sexta-feira, agosto 13, 2004

Em véspera de comunicado após a reunião de emergência de todo o staff técnico na Torre da Caderneta, os obreiros desta vossa esmerada publicação lançam-se, em esforço, num carrinho heróico rumo à bandeirola do Dicionário Português-Futebolês. Desta feita, e acompanhando os avanços vocabulares revelados, nos últimos meses, pelo elenco comentarista da bola viriata, a expressão escolhida é o apêndice anglicista do centrocampista actual: o box-to-box. Enquanto que a maioria dos anglicismos herdados da pré-modernidade do nosso futebol (e dos nossos comentadores) começam a cair em desuso, como keeper e score, quando não mesmo banidos do léxico empregue (vide a fraca adesão da sociedade civil à palavra Souness, por exemplo), eis que a intelligentsia do esférico falado estabelece o paradigma para O Artista Anteriormente Conhecido por Trinco Moderno. Em mais uma confirmação wildiana (de De Wilde) de que a vida imita a arte, verificamos que a expressão entrou, com tanta discrição quanta eficácia, nos media portuguesas, ao ponto de todos os dias ser possível lê-la, ouvi-la, enfim, audiovisualiá-la, e - e aqui estão traiçoeiramente espetados os pitons nas costas do futebol - uma série de jogadores ganham subitamente uma dimensão e uma nomenclatura que, por vezes, parece bastar para justificar a atenção aos mesmos. O médio box-to-box é assim chamado por apresentar como atributo maior o facto de fazer o seu jogo em correrias entre uma box (a sua área) e a outra (a área adversária). Esta expressão é redutora, redundante e perigosa. Redutora e redundante porque tende a fixar como característica fulcral do jogador, o terreno em que se move, isto é, o espaço que no relvado lhe é destinado para o desempenho das suas funções técnico-tácticas. Aqui sangra até à morte o esteta e o amante da bola: um jogador é muito mais do que a superfície de relva que lhe é prescrita a pisar. É por isso que os genéricos "médio" ou "avançado" não passam disso mesmo, de referentes genéricos para algo que será caracterizado de seguida. Nem o rótulo "avançado" foi alguma vez suficiente para traduzir o inferno de Ricky e Marlon Brandão, como jogadores do quilate do aveirense Eusébio ou Carlos Costa [este o arquétipo do dito "box-to-box"] nunca necessitaram de artifícios linguísticos para nos deleitar com o seu futebol. É redutora por isso e redundante na medida em que é tarefa de um médio cobrir o centro do terreno, sendo que este, em casos limite pode ir de uma área (zona defensiva) até à outra (zona ofensiva). E perigosa, porque coloca em causa a tipologia quadripartida do gr-df-md-av, esvaziando-a e lançando-a na ambiguidade. O "box-to-box", dirão os lacaios do teórico G.Alves, é o justo reconhecimento do centrocampista que soube evoluir e completar-se, estendendo o seu raio de acção, ajudando o futebol a dar o seu salto qualitativo. Falso. A lacuna analítica está precisamente no facto de que a caracterização comum de um médio como "box-to-box" é subrepticiamente elogiosa, quando desde a Laranja Mecânica de Rinus Michels (e o equivalente português, o Feirense de Bock e Ousmane) sabemos que os jogadores são multifuncionais e podem ser intérpretes versáteis de várias posições tácticas. Regressando a Carlos Costa, o facto de ter feito duas excelentes épocas no Beira-Mar, uma equipa com pouca expressão apesar de ter dado ao mundo Abdel Ghani, nunca valeu aos cegos, que se limitaram a referi-lo como médio-centro esforçado, recusando-se a vislumbrar essa tal característica de "ir de uma área à outra", ao passo que estamos em condições de assegurar que Maniche, considerado o exemplo maior do "box-to-box" português, ocupa dois terços da sua colecção VHS com as lições do professor moliceiro e farense. A finta sapienza da bola falada substitui os clássicos pelos ultra-congelados, ao votar ao esquecimento jogadores que pautam a carreira pela regularidade (em detrimento dos jogadores de grandes momentos), pelo futebol físico em estádios menores, pelo trabalho de sapa longe das objectivas televisivas ou das penas dos diários nacionais. E a expressão "box-to-box" é um economato mental, uma espécie de abreviatura de artista de uma arte infelizmente cada vez mais abreviada de essência.
Caderneta da Bola: penalties fidelidade para caderneta-da-bola@megamail.pt

sexta-feira, julho 09, 2004

Aproveitando para agradecer a Ivan, o autor do blogue A Praia pelo manifesto exagero elogioso da obra que estes vossos narradores e a bola lusitana se encarregam de manter de pé, a Caderneta da Bola não pode deixar de aproveitar, pela última vez, o rescaldo do Euro para prestar mais uma singela homenagem a esse colosso do futebol português que colocou o União Futebol Clube "Os Pastilhas" no roteiro das grandes colectividades desportivas da Europa Comunitária. "Os Pastilhas", bastião dos irredutíveis ultras das Escadinhas da Barroca, altar mor dessa capital da bola que é a Cova da Piedade, nasceram a 5 de Março de 1972 como uma equipa de futebol patrocinada pelas Pastilhas Rennie, patrocinador que acabou por dar o nome à equipa e também curar a azia dos tiffosi da margem sul depois dos sangrentos confrontos com o Almada. Foi aí que despontou para o futebol esse nome maior do que a história, aí honrou as cores vermelho e brancas do clube que durante anos a fio reinou nas Seixalíadas e, numa rara demonstração de ecletismo, chegou a disputar o Campeonato da Europa de Subbuteo em Barcelona. Um jogador de dimensões siderais, fisicamente fortíssimo, tecnicamente deslumbrante, dono e senhor de um trato aristocrático do esférico e de uma carácter que lhe valeram, como é do conhecimento público, uma transferência para o Sporting Clube de Portugal, onde despontou na equipa junior e confirmou uma estrondosa carreira nos séniores, embora não por muito tempo, como é do conhecimento público. Agora que o seu nome começa, arriscamos, a entrar no perigoso limbo da controvérsia e da mundanidade extra-futebol que germina daninho em torno das estrelas maiores, a Caderneta da Bola eleva a voz e diz bem alto: Joaquim Mota Pinto, histórico coimbrão Mota, que tanta luz trouxeste ao Vitória do Sado, à tua Académica, ao Vasco da Gama de Sines e ao Amora, tu que soubeste pisar o relvado da Medideira como o de Alvalade, com a mesma classe, a mesma segurança defensiva, a mesma certeza no desarme, um solene e titularíssimo obrigado por tudo.

quarta-feira, julho 07, 2004

Ainda com meio país de bandeirinha à janela, tentando perceber como se elimina a Espanha, a Inglaterra e a Holanda e não se consegue fazer o mesmo à Grécia, importa resgatar aquela que, até ver, se assume como a única glória da selecção nacional. Já aqui referida num post que aconselhamos aos nossos leitores (procurem bem que fica já aí nos arquivos) a Skydome Cup, jogada no Canadá em 1995 continua a deter o lugar mais importante na vitrine de troféus da FPF, como o único troféu jamais conquistado oficialmente pela Selecção Nacional Sénior. Importante aqui, aparte todas as razões invocadas aquando da nossa primeira referência ao evento, é contrariar a euforia reinante com um pouco de racionalidade. O facto de Luís Filipe Scolari ser um técnico da mesma fornada do mítico belenense Abel Braga ou condiscípulo de Marinho Peres, não o impermeabiliza de críticas. E essas, convém dizê-lo agora que o prudente silêncio a que nos reservámos enquanto o mundo girava em torno das quinas e dos pagodes finalmente terminou, essas críticas só podem referir-se ao conjunto de critérios utilizados pela equipa técnica da FPF para designar o lote de eleitos para este Neuro'2004. Dizem os escritos mitológicos gregos que a derrota agracia os que ostracizam o passado e a história (é questão de conferir as declarações desse deus grego Machairidis aquando da sua segregação lampiã). Não olhar para a história é, sob o ébrio da glória anunciada, escolher ignorar que o único troféu conquistado pelos séniores da FPF obedeceu a dois pilares primordiais. O primeiro é a raiva primitiva que só uma besta ferida no orgulho pode ostentar. Em futebol, como é do conhecimento geral, essa raiva tem uma única mãe: a derrota. Portugal, esquecendo Electra e os escribas clássicos, não deu conta, neste Neuropeu, que já não perdia nada há pelo menos dois anos. Em 95, a hecatombe de San Siro, na qualificação falhada para o Mundial'94, quase forçou a catarse canadiana. O segundo grande pilar é o princípio de jogarem os jogadores que estão em melhor forma no momento da convocação. Em melhor forma na Liga Portuguesa, entenda-se, sendo este conjunto complementado por uns quantos foras de série estrangeirados. Nacionalismo bacoco? Patriotismo neo-fascista? Nada disso. Puro entrosamento futebolístico, conhecimento empírico da realidade futebolística que dá à equipa representante o quinhão maior de jogadores, motivação e oportunidades a quem nunca as teve e, sendo isto o mais importante, preparar o dinâmico futebol português para continuar a produzir jogadores de craveira eliminando o fosso que separa os clubes de bairro dos grandes europeus, sem que os jogadores tenham que o saltar com as suas próprias pernas (como disso constitui exemplo a ascensão de Costinha). Em Toronto, jogaram aqueles que ao longo da época (ainda a meio, na altura) tinham evidenciado o maior número de argumentos. Claro que essa mudança no azimute foi publicamente justificada com o cansaço das grandes vedetas, treinador incluído, tinham afinal dados apenas tristeza e promessas falhadas ao povo português. Dizemos treinador incluído porque Queiroz foi substituído por um treinador à época sem curriculum nem palmarés, António "se eu soubesse que morria amanhã, agarrava numa metralhadora e fodia meia dúzia de gajos" Oliveira, que depois fez o que se viu em Toronto e mais tarde. Neste campeonato, esta linha não foi respeitada. Se é verdade que tínhamos Cristiano Ronaldo com convocatória justificada pelas maravilhas que fizera outrora no Sporting e sobretudo pela sua cruzada de vendetta pessoal do fado de Bambo, ou Hélder Postiga, do Tottenham desde pequenino segundo palavras do próprio, mostrando nos penaltis contra Inglaterra que soube assimilar a experiência de jogar no quinto clube de Londres e transformá-la em força de vencer, urge reclamar ao treinador que um dia agrediu a murro um pupilo palmeirista (perante o desconsolo dos olhos, já de si trocados, de Amaral) que reveja não só as cassetes da experiência canadiana como as de campanhas de equipas como Nacional ou o Rio Ave esta época nos relvados portugueses. É aí que nascem os grandes jogadores (aí e no Corinthians Alagoano). A Caderneta da Bola lamenta, uma vez mais, vestir, aos olhos de muitos, a pele de Velho do Restelo (quando o histórico belenenses curiosamente, pautou mais a sua história por mostrar ao mundo craques de além mar mais do que de aquém mar) e vir pôr o dedo na ferida que mais importa sarar, agora que todos digerimos o amargo fel que nos ficou da ceia grega. Aliás, se se derem ao trabalho de observar a selecção grega e o manual do professor José Mourinho, rapidamente chegam à conclusão que estas nossas ilações não são nada de novo para Oito Rehagels.

segunda-feira, junho 21, 2004

Caderneta-da-Bola: Umas vezes por Mounir, outras por Abazaj. E ningué se vai chatear por causa disso. Cruzamentos do menisco para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Conhecer pessoalmente Mame Bangane, nome de guerra Birame, hoje gerente de um cybercafe nos arredores de Paris. E perceber que foi por coisas destas que nos lembramos de começar esta historia, para traçar o imprevisivel e conhecer peça por peça esse demonio de LaPlace, engenho triturador de almas que é o futebol portugues. Se a tal nos ajudar o engenho, a arte e o tempo livre, la chegaremos. La chegaremos à primeira entrevista da nossa historia. Mas nao se fiem, que até o Pitico falhou um penalti uma vez na vida.
Os que estiverem mais acostumados a reflectir longamente sobre a bola reconhecem de subito uma epifania. Ha que ter a sensibilidade quasi-religiosa de um devoto do futebol mas também o espirito critico e terra a terra que distingue aqueles que veem o jogo da tribuna daqueles que veem o jogo do peao (tranquilidade, pequena e media burguesia intelectual, assinante da Sport Tv, defensores de Luis Filipe Madeira F. e demais ouvintes: chegaremos a esta discussao num outro momento). A epifania é a centelha que distingue um Calita de um Borreicho. A epifania é o momento magico em que Lobao faz um corte limpo e sai a jogar com a bola dominada (nao é por acaso que a comunidade cientifica dedica em media mais tempo ao Cometa Halley que ao central brasileiro). A epifania é, apos meses de desanimo com este projecto, conhecer pessoalmente o portento senegales que aterrorizou a defesa de toda e qualquer equipa que tenha passado pela Reboleira entre 93 e 96, o camisola 9 que ostenta a arrepiante estatistica de 4 golos em 3 epocas mas muitos quilometros palmilhados, que em algumas noites de inspiraçao incendiava Milovacs e quejandos com a tecnica de dribble que Wayne Rooney se dedica hoje em dia a aperfeiçoar no estadio do Louletano ou noutro qualquer do Neuro2004, esse gigante cuja compleiçao fisica corresponde a dois Rui Barros e meio Marco Nuno.
A Caderneta da Bola tem errado no deserto ao longo dos ultimos meses. Facto. A Caderneta da Bola tem sofrido multiplas desagregaçoes e ataques pessoais, como a progressiva perda de importancia de Rui Dolores na ala ou mesmo o facto do avançado Gringo, homem com 80 jogos em tres epocas de Segunda Divisao B nunca ter chegado à Superliga. Facto. A Caderneta da Bola sempre tentou pugnar pela defesa do futebol sintese da dialectica entre a tecnica e a tactica, mas mesmo essa regurgitaçao pos moderna deixou de fazer sentido nos ultimos tempos. Facto. A Caderneta da Bola precisava, e agora mais do que nunca, de uma epifania.

terça-feira, março 30, 2004

Comunicado da Direcçao da Caderneta da Bola SAD: Tal como haviamos prometido, até meados de Março colocariamos aqui um post. Desdizendo a maxima do futeboles, que postula 'o que hoje é verdade, amanha pode ser mentira', aqui fica a breve e singela homenagem a esse jogador que cumprira 34 anos no proximo dia 17 de Dezembro e cuja fugaz passagem pelos relvados viriatos nao lhe deu mais a guardar que uns quantos trocadilhos acerca da sua origem geografica, curiosamente comum à de um joguete infantil muito popular aqui ha uns anos. Pois é: o Tamagotchi que fez uma pré-época nos defuntos campos de treino do SL Benfica (nao confundir com o historico da Luz, Clube Futebol Benfica) chamava-se, em realidade, Seo Jung-Won, nasceu em Seul e marcou presença em 3 mundiais. Se o seu metro e setenta, esparsamente suportados por 65 kilos de puro chop-suey nao foram suficientes para gravar em caracteres coreanos o seu nome no panteao lampiao, ide, arautos obscurantista da bolologia, perguntar aos ultras do Racing Club de Estrasburgo o que pensam sobre este kamikaze. Ficarao, acreditem-nos, surpreendidos.

domingo, dezembro 28, 2003

A voz. Detalhe importante na formação e composição de um futebolista, a voz tem sido esquecida ao longo dos anos. Não é à toa que a língua portuguesa cunhou, através dos tempos, a expressão "voz de comando". O comando, o carisma da liderança é o que distingue, por exemplo, um Portela de um Tó Sá. Sim, Portela granjeou durante épocas a fama de lateral direitocorrectíssimo, competente a defender, pontapé forte, o arquétipo do lateral mediano. Mas Tó Sá é o nome que emerge quando os adeptos sadinos se sentam à mesa numa tasca da baixa de Setúbal a relembrar os laterais direitos do histórico clube do Sado (à direita, porque José Rui, esse lateral quase selvagem, nunca se lhe comparou e à esquerda Rui Carlos ainda traz lágrimas de saudade aos mais indefectíveis da Fúria Sadina). Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a um Vitória de Setúbal-Farense in loco facilmente discirnem que Tó Sá é um lateral de voz mais profunda que Portela. E este é um exemplo frágil, já que , salvo raras excepções, o lateral é mais solicitado que solicitador. Se falarmos de centrocampistas, como é o caso, a falta de voz torna-se um problema ainda mais grave. Infelizmente, a aturada investigação historiográfica dá-nos razão. Um caso paradigmático, o que trazemos aqui hoje, é o do maestro brasileiro Carlos Miguel. Contratado pelo Sporting naquela que é considerada a Idade das Trevas do clube verde-e-branco (as dinastias depois de Jozic, doravante designadas de DC, e antes de Inácio, AI). Nesse período de seca, em que o leme esteve inenarravelmente entregue a figuras como Carlos Manuel (que ainda hoje faz valer uma carreira de treinador às custas de um pontapé em Estugarda, carreira essa que encontra paralelo somente em nomes como Diamantino Miranda ou Bernardino Pedroto), Vicente Cantatore e, claro, o pioneiro dos três trincos Octávio Machado, Carlos Miguel chegou a Alvalade rotulado de "melhor número 10" no activo em terras de Vera Cruz. Ídolo no São Paulo, o regista nunca chegou a singrar no Sporting, onde prometeu na pré-época mas onde, em jogos oficiais, nunca pegou na equipa como era esperado. E estamos a falar de uma época em que os adeptos sportinguistas ainda estavam escaldados com o caso Roberto Assis, esse médio-centro vindo da Suiça com o colossal Ahmed Ouattara (e que hoje é empresário do seu irmão Ronaldinho, jogador do Barcelona) e perplexos com o fenómeno paraguaio César Ramirez, segunda encarnação de Cantiflas e ídolo do Topo Sul do defunto José de Alvalade, desde que foi a Israel fazer ao Beitar de Jerusalem o equivalente futebolístico daquilo que o Hamas tem vindo a fazer em Telavive. Voltando a Carlos Miguel, manteve-se o mistério do ocaso por mais de meia época. Porquê? Nenhum problema de adaptação noticiado, nenhuma lesão grave, nenhuma explicação oficial. Até ao dia em que a equipa da Caderneta da Bola se deslocou ao campo de treinos leonino, no âmbito de uma cadeira do Mestrado em Futebolês Contemporâneo - O Caso Português. Um treino, uma única sessão, talvez bastasse para descortinar o porquê do baixo rendimento da equipa em geral e do brasileiro em particular. E a realidade é que, uma vez chegados, apenas uma voz se distinguia das demais, a de Pedro Barbosa, o falso lento do futebol poético, por vezes belo e genial, por vezes ausente e superfluo. A voz, firme, segura, o "deixa, que é minha!" pronunciado na perfeição, o "estás só!" soprado com segurança, o clássico e eterno "vai, caralho!" articulado irrepreensivelmente. No meio de tudo isto, Carlos Miguel invisível. Até que, num dos raros momentos de silêncio, uma voz soa - "Aqui, passa passa!". A Caderneta olha em volta, pensando que a voz pueril que acabara de ouvir viera talvez de um miúdo a brincar com o pai. Uns segundos de desconcentração e, quando os olhos regressam ao relvado, a bola está nos pés de Carlos Miguel, que a devolve a companheiro tornado a gritar. O cenário grotesco do número 10 com voz de eunuco era demasiado real para ser verdade, com toda a carga paradoxal que isso carrega. A voz, num futebolista, salvando raras excepções de foras de série ou génios intemporais, torna-se, como comprovado, num critério tão válido como a idade ou o número de internacionalizações. Certas correntes defendem mesmo a substituição do sistema AA + Sub-21 pelo de Baixo + Barítono + Soprano. A verdade é que Carlos Miguel regressou ao Brasil no final dessa época sem ter ganho a confiança nem do treinador, nem dos adeptos, nem dos colegas. Nunca pegou no jogo, nunca encheu o campo. A voz, caríssimos, nunca lhe possibilitou impôr o espaço necessário a um número 10 para expôr a sua pleíade de artimanhas. E com estas incontornáveis idiossincrasias, o mundo da bola vai escrevendo a sua história, decepando cruelmente os mais fracos, trazendo Darwin para dentro das quatro linhas, desenhando uma linha de evolução que traz sempre um Punisic depois de um Abdel Ghani, um Fertout depois de um Embé, um Taoufik depois de um Basaúla. Lei da vida, norma da bola.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Caderneta da Bola: um blog com superavit tecnicista a meio-campo. Luvas pretas e suplementos vitamínicos para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A Caderneta da Bola deseja uma óptima segunda volta a todos os adeptos da bola deste país e de além mar, especialmente aos mais desfavorecidos, como os adeptos dos históricos Leça FC (último classificado da Zona Norte da II B) e do Farense (penúltimo classificado da Zona Sul da II B). Votos de um Santo Natal e muitas trivelas, pontapés do meio da rua e golos limpos no ano que se avizinha, entre o Euro e o Neuro. Prometemos na chuteirinha uma série de novidades nos próximos dias, que é como quem diz "havemos de meter aqui algum post pelo menos até meados de Março", como o final da História Interminável de Chaves, assim como revisitações a outros plantéis históricos (o muito ansiado Farense, por exemplo), e a autópsia ao monstro (agora defunto) Parmalat, assassinado publica e barbaremente a tiros de Clóvis, Paulo Nunes e Donizette, tanto nos relvados como nas bolsas de valores por esse mundo fora.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Prossegue o jogo no Municipal de Chaves, desta feita com os canticos apontados para Edondo Amaral Neto, o pigmaleao brasileiro que marcou a decada de 90 em Tras os Montes sob o nome de codigo Edinho. Hoje com a provecta idade de 36 anos, Edondo resiste nas sinapses de todo e qualquer apaixonado pelo futebol dada a sua existencia contraditoria. Apesar de parecer esguio, baixo e encurvado, com uma tecnica repentista, ao jeito do italiano Sandro "La Cobra" Tovalieri, saudoso sniper da costa adriatica, numerosos relatos existem de um Edinho alto e possante, mais ao jeito de um belicoso Igor Protti, o Sansao retroescavador de Bari (nota: a Caderneta internacionaliza-se progressivamente, expandindo alem fronteiras a sua 'luta de classe'). Aquilo que concede a Edondo a sua aparencia hibrida, e aquilo que, porventura, tornou Edondo em Edinho, era a sua compleiçao solida, integral, como um so bloco de carne, osso, sangue e golo. A cabeça achatada, os ombros colados ao pescoço, um peito curvaceo e tenso como uma ameaça de bomba, enfim: Edinho, sintese tropical de David e Golias, era um jogador explosivo. FIM DA 1a PARTE

domingo, novembro 23, 2003

Caderneta da Bola: "A verdade é esta... Estamos desfalcados mas unidos. Sabemos o que queremos e vamos lutar todos os domingos pelos três pontos!" Pontapés de ressaca para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A essência do futebol... Bastas vezes foi escutada ou lida esta expressão nos mais diversos espaços que se debruçam sobre o roliço esférico lusitano. O que é afinal a essência do futebol? Serão os golos? Provavelmente sim na opinião de um José Carlos Soares. Para Gabriel Alves a resposta seria provavelmente o “futebol de ataque”, considerado aqui na sua dimensão mais abstracta, apimentado com umas quantas trocas de posições entre os dianteiros de um qualquer onze, conseguidas através de diagonais e desmarcações. Porém aqui no Desportivo Caderneta da Bola somos muito menos ontológicos. Seremos mesmo a atirar para o metafísico, assim como é Luis Campos a atirar clubes para a Segunda Liga. A irracionalidade. Sim caros leitores. O futebol está atravessado por uma profunda irracionalidade. E apesar d´A Caderneta da Bola se esforçar para proceder a análises pautadas por alguma objectividade, confessamos que por vezes tal tarefa se torna tão difícil quanto difícil foi para o jovem leão Litos perceber que, afinal, o mundo não iria ser seu. Porém, será porventura legítimo pensar que, a existir alguma área que gravite em torno do futebol que se deseja e se espera imúne a tal flagelo, esta deveria ser o dirigismo. Ou talvez não. A rivalidade entre clubes afecta mesmo o dirigente mais carrancudo, levando-o a cometer verdadeiros enigmas, contratando sem razão aparente um jogador de qualidade questionável só porque militou em tempos num rival, ou então, quando o defrontou, produziu exibições de encher o olho, despoletando a esperança no responsável desportivo, que tais exibições se repitam desta vez com o dito jogador no seu plantel. Terá sido isto que terão pensado os dirigentes leoninos, quando tomaram conhecimento que numa eliminatória da Taça de Portugal, um jovem avançado, portador de um nome que fez história no clube de Alvalade e na baliza da selecção nacional, enviou três bolas para o fundo da baliza do FC Porto. Sim... falamos de Ivo Damas. Jovem avançado do Maia que brilhou a grande altura nessa tarde contra os campeões nacionais, tendo sido o seu hat-trick, apesar de tudo, insuficiente para afastar os portistas que triunfaram 3-4. Passado apenas algumas semanas, este esguio e rápido dianteiro, tinha rubricado um contrato-relâmpago com o Sporting, Em dois anos, este penafidelense, passou do modesto Paredes da III Divisão, para um dos principais clubes nacionais. Porém, aquilo que esta transferência teve de mais surpreendente, foi a duração do contrato... 7 anos! Estaríamos diante da maior star-to-be da bola lusitana? Teriam os leões cravado as garras num intérprete cujo sublime manancial técnico-táctico passou ao lado dos seus rivais? Bom... a ver pelo que seguiu, a resposta será um rotundo “NÃO”. Uma mão cheia de jogos na principal equipa dos leões, e exibições que, de tão descoloridas, fariam um qualquer cruzamento de EL Hadrioui para uma qualquer bancada Superior da Luz, parecer um excitante lance do mais burilado futebol. O nosso Ivo foi para o satélite da altura, localizado no nosso Far-Oeste, lá para os lados da Lourinhã. E lá... depois de uns quantos Jack Daniels no Saloon da rua principal, tendo o som dos cascos dos cavalos e o constante ranger das portas e do soalho do estabelecimento como paisagem sonora , os nativos acederam em contar-nos a lenda de Damas, o Avançado mais rápido do Oeste, que iria levar o Lourinhanense até ao próximo escalão do futebol nacional. Pelo menos foi assim que ele foi anunciado... Porém, nunca ninguém lhe pôs a vista em cima. Ivo “A Bala”, como chegou a ser conhecido, nunca chegou a alinhar pelos Verdes do Oeste e, conta a lenda, terá sido o vento que o levou... sem ninguém alguma vez lhe por a vista em cima. Ivo subiu rápido é verdade... mas a Física não nos trai... e o que sobe, também desce. E por vezes bem rápido. Depois do Oeste e da rescisão do contrato com o Sporting, seguiu-se Alverca, depois a Ovarense e por fim os Dragões, não os da invicta, mas sim os de Sandim, que como é lá perto, acaba por ser quase a mesma coisa. O jovem Ivo sentiu na pele aquilo que muitos sentiram, o panteão dos eleitos à distância de um braço. Mas por vezes... um braço é muito, como muita foi a desilusão dos dirigentes leoninos ao verem a sua jovem aposta e o seu triste fado...

terça-feira, outubro 21, 2003

ROBERTO MATUTE: 3a E ULTIMA PARTE DA SAGA. Em Belem, o regresso as boas exibiçoes. 26 jogos e 8 golos, com os pasteis na Segunda Divisao de Honra, e o possante espanhol, olhos fixos no Tejo, cada vez mais a arrastar o seu poderio fisico pelo relvado. Apesar dos jogos correrem de feiçao e a sua media nao ser de menosprezar, notava-se em Matute um ligeiro aumento de peso e perda de velocidade. O dominio da tecnia da Morte Toraxica continuava intacto, mas Belem pedia mais. Assim, no final da epoca, com o passe na mao, é tempo para mais uma corrida, mais uma viagem. O destino? O Dundee United, lendario clube escoces do feiticeiro tobaguenho Russel Latapy, galardoado com um voto na escolha dos seleccionadores FIFA para melhor jogador do mundo, e sobejamente conhecido pelo sanguinario duelo com Jokanovic e por ter furado as redes de um estadio brasileiro num estagio do FC Porto de final de epoca (momento que o programa Contra Ataque registou para a posteridade, como é seu apanagio). Foi na Escocia que Matute viveu a febre do bug do milenio, alinhando apenas em 5 encontros. Os frios ares da Escocia fizeram dele o ultimo hispanico de renome a alinhar na frente de ataque do clube escoces, ate a chegada de Claudio Cannigia, ja devidamente recuperado do stress pos-traumatico provocado pelo embate com Coroado na Luz (a celebre Batalha dos Cartoes). Depois da Escocia, o regresso a casa e hoje pode dizer-se que Roberto Matute agita o mercado dos escaloes secundarios da Liga Espanhola, tendo recentemente protagonizado uma bombastica transferencia, ao recusar renovar com o Gramenet para assinar pelo Recreacion. Um cidadao do mundo, sempre na vanguarda, ou o ultimo de uma rara estirpe de colossos irredutiveis a tentar mostrar ao mundo que ainda ha espaço para a tecnica da força. Chaves e nos, como sempre, nao esquecemos.

segunda-feira, outubro 20, 2003

Depois de um tackle extremamente agressivo de um jogador magrebino ter transformado a ode a Matute num mero prologo de homenagem (um carrinho ao jeito do saudoso belenense marroquino M'Jid), urge continuar a travessia por esse homem que, tivesse tido arte, engenho e bons conselhos, seria um verdadeiro pichichi na liga de nuestros hermanos. Jogador sintese do poderio animal, Roberto Matute reinnava na area como o leao reina na savana, uma supremacia fisica imperial, qual Cortez a invadir as Americas. Nascido em Agosto de 1972, Roberto Matute Puras começou a dar nas vistas no Logrones, onde os olheiros flavienses o foram descobrir, a ensinar as camadas jovens a matar a bola no peito. "Matar no peito", expressao do futeboles que romanceia a arte de roubar a vida a uma vola veloz, fazendo-a adormecer na caixa toraxica, requer uma mestria acima da media: o gesto simultaneo de levantar a cabeça, calcular a trajectoria da bola, posicionar o tronco, dar-lhe a inclinaçao adequada e depois, encaixar o impacto deixando a redondinha rolar até a ponta da bota nao é facil, mas Matute fazia como quem come uma tapa. Em Chaves, obviamente, titular indiscutivel na temporada de 96-97, passeando numa frente de ataque que conheceria tambem os avançados espanhois Miner e Dani Diaz, para alem do poste romeno Cuc. Nessa temporada, 10 golos em 34 jogos, media assinalavel, em Tras os Montes. Na temporada seguinte, um ligeiro declinio para 26 jogos e 3 golos, perda de rendimento que levaram o tigre catalao a paragens mais a sul, e mais azul. Era tempo de Cruz de Cristo. FIM DA PARTE 2 Nao percam, carissimos leitores, a conclusao da odisseia de Roberto Matute, nos proximos dias!

quarta-feira, outubro 15, 2003

(ponto previo: este post sera escrito com muito poucos acentos, dada a longinqua proveniencia, um lugar onde os teclados sao tao diferentes quanto o estilo de jogo da lusolandia) Arrumado o ponto previo, o Chaves. Os rasgos de exuberancia futebolistica e os excelentes golos de bandeira dos saltimbancos da bola lusa regressam agora à sede dessa paladina missao que é o Tras-os-Montes All Stars da decada de 90. O holofote recai agora sobre o portento catalao Roberto Matute. Apesar de ser um nome que nao necessita de grandes introduçoes, impoe-se a resenha. Impoe-se porque se existiu jogador que personificava a expressao "mata no peito", era Matute. Um pouco à semelhança desse Messias chamado Jesus Seba, futebolista de 24 quilates, garboso bolide de 160 cavalos quando engatado na ala direita, Roberto Matute era tambem ele um genuino produto do animismo futebolistico, esse sentir do futebol como uma religiao primordial, que tranforma os jogadores na expressao pura da divindidade dos animais selvagens. Matute era assim, corajoso como um falcao, indomavel como um puro sangue arabe mas tambem preguiçoso como um reptil herbivoro. FIM DA 1 PARTE

terça-feira, outubro 14, 2003

Existe um conjunto de jogadores, admiráveis exemplos de dedicação e profissionalismo, hoje em dia ídolos de torcidas, fantásticos intérpretes dessa arte que todos amamos, que começaram a carreira de jogador de futebol espalhando a sua magia pelos campos pelados e irregulares das divisões distritais nacionais, prepassando contextos amadores dos quais certamente fariam parte os balneáreos sem àgua quente, as invasões de campo semanais e o fanático adepto decano que se encosta todas as semanas no mesmo local do varão de metal que divide o campo da assistência, insultando o lateral da sua equipa que adoptou como ódio de estimação. É por estas e muitas outras razões que uma Ode a estes esmerados proletários da bola se torna absolutamente inevitável. Como é possível que, nas condições eufemisticamente acima descritas, tenham brotado talentos de valor inquestionável que, desafiando as leis da reprodução social, romperam as amarras que os prendiam à mediocridade e ao amadorismo, libertando-se para os principais palcos nacionais e não só, delineando uma trajectória ascendente da qual são eles os principais responsáveis, vertendo sangue, suor e lágrimas para obter o reconhecimento que justamente julgaram merecer. Certamente foram mais e provavelmente haverá outros cuja referência seria de uma elementar pertinência. Porém, aqui na Caderneta, confessamos que existem dois jogadores de quem somos incondicionais fans e em quem vemos todos os outros que ficaram por referir. O primeiro chama-se Marco Júlio Castanheira Afonso Alves Ferreira. Conhecido para o mundo da bola como Marco Ferreira, diabólico extremo-direito, sublime personificação do Mighty Mouse e executante na linha de um Gamboa ou de um Rui Borges. Actualmente ao serviço do FCP, este extremo transmontano também avançado ou segundo ponta-de-lança, começou a sua carreira no Vimioso corria a época de 95/96. Apenas uma época nos séniores foi suficiente para que o Tirsense, clube que estava nesse momento no início da sua dolorosa descida directa da primeira divisão para os distritais e que militava na divisão de honra, reparasse no talento que brotava dos pés deste ala supersónico. A seguir a Santo Tirso veio o reconhecimento além-fronteiras. Marco ruma até Madrid para jogar no Atlético... B. Sublinhe-se aqui o facto de nunca ter sido dada uma oportunidade ao nosso driblador transmontano na principal equipa dos colchoneros, algo que cremos ser uma profunda injustiça, sobretudo se pensarmos que por volta desta altura andava Carlos Secretário a provocar ataques cardíacos aos adeptos blancos do Real, jogando ao lado de Raul, Seedorf e Mijatovic. A seguir veio o Oriente. Enquanto os grandes jogadores lusos na pré-reforma como Paulo Futre ou Rui Esteves viam no futebol asiático um palco para acabarem as suas carreiras, o nosso jovem Marco via no país do sol nascente um campeonato capaz de lançar definitivamente a sua, algo que efectivamente não se passou..Da sua passagem pelo país da Yamaha e do sushi não rezam grandes crónicas. Desiludido com a sua aventura além fronteiras Marco regressa a Portugal. Recusando ser mais um exemplar do tipo de jogador que, à falta de melhor termo, definiremos de “next-big-thing-que-nunca-chega-a-ser”, o nosso extremo começa a cimentar a sua posição no nosso futebol. Uma época no Paços de Ferreira, seguida por três no Vit. de Setúbal e exibições de encher o olho levaram-no à selecção de todos nós e ao Futebol Clube do Porto, onde alcançou o estatuto de arma-secreta na final da Taça UEFA do ano passado. Do Vimioso transmonano até à final da Taça UEFA em Sevilha, Marco Ferreira escalou todos os degraus que separam o mais patético amadorismo da elite do futebol europeu. Marco... terão sido muito poucos a conseguir o que tu conseguiste. We bow to thee... Existe ainda outro homem que também admiramos de forma incondicional e que também se enquadra no perfil a que aqui se procura prestar tributo. José Alberto Mota Barroso. Mais conhecido pelo seu último nome, este trinco, também carregador de piano e homem do pontapé canhão iniciou a sua carreira de sénior no Arsenal de Braga, clube que militava nos distritais. Com uma carreira com mais de 10 anos, Barroso é um historico do principal clube da cidade episcopal, o SC Braga, e apesar de nunca ter conhecido outros paises na sua trajectória profissional, conheceu os balneários do Rio Ave , da Académica e do FC Porto, onde se sagrou campeão nacional. Também este esmerado artista alcançou o estatuto de internacional fruto de uma regularidade impressionante, regularidade esta adornada com uns quantos golos de fora da área que conseguiu amealhar ao longo das épocas, figurando alguns deles entre os melhores dos últimos anos do futebol nacional. A sua imagem de marca é sem sombra de dúvidas o seu remate violento, injustamente apelidado por algumas correntes duvidosas de pontapé “à matreco”. Alusão ao jogo dos matraquilhos e aos golos que, por vezes, se obtêm quando a bola depois de rematada bate num par de jogadores antes de entrar na baliza. A esses hereges dizemos “no passaran”! Barroso é um jogador que seria titular em quase todas as equipas da divisão maior do futebol nacional e não seria totalmente desprovido de sentido uma convocatória para o Euro. Este desejo já foi expresso pelo próprio. Pelo menos uma oportunidade nos amigáveis deveria ser-lhe dada. Alguém consegue dizer que Luis Loureiro é um jogador mais completo que Barroso? ...Meros mortais ou algo mais? Marco Ferreira e Barroso representam uma estirpe rara de praticantes do desporto rei, estirpe essa cujo carácter se encontra atravessado por uma irreverência indomável que parece dotar estes magos do esférico de capacidades sobre-humanas, capazes de os fazer escalar todos os escalões até aos píncaros da bola.
Devido à contratação relâmpago de um dos nossos redactores pelo Sportif d´Nanterre parisiense, contratação essa que contou com o dedo mágico do seu empresário Monsieur Erasmus, a Caderneta da Bola encontra-se algo desfalcada para atacar em força a época que agora se inicia. Descansem os leitores. A saga flaviense será concluída. Porém, impõe-se agora uma Ode a alguns dos mágicos da bola que, em tempos idos, antes de brilharem na divisão primeira do futebol português e na selecção de todos nós, passaram pelas divisões distritais, enriquecendo os planteis de clubes que nem o adepto mais conhecedor terá ouvido alguma vez falar.