terça-feira, outubro 12, 2004

A Caderneta da Bola S.A.D. reúne de novo e, perdoem-nos a megalomania, qual Paulo Jorge ou Diego Armando, torna a calçar as chuteiras e a regressar aos relvados. Os motivos? Ainda que tudo aquilo que dissemos há mais de um mês seja cada vez mais actual (vide a recente proliferação de blogs dedicados à digitalização de imagens de ex-jogadores, publicações sem qualquer interesse ou ensejo de explorar a fundo a argamassa de que é feita a memória e a história), os contratempos pessoais de várias ordens não vejam fim imediato, as separações internacionais temporárias estejam devidamente consumadas, a verdade é que de vez em quando dá-nos a vontade a nós deescrever e, pelos vistos, a muito adepto, semi-clandestino amante datragicómica esfera desportiva, a vontade de continuar a ler. O compromisso primeiro de começar o desafio partiu de nós mesmos e afinal, se a escrita deve rolar trimestral como a Taça de Portugal, que assim seja e que ninguém se chateie. Se a bola portuguesa caminha para o seu próprio velório, feito de infortúnios, erros de cálculo, lesões graves e Gilbertos Madaís, pois estaremos cá, feitos acólitos do apócrifo, a escarnecer das velinhas que ajudamos a acender. Sobre o plágio, enfim, será, em última análise, uma falta de respeito pelo leitor, pressupor que este possa não o identificar e perder o seu farol de justiça para com o mais importante: o futebol lendário, apátrido panteão com letra maiúscula. E daí extrair mais uma lição dada pela bola lusa, em parábolas como a do 'Novo Eusébio', prenunciada e simbolicamente trazidas a lume em momento próprio, ou da lenda de Alex àsombra de Artur no Estádio do Bessa: o original, o fundamento, o princípio,não existe, pelo que o que se chama cópia é um mero mimetismo de baixa estirpe, por essa mesma estirpe identificado. O que não invalida o que dissemos do machista e cabotino Borda d'Água para Yuppies. Em suma, foi necessário parar um bocado, sentir a falta do cheiro do balneário, experimentar o que é 'não pensar em algo para recordar', para voltar amergulhar no passado, no nosso e de quem lê, de quem joga lendo e falando. E agora, bola ao centro, para a segunda parte.
Caderneta da Bola: Quem é vivo sempre aparece. Terceiro golo do Liechtenstein para: caderneta-da-bola@megamail.pt

sexta-feira, setembro 17, 2004

Comunicado da Caderneta da Bola S.A.D.: Eis-nos chegados ao doloroso momento de comunicar as conclusões da escaldante reunião de 17 horas seguidas na Torre da Caderneta que, felizmente, não terminou com portas e computadores partidos. A dolorosa conjuntura, a verrominosa cabala orquestrada progressivamente nos últimos meses, as sucessivas lesões e ausências no estrangeiro bem como a ascensão de Luís Pedrosa a treinador principal do Sport Comércio e Salgueiros (na linha dinástica de Carlão e Norton de Matos) levam-nos a repensar a nossa posição no seio da comunidade futebolística (sim, porque isso da comunidade bloguística é uma esfarrapada desculpa para falar de outras coisas que não bola). Afinal, de que campanha falamos, de que sinuoso e sistemático tecer de insídia nos defendemos em silêncio, longe das caixas de comentários e a resguardo do anonimato e da assumida ausência de links e fotografias neste vosso esmerado boletim? Vamos por pontos: o primeiro, gravíssimo, é o plágio de uma corriqueira publicação masculina num artigo referente a contratações falhadas dos três grandes. Trata-se da Revista Max Men, cuja linha editorial inclui uma rubrica futebolística justificada pelo monopólio masculino da modalidade, medieval retórica que desonra a arte plural da redondinha. Naquela edição, naquele trecho sobre Ivo "A Bala" Damas, como é conhecido cá em casa e não nos corredores desse Borda D'Água para yuppies, morreu um pouco de cada um de nós que ama o bem-tratar do esférico, o savoir faire do relvado. Segundo ponto, o súbito, inexplicável, desalmadamente fetichista revivalismo com as cadernetas de cromos. A Caderneta da Bola chama-se assim porque parte do objecto mítico para abrir a miríade de conceitos, episódios, pequenas histórias, fragmentos da cultura oral e escrita. Iconoclasta sim, mas não iconólatra. Mitológica mas não mitómana. O revivalismo que traz as cadernetas de cromos para a última página da revista de fim de semana do jornal Record, sumo pontificado de um jornalismo desportivo onde, já o dissemos, não nos revemos, é o elevar de um catálogo de nomes que importa explorar para lá do estilismo vintage à categoria de objecto fetiche, recuperando a importância dessas sazonais publicações ao invés da importância dos conteúdos que lhes consistem. O exemplo máximo desse fetichismo vazio é a referência do preço para coleccionadores. Não era isto que pretendíamos com o recuperar da terminologia cadernética. Terceito ponto, o lastimoso estado para que os responsáveis da bola corrida, lida e falada insistem em arrastar o futebol português. Desde a assustadora impunidade judicial dos testas-de-ferro da Liga de Clubes até à crescente migração de velhas glórias para o Médio Oriente e bacia do Nilo, desde a ausência de homenagens a Neno até à venda da estética futebolística ao ponta-de-lança arquitectónico do porno amador, e sobretudo a mera existência de José Romão, trazem-nos à boca o fel do presente face ao açucarado paladar do passado, quando aqui escrevemos. Em que nos estamos a tornar, para que servem todas estas letras? Convencemo-nos momentaneamente de que a esperança é a última a morrer, mas depressa nos lembramos de Luís Campos e as forças abandonam-nos. Quarto e último ponto, é o resultado de um balanço a dois, na intimidade do último andar da torre, um escrupuloso escrutinar de objectivos cumpridos e por cumprir, um rever de fontes bibliográficas, um balanço pessoal desta tremenda caminhada na savana verde. Nos últimos tempos, uma separação internacional fragmentou a Caderneta, uma transferência para um clube francês causou um certo mau-estar no balneário, com a equipa a perder consistência táctica. Agora, outra transferência se prepara, de novo para França, e consequemente, seria com grande amargura que veríamos a Caderneta arrastar-se durante mais uns meses no limbo das semi-promessas, dos semi-projectos, dos posts trimestrais, como chegou a acontecer, do escrever pela missão e chutando para canto contratempos pessoais. As sugestões de revisitação de plantéis são interessantes mas afiguram-se odisseias complicadas de levar a bom porto, não por falta de vontade, mas por falta de estabilidade académica, profissional e emocional para assegurar uma continuidade lógica. Aconteceu-nos com o Chaves e não foi bonito perder 4-3 no Estádio Municipal, depois de bem sucedidas goleadas em Leça e em Barcelos. Obriga o bom-senso que as carreiras bem sucedidas terminem em alta e, apesar de tudo, o partir sabe mais doce com a consciência do dever cumprido. O tempo é agora de reflexão, de refúgio, de telúrica contemplação, do apito final, e parafraseando o jovem da Cova da Piedade, o Luís Filipe, dizemos adeus... até que a bola nos necessite de novo. Um sincero obrigado a todos os amantes da bola, os que aí estiveram e não estiveram, e a todos que ainda acreditam que Gil tinha de facto 20 anos naquela tarde de 1991 ao pé do Colégio Militar. Hoje não levamos a bola para casa, fica aí para quem quiser continuar a jogar.

quinta-feira, setembro 16, 2004

Caderneta da Bola: Para quem recorda com saudade as palavras "Taument cruza para Pringle"...
Numa altura em que o amante do esférico acariciado nesta nossa ocidental praia lusitana se encontra prepassado por um complexo paradoxo emocional; se por um lado rejubila de alegria ao ver o mítico “ganês” Mariano Barreto regressar ao nosso futebol, por outro ainda não se encontrará totalmente refeito do esgar de dor que o assolou aquando da descoberta que as transmissões televisivas da divisão maior do nosso futebol estariam a cargo da televisão do lendário semanário desportivo “Contra-Ataque”; a Caderneta da Bola, como que flectindo da esquerda para o meio, numa diagonal entre os centrais e, partindo de posição legal, estoira certeiro ao ângulo do nosso dicionário Português-Futebolês para procurar dissecar mais uma reluzente pérola do nosso patriomónio comentarista: a visão de jogo. Esta expressão, assim como a já analisada “defesa a dois tempos”, não pode deixar de ser considerada particularmente reducionista. Utilizada usualmente com os adjectivos “excelente” ou “boa”, visa sublinhar a acção de um jogador que seja necessariamente produto de um correcto visionamento do terreno de jogo e da colocação dos restantes jogadores para assim poder criar um desiquilibrio e, consequentemente, uma situação de perigo para o adversário. O desajustado emprego da expressão “visão de jogo”, prende-se com a assumpção de que bastará o uso de um dos cinco sentidos do ser humano, a visão, quando aplicada ao terreno de jogo para se poder falar de uma “boa” ou “excelente” “visão de jogo”. A pergunta que aqui deixamos em jeito de “amortie” é a seguinte: não estarão todos os jogadores a visionar o jogo? Porque é esta expressão utilizada somente a espaços? Aqui do alto da torre da Caderneta acreditamos que estamos perante mais um caso de escolha errada de palavras, derivada talvez do pouco rigor semântico tão habitual nas várias escolas comentaristas lusas ou então produto de uma inaceitável economia de esforço, que para mais não servirá do que para confundir os verdadeiros predestininados desiquilibradores que pisam os nossos campos da bola com o restante refugo de vulgaridade que a história, sensatamente, se encarrega de esquecer. Imaginemos que um génio do quilate do “zizou” gilista Caciolli, do “mujahedin” farense Hajry, ou de Pedro “Papa-Croissants” Barbosa, se encontra numa manobra de contra ataque da sua equipa e, ao receber a bola no miolo, em vez de abrir de primeira no ponta que se encontra a meio caminho da diagonal que o leva da linha lateral ao centro, temporiza um pouco o lance, para endossar no momento certo a bola para o médio que acompanha a jogada nas suas costas, tirando assim partido da movimentação do ponta que provocou um maior desafogo espacial no centro do terreno e surpreendendo os defensores contrários ao mesmo tempo que coloca o médio cara-a-cara com o guarda-redes. A uma jogada desta natureza seria certamente aplicado o jargão “excelente visão de jogo” pelo comentador ou paineleiro de serviço, não considerando que não foi a visão do homem da assistência que determinou o desenrolar do lance. Esta foi sim o método de recolha da informação necessária, imediatamente sujeita a uma complexa e rápida análise dialéctica dos factores espacio-temporais “em jogo”: movimentação dos jogadores, número de atacantes vs número de defensores, lei do fora de jogo, factor surpresa, e outros ainda que também ajudam a constituir a equação bolística na cabeça do predestinado e que nós, meros mortais, não conseguimos apreender. Todos os intervenientes em campo têm “visão de jogo” e, se a capacidade ocular o permitir, será sempre “boa” ou “excelente”. Porém, nem todos têm a faculdade de, numa fracção de segundo, conseguir utilizar a informação que a sua visão recolhe para, num único lance, desiquilibrar o jogo a favor da sua equipa, através de uma genial análise dialéctica de cariz espacio-temporal passível de prurir quer o espectador, quer o adversário. Esta capacidade poucos têm, e quando posta em prática pode valer por um campeonato inteiro de mediocridade, mediocridade esta que encontra o seu reflexo na bagagem comentarista que tende a tomar a parte pelo todo, negligenciando e reprimindo verbalmente o raro talento que poucos têm, mas que legiões sonham ter.

quarta-feira, setembro 15, 2004

Adiando por mais uns dias o encerramento de actividades da publicação, decisão devidamente ponderada face a uma conjuntura de factores verdadeiramente octavio-machadianos, a Caderneta da Bola volta-se de novo para os intérpretes, afinal os herdeiros dessa alquimia primordial que é a Bola com B maiúsculo. Nesta era de secularização do sagrado que vai arrastando consigo os santos para as bases de barro que lhes molda os pés, é assaz curioso o mecanismo que vem dominando a caracterização técnica dos jogadores desde a segunda metade dos anos 80 por intermédio, justamente, da cognominação segundo grandes glórias do passado. Fenómeno mais comum em grandes clubes (pela profusão de referências ao palmarés da casa) e em clubes de pequena dimensão (pela dimensionalização do espectáculo mundial à escala de bairro) do que propriamente em clubes de segunda linha, a retórica da alcunha parece-nos benéfica e interessante porque recupera a história, eleva as expectativas e, se o jogador for de facto bom, não despersonaliza em nada o artista, acabando este por fazer valer o seu próprio nome acima do epíteto. O grande problema dessa história mal contada que é o futebol português é que o caso contrário a este último é a bola nossa de cada domingo: pobre Litos, o Platini Português do Sporting, reduzido hoje a aprendiz de Ulisses Morais no Estoril (homérico mister traído pelos seus argonautas); infeliz Carlos Manuel, o Laudrup do Sado, ídolo em Setúbal e desterrado no esquecimento após a transferência sensação para as Antas; David Hoppfen, o Cannigia do Louletano, promissor predador ofensivo dos Algarves há uns anos e... promissor predador ofensivo de lado nenhum, agora; e Orlando Martins, o Bakero de Felgueiras, filho explosivo da ala da terra, fugaz encantador de sevilhanas e condenado a esse Tarrafal da Bola que é ser orientado por Luís Norton de Matos. Estes exemplos sortidos da lista interminável são porém inócuos quando comparados ao estigma de ostentar na vox populi a herança do mais conhecido jogador de sempre do Sporting de Tomar, o luso-moçambicano Eusébio. Raros são os jogadores que resistem à glosa do novo Eusébio com alguma distinção, mas os que se demonstram capazes adquirem essa aura quase mítica do semi-deus, como o aveirense Eusébio, já aqui citado. Outros carregam o estigma como Jesus carregou a cruz (Jesus, o Cristo, não o defesa corresponsável pela heróica campanha do Águeda na subida à Segunda de Honra em 1990) e sobrevivem para a posteridade do futebol semeados como agulhas nos joelhos de Paulo Futre: decisivos, incontornáveis, marcantes mas extraordinariamente traumáticos para quem vê e gosta de bola. Dois nomes para incorporar este arquétipo. O primeiro foi descoberto no seu país natal, Angola, pelo rival do Futebol Benfica, o Sport Lisboa, para integrar o plantel na ida temporada de 1994-1995. Este proto-herdeiro da pantera ganhou o cognome quando despertava para os Palancas e rapidamente Portugal foi introduzido a Fabrice Alcebíade Maiéco, olhar vítreo, remate forte, velocidade espasmódica, nome de código Akwá estampado nas manchetes e nos bigodes das bancadas. Bem constituído, era um ponta-de-lança sem ser finalizador por excelência, dado que tinha apetência para descair para a direita e tentar o tiro ainda antes da marca do penálti. O verbo tentar é aqui extremamente importante porque os tiros desta águia nunca surtiram efeito. Pormenor lateral mas com eventual relevância explicativa: o jogador nunca foi veemente no afastamento do epíteto, parecendo até orgulhoso com a comparação. Ora, comparando com outros casos, nunca um jogador sem créditos firmados deve mostrar proximidade com a vanglorificação do clube que o recebe. Por outras palavras: todos os outros exemplos acima expostos criaram o nome intramuros, nunca a um continente de distância num campeonato desconhecido da esmagadora maioria dos que o apelidaram. Adiante, Akwá não singrou, fez apenas 2 jogos na Primeira Divisão, e daí passou para o Alverca, onde, em duas temporadas e 36 jogos fez 13 golos. Pouco significativo para um titular da Selecção de Angola e para um ex-herdeiro da camisola da pantera negra. Todavia, o Benfica não o deixou terminar a segunda época no ribatejo e fê-lo regressar para efectuar 3 jogos em branco. Na Luz ascendeu aos céus prematuramente e na Luz desceu aos infernos, também prematuramente. Para a história, no que concerne à ligação ao clube de Benfica, fica o curioso dado que aquele que era apontado como o novo Eusébio aos 18 anos, era afinal considerado um jogador vulgaríssimo aos 20. De Lisboa para Coimbra, onde apenas efectuou um jogo (uma vez mais em branco) e de Coimbra para o Qatar, onde saltimbanca até hoje, marcando golos e falando português ocasionalmente com os treinadores portugueses que ali vão passando. Na selecção continua a dar cartas, tendo marcado já dois golos no apuramento para o Mundial 2006, o último dos quais frente à temível selecção do Ruanda. Quem sabe se o seu destino não teria sido diferente se aqui tivesse sido apenas Akwá, um jovem jogador a precisar de tempo, e não Akwá o novo Eusébio? O segundo nome é de outra casta e ressalva, face a Akwá, o importante facto de ter sido formado nas escolas do Futebol Clube do Porto, clube de ténues relações com o Sporting de Tomar, logo pouco avesso ao estrelato de Eusébio. Nélson António Soares da Gama, nascido em Bissau a 2 de Agosto de 1972, foi crescendo para o futebol nos juvenis das Antas até se estrear, com 19 anos na equipa principal do FCP em 1990, época em que actuou em 11 partidas. No entanto, a apoteose veio no final desse ano desportivo quando ajudou a conquistar, ao lado de Luís Filipe Madeira (um jovem da Cova da Piedade), Manuel Rui (um tipo franzino da Damaia) e Gil (apenas Gil, jovem de 19 anos), o mundial de sub-20 no Estádio da Luz. Se a Luís Filipe Madeira chamavam já o novo Figo e a Manuel Rui começavam a chamar o novo Rui Costa, ao Nélson António, baptizado para a bola como Toni, começavam a chamar-lhe Toni, e alguns o novo Eusébio. Toni soube ignorar sabiamente e, na época seguinte, prosseguiu o que se previa uma carreira brilhante. O que se previa mal, visto que, se na época seguinte fez 12 jogos e até marcou um golo, já em 93 só teve tempo de fazer dois e ser enviado para Braga, onde vingou a transferência com 4 golos em 19 jogos. De Braga para Aveiro, ostentando uma camisola que já havia pertencido àquele a quem lhe tinham já emprestado o nome, em 17 jogos e 3 bolas nas balizas adversárias. Do clube da Ria voltou ao Porto, a sua compreensível Meca pessoal, para alinhar de vermelho (uma vez mais o paralelismo com o outro) em Paranhos, afinal não muito longe das Antas. Três épocas, amizade com Joni (Osvaldo Roque, o Elvis de Luanda, rival de Akwá no Qatar em 2003), 72 jogos mas descrescência de golos (7 na primeira, 4 na segunda e 3 na terceira época). Em 98 parte assim para a Madeira onde, no Marítimo, consegue completar duas épocas e tecer o assombroso e quiçá recordista historial de 9 épocas seguidas na Primeira Divisão, 148 jogos e 25 golos, portanto 0,17 golos por jogo. Daí para Badajoz, depois para Leça e depois, já com 30 anos, titular indiscutível do Vilanovense na Segunda Divisão B. Para a história fica um jogador que não conseguiu fazer justiça às promessas firmadas no campo, que nunca desceu abaixo do Mondego em clubes de Portugal continental, mas que soube, honra lhe seja feita, afastar-se do cognome para moldar uma carreira, ainda que titubeante. Caminhos diferentes de quem lhe foi dado a ver, de si próprio, um baço reflexo em cristal de pedestal alheio. E no futebol, fazer pela vida é partir esse cristal.

domingo, setembro 05, 2004

Parafraseando Rui Reininho, artista feito dessa estirpe que se julgava extinta para o futebol (dado, jogado e falado) desde que Jaime Magalhães pendurou as botas, também aqui na Caderneta da Bola apreciamos num homem o “drible curto”, também chamado, em apartes de pé de comentário pelos luctores como “o chamado drible curto”. Esta questão do “chamado” é assaz interessante porque sobreleva no discurso uma espécie de consenso em torno das divagações dessa nova escola profissional pós-Tovar & Ribeiro Cristóvão e porque se aplica impunemente a uma miríade de conceitos dispostos de uma forma mais caótica dos que as tácticas de Fernando Festas, como “o chamado folha seca” ou “o chamado chapéu de abas largas” (esta com a devida vénia a Rui Óscar). O “drible curto”, aqui com direito a entrada no Dicionário Português-Futebolês, não é mais do que uma finta de dois toques, seguido de arranque “em velocidade”. É uma expressão importante porque vive dos apêndices, da sua capacidade de desnovelar um relato futebolístico, uma vez que associado ao “drible curto” temos, geralmente, “a desmarcação”, “o arranque em velocidade” (pleonasmo tão incipiente quanto popular) ou “o pique” (quando o “arranque em velocidade” se transforma em “sprint”, ou seja, quando o “drible curto” é efectuado com sucesso, honra e distinção, e o adversário fica para trás). No relvado, o “drible curto” é vistoso porque é explosivo e, quando bem executado, inesperado e surpreendente. Os artífices desta arte podem não ser grandes prodígios de técnica, vide o caso de Zito, monumento ao “drible curto” lusófono, pirómano de serviço nas alas vimaranenses depois de Vítor Paneira, e um pouco por todo o lado, desde Belém a Chaves. Ainda assim, se no reportório, o intérprete trouxer a agora famosa “vírgula”, deliciosa técnica aperfeiçoada na cantera do Desportivo Domingos Sávio por Quaresma y sus muchachos antes do aplauso interfutebolário que merecerá num futuro distante algo mais do que umas linhas marginais, a diversão é garantida, o esférico é bem tratado e, sobretudo, salva-se o povo da tirania do lugar-comum que dita o jogador-criador como necessariamente circense. Advirta-se ainda que, numa cultura futebolística habituada ao “apontamento técnico”, o jogador com bom “drible curto” dependerá de mais do que a eficácia de umas quantas fintas para singrar, mas será sempre recompensado enquanto escolher essa opção: economiza tempo, estimula a circulação da bola entre os companheiros e, mais importante, não desperdiça com ninharias esse bem cada vez mais escasso que é o talento.

sexta-feira, agosto 13, 2004

Em véspera de comunicado após a reunião de emergência de todo o staff técnico na Torre da Caderneta, os obreiros desta vossa esmerada publicação lançam-se, em esforço, num carrinho heróico rumo à bandeirola do Dicionário Português-Futebolês. Desta feita, e acompanhando os avanços vocabulares revelados, nos últimos meses, pelo elenco comentarista da bola viriata, a expressão escolhida é o apêndice anglicista do centrocampista actual: o box-to-box. Enquanto que a maioria dos anglicismos herdados da pré-modernidade do nosso futebol (e dos nossos comentadores) começam a cair em desuso, como keeper e score, quando não mesmo banidos do léxico empregue (vide a fraca adesão da sociedade civil à palavra Souness, por exemplo), eis que a intelligentsia do esférico falado estabelece o paradigma para O Artista Anteriormente Conhecido por Trinco Moderno. Em mais uma confirmação wildiana (de De Wilde) de que a vida imita a arte, verificamos que a expressão entrou, com tanta discrição quanta eficácia, nos media portuguesas, ao ponto de todos os dias ser possível lê-la, ouvi-la, enfim, audiovisualiá-la, e - e aqui estão traiçoeiramente espetados os pitons nas costas do futebol - uma série de jogadores ganham subitamente uma dimensão e uma nomenclatura que, por vezes, parece bastar para justificar a atenção aos mesmos. O médio box-to-box é assim chamado por apresentar como atributo maior o facto de fazer o seu jogo em correrias entre uma box (a sua área) e a outra (a área adversária). Esta expressão é redutora, redundante e perigosa. Redutora e redundante porque tende a fixar como característica fulcral do jogador, o terreno em que se move, isto é, o espaço que no relvado lhe é destinado para o desempenho das suas funções técnico-tácticas. Aqui sangra até à morte o esteta e o amante da bola: um jogador é muito mais do que a superfície de relva que lhe é prescrita a pisar. É por isso que os genéricos "médio" ou "avançado" não passam disso mesmo, de referentes genéricos para algo que será caracterizado de seguida. Nem o rótulo "avançado" foi alguma vez suficiente para traduzir o inferno de Ricky e Marlon Brandão, como jogadores do quilate do aveirense Eusébio ou Carlos Costa [este o arquétipo do dito "box-to-box"] nunca necessitaram de artifícios linguísticos para nos deleitar com o seu futebol. É redutora por isso e redundante na medida em que é tarefa de um médio cobrir o centro do terreno, sendo que este, em casos limite pode ir de uma área (zona defensiva) até à outra (zona ofensiva). E perigosa, porque coloca em causa a tipologia quadripartida do gr-df-md-av, esvaziando-a e lançando-a na ambiguidade. O "box-to-box", dirão os lacaios do teórico G.Alves, é o justo reconhecimento do centrocampista que soube evoluir e completar-se, estendendo o seu raio de acção, ajudando o futebol a dar o seu salto qualitativo. Falso. A lacuna analítica está precisamente no facto de que a caracterização comum de um médio como "box-to-box" é subrepticiamente elogiosa, quando desde a Laranja Mecânica de Rinus Michels (e o equivalente português, o Feirense de Bock e Ousmane) sabemos que os jogadores são multifuncionais e podem ser intérpretes versáteis de várias posições tácticas. Regressando a Carlos Costa, o facto de ter feito duas excelentes épocas no Beira-Mar, uma equipa com pouca expressão apesar de ter dado ao mundo Abdel Ghani, nunca valeu aos cegos, que se limitaram a referi-lo como médio-centro esforçado, recusando-se a vislumbrar essa tal característica de "ir de uma área à outra", ao passo que estamos em condições de assegurar que Maniche, considerado o exemplo maior do "box-to-box" português, ocupa dois terços da sua colecção VHS com as lições do professor moliceiro e farense. A finta sapienza da bola falada substitui os clássicos pelos ultra-congelados, ao votar ao esquecimento jogadores que pautam a carreira pela regularidade (em detrimento dos jogadores de grandes momentos), pelo futebol físico em estádios menores, pelo trabalho de sapa longe das objectivas televisivas ou das penas dos diários nacionais. E a expressão "box-to-box" é um economato mental, uma espécie de abreviatura de artista de uma arte infelizmente cada vez mais abreviada de essência.
Caderneta da Bola: penalties fidelidade para caderneta-da-bola@megamail.pt

sexta-feira, julho 09, 2004

Aproveitando para agradecer a Ivan, o autor do blogue A Praia pelo manifesto exagero elogioso da obra que estes vossos narradores e a bola lusitana se encarregam de manter de pé, a Caderneta da Bola não pode deixar de aproveitar, pela última vez, o rescaldo do Euro para prestar mais uma singela homenagem a esse colosso do futebol português que colocou o União Futebol Clube "Os Pastilhas" no roteiro das grandes colectividades desportivas da Europa Comunitária. "Os Pastilhas", bastião dos irredutíveis ultras das Escadinhas da Barroca, altar mor dessa capital da bola que é a Cova da Piedade, nasceram a 5 de Março de 1972 como uma equipa de futebol patrocinada pelas Pastilhas Rennie, patrocinador que acabou por dar o nome à equipa e também curar a azia dos tiffosi da margem sul depois dos sangrentos confrontos com o Almada. Foi aí que despontou para o futebol esse nome maior do que a história, aí honrou as cores vermelho e brancas do clube que durante anos a fio reinou nas Seixalíadas e, numa rara demonstração de ecletismo, chegou a disputar o Campeonato da Europa de Subbuteo em Barcelona. Um jogador de dimensões siderais, fisicamente fortíssimo, tecnicamente deslumbrante, dono e senhor de um trato aristocrático do esférico e de uma carácter que lhe valeram, como é do conhecimento público, uma transferência para o Sporting Clube de Portugal, onde despontou na equipa junior e confirmou uma estrondosa carreira nos séniores, embora não por muito tempo, como é do conhecimento público. Agora que o seu nome começa, arriscamos, a entrar no perigoso limbo da controvérsia e da mundanidade extra-futebol que germina daninho em torno das estrelas maiores, a Caderneta da Bola eleva a voz e diz bem alto: Joaquim Mota Pinto, histórico coimbrão Mota, que tanta luz trouxeste ao Vitória do Sado, à tua Académica, ao Vasco da Gama de Sines e ao Amora, tu que soubeste pisar o relvado da Medideira como o de Alvalade, com a mesma classe, a mesma segurança defensiva, a mesma certeza no desarme, um solene e titularíssimo obrigado por tudo.

quarta-feira, julho 07, 2004

Ainda com meio país de bandeirinha à janela, tentando perceber como se elimina a Espanha, a Inglaterra e a Holanda e não se consegue fazer o mesmo à Grécia, importa resgatar aquela que, até ver, se assume como a única glória da selecção nacional. Já aqui referida num post que aconselhamos aos nossos leitores (procurem bem que fica já aí nos arquivos) a Skydome Cup, jogada no Canadá em 1995 continua a deter o lugar mais importante na vitrine de troféus da FPF, como o único troféu jamais conquistado oficialmente pela Selecção Nacional Sénior. Importante aqui, aparte todas as razões invocadas aquando da nossa primeira referência ao evento, é contrariar a euforia reinante com um pouco de racionalidade. O facto de Luís Filipe Scolari ser um técnico da mesma fornada do mítico belenense Abel Braga ou condiscípulo de Marinho Peres, não o impermeabiliza de críticas. E essas, convém dizê-lo agora que o prudente silêncio a que nos reservámos enquanto o mundo girava em torno das quinas e dos pagodes finalmente terminou, essas críticas só podem referir-se ao conjunto de critérios utilizados pela equipa técnica da FPF para designar o lote de eleitos para este Neuro'2004. Dizem os escritos mitológicos gregos que a derrota agracia os que ostracizam o passado e a história (é questão de conferir as declarações desse deus grego Machairidis aquando da sua segregação lampiã). Não olhar para a história é, sob o ébrio da glória anunciada, escolher ignorar que o único troféu conquistado pelos séniores da FPF obedeceu a dois pilares primordiais. O primeiro é a raiva primitiva que só uma besta ferida no orgulho pode ostentar. Em futebol, como é do conhecimento geral, essa raiva tem uma única mãe: a derrota. Portugal, esquecendo Electra e os escribas clássicos, não deu conta, neste Neuropeu, que já não perdia nada há pelo menos dois anos. Em 95, a hecatombe de San Siro, na qualificação falhada para o Mundial'94, quase forçou a catarse canadiana. O segundo grande pilar é o princípio de jogarem os jogadores que estão em melhor forma no momento da convocação. Em melhor forma na Liga Portuguesa, entenda-se, sendo este conjunto complementado por uns quantos foras de série estrangeirados. Nacionalismo bacoco? Patriotismo neo-fascista? Nada disso. Puro entrosamento futebolístico, conhecimento empírico da realidade futebolística que dá à equipa representante o quinhão maior de jogadores, motivação e oportunidades a quem nunca as teve e, sendo isto o mais importante, preparar o dinâmico futebol português para continuar a produzir jogadores de craveira eliminando o fosso que separa os clubes de bairro dos grandes europeus, sem que os jogadores tenham que o saltar com as suas próprias pernas (como disso constitui exemplo a ascensão de Costinha). Em Toronto, jogaram aqueles que ao longo da época (ainda a meio, na altura) tinham evidenciado o maior número de argumentos. Claro que essa mudança no azimute foi publicamente justificada com o cansaço das grandes vedetas, treinador incluído, tinham afinal dados apenas tristeza e promessas falhadas ao povo português. Dizemos treinador incluído porque Queiroz foi substituído por um treinador à época sem curriculum nem palmarés, António "se eu soubesse que morria amanhã, agarrava numa metralhadora e fodia meia dúzia de gajos" Oliveira, que depois fez o que se viu em Toronto e mais tarde. Neste campeonato, esta linha não foi respeitada. Se é verdade que tínhamos Cristiano Ronaldo com convocatória justificada pelas maravilhas que fizera outrora no Sporting e sobretudo pela sua cruzada de vendetta pessoal do fado de Bambo, ou Hélder Postiga, do Tottenham desde pequenino segundo palavras do próprio, mostrando nos penaltis contra Inglaterra que soube assimilar a experiência de jogar no quinto clube de Londres e transformá-la em força de vencer, urge reclamar ao treinador que um dia agrediu a murro um pupilo palmeirista (perante o desconsolo dos olhos, já de si trocados, de Amaral) que reveja não só as cassetes da experiência canadiana como as de campanhas de equipas como Nacional ou o Rio Ave esta época nos relvados portugueses. É aí que nascem os grandes jogadores (aí e no Corinthians Alagoano). A Caderneta da Bola lamenta, uma vez mais, vestir, aos olhos de muitos, a pele de Velho do Restelo (quando o histórico belenenses curiosamente, pautou mais a sua história por mostrar ao mundo craques de além mar mais do que de aquém mar) e vir pôr o dedo na ferida que mais importa sarar, agora que todos digerimos o amargo fel que nos ficou da ceia grega. Aliás, se se derem ao trabalho de observar a selecção grega e o manual do professor José Mourinho, rapidamente chegam à conclusão que estas nossas ilações não são nada de novo para Oito Rehagels.

segunda-feira, junho 21, 2004

Caderneta-da-Bola: Umas vezes por Mounir, outras por Abazaj. E ningué se vai chatear por causa disso. Cruzamentos do menisco para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Conhecer pessoalmente Mame Bangane, nome de guerra Birame, hoje gerente de um cybercafe nos arredores de Paris. E perceber que foi por coisas destas que nos lembramos de começar esta historia, para traçar o imprevisivel e conhecer peça por peça esse demonio de LaPlace, engenho triturador de almas que é o futebol portugues. Se a tal nos ajudar o engenho, a arte e o tempo livre, la chegaremos. La chegaremos à primeira entrevista da nossa historia. Mas nao se fiem, que até o Pitico falhou um penalti uma vez na vida.
Os que estiverem mais acostumados a reflectir longamente sobre a bola reconhecem de subito uma epifania. Ha que ter a sensibilidade quasi-religiosa de um devoto do futebol mas também o espirito critico e terra a terra que distingue aqueles que veem o jogo da tribuna daqueles que veem o jogo do peao (tranquilidade, pequena e media burguesia intelectual, assinante da Sport Tv, defensores de Luis Filipe Madeira F. e demais ouvintes: chegaremos a esta discussao num outro momento). A epifania é a centelha que distingue um Calita de um Borreicho. A epifania é o momento magico em que Lobao faz um corte limpo e sai a jogar com a bola dominada (nao é por acaso que a comunidade cientifica dedica em media mais tempo ao Cometa Halley que ao central brasileiro). A epifania é, apos meses de desanimo com este projecto, conhecer pessoalmente o portento senegales que aterrorizou a defesa de toda e qualquer equipa que tenha passado pela Reboleira entre 93 e 96, o camisola 9 que ostenta a arrepiante estatistica de 4 golos em 3 epocas mas muitos quilometros palmilhados, que em algumas noites de inspiraçao incendiava Milovacs e quejandos com a tecnica de dribble que Wayne Rooney se dedica hoje em dia a aperfeiçoar no estadio do Louletano ou noutro qualquer do Neuro2004, esse gigante cuja compleiçao fisica corresponde a dois Rui Barros e meio Marco Nuno.
A Caderneta da Bola tem errado no deserto ao longo dos ultimos meses. Facto. A Caderneta da Bola tem sofrido multiplas desagregaçoes e ataques pessoais, como a progressiva perda de importancia de Rui Dolores na ala ou mesmo o facto do avançado Gringo, homem com 80 jogos em tres epocas de Segunda Divisao B nunca ter chegado à Superliga. Facto. A Caderneta da Bola sempre tentou pugnar pela defesa do futebol sintese da dialectica entre a tecnica e a tactica, mas mesmo essa regurgitaçao pos moderna deixou de fazer sentido nos ultimos tempos. Facto. A Caderneta da Bola precisava, e agora mais do que nunca, de uma epifania.

terça-feira, março 30, 2004

Comunicado da Direcçao da Caderneta da Bola SAD: Tal como haviamos prometido, até meados de Março colocariamos aqui um post. Desdizendo a maxima do futeboles, que postula 'o que hoje é verdade, amanha pode ser mentira', aqui fica a breve e singela homenagem a esse jogador que cumprira 34 anos no proximo dia 17 de Dezembro e cuja fugaz passagem pelos relvados viriatos nao lhe deu mais a guardar que uns quantos trocadilhos acerca da sua origem geografica, curiosamente comum à de um joguete infantil muito popular aqui ha uns anos. Pois é: o Tamagotchi que fez uma pré-época nos defuntos campos de treino do SL Benfica (nao confundir com o historico da Luz, Clube Futebol Benfica) chamava-se, em realidade, Seo Jung-Won, nasceu em Seul e marcou presença em 3 mundiais. Se o seu metro e setenta, esparsamente suportados por 65 kilos de puro chop-suey nao foram suficientes para gravar em caracteres coreanos o seu nome no panteao lampiao, ide, arautos obscurantista da bolologia, perguntar aos ultras do Racing Club de Estrasburgo o que pensam sobre este kamikaze. Ficarao, acreditem-nos, surpreendidos.

domingo, dezembro 28, 2003

A voz. Detalhe importante na formação e composição de um futebolista, a voz tem sido esquecida ao longo dos anos. Não é à toa que a língua portuguesa cunhou, através dos tempos, a expressão "voz de comando". O comando, o carisma da liderança é o que distingue, por exemplo, um Portela de um Tó Sá. Sim, Portela granjeou durante épocas a fama de lateral direitocorrectíssimo, competente a defender, pontapé forte, o arquétipo do lateral mediano. Mas Tó Sá é o nome que emerge quando os adeptos sadinos se sentam à mesa numa tasca da baixa de Setúbal a relembrar os laterais direitos do histórico clube do Sado (à direita, porque José Rui, esse lateral quase selvagem, nunca se lhe comparou e à esquerda Rui Carlos ainda traz lágrimas de saudade aos mais indefectíveis da Fúria Sadina). Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a um Vitória de Setúbal-Farense in loco facilmente discirnem que Tó Sá é um lateral de voz mais profunda que Portela. E este é um exemplo frágil, já que , salvo raras excepções, o lateral é mais solicitado que solicitador. Se falarmos de centrocampistas, como é o caso, a falta de voz torna-se um problema ainda mais grave. Infelizmente, a aturada investigação historiográfica dá-nos razão. Um caso paradigmático, o que trazemos aqui hoje, é o do maestro brasileiro Carlos Miguel. Contratado pelo Sporting naquela que é considerada a Idade das Trevas do clube verde-e-branco (as dinastias depois de Jozic, doravante designadas de DC, e antes de Inácio, AI). Nesse período de seca, em que o leme esteve inenarravelmente entregue a figuras como Carlos Manuel (que ainda hoje faz valer uma carreira de treinador às custas de um pontapé em Estugarda, carreira essa que encontra paralelo somente em nomes como Diamantino Miranda ou Bernardino Pedroto), Vicente Cantatore e, claro, o pioneiro dos três trincos Octávio Machado, Carlos Miguel chegou a Alvalade rotulado de "melhor número 10" no activo em terras de Vera Cruz. Ídolo no São Paulo, o regista nunca chegou a singrar no Sporting, onde prometeu na pré-época mas onde, em jogos oficiais, nunca pegou na equipa como era esperado. E estamos a falar de uma época em que os adeptos sportinguistas ainda estavam escaldados com o caso Roberto Assis, esse médio-centro vindo da Suiça com o colossal Ahmed Ouattara (e que hoje é empresário do seu irmão Ronaldinho, jogador do Barcelona) e perplexos com o fenómeno paraguaio César Ramirez, segunda encarnação de Cantiflas e ídolo do Topo Sul do defunto José de Alvalade, desde que foi a Israel fazer ao Beitar de Jerusalem o equivalente futebolístico daquilo que o Hamas tem vindo a fazer em Telavive. Voltando a Carlos Miguel, manteve-se o mistério do ocaso por mais de meia época. Porquê? Nenhum problema de adaptação noticiado, nenhuma lesão grave, nenhuma explicação oficial. Até ao dia em que a equipa da Caderneta da Bola se deslocou ao campo de treinos leonino, no âmbito de uma cadeira do Mestrado em Futebolês Contemporâneo - O Caso Português. Um treino, uma única sessão, talvez bastasse para descortinar o porquê do baixo rendimento da equipa em geral e do brasileiro em particular. E a realidade é que, uma vez chegados, apenas uma voz se distinguia das demais, a de Pedro Barbosa, o falso lento do futebol poético, por vezes belo e genial, por vezes ausente e superfluo. A voz, firme, segura, o "deixa, que é minha!" pronunciado na perfeição, o "estás só!" soprado com segurança, o clássico e eterno "vai, caralho!" articulado irrepreensivelmente. No meio de tudo isto, Carlos Miguel invisível. Até que, num dos raros momentos de silêncio, uma voz soa - "Aqui, passa passa!". A Caderneta olha em volta, pensando que a voz pueril que acabara de ouvir viera talvez de um miúdo a brincar com o pai. Uns segundos de desconcentração e, quando os olhos regressam ao relvado, a bola está nos pés de Carlos Miguel, que a devolve a companheiro tornado a gritar. O cenário grotesco do número 10 com voz de eunuco era demasiado real para ser verdade, com toda a carga paradoxal que isso carrega. A voz, num futebolista, salvando raras excepções de foras de série ou génios intemporais, torna-se, como comprovado, num critério tão válido como a idade ou o número de internacionalizações. Certas correntes defendem mesmo a substituição do sistema AA + Sub-21 pelo de Baixo + Barítono + Soprano. A verdade é que Carlos Miguel regressou ao Brasil no final dessa época sem ter ganho a confiança nem do treinador, nem dos adeptos, nem dos colegas. Nunca pegou no jogo, nunca encheu o campo. A voz, caríssimos, nunca lhe possibilitou impôr o espaço necessário a um número 10 para expôr a sua pleíade de artimanhas. E com estas incontornáveis idiossincrasias, o mundo da bola vai escrevendo a sua história, decepando cruelmente os mais fracos, trazendo Darwin para dentro das quatro linhas, desenhando uma linha de evolução que traz sempre um Punisic depois de um Abdel Ghani, um Fertout depois de um Embé, um Taoufik depois de um Basaúla. Lei da vida, norma da bola.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Caderneta da Bola: um blog com superavit tecnicista a meio-campo. Luvas pretas e suplementos vitamínicos para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A Caderneta da Bola deseja uma óptima segunda volta a todos os adeptos da bola deste país e de além mar, especialmente aos mais desfavorecidos, como os adeptos dos históricos Leça FC (último classificado da Zona Norte da II B) e do Farense (penúltimo classificado da Zona Sul da II B). Votos de um Santo Natal e muitas trivelas, pontapés do meio da rua e golos limpos no ano que se avizinha, entre o Euro e o Neuro. Prometemos na chuteirinha uma série de novidades nos próximos dias, que é como quem diz "havemos de meter aqui algum post pelo menos até meados de Março", como o final da História Interminável de Chaves, assim como revisitações a outros plantéis históricos (o muito ansiado Farense, por exemplo), e a autópsia ao monstro (agora defunto) Parmalat, assassinado publica e barbaremente a tiros de Clóvis, Paulo Nunes e Donizette, tanto nos relvados como nas bolsas de valores por esse mundo fora.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Prossegue o jogo no Municipal de Chaves, desta feita com os canticos apontados para Edondo Amaral Neto, o pigmaleao brasileiro que marcou a decada de 90 em Tras os Montes sob o nome de codigo Edinho. Hoje com a provecta idade de 36 anos, Edondo resiste nas sinapses de todo e qualquer apaixonado pelo futebol dada a sua existencia contraditoria. Apesar de parecer esguio, baixo e encurvado, com uma tecnica repentista, ao jeito do italiano Sandro "La Cobra" Tovalieri, saudoso sniper da costa adriatica, numerosos relatos existem de um Edinho alto e possante, mais ao jeito de um belicoso Igor Protti, o Sansao retroescavador de Bari (nota: a Caderneta internacionaliza-se progressivamente, expandindo alem fronteiras a sua 'luta de classe'). Aquilo que concede a Edondo a sua aparencia hibrida, e aquilo que, porventura, tornou Edondo em Edinho, era a sua compleiçao solida, integral, como um so bloco de carne, osso, sangue e golo. A cabeça achatada, os ombros colados ao pescoço, um peito curvaceo e tenso como uma ameaça de bomba, enfim: Edinho, sintese tropical de David e Golias, era um jogador explosivo. FIM DA 1a PARTE