terça-feira, março 30, 2004

Comunicado da Direcçao da Caderneta da Bola SAD: Tal como haviamos prometido, até meados de Março colocariamos aqui um post. Desdizendo a maxima do futeboles, que postula 'o que hoje é verdade, amanha pode ser mentira', aqui fica a breve e singela homenagem a esse jogador que cumprira 34 anos no proximo dia 17 de Dezembro e cuja fugaz passagem pelos relvados viriatos nao lhe deu mais a guardar que uns quantos trocadilhos acerca da sua origem geografica, curiosamente comum à de um joguete infantil muito popular aqui ha uns anos. Pois é: o Tamagotchi que fez uma pré-época nos defuntos campos de treino do SL Benfica (nao confundir com o historico da Luz, Clube Futebol Benfica) chamava-se, em realidade, Seo Jung-Won, nasceu em Seul e marcou presença em 3 mundiais. Se o seu metro e setenta, esparsamente suportados por 65 kilos de puro chop-suey nao foram suficientes para gravar em caracteres coreanos o seu nome no panteao lampiao, ide, arautos obscurantista da bolologia, perguntar aos ultras do Racing Club de Estrasburgo o que pensam sobre este kamikaze. Ficarao, acreditem-nos, surpreendidos.

domingo, dezembro 28, 2003

A voz. Detalhe importante na formação e composição de um futebolista, a voz tem sido esquecida ao longo dos anos. Não é à toa que a língua portuguesa cunhou, através dos tempos, a expressão "voz de comando". O comando, o carisma da liderança é o que distingue, por exemplo, um Portela de um Tó Sá. Sim, Portela granjeou durante épocas a fama de lateral direitocorrectíssimo, competente a defender, pontapé forte, o arquétipo do lateral mediano. Mas Tó Sá é o nome que emerge quando os adeptos sadinos se sentam à mesa numa tasca da baixa de Setúbal a relembrar os laterais direitos do histórico clube do Sado (à direita, porque José Rui, esse lateral quase selvagem, nunca se lhe comparou e à esquerda Rui Carlos ainda traz lágrimas de saudade aos mais indefectíveis da Fúria Sadina). Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a um Vitória de Setúbal-Farense in loco facilmente discirnem que Tó Sá é um lateral de voz mais profunda que Portela. E este é um exemplo frágil, já que , salvo raras excepções, o lateral é mais solicitado que solicitador. Se falarmos de centrocampistas, como é o caso, a falta de voz torna-se um problema ainda mais grave. Infelizmente, a aturada investigação historiográfica dá-nos razão. Um caso paradigmático, o que trazemos aqui hoje, é o do maestro brasileiro Carlos Miguel. Contratado pelo Sporting naquela que é considerada a Idade das Trevas do clube verde-e-branco (as dinastias depois de Jozic, doravante designadas de DC, e antes de Inácio, AI). Nesse período de seca, em que o leme esteve inenarravelmente entregue a figuras como Carlos Manuel (que ainda hoje faz valer uma carreira de treinador às custas de um pontapé em Estugarda, carreira essa que encontra paralelo somente em nomes como Diamantino Miranda ou Bernardino Pedroto), Vicente Cantatore e, claro, o pioneiro dos três trincos Octávio Machado, Carlos Miguel chegou a Alvalade rotulado de "melhor número 10" no activo em terras de Vera Cruz. Ídolo no São Paulo, o regista nunca chegou a singrar no Sporting, onde prometeu na pré-época mas onde, em jogos oficiais, nunca pegou na equipa como era esperado. E estamos a falar de uma época em que os adeptos sportinguistas ainda estavam escaldados com o caso Roberto Assis, esse médio-centro vindo da Suiça com o colossal Ahmed Ouattara (e que hoje é empresário do seu irmão Ronaldinho, jogador do Barcelona) e perplexos com o fenómeno paraguaio César Ramirez, segunda encarnação de Cantiflas e ídolo do Topo Sul do defunto José de Alvalade, desde que foi a Israel fazer ao Beitar de Jerusalem o equivalente futebolístico daquilo que o Hamas tem vindo a fazer em Telavive. Voltando a Carlos Miguel, manteve-se o mistério do ocaso por mais de meia época. Porquê? Nenhum problema de adaptação noticiado, nenhuma lesão grave, nenhuma explicação oficial. Até ao dia em que a equipa da Caderneta da Bola se deslocou ao campo de treinos leonino, no âmbito de uma cadeira do Mestrado em Futebolês Contemporâneo - O Caso Português. Um treino, uma única sessão, talvez bastasse para descortinar o porquê do baixo rendimento da equipa em geral e do brasileiro em particular. E a realidade é que, uma vez chegados, apenas uma voz se distinguia das demais, a de Pedro Barbosa, o falso lento do futebol poético, por vezes belo e genial, por vezes ausente e superfluo. A voz, firme, segura, o "deixa, que é minha!" pronunciado na perfeição, o "estás só!" soprado com segurança, o clássico e eterno "vai, caralho!" articulado irrepreensivelmente. No meio de tudo isto, Carlos Miguel invisível. Até que, num dos raros momentos de silêncio, uma voz soa - "Aqui, passa passa!". A Caderneta olha em volta, pensando que a voz pueril que acabara de ouvir viera talvez de um miúdo a brincar com o pai. Uns segundos de desconcentração e, quando os olhos regressam ao relvado, a bola está nos pés de Carlos Miguel, que a devolve a companheiro tornado a gritar. O cenário grotesco do número 10 com voz de eunuco era demasiado real para ser verdade, com toda a carga paradoxal que isso carrega. A voz, num futebolista, salvando raras excepções de foras de série ou génios intemporais, torna-se, como comprovado, num critério tão válido como a idade ou o número de internacionalizações. Certas correntes defendem mesmo a substituição do sistema AA + Sub-21 pelo de Baixo + Barítono + Soprano. A verdade é que Carlos Miguel regressou ao Brasil no final dessa época sem ter ganho a confiança nem do treinador, nem dos adeptos, nem dos colegas. Nunca pegou no jogo, nunca encheu o campo. A voz, caríssimos, nunca lhe possibilitou impôr o espaço necessário a um número 10 para expôr a sua pleíade de artimanhas. E com estas incontornáveis idiossincrasias, o mundo da bola vai escrevendo a sua história, decepando cruelmente os mais fracos, trazendo Darwin para dentro das quatro linhas, desenhando uma linha de evolução que traz sempre um Punisic depois de um Abdel Ghani, um Fertout depois de um Embé, um Taoufik depois de um Basaúla. Lei da vida, norma da bola.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Caderneta da Bola: um blog com superavit tecnicista a meio-campo. Luvas pretas e suplementos vitamínicos para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A Caderneta da Bola deseja uma óptima segunda volta a todos os adeptos da bola deste país e de além mar, especialmente aos mais desfavorecidos, como os adeptos dos históricos Leça FC (último classificado da Zona Norte da II B) e do Farense (penúltimo classificado da Zona Sul da II B). Votos de um Santo Natal e muitas trivelas, pontapés do meio da rua e golos limpos no ano que se avizinha, entre o Euro e o Neuro. Prometemos na chuteirinha uma série de novidades nos próximos dias, que é como quem diz "havemos de meter aqui algum post pelo menos até meados de Março", como o final da História Interminável de Chaves, assim como revisitações a outros plantéis históricos (o muito ansiado Farense, por exemplo), e a autópsia ao monstro (agora defunto) Parmalat, assassinado publica e barbaremente a tiros de Clóvis, Paulo Nunes e Donizette, tanto nos relvados como nas bolsas de valores por esse mundo fora.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Prossegue o jogo no Municipal de Chaves, desta feita com os canticos apontados para Edondo Amaral Neto, o pigmaleao brasileiro que marcou a decada de 90 em Tras os Montes sob o nome de codigo Edinho. Hoje com a provecta idade de 36 anos, Edondo resiste nas sinapses de todo e qualquer apaixonado pelo futebol dada a sua existencia contraditoria. Apesar de parecer esguio, baixo e encurvado, com uma tecnica repentista, ao jeito do italiano Sandro "La Cobra" Tovalieri, saudoso sniper da costa adriatica, numerosos relatos existem de um Edinho alto e possante, mais ao jeito de um belicoso Igor Protti, o Sansao retroescavador de Bari (nota: a Caderneta internacionaliza-se progressivamente, expandindo alem fronteiras a sua 'luta de classe'). Aquilo que concede a Edondo a sua aparencia hibrida, e aquilo que, porventura, tornou Edondo em Edinho, era a sua compleiçao solida, integral, como um so bloco de carne, osso, sangue e golo. A cabeça achatada, os ombros colados ao pescoço, um peito curvaceo e tenso como uma ameaça de bomba, enfim: Edinho, sintese tropical de David e Golias, era um jogador explosivo. FIM DA 1a PARTE

domingo, novembro 23, 2003

Caderneta da Bola: "A verdade é esta... Estamos desfalcados mas unidos. Sabemos o que queremos e vamos lutar todos os domingos pelos três pontos!" Pontapés de ressaca para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A essência do futebol... Bastas vezes foi escutada ou lida esta expressão nos mais diversos espaços que se debruçam sobre o roliço esférico lusitano. O que é afinal a essência do futebol? Serão os golos? Provavelmente sim na opinião de um José Carlos Soares. Para Gabriel Alves a resposta seria provavelmente o “futebol de ataque”, considerado aqui na sua dimensão mais abstracta, apimentado com umas quantas trocas de posições entre os dianteiros de um qualquer onze, conseguidas através de diagonais e desmarcações. Porém aqui no Desportivo Caderneta da Bola somos muito menos ontológicos. Seremos mesmo a atirar para o metafísico, assim como é Luis Campos a atirar clubes para a Segunda Liga. A irracionalidade. Sim caros leitores. O futebol está atravessado por uma profunda irracionalidade. E apesar d´A Caderneta da Bola se esforçar para proceder a análises pautadas por alguma objectividade, confessamos que por vezes tal tarefa se torna tão difícil quanto difícil foi para o jovem leão Litos perceber que, afinal, o mundo não iria ser seu. Porém, será porventura legítimo pensar que, a existir alguma área que gravite em torno do futebol que se deseja e se espera imúne a tal flagelo, esta deveria ser o dirigismo. Ou talvez não. A rivalidade entre clubes afecta mesmo o dirigente mais carrancudo, levando-o a cometer verdadeiros enigmas, contratando sem razão aparente um jogador de qualidade questionável só porque militou em tempos num rival, ou então, quando o defrontou, produziu exibições de encher o olho, despoletando a esperança no responsável desportivo, que tais exibições se repitam desta vez com o dito jogador no seu plantel. Terá sido isto que terão pensado os dirigentes leoninos, quando tomaram conhecimento que numa eliminatória da Taça de Portugal, um jovem avançado, portador de um nome que fez história no clube de Alvalade e na baliza da selecção nacional, enviou três bolas para o fundo da baliza do FC Porto. Sim... falamos de Ivo Damas. Jovem avançado do Maia que brilhou a grande altura nessa tarde contra os campeões nacionais, tendo sido o seu hat-trick, apesar de tudo, insuficiente para afastar os portistas que triunfaram 3-4. Passado apenas algumas semanas, este esguio e rápido dianteiro, tinha rubricado um contrato-relâmpago com o Sporting, Em dois anos, este penafidelense, passou do modesto Paredes da III Divisão, para um dos principais clubes nacionais. Porém, aquilo que esta transferência teve de mais surpreendente, foi a duração do contrato... 7 anos! Estaríamos diante da maior star-to-be da bola lusitana? Teriam os leões cravado as garras num intérprete cujo sublime manancial técnico-táctico passou ao lado dos seus rivais? Bom... a ver pelo que seguiu, a resposta será um rotundo “NÃO”. Uma mão cheia de jogos na principal equipa dos leões, e exibições que, de tão descoloridas, fariam um qualquer cruzamento de EL Hadrioui para uma qualquer bancada Superior da Luz, parecer um excitante lance do mais burilado futebol. O nosso Ivo foi para o satélite da altura, localizado no nosso Far-Oeste, lá para os lados da Lourinhã. E lá... depois de uns quantos Jack Daniels no Saloon da rua principal, tendo o som dos cascos dos cavalos e o constante ranger das portas e do soalho do estabelecimento como paisagem sonora , os nativos acederam em contar-nos a lenda de Damas, o Avançado mais rápido do Oeste, que iria levar o Lourinhanense até ao próximo escalão do futebol nacional. Pelo menos foi assim que ele foi anunciado... Porém, nunca ninguém lhe pôs a vista em cima. Ivo “A Bala”, como chegou a ser conhecido, nunca chegou a alinhar pelos Verdes do Oeste e, conta a lenda, terá sido o vento que o levou... sem ninguém alguma vez lhe por a vista em cima. Ivo subiu rápido é verdade... mas a Física não nos trai... e o que sobe, também desce. E por vezes bem rápido. Depois do Oeste e da rescisão do contrato com o Sporting, seguiu-se Alverca, depois a Ovarense e por fim os Dragões, não os da invicta, mas sim os de Sandim, que como é lá perto, acaba por ser quase a mesma coisa. O jovem Ivo sentiu na pele aquilo que muitos sentiram, o panteão dos eleitos à distância de um braço. Mas por vezes... um braço é muito, como muita foi a desilusão dos dirigentes leoninos ao verem a sua jovem aposta e o seu triste fado...

terça-feira, outubro 21, 2003

ROBERTO MATUTE: 3a E ULTIMA PARTE DA SAGA. Em Belem, o regresso as boas exibiçoes. 26 jogos e 8 golos, com os pasteis na Segunda Divisao de Honra, e o possante espanhol, olhos fixos no Tejo, cada vez mais a arrastar o seu poderio fisico pelo relvado. Apesar dos jogos correrem de feiçao e a sua media nao ser de menosprezar, notava-se em Matute um ligeiro aumento de peso e perda de velocidade. O dominio da tecnia da Morte Toraxica continuava intacto, mas Belem pedia mais. Assim, no final da epoca, com o passe na mao, é tempo para mais uma corrida, mais uma viagem. O destino? O Dundee United, lendario clube escoces do feiticeiro tobaguenho Russel Latapy, galardoado com um voto na escolha dos seleccionadores FIFA para melhor jogador do mundo, e sobejamente conhecido pelo sanguinario duelo com Jokanovic e por ter furado as redes de um estadio brasileiro num estagio do FC Porto de final de epoca (momento que o programa Contra Ataque registou para a posteridade, como é seu apanagio). Foi na Escocia que Matute viveu a febre do bug do milenio, alinhando apenas em 5 encontros. Os frios ares da Escocia fizeram dele o ultimo hispanico de renome a alinhar na frente de ataque do clube escoces, ate a chegada de Claudio Cannigia, ja devidamente recuperado do stress pos-traumatico provocado pelo embate com Coroado na Luz (a celebre Batalha dos Cartoes). Depois da Escocia, o regresso a casa e hoje pode dizer-se que Roberto Matute agita o mercado dos escaloes secundarios da Liga Espanhola, tendo recentemente protagonizado uma bombastica transferencia, ao recusar renovar com o Gramenet para assinar pelo Recreacion. Um cidadao do mundo, sempre na vanguarda, ou o ultimo de uma rara estirpe de colossos irredutiveis a tentar mostrar ao mundo que ainda ha espaço para a tecnica da força. Chaves e nos, como sempre, nao esquecemos.

segunda-feira, outubro 20, 2003

Depois de um tackle extremamente agressivo de um jogador magrebino ter transformado a ode a Matute num mero prologo de homenagem (um carrinho ao jeito do saudoso belenense marroquino M'Jid), urge continuar a travessia por esse homem que, tivesse tido arte, engenho e bons conselhos, seria um verdadeiro pichichi na liga de nuestros hermanos. Jogador sintese do poderio animal, Roberto Matute reinnava na area como o leao reina na savana, uma supremacia fisica imperial, qual Cortez a invadir as Americas. Nascido em Agosto de 1972, Roberto Matute Puras começou a dar nas vistas no Logrones, onde os olheiros flavienses o foram descobrir, a ensinar as camadas jovens a matar a bola no peito. "Matar no peito", expressao do futeboles que romanceia a arte de roubar a vida a uma vola veloz, fazendo-a adormecer na caixa toraxica, requer uma mestria acima da media: o gesto simultaneo de levantar a cabeça, calcular a trajectoria da bola, posicionar o tronco, dar-lhe a inclinaçao adequada e depois, encaixar o impacto deixando a redondinha rolar até a ponta da bota nao é facil, mas Matute fazia como quem come uma tapa. Em Chaves, obviamente, titular indiscutivel na temporada de 96-97, passeando numa frente de ataque que conheceria tambem os avançados espanhois Miner e Dani Diaz, para alem do poste romeno Cuc. Nessa temporada, 10 golos em 34 jogos, media assinalavel, em Tras os Montes. Na temporada seguinte, um ligeiro declinio para 26 jogos e 3 golos, perda de rendimento que levaram o tigre catalao a paragens mais a sul, e mais azul. Era tempo de Cruz de Cristo. FIM DA PARTE 2 Nao percam, carissimos leitores, a conclusao da odisseia de Roberto Matute, nos proximos dias!

quarta-feira, outubro 15, 2003

(ponto previo: este post sera escrito com muito poucos acentos, dada a longinqua proveniencia, um lugar onde os teclados sao tao diferentes quanto o estilo de jogo da lusolandia) Arrumado o ponto previo, o Chaves. Os rasgos de exuberancia futebolistica e os excelentes golos de bandeira dos saltimbancos da bola lusa regressam agora à sede dessa paladina missao que é o Tras-os-Montes All Stars da decada de 90. O holofote recai agora sobre o portento catalao Roberto Matute. Apesar de ser um nome que nao necessita de grandes introduçoes, impoe-se a resenha. Impoe-se porque se existiu jogador que personificava a expressao "mata no peito", era Matute. Um pouco à semelhança desse Messias chamado Jesus Seba, futebolista de 24 quilates, garboso bolide de 160 cavalos quando engatado na ala direita, Roberto Matute era tambem ele um genuino produto do animismo futebolistico, esse sentir do futebol como uma religiao primordial, que tranforma os jogadores na expressao pura da divindidade dos animais selvagens. Matute era assim, corajoso como um falcao, indomavel como um puro sangue arabe mas tambem preguiçoso como um reptil herbivoro. FIM DA 1 PARTE

terça-feira, outubro 14, 2003

Existe um conjunto de jogadores, admiráveis exemplos de dedicação e profissionalismo, hoje em dia ídolos de torcidas, fantásticos intérpretes dessa arte que todos amamos, que começaram a carreira de jogador de futebol espalhando a sua magia pelos campos pelados e irregulares das divisões distritais nacionais, prepassando contextos amadores dos quais certamente fariam parte os balneáreos sem àgua quente, as invasões de campo semanais e o fanático adepto decano que se encosta todas as semanas no mesmo local do varão de metal que divide o campo da assistência, insultando o lateral da sua equipa que adoptou como ódio de estimação. É por estas e muitas outras razões que uma Ode a estes esmerados proletários da bola se torna absolutamente inevitável. Como é possível que, nas condições eufemisticamente acima descritas, tenham brotado talentos de valor inquestionável que, desafiando as leis da reprodução social, romperam as amarras que os prendiam à mediocridade e ao amadorismo, libertando-se para os principais palcos nacionais e não só, delineando uma trajectória ascendente da qual são eles os principais responsáveis, vertendo sangue, suor e lágrimas para obter o reconhecimento que justamente julgaram merecer. Certamente foram mais e provavelmente haverá outros cuja referência seria de uma elementar pertinência. Porém, aqui na Caderneta, confessamos que existem dois jogadores de quem somos incondicionais fans e em quem vemos todos os outros que ficaram por referir. O primeiro chama-se Marco Júlio Castanheira Afonso Alves Ferreira. Conhecido para o mundo da bola como Marco Ferreira, diabólico extremo-direito, sublime personificação do Mighty Mouse e executante na linha de um Gamboa ou de um Rui Borges. Actualmente ao serviço do FCP, este extremo transmontano também avançado ou segundo ponta-de-lança, começou a sua carreira no Vimioso corria a época de 95/96. Apenas uma época nos séniores foi suficiente para que o Tirsense, clube que estava nesse momento no início da sua dolorosa descida directa da primeira divisão para os distritais e que militava na divisão de honra, reparasse no talento que brotava dos pés deste ala supersónico. A seguir a Santo Tirso veio o reconhecimento além-fronteiras. Marco ruma até Madrid para jogar no Atlético... B. Sublinhe-se aqui o facto de nunca ter sido dada uma oportunidade ao nosso driblador transmontano na principal equipa dos colchoneros, algo que cremos ser uma profunda injustiça, sobretudo se pensarmos que por volta desta altura andava Carlos Secretário a provocar ataques cardíacos aos adeptos blancos do Real, jogando ao lado de Raul, Seedorf e Mijatovic. A seguir veio o Oriente. Enquanto os grandes jogadores lusos na pré-reforma como Paulo Futre ou Rui Esteves viam no futebol asiático um palco para acabarem as suas carreiras, o nosso jovem Marco via no país do sol nascente um campeonato capaz de lançar definitivamente a sua, algo que efectivamente não se passou..Da sua passagem pelo país da Yamaha e do sushi não rezam grandes crónicas. Desiludido com a sua aventura além fronteiras Marco regressa a Portugal. Recusando ser mais um exemplar do tipo de jogador que, à falta de melhor termo, definiremos de “next-big-thing-que-nunca-chega-a-ser”, o nosso extremo começa a cimentar a sua posição no nosso futebol. Uma época no Paços de Ferreira, seguida por três no Vit. de Setúbal e exibições de encher o olho levaram-no à selecção de todos nós e ao Futebol Clube do Porto, onde alcançou o estatuto de arma-secreta na final da Taça UEFA do ano passado. Do Vimioso transmonano até à final da Taça UEFA em Sevilha, Marco Ferreira escalou todos os degraus que separam o mais patético amadorismo da elite do futebol europeu. Marco... terão sido muito poucos a conseguir o que tu conseguiste. We bow to thee... Existe ainda outro homem que também admiramos de forma incondicional e que também se enquadra no perfil a que aqui se procura prestar tributo. José Alberto Mota Barroso. Mais conhecido pelo seu último nome, este trinco, também carregador de piano e homem do pontapé canhão iniciou a sua carreira de sénior no Arsenal de Braga, clube que militava nos distritais. Com uma carreira com mais de 10 anos, Barroso é um historico do principal clube da cidade episcopal, o SC Braga, e apesar de nunca ter conhecido outros paises na sua trajectória profissional, conheceu os balneários do Rio Ave , da Académica e do FC Porto, onde se sagrou campeão nacional. Também este esmerado artista alcançou o estatuto de internacional fruto de uma regularidade impressionante, regularidade esta adornada com uns quantos golos de fora da área que conseguiu amealhar ao longo das épocas, figurando alguns deles entre os melhores dos últimos anos do futebol nacional. A sua imagem de marca é sem sombra de dúvidas o seu remate violento, injustamente apelidado por algumas correntes duvidosas de pontapé “à matreco”. Alusão ao jogo dos matraquilhos e aos golos que, por vezes, se obtêm quando a bola depois de rematada bate num par de jogadores antes de entrar na baliza. A esses hereges dizemos “no passaran”! Barroso é um jogador que seria titular em quase todas as equipas da divisão maior do futebol nacional e não seria totalmente desprovido de sentido uma convocatória para o Euro. Este desejo já foi expresso pelo próprio. Pelo menos uma oportunidade nos amigáveis deveria ser-lhe dada. Alguém consegue dizer que Luis Loureiro é um jogador mais completo que Barroso? ...Meros mortais ou algo mais? Marco Ferreira e Barroso representam uma estirpe rara de praticantes do desporto rei, estirpe essa cujo carácter se encontra atravessado por uma irreverência indomável que parece dotar estes magos do esférico de capacidades sobre-humanas, capazes de os fazer escalar todos os escalões até aos píncaros da bola.
Devido à contratação relâmpago de um dos nossos redactores pelo Sportif d´Nanterre parisiense, contratação essa que contou com o dedo mágico do seu empresário Monsieur Erasmus, a Caderneta da Bola encontra-se algo desfalcada para atacar em força a época que agora se inicia. Descansem os leitores. A saga flaviense será concluída. Porém, impõe-se agora uma Ode a alguns dos mágicos da bola que, em tempos idos, antes de brilharem na divisão primeira do futebol português e na selecção de todos nós, passaram pelas divisões distritais, enriquecendo os planteis de clubes que nem o adepto mais conhecedor terá ouvido alguma vez falar.

segunda-feira, outubro 13, 2003

A Caderneta da Bola faz hoje uma viagem até à cidade do antigo governador civil, transformado em Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, viajando de moliceiro pela Ria de Aveiro, até chegar ao rural Mário Duarte, onde a relva é tão comprida quanto o cabelo do antigo central Dinis. O nosso visado é Aldo António da Costa Soares, conhecido no meio por Simone, que não tem como primeiro nome Marco, nem como apelido De Beauvoir, avançado da classe de 66, angolano de origem, descoberto para as lides da bola pelo mítico treinador dos onze dedos, Álvaro Magalhães, quando treinava o Lusitânia de Lourosa, repleto de figuras do 'triste fado' futebolístico nacional, como o 'veterano' ponta de lança Penteado, que até tinha pouco cabelo ou o defesa Carmindo, dos tempos do Águeda primodivisionário, isto para não falar dos promissores Basílio Almeida e da 'eterna promessa' Marco Stromberg, um extremo que, aos 10 anos, era vedeta dos infantis do 'Glorioso' da Luz. Esta equipa destacou-se na época de 93/94, por ter chegado aos quartos-de-final na prova rainha, eliminada pelo Sporting em Alvalade, depois de ter superado o Belenenses de João Alves, num jogo “bombástico”, numa partida em que a relva parecia ter chegado directamente de Paranhos para substituir a que tinha sido destruída por Mark Knopfler nos seus concertos à grande-jogador-só-que-temos-o-plantel-fechado. De qualquer maneira o Lourosa, foi para essa época aquilo que o Sandinenses viria a ser mais tarde, isto é, uma equipa, vinda do deserto do nada, em busca do Graal, impossível de alcançar, que é o ceptro de Taça, que às tantas, deixa de o ser. Depois de passagens pela terra de Vieira de Carvalho e pela Vila das Aves, o avançado Simone, que não era alto, muito menos loiro, mas era tão tosco como o jogador que deu origem a essa expressão, deu nas vistas na sua segunda época de Lourosa, onde marcou treze golos em vinte e nove jogos, e logo saltou para o Beira-Mar, onde nunca se impôs. É certo que a herança de Dino “Dumbo” era pesadíssima, mas o seu rendimento foi tão baixo, que acabou por ser recambiado para a margem...sul! A Amora era o destino, com José Rachão como técnico e o grande comentador e 'bombista' Manuel de Oliveira, que ao contrário do realizador, cultiva um estilo mais “mexido”. Na Amora, as coisas voltaram a não correr bem, e no final da época o jogador procurou a redenção em Fátima, onde nunca encontrou a luz, neste caso, das balizas contrárias. Mas a explicação até pode ser dada pelo facto de não ter sido orientado em território santo pelo 'mítico' Válter Ferreira, que, para alguns, foi um 'pastorinho' fora do tempo. Quem não se lembra da história dos dólares com a face de António Oliveira? E o carimbo do N'Dinga? Depois de três anos de rasto desconhecido, com passagem pelas divisões inferiores do futebol francês, o regresso deu-se no local mítico da queda do avião de Sá-Carneiro, Camarate, jogando pelas águias locais. Mais uma corrida, mais uma viagem, mais um descalabro! A carreira do jogador estava irremediavelmente destruída, registando ainda uma passagem pelo Barrosas, dos distritais nacionais. Perguntará o caro leitor o que é feito de Simone? Resposta : Está detido, em Paços de Ferreira, por tráfico de droga. A NTV ao reportar uma partida de presidiários, apitada por Paulo Paraty, auxiliado por Carlos Calheiros, sem bigode, num encontro de notáveis, onde não faltou a presença nas bancadas de um antigo presidiário do balneário de Chaves (Major oblige), Vítor Reis, o canal com pronúncia do norte descobriu o jogador, que se mostra arrependido do que fez e disposto, ano e meio depois da detenção, a mudar de vida quando cumprir os cerca de seis anos que ainda o esperam. Resta saber se essa vontade de voltar atrás, não passa por esquecer a carreira de jogador, que, diga-se, teve sempre uns milhares de miligramas a mais.

sexta-feira, outubro 03, 2003

Façamos então mais uma pausa na odisseia flaviense agora que já se vislumbra a linha avançada deste notável mantra internacionalista que encantou durante anos a fio quem acompanha este nosso futebolinho lusitano para prestar homenagem a um homem que, injustamente, tem sido relegado para as trevas do esquecimento. Corria o ano de 1995. O dia? O de Portugal, Camões e das Comunidades... o 10 de Junho. O local? Estádio Nacional, ou como diria Pinto da Costa... “o Estádio de Oeiras”. Na final da Taça de Portugal defrontavam-se o Sporting, ainda na fase de seca e acabadinho de cumprir 13 anos desde o último título oficial, e o Marítimo, responsável pela eliminação do FCP nas meias-finais. No Sporting pontificavam nomes como Naybet, Balakov, Amunike, Iordanov, Carlos Xavier, Figo e o capitão Oceano. O Marítimo era capitaneado pelo duríssimo central Carlos Jorge e contava ainda com Zeca, Soeiro, Alex, Paulo Alves e o homem do pontapé canhão Heitor. Neste dia tão português, em que o Sporting com dois golos de Iordanov consegui finalmente beber àgua após 13 longos anos, quem brilhou foi um brasileiro. E esse brasileiro estava do lado dos derrotados naquela tarde de Junho. Falamos do guardião Everton. Quem esteve no Jamor nesse dia recordará com certeza a exibição absolutamente estratoesférica (mais para o esférico do que para o estrato) do Guardião das Barbas, responsável único pelo conservador resultado de 2-0, magnífico intérprete de uma dezena de intervenções grandiosas, havendo mesmo três ou quatro que raiaram o domínio do impossível. Everton foi grande. Enorme. O único jogador insular que não merecia ter perdido aquela taça. Podemos mesmo afirmar que se o Marítimo tivesse a sua baliza entregue a um Luis Vasco ou a um Vitor Nóvoa, o Sporting teria certamente chegado aos 6 ou 7 golos. A Caderneta deixa aqui a homenagem a este homem, último representante da corrente estilística jogador-barbudo (uma palavra para Zahovic que no princípio da corrente época adoptou um admirável visual guevariano) e personificação suprema de uma colossal força de vontade, ao continuar a prática desportiva após lhe serem retirados um rim e o baço, não deixando que o referido handicap lhe amputasse a carreira, proseguindo sempre ao mais alto nível e produzindo exibições como aquela aqui descrita. Everton, mereces toda a nossa reverência. Foste um dos melhores. Podiam ter-te tirado mais uns quantos orgãos que continuavas a estar no panteão dos guardiões de eleição. Nunca serás esquecido.

sexta-feira, setembro 26, 2003

Após uma breve pausa na Cruzada Flaviense, helas Toniño. Porque não apelidá-lo de Comandante da Armada? Centro-campista sem grande poderio físico, era no entanto o verdadeiro timoneiro da nau do Marão e por quem os adeptos flavienses não deixavam de sentir uma reverência inabalável. Quando o extremo adversário deixava por terra Vinagre, lá vinha ele, num carrinho esforçado junto à linha lateral fazendo levantar as bancadas do Municipal e evitando, sem o saber, uns quantos ataques cardíacos nos tiffosi transmontanos. Este basco defendia as cores do Chaves como se disso dependesse a autonomia da região que o viu nascer, e fazia-o de uma forma que deveria servir de exemplo aos jovens centro-campistas do miolo, de uma forma abnegada, altruísta, recusando qualquer tipo de protagonismo. Era aquele tipo de jogador discreto, por vezes nem se dava por ele, fazendo o trabalho invisível, de marcação no meio-campo e de corte de linhas de passe. Era ele que dobrava os devaneios driblísticos de Milinkovic ou de Paulo Henrique que, em irresponsáveis subidas, comprometiam a robustez táctica da equipa. Aliado a isto tudo, tinhamos como anexo um poderosíssimo pontapé de longa distância. Talvez não ao nível de um Heitor, mas também capaz de causar sérios danos na integridade física de quem se encontrasse na trajectória da bola. Este estilo de jogo foi refinado ao longo de vários anos na cantera do Athletic Bilbao. O comunitarismo calculista e a rebeldia contida e permanente encerram toda uma postura marcadamente regional. Toniño porém, na sua polivalência silenciosa, stranger in a strange land como era Chaves perante o seu carisma, transportava o grupo para aquele patamar de jogo em que se distinguem os conjuntos de homens das equipas entrosadas, chamando a si o papel da referência. Não a referência técnico-fantasista, como Milinkovic, não a referência autoritária, como Manuel Correia, mas a referência da salvaguarda, de segurança e lucidez. Os companheiros e a afición sabiam que aquele ali seria o último a cair. E cairía com arte, de pé, como as árvores dos sábios que aprenderam a venerá-lo.
Eis-nos então prontos para mais uma incursão no universo dos programas desportivos. Não tão mediático como o Domingo Desportivo, não tão exaustivo como Desporto 2, não tão polémico como os Donos da Bola nem tão político como o Jogo Falado. Falamos do Contra Ataque. Programa com a mesma idade da televisão da igreja, orientou os acólitos em manhãs de verdadeiro catecismo futebolístico e viu passar pelos seus quadros algumas das mais inesqueciveis personagens da bola falada. Possuidor de um elenco eclético e esmagador, capaz de acolher da mais doce donzela ao mais rude analista. Passemos, então, em revista os arautos da nova mensagem da bola. Tutelados pelo mentor Silva Resende, que com a sua rubrica "De Cabeça" dava autênticos cursos de religião e moral futebolística, aos que se conseguissem manter acordados e atentos aos galões deste encartado ex-dirigente federativo e eminente diplomata da FIFA, a equipa mostrava grande entrosamento. Na baliza, José Carlos Soares. Pausa para respirar fundo. O que dizer? O bombástico polivalente da televisão portuguesa, mostrando grande à vontade na socialite desportiva (um autêntico Paulo China com carteira profissional de jornalismo), apimentava as sessões televisivas com argúcia e tenacidade. Rápido na análise, precipitado por vezes nos comentários aos jogos (visível pela reputação de enfant terrible que granjeou ao emparelhar relatos da Liga Espanhola com Carlos "Terminator" Mozer). A irreverência leva-o mais tarde ao posto de guardião da selecção portuguesa de futebol de praia e, por consequência, ao lugar de compagnon de route de ídolos como Hernâni (a fenix renascida nas areias da Figueira da Foz) e Nunes. Como jornalista, o Contra Ataque foi o começo, como foi o Beira Mar para o jovem Joel. Depois de JCS, Brigitte. Brigitte Martins, número 10 na camisola, distribuindo jogo como a cara vísivel do Contra Ataque. Incompreendida aprendiz dessa tágide do desporto, essa Pierre de Coubertin de saias que foi e é Cecília Carmo (de quem nós aqui somos indefectíveis), Brigitte mostrava mais à vontade nas Docas (com Kenedy, por exemplo, ou qualquer outro jogador que quinze dias atrás houvesse marcado um golo de belo efeito e por conseguinte elevado à categoria de esperança lusa) do que a ler o teleponto. Os seus trunfos: o sorriso e a postura hirta, para além do corte de cabelo que, apesar de tirado a Cecília Carmo, mostrava aquela extravagância que só um par de madeixas caju conseguem imprimir. O carregador de piano e ocasional central de marcação, no entanto, era um brasileiro de peso, José Roberto Tedesco de seu nome. Tedesco acompanhou todavia apenas os primeiros anos desta equipa, dada o seu retorno prematuro ao futebol brasileiro. Aqui na Caderneta crê-se que o afastamento da equipa terá estado alegadamente relacionado com um episódio de infeliz precipitação, ao comentar uma substituição de Artur Jorge ao serviço do Benfica como uma alteração digna de "um treinador com tumor na cabeça". O (mau) génio do comentarista ter-se-á assim devido a esse carácter volátil e jocoso do tropicalismo, bastas vezes incompreendido pelos sorumbáticos adeptos lusitanos, mas também à dura realidade que era o Benfica Parmalat de Nelo, Tavares e restantes. Tedesco era autor da rubrica Brasileirão onde, pela primeira vez em Portugal, os bolómanos tinham oportunidade de vibrar com os lances mais importantes de jogos como Paysandu vs. Curitiba ou acompanhar a carreira do Juventude de Ponte Preta. O choque civilizacional terá sido demasiado forte para este ácido zagueiro de 150 quilos. Terminando o périplo, o benjamin da equipa, entretanto promovido também a reportér de exteriores em eventos de maior envergadura, como Europeus e Mundiais, o José Gabriel Quaresma. Sem dúvida o elemento mais discreto e cerebral da equipa, este médio direito repentista e de baixa estatura (e os especialistas sabem o quão importante é um centro de gravidade baixo num jogador que se quer rápido e eficaz) apresenta também credenciais que, extravasando a irreprensível leitura do teleponto e a antevisão au ralenti de cada jogo da jornada - com vedetas convidades a jogar ao Totobola - avançam até domínios inovadores como a reformulação de pronúncia de nomes de cidades europeias. Por exemplo, alguém alguma vez percebeu em que cidade é que Portugal estagiou no Euro2000? Ermelo ou 'Err-méh-lô'? José Nicolau de Melo, agarra este pupilo e, se estiveres a ler, responde-nos. Por todas estas razões, considera-se aqui injusto estes pedaços de análise televisiva ficarem atrás do palanque de programas como os citados no início, apenas porque Brigitte nunca foi bombardeada com sacos de urina ou porque o Rui Reininho nunca discordou de José Gabriel Quaresma no resultado de um Rio Ave-Campomaiorense.

quinta-feira, setembro 25, 2003

A Caderneta sente-se na obrigação de partilhar com o seu auditório um acontecimento de uma importância inquestionável. Vimos por este meio, o mesmo de sempre, confirmar que este vosso cantinho de bola falada, ontem um menino imberbe e sem provas dadas (lembrando o jovem Ramos que Paco Fortes um dia lançou às feras no S.Luis), hoje transformado numa amálgama de experiência e técnica que se assemelhará a um Milton Caccioli em plena época de 94/95 atingiu a mítica fasquia das 10000 visitas. Este número é tão mais intimidatório se pensarmos que se a cada visita correspondesse uma pessoa, seria mais que suficiente para encher um Eng. Vidal Pinheiro em Paranhos ou um Capitão César Correia localizado no quintal da família Nabeiro que alguém um dia apelidou de Campo Maior. A redacção agradece a preferência e promete aplicar-se a fundo, nem que para isso seja necessário uma tesoura por trás sem bola, para não defraudar as espectativas em seu torno criadas. E agora... bola p´rá frente... que para trás mija a burra.

sábado, setembro 20, 2003

Caderneta da Bola: Para quem prefere Mamadú Bobó a Aniki Bobó. Passes a rasgar ou entradas a pés juntos para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Aqueles que, sensatos, têm acompanhado o Terceiro Anel, constataram (emocionados, por certo) que estes sempre vossos partilham a odisseia historiográfica em duas mãos, uma aqui e outra lá mesmo - http://terceiroanel.blogspot.com . E é com profunda emoção e redobrada motivação que vemos expandir-se a ânsia do conhecimento e o número de pintores desta 'arte geométrica'. Bola para a frente.
O percurso historiográfico pelo Marão começa a revelar-se uma dor de cabeça, tal é a riqueza do plantel. Com efeito, desde os primórdios que a memória é a mais profícua fonte humana de surpresas e acreditem que mergulhar na memória até ao fundo para resgatar o Chaves tem tanto de doce como de conflituoso. Vêm estas linhas tentar justificar o facto de, depois de fechado o capítulo da defesa, e já em plena lavra de meio-campo, regressarmos à rectaguarda para dar conta de uma figura absolutamente imprescindível nos compêndios da bola transmontana. Ponderámos muito, sim, mas chegámos à conclusão que Denis Putnik merecia um memorial. Breve, mas suficientemente simbólico para o recordarmos como um dos esteios dessa agressiva transnacionalidade que tem feito do Municipal de Chaves esse campo de tiro que tão bem conhecemos. Denis Putnik, portentoso defensor, chega a Chaves com o título de campeão croata pelo Hajduk Split, à altura (93/94) com uma autêntica dream team (Milan Rapajic e Ivica Mornar no ataque, Balajic - "trabalho para ser melhor que o Maldini", disse um dia à chegada a Alvalade - e Buturovic - o nemésis de Secretário - na defesa). Alto, forte e espadaúdo, era a sombra onde Manuel Correia era a luz, era o gelo onde N'Dong era o fogo, era o rasto enlameado do atleta adversário. Apesar de apenas 3 jogos na época croata, chegou a Chaves para pegar de estaca e fazer, em duas épocas, cerca de 57 jogos e 3 golos, seguindo depois para... Leça. (é verdade, a Caderneta já lá andou!) Uma descoberta feliz de um dos mui obscuros agentes-fífia que pululam por esse Portugal fora, um homem recto e respeitado pela torcida (fontes bem informadas da Caderneta da Bola poderão vir, no futuro, a contribuir com curta prosa sobre a única claque organizada do Desportivo de Chaves, prestai atenção - ou talvez não), mas ainda assim, um incansável indutor de calafrios. Enfim, depois da curta abordagem aos guarda-redes, quem o pode censurar?