Historiografia, narrativas e estatísticas de figuras e episódios lendários da bola, essa arte geométrica. Envia-nos mail para a.caderneta.da.bola@gmail.com .
sexta-feira, setembro 26, 2003
Após uma breve pausa na Cruzada Flaviense, helas Toniño. Porque não apelidá-lo de Comandante da Armada? Centro-campista sem grande poderio físico, era no entanto o verdadeiro timoneiro da nau do Marão e por quem os adeptos flavienses não deixavam de sentir uma reverência inabalável. Quando o extremo adversário deixava por terra Vinagre, lá vinha ele, num carrinho esforçado junto à linha lateral fazendo levantar as bancadas do Municipal e evitando, sem o saber, uns quantos ataques cardíacos nos tiffosi transmontanos. Este basco defendia as cores do Chaves como se disso dependesse a autonomia da região que o viu nascer, e fazia-o de uma forma que deveria servir de exemplo aos jovens centro-campistas do miolo, de uma forma abnegada, altruísta, recusando qualquer tipo de protagonismo. Era aquele tipo de jogador discreto, por vezes nem se dava por ele, fazendo o trabalho invisível, de marcação no meio-campo e de corte de linhas de passe. Era ele que dobrava os devaneios driblísticos de Milinkovic ou de Paulo Henrique que, em irresponsáveis subidas, comprometiam a robustez táctica da equipa. Aliado a isto tudo, tinhamos como anexo um poderosíssimo pontapé de longa distância. Talvez não ao nível de um Heitor, mas também capaz de causar sérios danos na integridade física de quem se encontrasse na trajectória da bola. Este estilo de jogo foi refinado ao longo de vários anos na cantera do Athletic Bilbao. O comunitarismo calculista e a rebeldia contida e permanente encerram toda uma postura marcadamente regional. Toniño porém, na sua polivalência silenciosa, stranger in a strange land como era Chaves perante o seu carisma, transportava o grupo para aquele patamar de jogo em que se distinguem os conjuntos de homens das equipas entrosadas, chamando a si o papel da referência. Não a referência técnico-fantasista, como Milinkovic, não a referência autoritária, como Manuel Correia, mas a referência da salvaguarda, de segurança e lucidez. Os companheiros e a afición sabiam que aquele ali seria o último a cair. E cairía com arte, de pé, como as árvores dos sábios que aprenderam a venerá-lo.
Eis-nos então prontos para mais uma incursão no universo dos programas desportivos. Não tão mediático como o Domingo Desportivo, não tão exaustivo como Desporto 2, não tão polémico como os Donos da Bola nem tão político como o Jogo Falado. Falamos do Contra Ataque. Programa com a mesma idade da televisão da igreja, orientou os acólitos em manhãs de verdadeiro catecismo futebolístico e viu passar pelos seus quadros algumas das mais inesqueciveis personagens da bola falada. Possuidor de um elenco eclético e esmagador, capaz de acolher da mais doce donzela ao mais rude analista. Passemos, então, em revista os arautos da nova mensagem da bola. Tutelados pelo mentor Silva Resende, que com a sua rubrica "De Cabeça" dava autênticos cursos de religião e moral futebolística, aos que se conseguissem manter acordados e atentos aos galões deste encartado ex-dirigente federativo e eminente diplomata da FIFA, a equipa mostrava grande entrosamento. Na baliza, José Carlos Soares. Pausa para respirar fundo. O que dizer? O bombástico polivalente da televisão portuguesa, mostrando grande à vontade na socialite desportiva (um autêntico Paulo China com carteira profissional de jornalismo), apimentava as sessões televisivas com argúcia e tenacidade. Rápido na análise, precipitado por vezes nos comentários aos jogos (visível pela reputação de enfant terrible que granjeou ao emparelhar relatos da Liga Espanhola com Carlos "Terminator" Mozer). A irreverência leva-o mais tarde ao posto de guardião da selecção portuguesa de futebol de praia e, por consequência, ao lugar de compagnon de route de ídolos como Hernâni (a fenix renascida nas areias da Figueira da Foz) e Nunes. Como jornalista, o Contra Ataque foi o começo, como foi o Beira Mar para o jovem Joel.
Depois de JCS, Brigitte. Brigitte Martins, número 10 na camisola, distribuindo jogo como a cara vísivel do Contra Ataque. Incompreendida aprendiz dessa tágide do desporto, essa Pierre de Coubertin de saias que foi e é Cecília Carmo (de quem nós aqui somos indefectíveis), Brigitte mostrava mais à vontade nas Docas (com Kenedy, por exemplo, ou qualquer outro jogador que quinze dias atrás houvesse marcado um golo de belo efeito e por conseguinte elevado à categoria de esperança lusa) do que a ler o teleponto. Os seus trunfos: o sorriso e a postura hirta, para além do corte de cabelo que, apesar de tirado a Cecília Carmo, mostrava aquela extravagância que só um par de madeixas caju conseguem imprimir.
O carregador de piano e ocasional central de marcação, no entanto, era um brasileiro de peso, José Roberto Tedesco de seu nome. Tedesco acompanhou todavia apenas os primeiros anos desta equipa, dada o seu retorno prematuro ao futebol brasileiro. Aqui na Caderneta crê-se que o afastamento da equipa terá estado alegadamente relacionado com um episódio de infeliz precipitação, ao comentar uma substituição de Artur Jorge ao serviço do Benfica como uma alteração digna de "um treinador com tumor na cabeça". O (mau) génio do comentarista ter-se-á assim devido a esse carácter volátil e jocoso do tropicalismo, bastas vezes incompreendido pelos sorumbáticos adeptos lusitanos, mas também à dura realidade que era o Benfica Parmalat de Nelo, Tavares e restantes. Tedesco era autor da rubrica Brasileirão onde, pela primeira vez em Portugal, os bolómanos tinham oportunidade de vibrar com os lances mais importantes de jogos como Paysandu vs. Curitiba ou acompanhar a carreira do Juventude de Ponte Preta. O choque civilizacional terá sido demasiado forte para este ácido zagueiro de 150 quilos.
Terminando o périplo, o benjamin da equipa, entretanto promovido também a reportér de exteriores em eventos de maior envergadura, como Europeus e Mundiais, o José Gabriel Quaresma. Sem dúvida o elemento mais discreto e cerebral da equipa, este médio direito repentista e de baixa estatura (e os especialistas sabem o quão importante é um centro de gravidade baixo num jogador que se quer rápido e eficaz) apresenta também credenciais que, extravasando a irreprensível leitura do teleponto e a antevisão au ralenti de cada jogo da jornada - com vedetas convidades a jogar ao Totobola - avançam até domínios inovadores como a reformulação de pronúncia de nomes de cidades europeias. Por exemplo, alguém alguma vez percebeu em que cidade é que Portugal estagiou no Euro2000? Ermelo ou 'Err-méh-lô'? José Nicolau de Melo, agarra este pupilo e, se estiveres a ler, responde-nos.
Por todas estas razões, considera-se aqui injusto estes pedaços de análise televisiva ficarem atrás do palanque de programas como os citados no início, apenas porque Brigitte nunca foi bombardeada com sacos de urina ou porque o Rui Reininho nunca discordou de José Gabriel Quaresma no resultado de um Rio Ave-Campomaiorense.
quinta-feira, setembro 25, 2003
A Caderneta sente-se na obrigação de partilhar com o seu auditório um acontecimento de uma importância inquestionável.
Vimos por este meio, o mesmo de sempre, confirmar que este vosso cantinho de bola falada, ontem um menino imberbe e sem provas dadas (lembrando o jovem Ramos que Paco Fortes um dia lançou às feras no S.Luis), hoje transformado numa amálgama de experiência e técnica que se assemelhará a um Milton Caccioli em plena época de 94/95 atingiu a mítica fasquia das 10000 visitas.
Este número é tão mais intimidatório se pensarmos que se a cada visita correspondesse uma pessoa, seria mais que suficiente para encher um Eng. Vidal Pinheiro em Paranhos ou um Capitão César Correia localizado no quintal da família Nabeiro que alguém um dia apelidou de Campo Maior.
A redacção agradece a preferência e promete aplicar-se a fundo, nem que para isso seja necessário uma tesoura por trás sem bola, para não defraudar as espectativas em seu torno criadas.
E agora... bola p´rá frente... que para trás mija a burra.
sábado, setembro 20, 2003
Aqueles que, sensatos, têm acompanhado o Terceiro Anel, constataram (emocionados, por certo) que estes sempre vossos partilham a odisseia historiográfica em duas mãos, uma aqui e outra lá mesmo - http://terceiroanel.blogspot.com . E é com profunda emoção e redobrada motivação que vemos expandir-se a ânsia do conhecimento e o número de pintores desta 'arte geométrica'. Bola para a frente.
O percurso historiográfico pelo Marão começa a revelar-se uma dor de cabeça, tal é a riqueza do plantel. Com efeito, desde os primórdios que a memória é a mais profícua fonte humana de surpresas e acreditem que mergulhar na memória até ao fundo para resgatar o Chaves tem tanto de doce como de conflituoso. Vêm estas linhas tentar justificar o facto de, depois de fechado o capítulo da defesa, e já em plena lavra de meio-campo, regressarmos à rectaguarda para dar conta de uma figura absolutamente imprescindível nos compêndios da bola transmontana. Ponderámos muito, sim, mas chegámos à conclusão que Denis Putnik merecia um memorial. Breve, mas suficientemente simbólico para o recordarmos como um dos esteios dessa agressiva transnacionalidade que tem feito do Municipal de Chaves esse campo de tiro que tão bem conhecemos.
Denis Putnik, portentoso defensor, chega a Chaves com o título de campeão croata pelo Hajduk Split, à altura (93/94) com uma autêntica dream team (Milan Rapajic e Ivica Mornar no ataque, Balajic - "trabalho para ser melhor que o Maldini", disse um dia à chegada a Alvalade - e Buturovic - o nemésis de Secretário - na defesa). Alto, forte e espadaúdo, era a sombra onde Manuel Correia era a luz, era o gelo onde N'Dong era o fogo, era o rasto enlameado do atleta adversário. Apesar de apenas 3 jogos na época croata, chegou a Chaves para pegar de estaca e fazer, em duas épocas, cerca de 57 jogos e 3 golos, seguindo depois para... Leça. (é verdade, a Caderneta já lá andou!)
Uma descoberta feliz de um dos mui obscuros agentes-fífia que pululam por esse Portugal fora, um homem recto e respeitado pela torcida (fontes bem informadas da Caderneta da Bola poderão vir, no futuro, a contribuir com curta prosa sobre a única claque organizada do Desportivo de Chaves, prestai atenção - ou talvez não), mas ainda assim, um incansável indutor de calafrios. Enfim, depois da curta abordagem aos guarda-redes, quem o pode censurar?
quinta-feira, setembro 18, 2003
Um pequeno interlúdio informativo na travessia blaugrana para uns quantos agradecimentos e umas declarações à imprensa. A Caderneta tem-se apercebido, com algum agrado, de que há cada vez mais adeptos a preencher as bancadas do nosso recinto, qual Estádio Diogo José Gomes nesse Sunday Bloody Sunday em que o Odivelas FC abateu, com um só tiro, o Salgueiros num duelo da Taça de Portugal. Serve a ilustração para registar uma curiosa analogia, entre o acréscimo de público e a emergência dos valores individuais no trato do esférico: tal como a sensacional façanha do modesto Odivelas FC foi meticulosamente orquestrada pelos pés de um homem cujo valor seria reconhecido anos mais tarde por esses relvados fora, Paulo Vida, também na agradecida Caderneta, coincidem os elogios e o aumento de visitas com a emergência dos mitos flavienses e a estreia a titular do virtuoso Rui Malheiro. De resto, o agradecimento às referências elogiosas e às palavras da massa associativa, que entre confusões de identidade e de heroísmos de anonimato (não o era também Kumba Ialá nos seus dois anos de futebol algarvio, afinal?), vai envergando com brio a camisola 12. E já a seguir, prossegue-se no porta-Chaves, com mais umas considerações sobre a escola luso-brasileira de comentarismo desportivo pelo meio. Ripa na rapaqueca.
sexta-feira, setembro 12, 2003
Só que o pior, o pior veio depois. Milinkovic decide abandonar a amada Chaves, rumando até território espanhol, criando um vazio na famosa e mítica posição "10". O filão "ex-jugoslavo" - expressão muito cara aos dirigentes portugueses nos 90's - era a solução desejada e a cassete milagrosa lá chegou às mãos de Álvaro Magalhães que lutava com unhas - ele até tem onze nas mãos - e dentes pela manutenção. Matic. Ivan Matic. O seu nome começado por "M", acabado em "ic", aproximava-o de MilinkovIC, assim como a sua respeitosa envergadura física (1,85/83), pois para "cérebros tarrecos" lá chegaria o tempo do ex-Celta, Carlos Alvarez. O sempre prestável presidente Luis Carneiro até terá mesmo confessado, a propósito da aquisição de Matic, que "este até tem um nome mais fácil de dizer que o outro". A camisola "10" estava entregue então a Ivan Matic, um ex-Hadjuk Split, mas pouco. Pouco? Pois, é que em Split poucos se lembrarão de o ter visto actuar com a camisola mais amada da mui bela cidade croata que viu nascer, em Abril de 1971, tão cerebral rebento. Infelizmente para as cores flavienses, cedo se percebeu que Matic, o Ivan no balneário, estava bem distante do Niko, o marido de uma campeã de basquete jugoslava. Matic até era canhoto, mas desde logo os "índios" flavienses começaram a usar expressões como "este é mais lento que a minha falecida avózinha". Que Deus a tenha em paz e sossego. Matic era defacto lento. Sem velocidade, sem chama e sem talento. Do seu pé esquerdo nem um golo saiu para amostra em duas temporadas e foi-se arrastando lentamente até à dispensa em direcção aos Açores, ao Operário. Mas operariado e Matic realmente não combinavam. Matic nunca foi homem de correr atrás da bola, mas, em abono da verdade, também nunca teve tempo para correr com a bola. Era tudo uma questão de desarme, de pressão e o bom do Matic lá ficava a ver os navios passar. Desconhecemos se terá regressado à sua Croácia de navio, no entanto, sabemos que andou a arrastar-se, pós-Operário, em clubes da dimensão de um NK Posusje e de um NK Marsonia, clube pelo qual - pasme-se! - apontou 4 golos, mas também deixou marcas do seu mau feitio, com alguns cartões vermelhos a serem-lhe exibidos. Esse facto ter-lhe-á valido a dispensa e, segundo o que conseguimos apurar, o bom do Ivan, aos 32 anos, anda a procurar clube. À atenção, é claro, de alguns clubes da 2ªB e 3ª Divisão portuguesas que ainda procurem um estrateg"ic".
Deixando o Almirante da Armada para depois, avançamos rumo a Milinkovic. Nikola Milinkovic, Nico para os amigos. Ide perguntar com brio por quem é que os forcados ribatejanos gritavam em êxtase na ida temporada do Alverca em 2000. Ide a Chaves, visitai os sábios vividos plantados à sombra de árvores centenárias e perguntai-lhes quem foi o maior armador de jogo que Trás-os-Montes viu até hoje. Ide às nevadas montanhas austríacas, ao Tirol, falar com os ultras do Graz AK, e perguntai-lhes quem é aquele imponente maestro de 1,90, forjado na Bósnia e amadurecido na bola portuguesa.
Nikola Milinkovic era um jogador como já não se vê. Mágico e repentino, sem ser nervoso ou demasiado mexido, 190 metro a acabar com o reinado do número 10 franzino e bailarino. Um número 10 que literalmente empurra a equipa para a frente. Uma técnica diabólica, de elevar o futebol ao nirvana. Um fiorde na marcação de penaltis. E um semblante oprimido, austero e anguloso, sofrido. Não era só na alegria floreada que Nikola contrastava com a horda de usurpadores ao trono dos registas. Milinkovic transportava com a bola, a mágoa da sua alma. Atentemos na sua carreira: tal como um Miguel Torga do desporto rei, construíu a sua carreira por regiões como Trás-os-Montes, ou a galiza profunda e semi-urbana de Ourense, ou a lezíria plácida ao largo de Alverca, ou as inóspitas fendas cravadas no maciço austríaco. Um bucólico traduzido num futebol directo mas desencantado, apaixonado pelo simples que se faz onírico. Visto de si, o relvado era a densa e cruel Twin Peaks, e os escassos golos resultavam sempre em comemorações fantasmagóricas. De facto, no seu estilo bipolar, que de tão supremo parecia por vezes um caso clínico, criava, aos olhos do espectador atento, a ilusão de que à sua volta, em campo, jogavam apenas fantasmas.
Notícia de última hora: É com celestial prazer e fruição indescritível que partilhamos com a comunidade cadernética que a missão do enviado especial a parte incerta redundou num estupendo sucesso. E é com essa alegria que podemos confirmar finalmente - A Caderneta da Bola viu, com os olhos que a terra há-de comer, o Cigano d'Oiro Pedro Miguel. Todas as provações físicas e metafísicas compensaram. O enviado especial chegou vivo ao Estádio do Amora e pôde assistir in loco e unplugged a um treino da formação alviceleste da margem Sul. Na verdade, esta descoberta epifânica foi fruto do acaso. Ao largo do Estádio, há um vulto distinto que se destaca do plantel. Os olhos fecham para reabrir completamente pasmados. Pedro Miguel e seus apóstolos. Claro que toda a verdade contém dor, Pedro Miguel cortou o cabelo e, por causa da sua coluna, já não joga tão hirto e panorâmico sobre o campo. Ainda assim, transpira carisma e a classe inconfundível dos grandes timoneiros. Faça-se a vénia: Deus fez-te a ti e depois partiu o molde, Pedro.
Mais uma vez somos obrigados a interromper mais um, pensamos nós, sumarento relato historiográfico para nos direccionarmos para a dissipação de dúvidas e insinuações que à volta da Caderneta têm gravitado por essa blogoesfera fora.
No blog Alegria do Povo (http://alegriadopovo.blogspot.com/) foram tecidas considerações que, não só por serem infudadas, não deixam de provocar no seio da Caderneta algum desconforto.
Afirmamos desde já, sem reservas, que não somos os autores do "cautchú" do jornal "A Bola". Esses respeitaveis senhores, sem dúvida nenhuma grandes promessas da bola humurística, chegaram mesmo a treinar à experiência na Academia Caderneta XXII, não tendo no entanto convencido os responsáveis técnicos encarregados da capatação de jovens talentos que consideraram o que plantel já se encontrava fechado.
Desejamos, como o desejámos aquando da sua partida, as maiores felicidades às pessoas em questão, que consideramos irmãos nesta penosa cruzada materializada na primordial urgência de provar ao mundo que Gil tinha 20 anos no Mundial de sub-20 de 91.
terça-feira, setembro 09, 2003
Finda por ora o périplo pela defensiva flaviense, não sem antes uma palavra de apreço a dois homens que em muito contribuíram para o Chaves ser aquilo que é hoje. São eles Patrick - não confundir com o médio Patrick Vaz (rebento de cópula luso-francesa, a outra face, figurativamente falando, claro, de uma moeda boavisteira chamada Quevedo) - e Vinagre. Estes dois jogadores 'eternamente jovens' foram e serão os expoentes da vaga de laterais rápidos que um dia pôs fim ao primado de stoppers fecha-bem-a-ala de fidalgos como Amarildo, por exemplo. Para estes dois, o campo adversário era sempre a descer, como quem desce a serra do Marão de bicicleta, ou como quem aprende a conduzir no IP5, quando vai dar passeios ao Sul.
Enfim, como o tempo não existe, também não é a propósito destes dois bravos rapazes que o vamos inventar. Até porque adiante vem o Almirante Toniño, centro-campista e estratega de proa na Invencível Armada Espanhola que em tempos dominou airosa a terra Chaves.
Prosseguindo na flávia odisseia, eis-nos defronte de Parfait N'Dong. Excelso sapador gabonês, este portento é o protótipo do 'homem sem passado'. Nem a companhia, nunca confirmada além dos confins dos cafés do interior e do peão dos estádios secundários, do seu irmão N'Zé N'Dong ajuda a conferir a N'Dong (denominado em diversas sedes como apenas Parfait, numa curiosa acepção francófona do seu estilo de jogo) um carácter familiar, próximo, duradouro no tempo, uma carreira, até uma família, que certamente a terá. 'Homem sem passado' porque mesmo uma aturada busca nos registos cadernéticos é escassa para traçar a Parfait um percurso que vá além de 4 clubes em Portugal, o mais eminente dos quais o nosso GDC. 'Homem sem passado' porque Parfait N'Dong pura e simplesmente apareceu. Não veio de um clube, não granjeou uma fama de qualquer espécie, nada. Apareceu. Talvez fosse boa ideia inquirir os dirigentes do Amora que com ele assinaram contrato, no vetusto ano de 1994. Nessa época, o Shaka Zulu da Retranca alinhou em 21 jogos de camisola azul, manchando o prémio da montanha com uns indisputáveis 11 cartões amarelos e 1 vermelho. Em Novembro de 1995 assina pelo Maia, vergando os ímpetos à insustentável leveza da tutela de Vieira de Carvalho. Os 6 cartões amarelos em 22 jogos são afinal, a prova da brandura crescente. É depois da Maia que o guerreiro chega a Chaves. Em Chaves, caros leitores, Parfait faz 17 jogos em 2 épocas na 1ª Divisão. 9 cartões amarelos, ao todo. 17 jogos e a imortalidade no panteão flaviense aqui erigido? Mas por que carrinho a pés juntos é que alguém se lembra disto? Simples. O Chaves é, como Parfait, um clube cuja história pública é marcada pelo vazio, pelos hiatos. Também o Chaves, como Parfait, parece não existir quando não está no escalão principal ou a jogar contra um grande na Taça de Portugal. Também o Chaves encerra na sua tumba futebolística tesouros e mistérios, fantasistas bipolares como Milinkovic, heróis de pé face aos vendavais da bola como Paulo Alexandre, máquinas goleadoras como Matute. Uma tumba obscura e por resgatar, escondida como o Gabão se esconde atrás de um continente aos olhos portugueses.
Parfait, longe de ser perfeito, era um garboso defensor. Um 'homem sem passado' (e cujo futuro foi, depois de Chaves, o Penafiel e depois a penumbra, de novo) não tem nada a perder e N'Dong nunca perdia nada além dos jogos e dos rins, de vez em quando. Um jogador duríssimo, inexpressivo, um toque de bola que a impiedosa escola de comentaristas lusitrastes se habituou a alcunhar de exótico (com toda a carga etnocêntrica que lhe subjaz) e, no entanto, um retrato fiel de toda a história de um clube. Uma história que, mesmo aos olhos dos homens que fazem esse mesmo clube, ele não tem. E no entanto, não é preciso grande esforço para recordar a absoluta e ingénua ausência de medo neste defensor, e perceber rapidamente como, apesar do espécimen ser um jogador vulgar, constituir esse um dos traços mais raros da bola actual.
quarta-feira, agosto 27, 2003
Um interregno na saga do Chaves (estão avisados: o defesa que se segue é Parfait N'Dong) para uma entrada do Dicionário Português-Futebolês há muito em congeminação mas agora tornada imprescindível pela menção num e-mail recebido recentemente.
C para "Carregador de Piano".
Expressão imortalizada no léxico comentarista mas, de tão rebuscada e ilustrativa, decerto amplamente utilizada em palestras de balneário por esse Portugal fora. Estamos em crer que a expressão remonta ao tempo em que o piano era um instrumento central em qualquer soirée artística digna desse nome. Ainda hoje o solista ou colectivo orquestral conserva os louros da fruição pública, mas cabe ao carregador do piano a árdua tarefa de proporcionar as condições para que a magia aconteça. Por outras palavras, se não fosse o carregador de piano a (passe a redundância) carregar o piano, escada acima, num trabalho de simultânea força, perícia e sobriedade, nunca o artista poderia dar ao mundo um pedaço de si mesmo.
Voltando à bola, se não fôr o sapador de meio-campo a recuperar, constante e no limiar da invisibilidade, as bolas posteriormente bombeadas para as alas de onde saiem os cruzamentos ou desmarcações para o número 10 ou para o ponta-de-lança carimbar os corações dos adeptos de glória, poucas vezes todos nós conheceríamos o travo doce da mesma.
O "carregador de piano" é assim o centrocampista cuja função maior é estar em todo o lado e carregar a equipa, por assim dizer o piano, para a frente. Este carregar não é só o mero recuperar de bola para lançar a jogada. É também um complexo processo psicológico de potenciar motivação, empolgar os adeptos mas fazê-lo a dançar no paradoxo de não ser, ao mesmo tempo, o centro ou o culminar desse trabalho.
O bom "carregador de piano" transporta a equipa recuperando bolas, dobrando companheiros, abrindo espaços à subida do central ou à penetração dos médios ofensivos, lateralizando jogo e, ao mesmo tempo, incentivando, gesticulando, filtrando no campo as orientações tácticas vociferadas no banco.
Está claro que, dada a multiplicidade de funções e o requisito de qualidade e ubiquidade, a existência de "carregadores de piano" rareia no futebol luso de hoje em dia. Tanto que a própria expressão tem vindo a ser gradualmente ofuscada por outras de significado similar mas de alcance e profundidade claramente inferior, como é o caso de "jogador box-to-box" (e aqui, Gabriel Alves e a escola Sport TV assumem particular preponderância, num movimento de contornos quase escolásticos contra o monopólio vocabolar e aforístico da rádio).
A qualidade e o estatuto do "carregador de piano" também dependem do colectivo em que o jogador joga. Nos grandes, algumas referências por demais evidentes são os casos de Semedo e Douglas, no FCP e SCP, respectivamente, mas outros ilustram com maior amplitude a formulação idiomática, casos de Bobó no Boavista (o tal jogador citado no e-mail recebido) ou N'Dinga no Vitória de Guimarães. Ambos exemplos de uma força inexcedível, de um carisma intocável, de uma técnica que, não sendo basta, bastou, isso sim, para passar a bola, em boas condições e com todo o fulgar, a outros mais dotados, como Timofte no Bessa ou o tunisino Ziad, o astro magrebino da cidade-berço, o Ali Babá das 40 Assistências.
A emergência deste tipo de figuras no futebol português (e, sobretudo, na leitura comentada do futebol português) deve-se, a nosso ver, a dois factores: o primeiro é o facto de nunca ter sido desenvolvido de um modo próprio cá no burgo o estilo de jogo cunhado na Holanda por Rinus Michels, o 'futebol total', em que todo o jogador estaria virtualmente preparado para ocupar qualquer posição no terreno, apesar de especializado na sua posição específica. A dicotomia entre a técnica e a força (sempre ela, uma vez mais) segregou, durante largos anos, os tecnicistas dos jogadores duros, sendo o "carregador de piano" uma espécie de mediador diplomático entre as duas facções, responsável, em boa medida, pela paz na relva e glória nas balizas.
O segundo factor é a propensão nativa para a produção de anti-heróis na sombra dos ídolos, plastificados e nascidos já em apogeu e com pés de barro prontos a partir. O goleador da bola é idolatrado e exige-lhe-se, por assim dizer, o circo. Ao "carregador de piano" exige-se o pão, e a ele devolve-se o respeito. Daí o segundo nunca cair em desgraça, daí ser ele escassas vezes apontado como o responsável pelo falhanço da sinfonia.
Fazendo a ponte com o Chaves, e reforçando a tese do post anterior, Toniño era um homem assim.
quarta-feira, agosto 13, 2003
Um pequeno parêntesis à laia de glossário: o catenaccio transmontano. Desenho táctico desenvolvido por António Jesus e continuado depois pelo trainador-comentarista Vítor Manuel, assenta, até ao meio campo ofensivo, numa formação com dois laterais rápidos, dois centrais de marcação, um líbero a marcar à zona que também sobe para trinco, e ainda um outro trinco que subia no contra-ataque. Esta última era a posição ocupada pelo mítico centrocampista castelhano Toniño, homem de palavras brandas e pontapé fortíssimo. Caríssimos, se algum dia lerem que Toniño era número 10, fazei, por favor, orelhas moucas a tais ignomínias. Havemos de chegar a Toniño e dealbar toda esta historieta, esta advertência prévia é só para os mais incautos. Acrescente-se que, tanto era assim, que o substituto de Toniño no Chaves, o também espanhol Carlos Alvarez, já tinha um estilo de jogo cuja adequação a este lugar táctico não deixa margem para dúvidas (vide trabalho posterior do mesmo no Vitória de Guimarães).
Depois de Manuel Correia, a senda dos históricos Defensores de Chaves prossegue até Paulo Alexandre. Esta natural de Vilarelho da Raia, onde nasceu em 1970, joga no Desportivo de Chaves (dizemos joga porque alinhou ainda esta época que findou em Junho, e com a braçadeira de capitão) desde – abrir a boca de espanto, por favor – 1983, com apenas uma época de interregno (99-00), em que alinhou pelo Desportivo das Aves. Caso para dizer que, em 20 anos de carreira futebolística, o grande Paulo Alexandre, apenas deixou cair o “Ch” durante um deles. Afinal, até o clube no qual resolveu desanuviar do Marão se chama Desportivo e acaba em Aves.
Adiante. Em 1983 começa a jogar nos iniciados, fazendo a sua primeira época de sénior em 1989-1990. Os anos 80 foram portanto passados na pardacenta cidade transmontana a jogar na cantera chavista.
Definimo-lo anteriormente como um central que gosta de subir e marcar uns golos. Há que explicitar melhor esta afirmação. Na realidade, ao longo destes anos, Paulo Alexandre não marcou, pelo Chaves, mais do que 10 golos. No entanto, e tendo em conta que é jogador e defesa do Desportivo de Chaves, essa meta chega para caracterizá-lo como um central que marca alguns golos. Até porque, um dos pontos fortes deste jogador, mais ainda do que a característica “saber sair a jogar” (tanto quanto é possível no catenaccio transmontano) era o jogo aéreo. No rigor dos conceitos, Paulo Alexandre tanto era exímio no cabeceamento como no ocasional alheamento completo do fluir do jogo e consequente criação de espaços vazios à mercê do intruso adversário (uma postura, por si mesma, aérea, uma vez mais).
As estatísticas, no entanto, falam por si: de 1990 a 2001, nunca menos de 17 jogos por época. Seja a companhia Manuel Correia, Amarildo, Carvalhal, Parfait N’Dong, Correia, Luisão, Auri ou Jorge Neves (para citar apenas alguns), Paulo Alexandre estava lá, a segurar e a marcar, como central de marcação que era e é, o ponta de lança adversário.
As crónicas descrevem-no como sólido, um jogador com personalidade. Numa comparação aparentemente algo desfasada, imaginem, os que não o recordam, um Helguera arraçado de Jorge Soares. Algures, no mesclar de memórias futebolísticas, encontrarão o vosso, que também é nosso, homem. Agora, vira o jogo.
segunda-feira, agosto 11, 2003
Antes de falar dos defesas do Barça do Marão, uma palavra de solidariedade a esses esmerados operários, pelos duríssimos momentos em que, antes da partida, o treinador anunciava qual o guarda-redes que a pandilha ia ter atrás de si. Imaginamos os suores frios de Amarildo, as temporas latejantes de Paulo Alexandre ou os tremores contínuos nos joelhos do jovem Vinagre. E o perverso desta situação é que, durante algum tempo, o treinador dos flavienses foi, ironicamente, um ex-guarda-redes do Chaves, o tutelar e já mítico António Jesus.
Depois do gesto de solidariedade, o abraço sentido, não podemos senão continuar, e continuar num caminho espinhoso que nos obrigarão a alguns comentários menos bonitos sobre a zaga transmontana.
Já aqui falámos do catenaccio transmontano. Pode pensar-se, a partir desta expressão, que Chaves foi, duravelmente, um feudo impenetrável de defesas rudes, grosseiros no trato e no expôr do futebol, agressivos e de uma violência quase patológica na lida com o adversário. Não. É certo que vestiram aquela camisola, alguns exemplares dessa espécie, como é o caso de Luisão, o brasileiro que foi infeliz protagonista de momentos quase criminais, ou mesmo o central ex-Guimarães Auri, remanescente de uma época de ouro em que, na cidade-berço, pululavam senhores de um futebol monstruoso como Márcio Theodoro ou Arley (este íltimo um interessantíssimo case-study forense). Em Chaves, não era tanto assim. Aliás, a 'linha recuada' (mais um termo do futebolês que será tratado a seu tempo) flaviense sempre aliou o central cerebral (caso de Manuel Correia, o eterno capitão), o defesa central que gosta de subir e chega a marcar uns golos (caso de Paulo Alexandre), o central sombra de marcação, violento (caso de Parfait N'Dong ou o, hoje treinador esperança, ontem stopper de respeito, Carlos Carvalhal) e também o central rápido e razoavelmente móvel ao longo de toda a linha defensiva (caso de Amarildo). Comum a todos eles, um denominador: a raça. Todos eles eram jogadores raçudos. Essa coisa do saber jogar à bola deve ser entregue a quem joga mais à frente, terão pensado os responsáveis flavienses.
Destes vários nomes, destacam-se Manuel Correia, Paulo Alexandre e Parfait N'Dong.
Manuel Correia é, sem dúvida, a referência maior. A este nativo do Seixal não pode assentar outro epíteto que não o de patrão da defesa transmontana. Atentem: de 1989 a 1996, ano em que arrumou as chuteiras, fez mais de 250 jogos com a camisola do Desportivo de Chaves. Foram 7 anos de temporadas consecutivas acima dos 30 jogos por época e, numa equipa periclitante entre a 1a e a 2a, quantos cartões vermelhos, perguntam vocês? Um, e apenas um, e podemos afiançar que o primeiro amarelo nesse jogo foi mal mostrado ("não houve contacto!!"). Um defesa cerebral (prova disso é o bigode, sólido sem ser pesado, cuidado sem ser obsessivo), com um sentido posicional absolutamente assombroso, impressionando, por vezes, com uma invulgar capacidade de recriar a ubiquidade no relvado. Era, além disso, o pedagogo, o mestre em quem os novos bebiam referências sobre como estar e fazer jogar no Municipal de Chaves. E é, por fim, curioso, que tanta experiência tenha sido ganha numa carreira em que passou por tão poucos clubes desde os iniciados, a saber, o Seixal, o Sporting (como juvenil), o Elvas, o Vizela e o Penafiel, até chegar em 1989 a Chaves. Nunca deu o salto para um grande injustamente, ainda para mais se atendermos a equívocos como Lula ou o central Marcos, por exemplo. Manuel Correia grava o nome numa outra dimensão, a do bom futebol obscuro e sobrevivente apenas nos cadernos e nas congeminações dos mais atentos. Vale a pena relembrá-lo.
Importa aqui dizer que esta abordagem ao Desportivo de Chaves refere-se, sobretudo, aos anos que vão de 94 a 98, a Idade de Ouro do futebol do Marão, essa época de pendor quase renascentista nessa cidade Condal à beira-Espanha plantada.
E nesses anos, Bastón não guardou para si o título exclusivo de guarda-redes bigger than life. Há outros dois nomes que importa recuperar. É curioso reparar que neste lote de três guarda-redes, registamos uma espécie de reflexo de três escolas futebolísticas, as que têm marcado mais decisivamente a história do desportivo de chaves. Um espanhol, Bastón, um balcânico, Poleksic, e um português, Luís Vasco. Os mais atentos dirão "sim, mas «e a escola africana?!»". É verdade, concordamos. Não ignorar o peso desse paradigma futebolístico que trouxe a Trás-os-Montes esse diamante negro chamado N'Tsunda ou os impiedosos irmãos gaboneses Parfait e N'Zé N'Dong, citando apenas alguns. Ou mesmo os brasileiros, em que o expoente máximo é esse homem sem pescoço que um dia foi engatado por Sousa Cintra, Edinho.
Voltando às redes, cada qual representa algo de muito específico na história do Chaves. O que vale é que nós aqui não damos respostas, levantamos sim à História as questões que interessam. Adiante.
Luís Vasco. O protótipo do 3ª guarda-redes, essa raça maldita de sujeitos que, vivendo e abastecendo-se da experiência profissional da alta-roda do desporto, não ganham nem mediatismo nem progressão de carreira, nem tão-pouco aquela notoriedade que permite depois fazer escola no comentarismo ou na restauração.
Homem grande e anguloso mas de ternos caracóis castanhos, também veio provar que um guarda-redes precisa de mais do que ser alto, forte e espadaúdo para vingar. Jogou no Sporting (onde não conseguiu tirar a titularidade a Zoran Lemajic por mais de 10 jogos, o que já diz bastante, tanto de si como do Sporting daqueles tempos) e no Estrela da Amadora, cujas balizas, depois do belga Guy Hubart e Vital, nunca mais foram as mesmas.
De seguida, Dragoslav Poleksic. Atentem, caríssimos, no padrão. De onde veio Poleksic? Da Segunda Divisão jugoslava, mais propriamente do Hadjuk Kula. Palpite: ou há empresário obscuro à mistura, ou o director desportivo do GDC tem uma casinha de campo e um par de bisavôs à beira do Adriático. Poleksic, hoje com 34 anos, fez 8 jogos, mal repartidos por 2 épocas, até rumar a Campo Maior, onde fez 31 jogos em 3 épocas de 1ª divisão. Pouco mais terá retirado da sua experiência no futebol luso do que umas tardes à volta da sericaia, o café delta, e um português mais perfeito do que o de muitos nativos. Da sua aptidão para a bola, uma vez mais, não reza a história. Alto, tosco e bonacheirão, não era líder nem carrasco, não enterrava nem deixava de sofrer. Pouco mais há a dizer, na linha desse interessante paradoxo que vai marcando a genealogia do futebol português: tanto jogador, tanta diversidade, tão pouco espectáculo. Perdoem-nos a amargura, não é todos os dias que tropeçamos num Jorge Plácido ou num Caccioli.
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