segunda-feira, dezembro 10, 2007

O grande interesse desta abordagem comparada é realçar o facto de Guimarães ter sido, naquele ano, a antecâmara de dois arquétipos de carreira de um defesa lateral: por um lado a discreta até ao topo do futebol mundial, camuflando com um currículo aparentemente imaculado uma mediania que, de tão constante e regular em tantos relvados diferentes, se torna singular e digna de registo; e por outro a discreta carreira até à encruzilhada e a dúvida entre triunfar num grande ou sucumbir a essa mesma grandeza até acabar por resvalar para duelos épicos na divisão de honra. Depois de várias noites a esgrimir a giz algumas hipóteses na ardósia do nosso balneário, a Caderneta está em condições de fornecer algumas explicações para essa diferença tão radical e de natureza tão transcendente a ambos, demonstrando uma vez mais o quão importante foram esses 9 meses na cidade-berço para entender a bola tal como a temos hoje.
O primeiro aspecto é, obviamente, o mais superficial e tangível de todos: o rebuscado apadrinhamento do benjamim Marques Teixeira no hemisfério sul deu-lhe um nome que nenhum outro jogador do hemisfério norte ostentou com relevo numa divisão cimeira de algum país, seja ele eslavo ou latino. Da Reboleira ao Minho, Dimas vem no dicionário como "defesa esquerdo vulgaris de Lineu" antes do "honrado ladrão que deu guarida à sagrada família" e que inscreveu o nome próprio nos anais da história. Por outro lado, Joaquim Alberto Machado é sangue anónimo, a mais importante substância das massas e multidões que afinal, movem a história. Na bola, é um nome que se desmultiplica de forma arredia, como o temperamento de Sérgio Gameiro, ou camaleónica, como uma exibição de Prokopenko. Acima referimos a confusão que seria se Quim Berto tivesse mantido a fórmula "nome e apelido", e o injusto fardo que teria carregado ao apresentar a mesma designação que o gurú de Santo Tirso, Quim Machado.
E também não é por acaso que outro célebre Joaquim Alberto da bola autóctone adoptou um nome de guerra que ainda hoje faz tremer os ferros de algumas balizas do Ribatejo ao Douro Litoral. Falamos, obviamente, de Quinzinho, avançado indomável que, contratado por uma associação desportiva da zona das Antas, deixou pegadas de lenda no Estádio dos Arcos tendo chegado mesmo a ser treinado, na viragem do milénio, por um então desconhecido Juande Ramos no Raio do madrileno bairro de Vallecas. Talvez um dia decante esta vossa publicação servidora algumas linhas sobre esse personagem vanguardista que ousou ser Mantorras antes de Mantorras.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Parece tarefa impossível ensaiar qualquer tipo de explicação cósmica sobre o papel do Vitória de Guimarães de 1993/1994 nesse mecanismo misterioso que a máquina da bola sem invocar as bases da Teoria do Caos. Diz o enunciado do efeito borboleta que o bater das asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar, numa cadeia de pequenas relações causa-efeito, um tsunami no Golfo do México. Futebolisticamente falando, isto equivale a dizer que simples acto de dar, em 1969 e a um recém-nascido em Joanesburgo, o nome do bandido palestino que protegeu José e Maria da fúria de Herodes na noite do nascimento de Cristo, pode estar relacionado com uma sequência de slaloms na meia direita do serra-leonês Sessay, abrindo caminho para uma empolgante exibição de um franzino minhoto em Castelo Branco, circa 1992. Estes dois eventos passariam despercebidos no curso da vida da Bola se não fossem eles também outro bater de asas de mariposa que originou, em Guimarães, dois históricos tsunamis nas alas da defesa, um ano depois.
Esta abordagem comparada não significa, no entanto, que ambas figuras possam ser consideradas aço da mesma armadura. Pelo contrário, são uma representação exacta de dois trajectos e duas configurações físicas e tácticas tão típicas quanto opostas, e de como a simetria e uma mesma condição de escudeiros de nomeada nas batalhas do Afonso Henriques possam levar a caminhos tão distintos como o Panteão e o Esquecimento – ambas entidades uma sepultura injusta para a memória de cada um destes jogadores. Falamos, claro, de Dimas Manuel Texeira, que viveu em Guimarães um mandeliano exílio regenerador para depois abraçar a glória mundial qual Berardo do flanco esquerdo; e de Joaquim Alberto Machado, conhecido no futebol português como Quim Berto (e não como Quim Machado, para não se confundir com a lenda de Santo Tirso, também ele defensor vimaranense na temporada anterior à sua chegada, e figura de singular proeminência no futebol mundial, ao tentar ressuscitar, mais tarde e como treinador, duas entidades defuntas no universo futebolístico internacional: o futebol luxemburguês e o Tirsense).

terça-feira, novembro 13, 2007

O regresso implica, neste caso, um retorno à origem. A origem da bola lusa tal como a conhecemos reporta – como não? - aos desígnios originais da nação. A prolongada hibernação teórica esperou até ao momento de descoberta desse período e epicentro geográfico que descodificam, como se da Pedra da Roseta da redondinha se tratasse, o que é hoje o tal desporto a que os entendidos chamam futebol.

Voltar ao princípio, tal e como o entendemos, é voltar ao berço. O local de renascimento da bola é, afinal, o lugar essencial da fundação da país. Falamos, claro, de Guimarães, terra de estátuas metálicas do rei dito o primeiro, reconstruções de ruínas pela velha senhora (atenção à semelhança cromática entre o clube da terra e a vecchia signora de Turim) e covil de hooligans desalmados, entre outras delícias regionais.

Vitória foi o nome dado em 1922 à agremiação local num notável e paranormal prognóstico da única ocorrência deste género obtida pela sua categoria sénior do desporto-rei: a Supertaça Cândido de Oliveira, 66 anos mais tarde contra um Porto ainda bêbado da vitória no Ernst Happel. A única Vitória do Guimarães e a sua homenagem feita sessenta e tal anos antes – tantos quantos os anos do século XX que o país esperou até ver os patrícios subir ao pódio imaginário de um mundial de futebol - foi apenas o primeiro indício da propensão zandínguica associada ao clube. Há mais, claro, e esta dimensão de oráculo estende-se, atrevemo-nos a dizer, a todo o futebol europeu.

Agora, quando? O leitor não pode ser massacrado com a homérica tarefa de decifrar toda a história do clube em busca dessa temporada mítica que constitui a síntese da bola deste rectângulo. Não pode porque é uma chatice e, em boa verdade, nem sequer precisa porque a Caderneta tratou de fazê-lo por ele. Falamos da temporada que começou no Verão de 1993. Essa época, que acabou por ser o último campeonato ganho pelos rivais do Fófó desse século, que o clube do Campo Grande teve meia geração de ouro a ouvir traduções inglês-setubalense até se suicidar na neve de Salzburgo, e que nas Antas ainda não se conhecia a palavra penta mas em contrapartida Rui Filipe ainda era homem e não lenda, nessa época... o Guimarães fez história.

Nenhum outro clube em nenhuma outra época, de acordo com os registos recolhidos até à data, soube condensar tanto símbolo de passado, presente e futuro, num demónio de Laplace cujo resultado é, somente, o futebol tal como o conhecemos hoje.

Desde o homem que agarrou o braço de Luís Filipe e impediu um homicídio em pleno Estádio de Alvalade, bem recentemente, às velhas glórias da defesa, ao lateral português que vingou no estrangeiro sem que o estrangeiro se tivesse, de facto apercebido. Desde o protótipo do central canibal ao arquétipo do patrão de bigode, uma espécie de Humberto Coelho quase galego. Desde a actual dupla técnica do clube viscondal aos dois tipos de jogadores balcânicos, o que ficou conhecido além fronteiras por espalhar arte, valentia e psicose, e o que apenas ficou conhecido cá no burgo por espalhar discretamente as primeiras duas. Desde a incansável gazua africana ao involuntário epicentro da corrpução futebolística pós-quinhentinhos de Guímaro e pré-café com leite. Desde a jovem promessa dianteira lançada às feras com as quinas ao peito no Golfo Pérsico, ao mito cartaginês, avançado de faro e dimensão transahariana. Desde os primórdios ao obscuro desconhecido, pelas fronteiras do tempo. O berço tremeu por um ano e o destino ficou gravado para a eternidade.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Bicicletas e chilenas de boas vindas para: cadernetadabola @ gmail.com.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Enquanto não se escrever a última página na interminável esferico-novela, essa mesmo que perecerá de mão dada com a própria humanidade, e que há dezenas de anos divide o género humano entre os que crêem que Fábio Felício não passa de uma pálida réplica de Nuno Pintassilgo e os que defendem a constância deste último face à errância do primeiro, podeis estar certos, oh prezados leitores, esta vossa humilde publicação, outrora plagiada por vulgares fariseus de vãs edições em papel cuja atenção dada à reverente arte da redondinha é a mesma atribuida a fúteis acessórios para meios de transporte de quatro rodas, continuará a relatar o que a arte, o engenho, a memória e o relógio permitirem. Sim, porque se em 1993 foi permitido a Andrade, Bambo e Hugo Porfírio, entre demais compinchas, sonhar com o Tri-Mundial em terras de Bozinovski e Minogues, também a nós, meros operários da literatura bolística, será permitido levar a redondinha prá frente, eventualmente recorrendo ao ocasional chuveirinho. Não será demanda fácil. Sobretudo para o leitor que encontre em sucedâneos produtos, cuja arte se resume a digitalizações de cromos sitos no objecto que emprestou a este esforçado pasquim seu nome, o Santo Graal da esférico-historiografia. Prevêem-se jornadas duras. Duras como uma deslocação ao Bessa de Bóbó e Manuel José em alturas de janeiras. Falamos de longas e densíssimas incursões teóricas que, partindo de recordações fragmentadas, gizam estorietas floreadas a metáforas mais rebuscadas que o Poço da Morte erigido a tiros de Bolinhas e Artur Jorge. Os anos passaram. O futebol não terá mudado assim tanto, mas nós sim. E quem cresceu a comer cereais às 3 da manhã à espera da continuação da Ode a Matute, mudou connosco. E são a esses que temos que atender. Disse.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

A Caderneta da Bola regressa assim sob a égide do heroísmo, num terrível esforço de colaboração. A história, em particular a que remonta à bola lusa, é fértil em demandas a dois, magníficas descidas aos infernos em tabelinha e plantéis dos quais lembramos pouco mais do que a dupla goleadora, o yin e o yang simbólico da vontade de toda uma equipa. Serve o paralelismo para marcar, por um lado, o peso do regresso e, por outro, para homenagear, num momento singular, as duplas ofensivas que o destino tem oferecido ao futebol português. Fala-se em destino porque não se trata de uma combinação entre dois elementos de uma equipa, fala-se de uma nova ordem cósmica construída entre dois artífices da redondinha: a dupla é muito mais do que aquilo que qualquer um seria por si, só. Quando em acção, uma verdadeira dupla ofensiva é um exponenciar imprevisível e mágico de talento e eficácia, muitas vezes apenas apreciável em contextos bem precisos e delimitados no tempo e no espaço. A toda uma tradição, assinalamos uma apenas, exemplar aliás do que acima a Caderneta tentara transmitir – e que de resto é um pouco o leitmotiv da demanda há sensivelmente dois anos e meio -, a ilusão virtuosa que é toda a memória da bola. Dito isto, situemo-nos: o abrandar do comboio e o casario a densificar-se ao longo da praia não engana – Espinho. Fracturada entre o Casino e o Estádio Comendador Manuel Violas, a Atlantic City portuguesa e o seu entardecer diabólico habituaram o público desportivo às suas magníficas duplas, a mais proeminente das quais elevou mesmo o nome do império além-mar. 1996 foi o ano de Espinho: enquanto que a comunidade lusófona se impressionava com a prestação de Maia e Brenha nas areias olímpicas de Atlanta, às quais resgataram um quarto lugar, o mundo do futebol parava para celebrar com o Espinho a subida à divisão maior. Um momento de celebração mas sobretudo de respeito e admiração, já que o objectivo tinha o rasto preciso de dois prodígios – tal como nas olimpíadas, também em Espinho brilhava um dueto: Bolinhas e Artur Jorge, incansáveis corredores da grande área adversária, por eles transformada em Poço da Morte, grandes responsáveis pela quantidade de baixas deixadas pelos alvinegros no caminho para a Primeira. Autênticas gazuas, trabalharam a subida de divisão ao longo de duas épocas, de 1994 a 1996, esse verão ardente. E os número são claríssimos a esse respeito: o estágio saldou-se pela titularidade absoluta e 44 golos repartidos entre os dois. O número, suficiente no entanto para cumprir o objectivo, não traduz todavia a vastidão do repertório, distribuído pela complementaridade dos dois artilheiros. Artur Jorge, mais robusto e impositivo, de remate fácil e hábil jogo de cabeça, era um avançado senhorial, da escola vimaranense e percurso bucólico no cartel. Bolinhas, mais cerebral e urbanodepressivo, pautara até aí a carreira como viria a pautar a sua vida: a passear o drible curto e o último passe pelos subúrbios da bola, a ver os grandes palcos pela nesga fugaz da glória efémera – como um dia vira a primeira divisão a partir de Sacavém ou da Quarteira, onde jogara até encontrar paz na Costa Verde. A época de estreia na Primeira Divisão trouxe à boca o fel da ressaca da celebração estival. A titularidade mantém-se mas o choque com o primeiro escalão transformou a temporada numa difícl descida aos infernos. Cada jogo no Manuel Violas desonrava a prosperidade da família do comendador, precipitando o prometedor esquadrão de novo à Segunda Divisão de Honra. E num plantel praticamente galáctico – de Carvalhal a Besirovic, de Filó a Milton Mendes, do críptico magiar Lipcsei a Sérgio Lavos, entre outros – a dupla resistiu a todos os assaltos à titularidade e norteou a trágica campanha. Sete golos não foram suficientes para justificar o elan e muito menos para abalar o misticismo em torno daquela estranha simbiose: de volta ao escalão inferior, Bolinhas e Artur Jorge continuaram a envergar o 11 e o 9 da época anterior, apontando 15 golos e jogando praticamente a maior parte das partidas. A subida porém falhou e dupla apartou-se, pouco resistente aos estilhaços de 4 anos entre o céu e o inferno. A sabedoria de alguns lobos do mar tem, no entanto, vindo a assegurar uma diferente versão, ouvindo-se entre o morejar das ondas um cântico de lamento pela chegada à cidade de Artur Jorge Vicente, alegado intruso na dinâmica da dupla: um terceiro avançado, um terceiro titular, três nomes, três golos. Artur Jorge Vicente, um golo a mais que Bolinhas, e o incrível almadense embalaria a trouxa uma época depois, já sem o vil Vicente ao largo mas com crédito suficiente para assinar pelo Rio Ave e regressar a solo à primeira. Desfeita a dupla, ambas as carreiras entregaram-se a um lento eclipse, com Artur Jorge a vaguear mais uns tempos em Espinho, seguindo depois para a Póvoa do Varzim, Moreira de Cónegos e por aí fora, e Bolinhas a oscilar entre Vila do Conde e Coimbra. Alinhou de negro pela Briosa ao lado do lendário Febras, até há poucos meses embarcado numa odisseia singular a dois continentes de distância, ídolo da claque dos malaios Sabah Rhinos com a responsabilidade de fazer esquecer Josiah, o mago liberiano do ataque da equipa – mas isso são contas solitárias de outro rosário. Para Bolinhas, agora, o Almada, com quem revisitou o passado no Manuel Violas. O resultado desse desafio da Taça de Portugal na temporada passada importa pouco, mas importa: Bolinhas perdeu, nessa tarde, por 3-1, contra a sua antiga equipa, a sua equipa de sempre, perdendo igualmente a esperança de voltar um dia a uma última volta no Poço da Morte, com a morte no fundo do poço, da divisão, à mesma distância que a glória. Uma última volta, fora de tempo, agora que o inferno está ao abandono e a magia que criara com Artur Jorge se afasta do presente, sem conhecer epitáfios. É essa magia, afinal, a nossa tarefa.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Entradas à margem das leis e jogo de contenção para: caderneta-da-bola@megamail.pt
As notícias da morte da Caderneta da Bola foram manifestamente exageradas. Os últimos meses têm sido passados, sim, a debelar uma arrepiante lesão no menisco criativo e a decifrar, com método e rigor absolutamente científico, a paleta de sorrisos de Fernando Almeida, esse torpedo dos trópicos, artífice dos tempos em que Paranhos era mais samba e música balcânica do que gritos de Linhares. Não se promete, como o estimado amante da redondinha lusófona concordará, um regresso prematuro à competição regular, mas a fome de bola obriga a Caderneta ao abrilhantar de uns quantos amigáveis. Não há nada como o cheiro a relva e a balneário - e como o ardil de continuar a desfiar a frágil túnica da memória futebolística.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

A Caderneta da Bola regressa afinal do coma festivo a que esteve acometida, assim como da letargia criativa e excesso de outras coisas para fazer, sobretudo para provar e voltar a vincar periodicidade mais errática que as exibições de Marco Tábuas. Postos os entretantos, este regresso deve-se sobretudo a uma aturada pesquisa dos vários paradigmas tácticos que pautaram o futebol português, isto num momento, notem bem, em que a cultura táctica (outra entrada de dicionário que ficará para mais tarde) lusitana é praticamente um porta estandarte da alma de todos nós, incarnada que está num sadino endiabrado em terras de Sua Majestade. A pesquisa, o laborioso separar do trigo e do joio, o essencial do acessório entre apontamentos de Abel Braga e Bernardino Pedroto, a geometria descritiva de Henrique Calisto, permitiu descobrir que entre o 4-4-2 e o 4-3-3, existe uma configuração táctica singular, talvez a mais emotiva e provavelmente a menos apurada, escondida no final dos cadernos dos cursos de treinador da federação, rasurada pelo desespero. Selada num envelope a abrir apenas à entrada para os 80 minutos de um jogo de nervos, esta táctica entranhou-se na história sob o nome de chuveirinho. O chuveirinho é, claramente, a expressão táctica da angústia, uma predisposição de jogo tão nítida na tradução do estado de espírito dos executantes que a sua eficácia raras vezes emerge. O que é, afinal? É um sistema de jogo armado com os elementos mais recuadas da equipa a tentar defender o forte e a bombear bolas para a frente, uma linha média colocada imediatamente antes da grande área adversária, para recuperar a segunda bola (outra expressão a explorar ulteriormente) e os ressaltos que sobrem do resto da equipa, acampada na grande área do rival a tentar inventar jogadas a partir dos bombardeamentos dos colegas atrasados. Muitos cruzamentos, muitos passes em balão, muitas tentativas de semear a confusão, como saltos para a piscina - reparem: chuveirinho e saltos para a piscina; claramente uma táctica concebida por um nativo de Peixes. A questão astrológica é, também ela, controversa, uma vez que determinados analistas continuam a argumentar que a solução táctica emocional e desesperada é mais própria de nativos com Sol em Carneiro. Adiante, o chuveirinho é, como a Caderneta já avançou, mais frequente em finais de jogos ditos impróprios para cardíacos (oh meu El Pibe, outra!), em que uma equipa tenta reduzir uma desvantagem que não lhe é consentânea com o prestígio ou objectivos, ou um daqueles empates encravados Made in Bessa. Todavia, o detalhe mais importante e aquele que importa reter, é a carga de fiasco que o termo acarreta. Autêntica expressão de uma desolação kierkegaardiana, o treinador que ordena o chuveirinho sabe que não é capaz de fazer melhor naquele momento. Assume que falhou até ali, que a equipa partiu irremediavelmente, e que, mesmo que ganhe, restam-lhe as chagas de ter descido ao grau zero da criação futebolística. Prova disso mesmo é a alteração posicional mais frequente nestes casos de psicose da bola, a subida de um defesa central a ponta de lança. Ironia das ironias, há jogadores que usaram e abusaram desta esquizofrenia para brilhar e fazer nome na história da bola lusa, casos de João Manuel Pinto no Porto de Robson ou Paulo Pereira, anos antes um herói no Estádio da Luz. Claro está que nenhum treinador passa por esta experiência de calvário quase bíblico incólume, porque sabe que mesmo atingido o objectivo, houve uma espécie estranha de batota. Muitas vezes, em casos clínicos extremos, o chuveirinho nem parte da iniciativa do treinador, já derrotado dentro de si mesmo e remetido ao fundo do banco, mas dos jogadores, bloqueados pela pressão e pela obsessão do golo, um autêntico acto falhado freudiano. O objectivo intermédio, antes do golo, é, no entanto, a acumulação de cantos, porque garante um cruzamento para a área e um robustecimento das estatísticas no final do jogo, esse adereço indispensável a qualquer vitória moral. O que já de si é uma assunção da falha irrevogável. Um último detalhe sobre este filho bastardo da arte de bem tratar a redondinha é o facto de ser um fenómeno claramente transclassista. Desde os grandes aos pequenos (para quem acredita em diferenciações desta índole), desde os infantis até aos séniores, toda a equipa já passou por aí, seja o Manchester United (na final da Champions League em Camp Nou contra o Bayern, em que a coisa, claramente, resultou) ou o Leixões (na final da Taça de Portugal contra o Sporting, desaproveitando assim a nobre arte da bola no chão do artesão Detinho). É como uma fraqueza da espécie, um vício tribal, uma dessas imperfeições que nos lembram que até Capello e Diamantino Miranda são humanos, aliás, a expressão da persona da bola, em tudo aquilo que tem de bom, mau e por vezes assustador. Uma questão velha, tão velha quanto o medo sobre o relvado.
Caderneta da Bola: Pelo regresso de Manuel José e contra o frio moscovita. Donativos para a campanha em caderneta-da-bola@megamail.pt.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Quando falamos de Santana, falamos, claro, de Luiz Alberto Santana, conhecido para o mundo do futebol como Luizão, impiedoso defesa central brasileiro, um guerreiro cego que jogava como se a sua grande área fosse o Delta do Mekong em 1967. As origens duvidosas, o Londrina Futebol Clube, time do Campeonato do Estado do Paraná, não obstaram à sua contratação pelo tal polémico presidente, dr. Pimenta Machado, xerife do condado-berço que o trouxe para defender as cores do Vitória. A história, de resto, escreveu-se no post anterior: se o objectivo era num dia Portugal e no seguinte a Europa, Luizão, com quatro jogos, não foi longe no intento, tendo passado as duas épocas seguintes a almejar o lugar que outrora granjeara. Na primeira, com as cores do Varzim, foram 28 desafios de puro esplendor marcial, seguindo-se depois a defesa da linha de Chaves, alinhando na defensiva flaviense, guilhotinando os adutores de toda e qualquer invasão por 29 ocasiões. Saldo disciplinar das duas épocas: 6 vermelhos e 22 amarelos. Para o tal presidente, porém, tudo isso serão já águas passadas, material para esse enorme saco azul que é a memória distante. E selectiva.

terça-feira, dezembro 14, 2004

A história, de tão marcante, está ainda bem fresca na memória de todo o amante da bola jogada (e não só): Santana que chega ao esteio da equipa para liderar, com um punhado de referências controversas e por alguns apontadas como duvidosas ou mesmo imerecidas de tal destaque. Nesta terra, já se sabe, o aval presidencial acaba por valer mais do que qualquer outro critério de poder inter pares, e Santana impõe-se nos primeiros tempos. No entanto, a sua capacidade de destruir, infinitamente maior do que a de construir, o seu constante contornar de todas a regras formais e tácitas do jogo, a sua natureza entrópica arrastam a equipa num resvalar prematuro que deixaria afinal a sua equipa na história. Depois de um afastamento parcial prematuro, e sob sentença de um presidente para quem "o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira", a época acabaria, para Santana, com um mais que previsto êxodo para outras paragens, desta feita em assalto constante e dedicado a um trono que já foi seu. O presidente, esse, soube relativizar a questão ao ponto de incluir todo este negro episódio como apenas mais um episódio de uma extensa e colossal carreira ao serviço do burgo, episódio afinal não muito surpreendente para quem o sempre conheceu.
A Caderneta da Bola não dorme: para breve, muito breve, está guardada uma singela mas honrada apreciação da queda de Santana. Ainda que com algum atraso, o estilo trauliteiro, a esquizóide relação com o presidente e o desterro inglório depois de uma passagem funesta pela ribalta não passam incólumes pela lupa cadernética. É só mais um bocadinho de futebol de contenção e a bola rola dentro de momentos.

segunda-feira, novembro 15, 2004

A Caderneta da Bola interrompe a pausa outonal, feita de inúmeras e dilacerantes diásporas intra e extra muros, para anunciar com pompa a criação de uma outra publicação especializada. O homem sonha, a obra nasce, e os amantes do futebol podem agora contar com o Algarve Desunited ( http://algarve-desunited.blogspot.com ) para mergulharem violentamente nas profundezas do futebol a sul, mais a sotavento que a barlavento, numa expedição coordenada pelos peritos em futebol local Calhabana e Badabing. Relatos do Culatrense, as aventuras do "Dez pás Duas" ou do incontornável Carlinhos Gaudencio, as misteriosas finanças do S.Marcos da Ataboeira, a carreira de João Paulo Brito e do seu padrinho Stoylov, tudo isto e muito, muito mais na verdadeira equipa algarvia primodivisionária. Boas goleadas!

terça-feira, outubro 26, 2004

Tenta o mundo da bola recompor-se e acordar para o dia seguinte de um dos factos futebolísticos mais marcantes e calamitosos, arriscamos, do ano desportivo - a lutuosa série de derrotas que mantém o Farense no último lugar da Série F da 3ª Divisão - a Caderneta da Bola, tendo feito já o apontamento para o mergulho dos históricos Salgueiros e Santa Clara às profundezas do esquecimento num exemplo que serve também à agremiação algarvia, aponta agora as baterias a um atleta cujos contornos singulares o aproximam a uma personagem de ficção. Nos últimos dias reunimos, aliás, as condições que julgamos necessárias para afiançar que é voz corrente em muitos clubes por essa Europa e África fora que o jogador em questão não existe nem nunca existiu. Nalguns meandros mais discretos e privados, consta até que o escritor Leslie Charteris terá vislumbrado, nos últimos momentos da sua vida, a encarnação da sua personagem mais famosa, o Santo, neste mesmo atleta. Que nada fica a dever a Roger Moore, o actor que a celebrizou, em compleição física, requinte e faro de golo. O nome mais vezes citado para o referenciar terá sido Jean-Jacques Missé-Missé, mas, em bom rigor, não estamos em posição de assegurar que será este o seu nome verdadeiro. Tudo aponta para que tenha nascido na República dos Camarões - a FIFA e as fontes oficiais de alguns clubes por onde alegadamente terá passado assim o indicam - a 7 de Agosto de 1968, uma data que carece, uma vez mais, de confirmação. A verdade, caros leitores, tal como a recuperamos das malhas cibernéticas e neurológicas, do poço sem fundo que é a memória, a surdina na via pública e a biblioteca ao entardecer, é que este homo futebolis não é sujeito mas percurso, síntese perfeita de um conjunto de objectivos, missões, a atingir por obra cósmica e graça desconhecida em dado momento, em dado clube. Alguns desígnios permanecem intocados, tal a distância que separa um estivador do porto de Douala no Golfo do Biafra de um oficial da gare ferroviária da cidade belga de Charleroi. Outros podemos tentar resgatar e trazê-los para o lado de cá do manto diáfano que separa a história da fantasia. A verdade é que Jean Jacques, a existir realmente hoje em dia, existirá sempre como um homem diluído no seu próprio mito, camaleão das insígnias clubísticas. Promessa polémica que alinhou por dois dos maiores clubes da capital Youndé, o Canon e o Diamant, Jean Jacques rumou depois a Douala para prolongar o fratricida duelo entre os adeptos do Union Douala e do Rail Douala. Infiltrado e insidioso ponta de lança, tão letal no tiro como na assinatura do contrato, Missé-Missé consegue o passaporte para bem longe do hamletiano futebol camaronês. Assim, com um sorriso nos lábios, Jota Jota chega à Europa com o sonho do imigrante francófono herdeiro dos leões indomáveis para tentar a sua sorte justamente no foot. É o FC Malinois que o acolhe, mas não por muito tempo. O seu talento brota a cada treino e é com a trouxa às costas e com o rótulo de matador africano com experiência europeia que chega ao Charleroi, clube royal da Bélgica. Aí conhece o sucesso, começando o Santo a granjear acólitos até à fronteira flamenga. 3 épocas em cheio, com 15 golos na primeira, 10 na segunda e 12 na terceira, valem a Missé o brilho de pérola africana, trazendo nas botas essas credenciais para uma Lisboa que explodia de africanismo futebolístico. Era o Sporting virado para África, em rescaldo de Amunike e pleno prêambulo de reinado de Ahmed Ouattara que recebe o atleta. Aqui, inexplicavelmente, J.Jacques cumpre outro santo sacrifício: num plot twist perturbador, o promissor e portentoso globetrotter é afinal um discreto jogador em fase crítica da carreira, os 28 anos de um avançado e consequente crise de meia idade, e em fase de periclitante adaptação a uma realidade futebolística no mínimo sui generis (recorde-se que animavam os gabinetes de Alvalade um ex-actor e agora ex-treinador do Sport Comércio e Salgueiros e um agora ex-autarca da Figueira da Foz ). O saldo foi negativo – 4 jogos oficiais, zero golos zero – mas, enquanto a equipa continuava o seu suplício, o saltimbanco foi decidido espalhar a pantomina para a Turquia, a montanhosa e portuária Trabzon. No Trabzonspor, uma espécie de Aston Villa do Mar Negro, Jean é o verdadeiro reforço, o jogador fora de pré-época que surge para dar força na eterna luta pelos lugares cimeiros que teimam em fugir para as mãos do Galatasaray e do Fenerbace. Na Turquia o saldo é um pouco melhor, com 10 jogos e um golo, mas não chega. Feitas as malas, para mais uma viagem, M&M não resiste a tomar partido em mais um duelo fratricida, desta feita, a norte, na 4ª maior cidade escocesa, Dundee. Palco ancestral de lutas sangrentas entre o United e o FC local, o camaronês chega como mercenário contratado para reforçar o arsenal laranja, o Dundee United. Rezam as crónicas, todavia, que terá passado mais tempo a cultivar o seu estatuto de stranger in a strange land na urbe das highlands do que propriamente a fazer sangue nos relvados, já que as contas são exactamente as mesmas de Lisboa. Mais a Sul, ainda no mesmo ano, os fragmentos que conseguimos juntar num esboço de currículo oficial dão-no como jogador do Chesterfield, da Second Division e, no ano seguinte, dados substanciais dão-no como tendo iniciado a época ao serviço do Royale Association Athlètique Louviéroise, o clube da cidade belga de La Louviére, à época (1999-2000) na segunda divisão belga. Refira-se, para atestar da densa aura de mistério em torno da personagem charteriana, que o próprio site oficial do clube belga nega esta própria informação. Talvez porque, no mesmo ano rumou ainda à Grécia, ao Ethnikos Aasteras, obscuro clube de meio da tabela do campeonato grego de estrela vermelha ao peito (não confundir com o Ethnikos Pireu), actualmente na 2ª divisão grega. Na Grécia, Jean-Jacques Missé-Missé voltou a encher de orgulho os mestres camaroneses que o ensinaram e trouxe, numa época de titularidade indiscutível – 30 jogos, 9 golos – o aroma ganhador do futebol político que atingira o seu expoente máximo no Estrela Vermelha de Belgrado. Cumprida a missão, dá-se o regresso à Bélgica, a tempo de celebrar na Louviére os seus 32 anos, já um pouco recuado no terreno, já jogador com cartel no estrangeiro, já veterano respeitado e velho conhecido dos ultras valões. Numa época marcante da história do clube, que envolveu chicotada psicológica e a contratação do druida Leclerq, ex-campeão francês com o Racing de Lens, o Louviére, consegue um 15º lugar na Primeira Divisão Belga. E Jean Jacques falha apenas um jogo, conseguindo, uma vez mais 4 golos com a camisola dos Lobos Verdes. No ano seguinte continua no mesmo clube, facto que não acontecia desde 1996, mas a temporada, apesar de prometer (com as contratações Karagiannis e Nicolas Ouedec), começou com uma derrota histórica por 8-2 contra o GBA, jogo em que Missé Missé ainda marcou. Daí para a frente até à surpreendente ponta final, o clube foi perdendo, ao longo do seu descalabro, as suas peças mais importantes, desde o treinador até ao próprio Jean Jacques, não tendo estes presenciado a extraordinária recuperação que colocou o clube na 11ª posição no final do ano. Mas é de Jean Jacques Missé Missé que se trata. E o andarilho seguiu, em perda de fulgor mas não de carisma para o Ostende, na 2ª divisão belga e depois para o também belga Mechelen. O mito do camaleão que veste a pele de diferentes santidades, alvo querubim do paganismo futebolístico, fica também a dever-se a enigmáticos registos recolhidos um pouco por todo o lado, como em escritos que o dão como jogador do inglês Walsall e do Wycombe, fotografias de abraços cúmplices a adeptos do clube holandês Roda JC ou o extraordinário comunicado que assinou, em nome da equipa, ao serviço do Ostende na época de 2002-2003, pedindo encarecidas desculpas ao adeptos pelas más exibições e prometendo os possíveis e os impossíveis por devolver a dignidade à curva. Hoje, caros leitores, perdemos-lhe, por respeito, o rasto mas guardamos-lhe o lugar de refinado marionetista do quotidiano desportivo, a marca indelével de quem move decisivamente o mundo sem que este se dê conta. Algures entre as páginas de Leslie Charteris, o navio de Corto Maltese e as profundezas do mundo futebolístico, ei-lo. Jean-Jacques Missé-Missé, 36 anos. Chamemos-lhe assim.

sexta-feira, outubro 15, 2004

A ocidental bola lusitana é pródiga em idiossincrasias que a tornam, justamente, ocidental e lusitana, e não outra coisa qualquer. Uma dessas idiossincrasias, epifenómenos futebolísticos de singular curiosidade, é afigura quasi-estatutária do treinador-bombeiro, também apelidado de salvador, reserva moral e, na maior parte dos casos, "prata da casa" [Nota: não se trata de uma entrada do Dicionário Português-Futebolês pois, emrigor, não se trata de um artifício terminológico ou de uma figura de retórica]. O treinador-bombeiro é o homem temporariamente certo, no lugar absolutamente certo, no pior momento possível. E, paradoxalmente, ele só é o homem certo quando o momento não podia ser mais errado. Falamos de idiossincrasias específicas da bola lusa, porque em nenhum outro universo futebolístico, suspeitamos, é tão evidente a proeminência de dados misters, feita de um cruzamento bizarro entre prestígio endoclubístico, carisma do passado e disponibilidade para agarrar no leme quando já os ratos se apressaram a escapar ao naufrágio. Regra geral, a competência ou é duvidos ou assim se torna, tal é a dificuldade em aferi-la face às iminentemente drásticas circunstâncias. Dentro desta curiosa sub-classe profissional existem, claro, duas grandes divisões: de um lado, os treinadores aos quais esta descrição assenta apenas em relação a um clube -vide Toni ou MárioWilson no Sport Lisboa, Fernando Mendes no Sporting Clube (este num contexto no mínimo dantesco) ou o há poucos dias referido Caetano, no Tirsense - ou os que fazem dessa mesma condição um modo de vida, em aleivos de pseudo-reformismo esquizóide geralmente de fraca eficácia desportiva. A estes voltaremos já de seguida. Agora, porquê aqui, entre nós, e não além da Taprobana? Que motivos encontra a chuteira cósmica para conduzir deste modo a esfera da vida, aqui nos estádios portugueses? A resposta encontramo-la, claro está, na história e nas profundezas da trágica e mal explicada identidade nacional. O treinador-bombeiro é a persona do mito sebastianista do homem que virá da bruma salvar a nação, neste caso o clube, das trevas históricas, neste caso da descida de divisão ou do não apuramento para as competições europeias. Não é mais do que a personificação da esperança num dado momento em que ela é, mais do que nunca, necessária. Daí as variáveis fundamentais da escolha serem a nostalgia da glória passada, o carisma granjeado ao longo de anos de dedicação e a disponibilidade em dar o peito às balas, como o corpo tenro do real adolescente nos confins do Maghreb se deu às lanças mouriscas, em detrimento do rigor e pragmatismo em dar a táctica como deve ser de acordo com as características dos desafios e dos jogadores do plantel. Não se queira, com isto, desacreditar toda uma classe de mártires que teve a audácia de se lançar às feras. Alguns deles conseguiram, contra todas as expectativas (incluindo as próprias, desconfiamos) atingir um ou outro patamar de sucesso desportivo, como Toni, por exemplo, ou José Romão, que a dada altura da carreira chegou a apresentar-se como especialista em salvar clubes do afogamento. A grande questão é que esta mistificação confina as expectativas ao "mal menor" e reafirma a temporalidade finita do treinador-bombeiro. A partir daqui, cada caso é um caso. No primeiro grupo destacamos Mário Wilson, um dos grandes responsáveis pela ascensão de Akwá ao trucidante estatuto de "novo Eusébio", que chegou a alvitrar que o pé esquerdo de El Hadrioui, pesadelo da canhota em Casablanca, parecia uma mão, tal era a precisão no passe, seguindo todavia como "o velho capitão". Já José Romão, ainda idolatrado na ala mais ortodoxa dos tiffosi de Alverca, conseguiu salvar por duas vezes o clube da descida de divisão, o que lhe permitiu manter-se em pé na corda bamba durante algumas épocas, até cair redondo na rede do trapézio do Circo Madaíl. Este último é um digno representante dessa fina estampa de timoneiros que fazem do mito do salvífico um verdadeiro curriculum vitae, com a mediania na leitura táctica, a deficiência na metodologia de treino e a pequenez do jogo para o empate mascaradas com uma aura de sobrevivência octaviomachadiana. No entanto, e apesar de José Romão ser um candidato sério, entre outros, a levar a palma nesta parada de estrelas, o paradigma, parece-nos, continuará a ser Manuel Cajuda. Senhor de um sinuoso percurso marcado por um misticismo de duplo sebastianismo - o do salvador D.Sebastião e o do reformador quase obtuso Sebastião José de Carvalho e Melo - bem como pela extraordinária proeza de a todos os clubes ter um vínculo emocional dito de longa data. Este atributo tem uma importância singular: geralmente afirmado por frases tão caras ao mister como "vivi muitas alegrias na instituição [tal]" ou "é tempo de seguir em frente", acaba por deixar implícito um apego seminal a um longo cortejo de clubes, desde o Sporting de Braga ao Marítimo, passandopelo Farense (e agora o Beira-Mar), quando, em realidade, não se denota evolução técnica nem capacidade de armar uma equipa para discutir um jogo de igual para igual com um clube mais de três lugares acima na tabela classificativa. Claro que o céu é o limite, e Cajuda já falou em grandes e mesmo em selecção. No fundo, um pouco à laia de D.Quixote, só que em vez de lança tem dois trincos, em vez de moinhos tem os árbitros e os "apesar de tudo, quero dar os parabéns aos meus jogadores" e em vez de moral da história tem, no máximo, um empate suado a duas bolas no Bessa, ou coisa que o valha.

quarta-feira, outubro 13, 2004

Caderneta da Bola: Prontos a encostar para o fundo das malhas se o passe for açucarado... Gritos de incentivo e reprimendas verbais para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Porque o futebol que é digno de registo e referência vai desenrolando o seu infinito novelo de fenómenos e petites histoires e a (quase) todos vai prurindo, sobretudo longe das manchetes dos diários desportivos e da sua gritante futilidade, interessa pois, aqui, agora que a ripresa esta ontologicamente efectivada, receber no peito a redondinha e dominá-la com um só toque, para em seguida efectuar um remate manichiano a 30 metros e procurar o ângulo de mais uma incursão nesse mesmo universo de fenómenos que tem assolado o futebolinho viriato. Sim, porque se o esferico entrar no meio da baliza, ou o redes defende ou entao nao ha espectáculo. Algo que certamente não passa ao lado do enfoque analítico do bolómano mais atento, e a esses pedimos desculpa por tão corriqueiro post, prende-se com a situação actual de duas equipas que há um par de anos atrás recebiam os chamados grandes bem como os respectivos cachets relativos a transmissões televisivas e agora se encontram numa situação verdadeiramente prostrante. Um deles é o representante futebolístico de charneira dessa região autónoma que serve de anfitriã a um bom quinhão das tropas bushescas a caminho do Iraque. Falamos, claro está, do Santa Clara. Esta certo que a sua ascenção meteórica da 2aB para a 1a apanhou os mais desatentos de surpresa, fruto de um irrepreensível trabalho dessa lenda leonina que numa tarde chuvosa de 1986 enviou 4 bolas para o fundo da baliza dos rivais da 2a circular, mas o facto dos açorianos ocuparem presentemente o ultimo lugar da Segunda Liga com 0 pontos em 5 jogos, atrás do Sp.Espinho, Felgueiras e Feirense, não pode deixar de causar alguma estupefacção. Aqui na Caderneta cremos que é uma questão facilmente explicada pelas mais elementares leis da física. Assim como no caso de Ivo Damas ou dos quasi-infinitos novos eusébios, a uma ascenção meteórica e repentina segue-se invariavelmente uma queda abrupta e dolorosa. E além disso estas ilhas não se encontram administradas por nenhum carnavalesco pai natal alcoólico que distribui dinheiros públicos a fundo perdido para sustentar salarios e compras de jogadores de primeira linha, como Herivelto, Dragan ou Heitor. O outro clube que também referimos é o mui-invicto e operário Sport Comercio e Salgueiros, de quem somos aqui profundos admiradores. E somo-lo, não só por sermos indefectíveis do futebolismo dialéctico, entendido aqui como o motor que cataliza a luta de classes dentro das quatro linhas, não so por o clube de paranhos nos ter dado a conhecer Vinha e Milovac, mas tambem por uma questão de solidariedade para com uma massa associativa que ao olhar para a cadeira presidencial verificou durante anos, ate à ultima gloriosa Assembleia Geral Extraordinaria, que esta se encontrava ocupada por Jose Antonio Linhares, personalidade para a qual não conseguimos encontrar adjectivos. A alma salgueirista foi sendo lenta e barbaramante apunhalada ao longo dos anos, quer pelo seboso presidente (afinal até conseguimos...), quer por uma linha dinástica no banco que começou em Carlão, passou por Norton de Matos e chegou finalmente a Luis Pedrosa. O resultado: o ultimo lugar na 2a divisao B, também com 0 pontos, e atrás de clubes como o Valenciano ou o Vilanovense. Entre faltas de pagamentos, malabarismos financeiros, gritos de "perseguição!" e harakirescas opções tecnicas, o mui nobre terceiro clube portuense arrasta-se penosamente para contextos que não merece e aos quais definitivamente não pertence. Se pensarmos que o presente imita o passado, é bom que se atente ao exemplo do Tirsense, que em meia década conseguiu a, até à data, inédita proeza de descer da divisão maior até às divisoes distritais em épocas consecutivas, tendo que recorrer a campanhas de angariação de fundos nas quais participou de forma altruísta o presidente do actual campeao europeu de clubes. No que diz respeito ao Tirsense, uma palavra de respeito e admiração para com o guardiao Best, que acompanhou todo este dantesco trajecto, e ao histórico internacional A, peça chave no único titulo da nossa selecçao sénior, Caetano, que até chegou a presidente da colectividade. Para o Santa Clara e para o Salgueiros, a dura realidade presente deve servir, pelo menos, para despoletar um processo analítico que sirva para estancar um definhamento que urge travar. O exemplo vindo de Sto. Tirso está aí, para quem o quiser ver. Quem escolher ignorá-lo e pôr os olhos no chão, poderá deixar de ver os pés que pisam o reluzente e secular verde sagrado, substituído pela aridez e rudeza de um vulgar pelado...

terça-feira, outubro 12, 2004

O post do regresso, por razões bem cá de casa, só podia ser motivado pela refundação da sucursal francesa Carnet du Ballon, isto é, um post sobre os interstícios entre as terras de Saint-Maur e cá o burgo afonsino. A honra histórica na diáspora para as boas terras da république du foot royal, análoga aliás a uma corrente migratória que desde a miséria salazarenta tem vindo a unir o hexágono ao rectângulo, obriga a incidir as torres de iluminação do estádio sobre as gárgulas luso-francesas que protegem o relvado sagrado. Já aqui falámos de um homem maior do que a vida, Jorge Plácido, que levou para Créteil todos os títulos possíveis e todo o talento de uma espécie dentro da mala de cartão; apraz-nos agora dedicar a pena à figura do filho da migração, o gaulês de sangue luso nas veias a pulsar vibrante contendo toda a força e coragem de quem deixou os seus em busca de um futuro melhor (ou de outra coisa qualquer). O futebol português conheceu vários exemplos do jogador emigrante de terceira geração, o futebolista de identidade fragmentada mas de futebol geralmente mais arguto e que por isso vinga onde outros vacilam. O lateral flaviense Patrick é disso exemplo, como o outrora grande promessa e esteio do meio-campo leonino Afonso Martins. Porém, se há que esboçar um arquétipo, se há que recuperar para a ribalta um nome que nada deva à la gloire, nenhum destes se pode orgulhar de ter sido realmente influente numa equipa campeã portuguesa, bem como de fazer boa figura numa Taça UEFA à moda antiga, como deve ser, em knock-out directo do princípio ao fim. Trata-se, claro, de William Quevedo, um distinto chavalier da ala esquerda do Boavistão, o do título, fiel escudeiro de Pacheco e seu futebol de la terreur e um autêntico jacobino nos cruzamentos para a área. Festejando aniversário no mesmo dia que uma caríssima amiga, William Quevedo nasceu a 8 de Maio de 1971, bem no coração do Languedoc-Roussillon, na cidade de Montpellier, e despontou para o futebol no Rodez, à altura na segunda divisão dos distritais, para, em 1995 ascender ao Valence, já na segunda divisão francesa. Sendo senhor fazer toda a ala esquerda, desde o lateral clássico ao médio volante, ou mesmo ponta, conforme as necessidades tácticas de l'entraîneur, foi sem surpresa que, ao longo de 26 jogos de sólida titularidade polvilhados com 3 golos, conquistou os responsáveis de Moreira de Cónegos, vila aliás prolixa fornecedora de arautos da diáspora portuguesa para terras de França. "Willy the kid", como é conhecido no meio futebolístico do Languedoc, ruma ao xadrez-verde onde faz uma temporada sensação, marcando 7 golos, jogando mais vezes a médio do que fazia em Valence e efectuando 28 partidas. Um jogador de futebol tão aguerrido quanto o seu sotaque, um estilo de jogo republicano, feito de arrancadas em velocidade e tabelinhas, que assentava, enfim, como uma luva, a um outro xadrez, o xadrez negro do Bessa. Para melhor ilustrar, a quem tiver menos fresca a memória, dir-se-ia um Martelinho bilingue e com mais poder de choque e competência a defender. Em 1997 passa assim a defender as cores boavisteiras durante 4 épocas com 67 jogos para a Liga, 4 golos e um título de Campeão Nacional. Cumprida que estava a missão no Bessa e duas lesões graves depois, o filho pródigo volta ao hexágono com um currículo mais respeitável e merecedor de um lugar num plantel do Championnat. É o Sochaux quem leva a melhor sobre a concorrência e o contrata por três anos para o lugar de lateral-esquerdo. Afinal, o titular Daf estava de partida para uma preenchida carreira na selecção senegalesa e havia que acautelar o futuro. Futuro esse que não sorriu por aí além a Quevedo, já que, se na primeira época cumpriu 12 jogos, na segunda cumpriu apenas um e rumou de seguida ao Sète, Fc Sète34, na costa mediterrânica do seu Languedoc natal, onde jogou, com a camisola 5, ao lado de Christophe Sanchez e, actualmente, do portento zairense Zico Tumba. Aí, ainda a contas com lesões esporádicas, fez 14 jogos e facturou duas vezes mas esta época, ainda no Sète, também conhecido como o Sporting do Hérault, devido ao equipamento bem evocativo do grémio de Alvalade, já fez sete jogos, um dos quais bem importante. Falamos, claro, da vitória contra o Ajaccio de Gaspar, produto defensivo do eixo Leça-Barcelos. Um percurso honesto de um trabalhador esforçado, operário e sempre impecavelmente cordial e menos violento que a maioria dos seus colegas boavisteiros. Ressalve-se, pois, quem soube fazer a diferença.
A Caderneta da Bola S.A.D. reúne de novo e, perdoem-nos a megalomania, qual Paulo Jorge ou Diego Armando, torna a calçar as chuteiras e a regressar aos relvados. Os motivos? Ainda que tudo aquilo que dissemos há mais de um mês seja cada vez mais actual (vide a recente proliferação de blogs dedicados à digitalização de imagens de ex-jogadores, publicações sem qualquer interesse ou ensejo de explorar a fundo a argamassa de que é feita a memória e a história), os contratempos pessoais de várias ordens não vejam fim imediato, as separações internacionais temporárias estejam devidamente consumadas, a verdade é que de vez em quando dá-nos a vontade a nós deescrever e, pelos vistos, a muito adepto, semi-clandestino amante datragicómica esfera desportiva, a vontade de continuar a ler. O compromisso primeiro de começar o desafio partiu de nós mesmos e afinal, se a escrita deve rolar trimestral como a Taça de Portugal, que assim seja e que ninguém se chateie. Se a bola portuguesa caminha para o seu próprio velório, feito de infortúnios, erros de cálculo, lesões graves e Gilbertos Madaís, pois estaremos cá, feitos acólitos do apócrifo, a escarnecer das velinhas que ajudamos a acender. Sobre o plágio, enfim, será, em última análise, uma falta de respeito pelo leitor, pressupor que este possa não o identificar e perder o seu farol de justiça para com o mais importante: o futebol lendário, apátrido panteão com letra maiúscula. E daí extrair mais uma lição dada pela bola lusa, em parábolas como a do 'Novo Eusébio', prenunciada e simbolicamente trazidas a lume em momento próprio, ou da lenda de Alex àsombra de Artur no Estádio do Bessa: o original, o fundamento, o princípio,não existe, pelo que o que se chama cópia é um mero mimetismo de baixa estirpe, por essa mesma estirpe identificado. O que não invalida o que dissemos do machista e cabotino Borda d'Água para Yuppies. Em suma, foi necessário parar um bocado, sentir a falta do cheiro do balneário, experimentar o que é 'não pensar em algo para recordar', para voltar amergulhar no passado, no nosso e de quem lê, de quem joga lendo e falando. E agora, bola ao centro, para a segunda parte.