Historiografia, narrativas e estatísticas de figuras e episódios lendários da bola, essa arte geométrica. Envia-nos mail para a.caderneta.da.bola@gmail.com .
segunda-feira, dezembro 10, 2007
terça-feira, dezembro 04, 2007
terça-feira, novembro 13, 2007
O regresso implica, neste caso, um retorno à origem. A origem da bola lusa tal como a conhecemos reporta – como não? - aos desígnios originais da nação. A prolongada hibernação teórica esperou até ao momento de descoberta desse período e epicentro geográfico que descodificam, como se da Pedra da Roseta da redondinha se tratasse, o que é hoje o tal desporto a que os entendidos chamam futebol.
Voltar ao princípio, tal e como o entendemos, é voltar ao berço. O local de renascimento da bola é, afinal, o lugar essencial da fundação da país. Falamos, claro, de Guimarães, terra de estátuas metálicas do rei dito o primeiro, reconstruções de ruínas pela velha senhora (atenção à semelhança cromática entre o clube da terra e a vecchia signora de Turim) e covil de hooligans desalmados, entre outras delícias regionais.
Vitória foi o nome dado em 1922 à agremiação local num notável e paranormal prognóstico da única ocorrência deste género obtida pela sua categoria sénior do desporto-rei: a Supertaça Cândido de Oliveira, 66 anos mais tarde contra um Porto ainda bêbado da vitória no Ernst Happel. A única Vitória do Guimarães e a sua homenagem feita sessenta e tal anos antes – tantos quantos os anos do século XX que o país esperou até ver os patrícios subir ao pódio imaginário de um mundial de futebol - foi apenas o primeiro indício da propensão zandínguica associada ao clube. Há mais, claro, e esta dimensão de oráculo estende-se, atrevemo-nos a dizer, a todo o futebol europeu.
Agora, quando? O leitor não pode ser massacrado com a homérica tarefa de decifrar toda a história do clube em busca dessa temporada mítica que constitui a síntese da bola deste rectângulo. Não pode porque é uma chatice e, em boa verdade, nem sequer precisa porque a Caderneta tratou de fazê-lo por ele. Falamos da temporada que começou no Verão de 1993. Essa época, que acabou por ser o último campeonato ganho pelos rivais do Fófó desse século, que o clube do Campo Grande teve meia geração de ouro a ouvir traduções inglês-setubalense até se suicidar na neve de Salzburgo, e que nas Antas ainda não se conhecia a palavra penta mas em contrapartida Rui Filipe ainda era homem e não lenda, nessa época... o Guimarães fez história.
Nenhum outro clube em nenhuma outra época, de acordo com os registos recolhidos até à data, soube condensar tanto símbolo de passado, presente e futuro, num demónio de Laplace cujo resultado é, somente, o futebol tal como o conhecemos hoje.
Desde o homem que agarrou o braço de Luís Filipe e impediu um homicídio em pleno Estádio de Alvalade, bem recentemente, às velhas glórias da defesa, ao lateral português que vingou no estrangeiro sem que o estrangeiro se tivesse, de facto apercebido. Desde o protótipo do central canibal ao arquétipo do patrão de bigode, uma espécie de Humberto Coelho quase galego. Desde a actual dupla técnica do clube viscondal aos dois tipos de jogadores balcânicos, o que ficou conhecido além fronteiras por espalhar arte, valentia e psicose, e o que apenas ficou conhecido cá no burgo por espalhar discretamente as primeiras duas. Desde a incansável gazua africana ao involuntário epicentro da corrpução futebolística pós-quinhentinhos de Guímaro e pré-café com leite. Desde a jovem promessa dianteira lançada às feras com as quinas ao peito no Golfo Pérsico, ao mito cartaginês, avançado de faro e dimensão transahariana. Desde os primórdios ao obscuro desconhecido, pelas fronteiras do tempo. O berço tremeu por um ano e o destino ficou gravado para a eternidade.
segunda-feira, novembro 12, 2007
sexta-feira, novembro 09, 2007
sexta-feira, janeiro 06, 2006
A Caderneta da Bola regressa assim sob a égide do heroísmo, num terrível esforço de colaboração. A história, em particular a que remonta à bola lusa, é fértil em demandas a dois, magníficas descidas aos infernos em tabelinha e plantéis dos quais lembramos pouco mais do que a dupla goleadora, o yin e o yang simbólico da vontade de toda uma equipa. Serve o paralelismo para marcar, por um lado, o peso do regresso e, por outro, para homenagear, num momento singular, as duplas ofensivas que o destino tem oferecido ao futebol português. Fala-se em destino porque não se trata de uma combinação entre dois elementos de uma equipa, fala-se de uma nova ordem cósmica construída entre dois artífices da redondinha: a dupla é muito mais do que aquilo que qualquer um seria por si, só. Quando em acção, uma verdadeira dupla ofensiva é um exponenciar imprevisível e mágico de talento e eficácia, muitas vezes apenas apreciável em contextos bem precisos e delimitados no tempo e no espaço. A toda uma tradição, assinalamos uma apenas, exemplar aliás do que acima a Caderneta tentara transmitir – e que de resto é um pouco o leitmotiv da demanda há sensivelmente dois anos e meio -, a ilusão virtuosa que é toda a memória da bola. Dito isto, situemo-nos: o abrandar do comboio e o casario a densificar-se ao longo da praia não engana – Espinho. Fracturada entre o Casino e o Estádio Comendador Manuel Violas, a Atlantic City portuguesa e o seu entardecer diabólico habituaram o público desportivo às suas magníficas duplas, a mais proeminente das quais elevou mesmo o nome do império além-mar. 1996 foi o ano de Espinho: enquanto que a comunidade lusófona se impressionava com a prestação de Maia e Brenha nas areias olímpicas de Atlanta, às quais resgataram um quarto lugar, o mundo do futebol parava para celebrar com o Espinho a subida à divisão maior. Um momento de celebração mas sobretudo de respeito e admiração, já que o objectivo tinha o rasto preciso de dois prodígios – tal como nas olimpíadas, também em Espinho brilhava um dueto: Bolinhas e Artur Jorge, incansáveis corredores da grande área adversária, por eles transformada em Poço da Morte, grandes responsáveis pela quantidade de baixas deixadas pelos alvinegros no caminho para a Primeira. Autênticas gazuas, trabalharam a subida de divisão ao longo de duas épocas, de 1994 a 1996, esse verão ardente. E os número são claríssimos a esse respeito: o estágio saldou-se pela titularidade absoluta e 44 golos repartidos entre os dois. O número, suficiente no entanto para cumprir o objectivo, não traduz todavia a vastidão do repertório, distribuído pela complementaridade dos dois artilheiros. Artur Jorge, mais robusto e impositivo, de remate fácil e hábil jogo de cabeça, era um avançado senhorial, da escola vimaranense e percurso bucólico no cartel. Bolinhas, mais cerebral e urbanodepressivo, pautara até aí a carreira como viria a pautar a sua vida: a passear o drible curto e o último passe pelos subúrbios da bola, a ver os grandes palcos pela nesga fugaz da glória efémera – como um dia vira a primeira divisão a partir de Sacavém ou da Quarteira, onde jogara até encontrar paz na Costa Verde. A época de estreia na Primeira Divisão trouxe à boca o fel da ressaca da celebração estival. A titularidade mantém-se mas o choque com o primeiro escalão transformou a temporada numa difícl descida aos infernos. Cada jogo no Manuel Violas desonrava a prosperidade da família do comendador, precipitando o prometedor esquadrão de novo à Segunda Divisão de Honra. E num plantel praticamente galáctico – de Carvalhal a Besirovic, de Filó a Milton Mendes, do críptico magiar Lipcsei a Sérgio Lavos, entre outros – a dupla resistiu a todos os assaltos à titularidade e norteou a trágica campanha. Sete golos não foram suficientes para justificar o elan e muito menos para abalar o misticismo em torno daquela estranha simbiose: de volta ao escalão inferior, Bolinhas e Artur Jorge continuaram a envergar o 11 e o 9 da época anterior, apontando 15 golos e jogando praticamente a maior parte das partidas. A subida porém falhou e dupla apartou-se, pouco resistente aos estilhaços de 4 anos entre o céu e o inferno. A sabedoria de alguns lobos do mar tem, no entanto, vindo a assegurar uma diferente versão, ouvindo-se entre o morejar das ondas um cântico de lamento pela chegada à cidade de Artur Jorge Vicente, alegado intruso na dinâmica da dupla: um terceiro avançado, um terceiro titular, três nomes, três golos. Artur Jorge Vicente, um golo a mais que Bolinhas, e o incrível almadense embalaria a trouxa uma época depois, já sem o vil Vicente ao largo mas com crédito suficiente para assinar pelo Rio Ave e regressar a solo à primeira. Desfeita a dupla, ambas as carreiras entregaram-se a um lento eclipse, com Artur Jorge a vaguear mais uns tempos em Espinho, seguindo depois para a Póvoa do Varzim, Moreira de Cónegos e por aí fora, e Bolinhas a oscilar entre Vila do Conde e Coimbra. Alinhou de negro pela Briosa ao lado do lendário Febras, até há poucos meses embarcado numa odisseia singular a dois continentes de distância, ídolo da claque dos malaios Sabah Rhinos com a responsabilidade de fazer esquecer Josiah, o mago liberiano do ataque da equipa – mas isso são contas solitárias de outro rosário. Para Bolinhas, agora, o Almada, com quem revisitou o passado no Manuel Violas. O resultado desse desafio da Taça de Portugal na temporada passada importa pouco, mas importa: Bolinhas perdeu, nessa tarde, por 3-1, contra a sua antiga equipa, a sua equipa de sempre, perdendo igualmente a esperança de voltar um dia a uma última volta no Poço da Morte, com a morte no fundo do poço, da divisão, à mesma distância que a glória. Uma última volta, fora de tempo, agora que o inferno está ao abandono e a magia que criara com Artur Jorge se afasta do presente, sem conhecer epitáfios. É essa magia, afinal, a nossa tarefa.