, curioso, que tanta experiência tenha sido ganha numa carreira em que passou por tão poucos clubes desde os iniciados, a saber, o Seixal, o Sporting (como juvenil), o Elvas, o Vizela e o Penafiel, até chegar em 1989 a Chaves. Nunca deu o salto para um grande injustamente, ainda para mais se atendermos a equívocos como Lula ou o central Marcos, por exemplo. Manuel Correia grava o nome numa outra dimensão, a do bom futebol obscuro e sobrevivente apenas nos cadernos e nas congeminações dos mais atentos. Vale a pena relembrá-lo.
Importa aqui dizer que esta abordagem ao Desportivo de Chaves refere-se, sobretudo, aos anos que vão de 94 a 98, a Idade de Ouro do futebol do Marão, essa época de pendor quase renascentista nessa cidade Condal à beira-Espanha plantada.
E nesses anos, Bastón não guardou para si o título exclusivo de guarda-redes bigger than life. Há outros dois nomes que importa recuperar. É curioso reparar que neste lote de três guarda-redes, registamos uma espécie de reflexo de três escolas futebolísticas, as que têm marcado mais decisivamente a história do desportivo de chaves. Um espanhol, Bastón, um balcânico, Poleksic, e um português, Luís Vasco. Os mais atentos dirão "sim, mas «e a escola africana?!»". É verdade, concordamos. Não ignorar o peso desse paradigma futebolístico que trouxe a Trás-os-Montes esse diamante negro chamado N'Tsunda ou os impiedosos irmãos gaboneses Parfait e N'Zé N'Dong, citando apenas alguns. Ou mesmo os brasileiros, em que o expoente máximo é esse homem sem pescoço que um dia foi engatado por Sousa Cintra, Edinho.
Voltando às redes, cada qual representa algo de muito específico na história do Chaves. O que vale é que nós aqui não damos respostas, levantamos sim à História as questões que interessam. Adiante.
Luís Vasco. O protótipo do 3ª guarda-redes, essa raça maldita de sujeitos que, vivendo e abastecendo-se da experiência profissional da alta-roda do desporto, não ganham nem mediatismo nem progressão de carreira, nem tão-pouco aquela notoriedade que permite depois fazer escola no comentarismo ou na restauração.
Homem grande e anguloso mas de ternos caracóis castanhos, também veio provar que um guarda-redes precisa de mais do que ser alto, forte e espadaúdo para vingar. Jogou no Sporting (onde não conseguiu tirar a titularidade a Zoran Lemajic por mais de 10 jogos, o que já diz bastante, tanto de si como do Sporting daqueles tempos) e no Estrela da Amadora, cujas balizas, depois do belga Guy Hubart e Vital, nunca mais foram as mesmas.
De seguida, Dragoslav Poleksic. Atentem, caríssimos, no padrão. De onde veio Poleksic? Da Segunda Divisão jugoslava, mais propriamente do Hadjuk Kula. Palpite: ou há empresário obscuro à mistura, ou o director desportivo do GDC tem uma casinha de campo e um par de bisavôs à beira do Adriático. Poleksic, hoje com 34 anos, fez 8 jogos, mal repartidos por 2 épocas, até rumar a Campo Maior, onde fez 31 jogos em 3 épocas de 1ª divisão. Pouco mais terá retirado da sua experiência no futebol luso do que umas tardes à volta da sericaia, o café delta, e um português mais perfeito do que o de muitos nativos. Da sua aptidão para a bola, uma vez mais, não reza a história. Alto, tosco e bonacheirão, não era líder nem carrasco, não enterrava nem deixava de sofrer. Pouco mais há a dizer, na linha desse interessante paradoxo que vai marcando a genealogia do futebol português: tanto jogador, tanta diversidade, tão pouco espectáculo. Perdoem-nos a amargura, não é todos os dias que tropeçamos num Jorge Plácido ou num Caccioli.
O Grupo Desportivo de Chaves, essa agremiação recôndita que encanta o mundo a partir das profundezas da serra do Marão, é um manancial quase inesgotável de histórias e episódios e factóides. A convulsão desportiva e as consecutivas condenações e salvações in extremis espelham toda uma maneira colectiva de lidar com o sucesso no Portugal profundo. A torrente de contratações na exploração desalmada do futebol de leste, a busca da quimera do outro distante, aliada ao fascínio da liga espanhola. O relvado maltratado e a imagem do semi-amadorismo aliada ao fantástico equipamento blaugrana, projectando Trás-os-Montes como Catalunha. E, claro, aquilo que nos traz: os intérpretes de tantas e magníficas sinfonias tanto do mais puro contra-ataque de midtable como do salutar catenaccio transmontano, essa feijoada de cartões amarelos, lesões no menisco e outras inventadas para segurar o zero-zero.
E que intérpretes, desde o mais solícito 'carregador de piano' (termo a abordar breve e futuramente na categoria do Dicionário Português-Futebolês) até ao mais excelso e ímpar solista vagabundo.
Comecemos pelo princípio. No princípio está a baliza. E na baliza, obviamente, está Bastón.
Bastón, oriundo de terras de Leão e Castela, chegou a um Chaves recém-promovido na época de 94-95, vindo do Rugby de Burgos, um clube obscuro com ligações universitárias. Tendo ganho rapidamente a notoriedade, ganhou também a discussão existencial que muitos adeptos foram travando na introspecção dos seus lares, estabelecendo o axioma: sim, é possível ser completamente inapto para desempenhar o papel de guarda-redes e, mesmo num plantel que conta com mais dois, jogar quase a época inteira num campeonato profissional europeu. Mas não sejamos demasiado duros: a verdade é que Bastón, não bastando já chamar-se Bastón, deixou uma simpática villa castillana com historial académico para se estabelecer em Chaves e discutir a titularidade com Silvino (ex-Famalicão, notabilizado nas artes do goleiro, apesar do seu 1,72m e 66 kgs, ao serviço do 'hoje e sempre' Sporting de Espinho) e com Orlando (de quem não rezam grandes crónicas flavienses, como aliás acontece geralmente com os 3os guarda-redes). E também é verdade que chegou a fazer algumas boas exibições com a camisola do GDC vestida. Porém, a lentidão nas saídas da baliza, uma atroz falta de intuição e colocação nos cruzamentos e uma insegurança quase neurótica nos remates de longe, fizeram dele uma lenda dos aviários futebolísticos. Mantém o risco ao lado e tira uma licenciatura, Chaves não é para ti, Bastón.
Agora sim. O centrocampista levanta a cabeça com a redondinha colada ao pé direito. Dá dois... três passos... não mais. Percorre o relvado com os olhos numa diagonal à procura do jovem avançado a desmarcar toda a uma carreira de sucesso na europa para marcar o golo. Não. Continua a correr, passa por um. O jovem avançado que espere. Tem do outro lado o velho companheiro da 2ª divisão a abrir a linha para o passe a rasgar. Não. Tem mais um defesa pela frente e, a três palmos, a linha limite da grande área. O jovem avançado grita mas o ruído, o som das bancadas, é uma massa imperceptível. É o ponto de não retorno. Pontapé-canhão. Já está: senhoras e senhores, o Grupo Desportivo de Chaves, o golo de bandeira com mais anos do futebol português.
quinta-feira, julho 31, 2003
Com meia Caderneta ainda em treino condicionado (impedida portanto de alinhar com o onze titular na mui ansiada deslocação a Chaves), avança-se aqui para um singelo naco de prosa em honra de um dos melhores centrocampistas portugueses de todos os tempos. Atenção: não é laracha, é um memorial à carreira de um dos mais virtuosos artistas por quem a relva portuguesa teve o deleite de ser pisada. Trata-se, objectivamente, de um futebolista de craveira internacional e, sem qualquer sombra de dúvidas, de um homem que na Caderneta ocupa um dos lugares cimeiros no ranking das preferências.
Jorge Plácido.
A pouco menos de um ano de completar 40 aniversários, merece as nossas palavras por vários motivos. Primeiro, a qualidade estelar do seu futebol. A fineza no trato, a raça na abordagem, o arquétipo do número 10, uma vez mais (e perdoem-nos a queda para este tipo de atletas) um artista polivalente e multi-instrumentista. Segundo, o palmarés impressionante para um astro tanto capaz de vencer uma Supertaça europeia ao serviço do Futebol Clube do Porto como carregar o Salgueiros às costas na heróica eliminatória da Taça UEFA de 90-91 contra o Cannes. Literalmente um franco-atirador em várias frentes, mas já lá vamos.
Agora os factos: nasce em Luanda, começa a carreira no Barreirense, continua na margem sul ao serviço do Amora e, depois, do Vitória de Setúbal quando, em 86-87, emigra para Chaves (vêem como o GDC está sempre presente?). Em Chaves, alinha provavelmente no melhor plantel de sempre do clube, onde é o maestro por trás dos solistas sangrentos Jorge Silva e Rady, numa cruzada que termina no 5º posto e no acesso à Taça UEFA. Acabado de rotular como uma jogador interessantíssimo e a seguir atentamente, ingressa, fruto da excelente prestação transmontana, no Futebol Clube do Porto, em 87-88. Cremos aqui que esta época dispensa comentários, no que concerne à prestação dos azuis e brancos. Faça-se, isso sim, a vénia a Jorge Bravo Plácido. No início da época seguinte ainda arranja tempo de fazer uma perninha na Supertaça Europeia contra o Ajax, que vence, e segue depois Artur Jorge para o já extinto Matra Racing, esse funesto cabaret da bola parisiense, de existência fugaz mas intensa.
No Matra, Plácido faz dois jogos mas prossegue para época seguinte, podendo orgulhar-se de alinhar num clube que mudou de nome durante a sua estadia. O Matra, na viragem dos 80 para os 90 (miserável efeméride, essa), passa a chamar-se Racing Paris I, mudando também o nosso homem para o "suplente que agora alinha quase a época toda e, apesar de não levar o clube além do 19º lugar da liga francesa, condu-lo bravamente à final da Taça". No final desse ano, regressa à casa das Antas onde o seu futebol é incompreendido e desrespeitado, apesar de contribuir para a vitória na Taça de Portugal. Não contente com isso, mas sofrendo de uma inexpugnável ligação à Invicta, ingressa no Salgueiros onde torna a ser o Hamlet dessa enorme tragédia chamada futebol português. É nesse ano que o Salgueiros, na sua primeira participação na Taça UEFA, consegue vencer o jogo da primeira mão frente ao Cannes numa excelente partida iluminada pelo génio de Plácido, autor do único golo, e quase passa a eliminatória, não fosse um golo de Oman-Biyik (internacional camaronês e mundialista em 90) aos 85 minutos e a malapata na lotaria dos penalties. Registe-se que o feito do Salgueiros foi apenas ofuscado por uma colossal eliminação do Inter de Milão pelo Boavista, com uma eliminatória garantida na primeira mão por um 2-1 de Marlon Brandão e Pedro Barny.
Enfim, Jorge Plácido fica mais uma época no Salgueiros onde continua a brilhar, embora um pouco abaixo da temporada transacta e, em 93, parte de novo rumo à France para jogar no Créteil. No Créteil fica uma época até viajar, encore par l'autoroute, até aos arrabaldes da Cidade Luz. O destino era os Lusitanos de Saint-Maur, à altura uma desconhecida equipa de emigrantes saudosos da bola lusa (com tudo o que isso tem de tenebroso). Entre 94 e 97, altura do primeiro período Saint-Mauriano de Plácido, o clube passa de um grupito de solteiros e casados com sotaque entre o français e o minhoto que joga nos (equivalentes a) distritais a clube irredutível capitaneado pelo craque campeão europeu que já anda ali entre os distritais e (equivalente a) terceira divisão. Segue-se uma curta paragem de uma época no Saint-Denis-Sains-Leû e o regresso, logo de seguida, aos Lusitanos em 1998, onde alinha até ascender ao posto de treinador principal em 2000. Note-se que por esta altura, ou kuíca [ver significado do termo num post de glossário por ora em arquivos cadernéticos] um pouco mais tarde, que os Lusitanos cometeram a proeza de chegar aos quartos de final da Taça Francesa onde defrontaram com brio o Bordéus.
Como cereja no topo do bolo, falta acrescentar que este sacerdote das jogadas sagradas vestiu a camisola das quinas por 3 ocasiões tendo facturado 2 golos com a mesma no corpo.
Reverência, caríssimos, reverência. Não se trata de um qualquer parodiante de alma vendida ao diabo na encruzilhada do defeso, não se trata de um pantomineiro que promete mais do que dá, antes de um Homem cuja quimera era a auto-superação, o atingir do inominável (vide Chaves na Taça UEFA, por exemplo). Sem a tentação da carne ou das liras ou das libras ou das pesetas, o sucesso, isso sim, trazido a quem nunca o tinha conhecido, a partilha honesta da magia com quem até ali vivia no mundo enfadonho e obscurantista da bola sem cor.
Ao leitor ou leitora que acaba de ler este post tomando-o por uma ode a Jorge Plácido, desengane-se: Jorge Plácido é ele, sim, uma ode a si, amante de futebol.
quarta-feira, julho 30, 2003
A Caderneta da Bola investiu no estádio e agora os espectadores passam a contar com um sistema de comentários para uso e desfruto desenfreado. Quem aprecia, ama e, sobretudo, respeita a boa bola sabe que um bom desafio não passa sem o salto na cadeira e o vociferar de espanto, êxtase ou desgosto. Foi a pensar nisso que instalámos o aparelho.
terça-feira, julho 29, 2003
Já por diversas vezes o, por ora, duo cadernético efectuou incursões no estimulante universo dos artistas profissionais na arte da bola falada, cada qual com particularidades absolutamente inconfundíveis para o observador amante do desporto-rei, particularidades essas que se assumem verdadeiramente como a pitada de sal naquilo a que os não crentes designam normalmente de “onze gajos a correr atrás duma bola”.
A esses pobres de espírito irremediavelmente presos num deserto de ignorância, dizemos: Acordem! Reparem no que vos passou ao lado!
Nunca vibraram deliciados com um grito de golo de Cinha Jardim num jogo de pré-época entre o Benfica e o PAOK de Salonika aquando de um cabeçeamento de Nuno Gomes que passou 5 metros acima da barra.
Nunca sentiram vossos tímpanos estremecer de prazer ao saborear o timbre e, sobretudo, a pronúncia exímia de José Nicolau de Melo ao referir jogadores estrangeiros que nunca ninguém teve a certeza como se pronunciavam, tendo a certeza que, se Mestre Nicolau o disse de dada forma, é essa a forma correcta!
Nunca ficaram absolutamente deprimidos com a vossa pequenez perante um guru como Gabriel Alves, enquanto este num discurso ensopado de emoção, vai produzindo pérolas como “fino recorte técnico”, “passe a rasgar” ou o internacionalmente conhecido: “a força da técnica contra a técnica da força”.
Ai... (suspiro)
Adiante...
Este post é dedicado a uma personagem que merece ser lembrada. Não terá contribuído da mesma forma que Mestre Nicolau ou o Guru Alves para o robustecimento do futebolês, porém, a existência dos episódios abaixo referidos ao longo da trajectória deste comentador justifica a sua análise enquanto mais um cromo desta Caderneta.
Seu nome... José Eduardo.
A primeira nota vai para a pouca consistência que a sua colocação no grupo “comentadores” poderá ter. Afinal, este homem já teve diversos ofícios... senão vejamos...
Em primeiro lugar exerceu o mais nobre ofício de todos, foi jogador de futebol. Porém nunca foi além de um jogador mediano... tipo aqueles “Satisfaz +” do nono ano. Dava para o que era preciso, mas era pouco. Mesmo assim teve uma carreira recheada de momentos assinaláveis, como por exemplo o título de campeão nacional ao serviço do Sporting CP em 1981, e a célebre entrada a matar em que trucida a perna a Jordão, ”A Gazela Africana”, e manda o internacional português para a box durante alguns meses.
Uns anos mais tarde e depois de encerrada a sua carreira futebolística, José Eduardo passa para o domínio da bola falada, onde durante uns curtos anos se consolida como protagonista de charneira nesta difícil e exigente arte.
Durante este período, há a reter, mais do que o seu desempenho aquando do comentário em directo ao jogo, os programas de debate desportivo em que participou. Recordo o seu jeito pedagógico no Jogo Falado enquanto dançava com seu ponteiro prateado em frente ao ecrã que mostrava a “disposição táctica” das várias equipas, ou então, no mesmo programa, uma acesa discussão (“troca de ideias” dirá provavelmente José Eduardo) com o treinador Manuel José relacionada com os aspectos tácticos do União de Leiria (seria?), formação por ele treinada na altura.
Porém, o seu momento do glória televisivo aconteceu nessa instituição chamada Domingo Desportivo. Alguém na RTP decidiu dar cinco minutos semanais no final do DD para José Eduardo ensinar os vários aspectos técnicos do jogo. A “tabelinha”, o “drible”, o “carrinho”, entre outros. Numa dessas aulas dadas por este catedrático da bola, José Eduardo explica em quem o quiser ouvir como se faz um “bloqueio”, “gesto técnico” que possibilita a um jogador, ao colocar o seu corpo entre o adversário e a bola, manter a posse desta. Aquilo que eu retive e guardei em minha memória foi um delicioso momento no final desta aula que passo a descrever:
Imaginem José Edurado num qualquer jardim lisboeta, vestindo uma camisa kuíca Cortefiel e segurando o casaco ao ombro com um dedo apenas, de óculos escuros, qual Martini Man. Eis quando no olhar deste homem da bola se cruza uma mulher deliciada com os raios de sol que enfeitam o cenário. Ao reparar em José Eduardo, a donzela deixa escapar um suave sorriso. Este aproveita a deixa para se aproximar da senhora com um andar ritmado e confiante e quando se encontra já perto do seu objectivo, é interceptado por um outro homem que se coloca entre ele e a senhora. Imediatamente a seguir a este empolgante momento, José Eduardo tira os óculos, fita a câmara nos olhos e solta a bomba: “Porém, há outro bloqueios que não ajudam nada...”. Mas que glorioso momento televisivo...
Passado uns tempos, José Eduardo deixa de fazer parte dos planos da RTP. “Rotação normal de comentadores” disse a direcção da estação pública, “decisão política” disse o comentador. Segundo José Eduardo, o seu afastamento da RTP prendeu-se com uma decisão do Presidente Pinto da Costa que, através da Olivedesportos pressionou a estação pública para o afastar, uma vez que, acreditava o comentador, estaria a ser demasiado incómodo para o “sistema instalado”. Aqui na Caderneta temos dúvidas relativamente a qual das versões será a verdadeira e pedimos aos nossos leitores que partilhem conosco suas teses, porém, manifstamos a nossa inclinação para a tese avançada por José Eduardo. As suas aguçadas análises tácticas à segunda-feira no Jogo Falado eram passíveis de mandar pelos ares toda a estrutura de poder do futebol português. Há quem diga que o comentador se preparava para apresentar uma peça em que defendia a utilização de Rui Dolores à esquerda! Como poderiam o Presidente Pinto da Costa, o Major Valentim e sus muchachos sobreviver no poder depois da verdade ser revelada às massas?!?
Depois da sua saída pela porta do cavalo da RTP assistitu-se a um declínio acentuado na sua carreira que foi, em poucos meses, de comentador de futebol residente, a proprietário da empresa de catering que operará no novo Alvalade XXI, ofício que presentemente exerce.
Assim como o fizemos aquando da recordação de José Nicolau de Melo, o fazemos neste post em que recordamos José Eduardo. Apelamos à SportTV que seja arrojada e ambiciosa na contratação de comentadores para a época que vem aí. José Eduardo seria uma exelente aposta. Um comentador polivalente, arrojado, sem medo de treinadores com 1,80m e com peito forte para aguentar a perseguição do sistema déspota que vigora no futebol português.
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