Historiografia, narrativas e estatísticas de figuras e episódios lendários da bola, essa arte geométrica. Envia-nos mail para a.caderneta.da.bola@gmail.com .
sábado, junho 04, 2011
O regresso
Quim Machado, o gurú de Santo Tirso, a ascender o Feirense à divisão maior 21 anos depois.
O Borda d’Água para yuppies, a revista MaxMen, que em tempos ousou plagiar leituras técnico-tácticas gizadas nas profundezas do balneário pré-fabricado da Caderneta, a fechar as portas.
A iminente batalha de dois históricos alfacinhas em palcos secundários lusos na época que se avizinha, um deles fortíssimo na Tapadinha e no Dragão, o outro mais forte no requerimento e na secretaria.
O ano em que Bock, portentoso a destroçar estatísticas goleadoras na Liga Orangina ao serviço do seu Freamunde, volta a reclamar a injustamente nunca conseguida internacionalização.
O ano em que o Luvas Negras volta a trazer o histórico Servette para a alta roda do futebol alpino, triunfando por fim em casa emprestada. Um pequeno passo para a indústria farmacêutica suíça, um salto gigantesco para Alves.
Na Vila das Aves assistimos também ao regresso a terras viriatas desse jovem de Miranda do Corvo que há uns poucos anos levantou bancadas inteiras na 2a Divisão holandesa à custa de quase uma vintena de golos ao serviço do Zwolle, baptizado pelos Deuses da grande área com o nome de Tozé Marreco.
Demasiados sinais, indómitos da bola telúrica, a pedir um regresso. É por isso com uma profunda convicção de fazer um bom trabalho e com o olhos toldados de quem passou demasiados anos a contemplar nuvens negras sob um pelado à chuva, à espera do golo que chega sempre demasiado tarde, que a equipa técnica desta humilde publicação vos sussurra uma vez mais: A Caderneta da Bola está de volta.
segunda-feira, junho 29, 2009
Surpresa nos convocados: ainda não é desta que passamos à dissertação quimbertiana.
Há não muito tempo, sussurrava-se entre os cacifos do balneário cadernético que realmente a bola portuguesa não pára de nos demonstrar que todas as ocorrências, por mais insignificantes que pareçam, estão relacionadas de forma decisiva para congeminar a essência desta nossa fascinante realidade. O tal efeito mariposa, que em futebolês se formularia no teorema “quando um profissional guineense bate as asas na cara dum apanha bolas na Choupana, um ex-treinador do Casa Pia ganha o campeonato da Costa Rica”, revela-se uma vez mais e com arrepiante actualidade. Na mesma semana em que resolvíamos abordar, ainda que superficialmente, o africanismo futebolístico, eis que salta para a ribalta justamente o mentor espiritual de uma das experiências melhor conseguidas nesse quadrante etnico-futebolístico. Falamos da feroz dupla Clint e Lewis que, de blaugrana em Felgueiras, e amparados por Baroti e os Lima Pereira, trouxeram para a montra da redondinha viriata a hipnótica cadência do futebol crioulo e deram ao condado do saco azul as últimas alegrias antes da descida de divisão do ano seguinte. O artífice desse “apogeu e queda” é o tal estratega hoje em dia tão em voga: Jorge Jesus, flamante empresário multifacetado, o Rinus Michel da Medideira que fez a baía seixalense parecer os diques que protegiam estoicamente o De Meer de Amsterdão, tal era a torrência do seu total voetbal nesses longínquos começos da década de 90, no começo da sua carreira. Honra lhe seja feita, não só trouxe à Atalaia a festa do centro-avante recorrendo a homens que anos antes se degladiavam pelo melhor lugar no banco de Alvalade, Rui Maside e Ali Hassan, como moldou o trinco Sessay e o infatigável lateral destro Tó Sá. Dois jogadores que viriam a elevar outra mística verde e branca, a de um Setúbal a ferro, fogo e mialgia, histórica geração de futebol extremo ainda hoje recordada pelos últimos pescadores de salmonete à linha como uma lenda somente com paralelo noutras latitudes futebolísticas (tema de elevada profundidade técnico-táctica a esmiuçar atempadamente). Adiante.
Esta emergência de Jesus que agora povoa o meio-campo dos jornais desportivos e que nos relaciona com o candomblé futebolístico praticado pelos tobaguenhos em Felgueiras, não é porém a primeira referência a Jesus no já vasto palmarés da Caderneta da Bola. Não querendo entrar nas lateralizações sumamente cristãs ao colectivo dos Atletas de Cristo feitas ao longo deste lustro e meio, outro colectivo entrou pela mão de outro Jesus aqui na nossa publicação corria o longínquo ano da graça de 2003. Concretamente, no dia 15 de Outubro, o senhor entrou nas nossas orações enquanto dissertávamos sobre o mítico Desportivo de Chaves. Como já terão percebido os mais perspicazes, trata-se de Jesus, sim, mas de um outro, um que espalhou a mensagem na ala direita por essa Europa fora e que não é da Galileia mas sim de Aragão: o cigano Jesus Seba, insígnia indomável de outro povo renegado que soube espalhar a mensagem do cruzamento contra toda a espécie de filisteu esquerdino.
Nascido 14 dias antes da revolução dos cravos, compensava o 1,68 metro com uma explosão e pantomina verdadeiramente flamencas. Ironicamente, o seu futebol soube criar as raízes que os preceitos étnicos sempre renegaram, e acabou por demonstrar qualidade suficiente para ser internacional esperança pelo país vizinho, enquanto maravilhava a sua Zaragoza natal. Com uma lesão gravíssima pelo meio, a sua problemática maioridade futebolística forçou-a a uma tão inusual como exitosa diáspora, naquela que era das primeiras incursões de futebol latino na Velha Albion. Aconteceu um daqueles fenómenos extraordinariamente raros que diferenciam o futebol de outras artes circenses: chegado com dois comparsas de diáspora a Wigan, essa terra incerta disputada pelos condados de Manchester e Lancashire, perigosamente próxima da letárgica Bolton, espalhou-se pela cidade a chegada do Messias e os Lactics vibraram com uma reinado de culto, de futebol fluído como sangria e sacramental como a guitarra de Paco de Lucía.
Juntamente com Isidro “Izzy” Díaz, que mais tarde também passaria pelo Barcelona do Marão, e com Robert “Bob” Martínez, carismático centro-campista eleito em 2005 como o melhor jogador de sempre da história do clube e hoje promovido a maneiger dos Lactics , formou um lendário tandem conhecido por Los Three Amigos, praticando um culto futebolístico que levou a equipa da quase descida à Conference division a um apostólico apuramento para a Second Division em apenas três anos. Um glória que Jesus não chegou a atingir: impelido por uma crónica dificuldade em dominar o idioma de Harry Redknapp nas profundezas da Albion e por uma tendência ao nomadismo quase genética, o torpedo caló voltou a Zaragoza e o mantra “Jesus is a Wiganer” não mais se voltou a ouvir em Springfield Park. Um ano depois, rumou ao Belenenses de Marinho Peres, e o resto é história, grande parte dela transmontana numa saga já aqui destrinçada. A verdade é que este sobredotado do cruzamento em arco elevou, como saltimbanco errante pelos relvados sem fronteiras, o trato do esférico a um estatuto de arte efémera e acrescentou o seu nome à não muito vasta lista de sacerdotes da mitologia futebolística europeia.
Hoje, o cigano Seba afundou por fim raízes na terra e escolheu-o bem perto de casa, numa aldeia que leva o nome do lugar mítico do povo mercador, esse lugar irreal que existe de e para o nomadismo da compra. Jesus tem hoje o seu templo em Andorra – não a autêntica, checkpoint comercial encravado nos pirinéus, mas uma de imitação, muito mais barata e em território espanhol. Perante três mil espectadores, volta a fazer do campo o seu tablado e quando se apagam as luzes aqui no balneário da Caderneta, é o som da sua boleria que recordamos.quinta-feira, junho 18, 2009
Improvável, dizíamos, porque o destino não costuma reservar a filhos de emigrantes lusitanos na África do Sul oportunidades como a de assistir no banco a duas finais perdidas da Liga dos Campeões levando ao peito a insígnia de ganhador do escudete transalpino. Fulgurante porque escasos dois anos depois do idílio vimaranense, encontrou no Piemonte um N’Dinga chamado Deschamps, um Zahovic chamado Zidane e um Agostinho chamado Del Piero, sendo que este último jamais igualaria ao longo da sua carreira os feitos perpretados pelo rabino esquerdino pacence no Mundial de sub20 em terras qatarís – momento insígnia do apogeu daniano da bola lusitana. Terá sido este, porventura, o único ponto em que Dimas terá saído a perder com a sua pessoal evoluzzione e ainda hoje resistem alguns partisanos no peão do Delle Alpi que murmuram que a história das duas Champions perdidas - e consequente “princípio do fim” do projecto de Lippi – teria sido bem diferente com Agostinho a servir Alen Boksic (mais tarde baptizado Offsick aquando do seu retiro no Tyne) ou Bobo Vieri, o Chicabala bolonhês.
Posto que Agostinho preferiu o Real Madrid B, salvou-se a carreira de Del Piero, e Dimas não resistiria a mais de dois anos de aprendizagem com Gianluca Pessotto. Seguir-se-ia o Fenerbahçe, numa etapa curta mas plena de simbolismo. Literalmente baptizado como o “jardim do farol” em turco, a agremiação de Ataturk servira já de porto de abrigo a velhas glórias do futebol português. Já antes tinha envergado a camisola amarela o incombustível Stanimir Stoilov e cabia agora a Dimas a espinhosa missão de fazer esquecer Kostadinov como embaixador do futebol português no clube, no ano em que o búlgaro voltava à sua Sofia natal. Causando surpresa inusitado alvoroço na clandestinidade das apostas desportivas turcas, Dimas embalou para uma excelente temporada: com um perpétuo sorriso e a sua tão característica falta de qualidades assinaláveis, jogou mais de 20 jogos e assinou mesmo 4 golos. A nivel colectivo, evidentemente, a frustrante falta de eficácia era mais consonante com a real qualidade do futebol deste bafana bafana adoptado: o clube do farol nada podia fazer para contrariar a supremacia do intratável Galatasaray, liderado à epoca pelo Maradona dos Cárpatos e o mais notável semi-deus futebolístico dessa semi-nação semi-europeia, o grandíssimo Touro do Bósforo Hakan Sukur.
O posterior interregno noutra semi-nação, a belga Liège, serviria sobretudo para travar conhecimento com Mbo Mpenza, um púbere falso lento congolês com quem viria mais tarde a ganhar o campeonato português ao serviço dum clube do Lumiar, e um pequeno trotamundos bem conhecido no Douro Litoral chamado Tomislav Ivic. Na Bélgica, pela mão de Ivic, adaptar-se-ia também a uma escola de pensamento futebolística que conheceria a fundo na sua última etapa, à qual mais que futebolística chamaríamos de terapéutica ou (porque não?) termal, a do Marselha, onde reencontraria o mesmíssimo croata. Trata essa escola de pensamento, como provavelmente os mais perspicazes já terão adivinhado, de montar todo um esquema de jogo sobre o conceito do “sangue africano a destroçar os flancos”. Bobby Robson intentou com estrepitoso fracasso implantá-la nas Antas (com os diamantes negros Mandla Zwane e Ettiene N’Tsunda), um ex-chefe de Eduardinho colheu pouquíssimos frutos dessa estratégia sacrificial aplicando-a ao camaronês Douala (pecou por escassês, justamente, de “sangre africana”, dirão alguns) e apenas algumas variações ensaiadas tiveram algum sucesso, sobretudo exibicional, como o caso felgueirense, que seguiu princípios similares com o “sangue caribenho” de Clint e Lewis. No Marselha, os recursos eram imensos, com Olembe, Ibrahim Ba e sobretudo o dramaticamente incompreendido Ibrahima Bakayoko, e com treinadores menos defensivos que Tomi ou o talhante bilbaíno Clemente, talvez a classificação tivesse sido mais risonha do que o tímido 9º lugar. Quem sabe, já que poucas vezes a história do futebol centroeuropeu viu uma conjugação tão favorável entre teoria africanista e recursos humanos ao dispôr do timoneiro.quarta-feira, junho 03, 2009
segunda-feira, dezembro 10, 2007
terça-feira, dezembro 04, 2007
terça-feira, novembro 13, 2007
O regresso implica, neste caso, um retorno à origem. A origem da bola lusa tal como a conhecemos reporta – como não? - aos desígnios originais da nação. A prolongada hibernação teórica esperou até ao momento de descoberta desse período e epicentro geográfico que descodificam, como se da Pedra da Roseta da redondinha se tratasse, o que é hoje o tal desporto a que os entendidos chamam futebol.
Voltar ao princípio, tal e como o entendemos, é voltar ao berço. O local de renascimento da bola é, afinal, o lugar essencial da fundação da país. Falamos, claro, de Guimarães, terra de estátuas metálicas do rei dito o primeiro, reconstruções de ruínas pela velha senhora (atenção à semelhança cromática entre o clube da terra e a vecchia signora de Turim) e covil de hooligans desalmados, entre outras delícias regionais.
Vitória foi o nome dado em 1922 à agremiação local num notável e paranormal prognóstico da única ocorrência deste género obtida pela sua categoria sénior do desporto-rei: a Supertaça Cândido de Oliveira, 66 anos mais tarde contra um Porto ainda bêbado da vitória no Ernst Happel. A única Vitória do Guimarães e a sua homenagem feita sessenta e tal anos antes – tantos quantos os anos do século XX que o país esperou até ver os patrícios subir ao pódio imaginário de um mundial de futebol - foi apenas o primeiro indício da propensão zandínguica associada ao clube. Há mais, claro, e esta dimensão de oráculo estende-se, atrevemo-nos a dizer, a todo o futebol europeu.
Agora, quando? O leitor não pode ser massacrado com a homérica tarefa de decifrar toda a história do clube em busca dessa temporada mítica que constitui a síntese da bola deste rectângulo. Não pode porque é uma chatice e, em boa verdade, nem sequer precisa porque a Caderneta tratou de fazê-lo por ele. Falamos da temporada que começou no Verão de 1993. Essa época, que acabou por ser o último campeonato ganho pelos rivais do Fófó desse século, que o clube do Campo Grande teve meia geração de ouro a ouvir traduções inglês-setubalense até se suicidar na neve de Salzburgo, e que nas Antas ainda não se conhecia a palavra penta mas em contrapartida Rui Filipe ainda era homem e não lenda, nessa época... o Guimarães fez história.
Nenhum outro clube em nenhuma outra época, de acordo com os registos recolhidos até à data, soube condensar tanto símbolo de passado, presente e futuro, num demónio de Laplace cujo resultado é, somente, o futebol tal como o conhecemos hoje.
Desde o homem que agarrou o braço de Luís Filipe e impediu um homicídio em pleno Estádio de Alvalade, bem recentemente, às velhas glórias da defesa, ao lateral português que vingou no estrangeiro sem que o estrangeiro se tivesse, de facto apercebido. Desde o protótipo do central canibal ao arquétipo do patrão de bigode, uma espécie de Humberto Coelho quase galego. Desde a actual dupla técnica do clube viscondal aos dois tipos de jogadores balcânicos, o que ficou conhecido além fronteiras por espalhar arte, valentia e psicose, e o que apenas ficou conhecido cá no burgo por espalhar discretamente as primeiras duas. Desde a incansável gazua africana ao involuntário epicentro da corrpução futebolística pós-quinhentinhos de Guímaro e pré-café com leite. Desde a jovem promessa dianteira lançada às feras com as quinas ao peito no Golfo Pérsico, ao mito cartaginês, avançado de faro e dimensão transahariana. Desde os primórdios ao obscuro desconhecido, pelas fronteiras do tempo. O berço tremeu por um ano e o destino ficou gravado para a eternidade.
segunda-feira, novembro 12, 2007
sexta-feira, novembro 09, 2007
sexta-feira, janeiro 06, 2006
A Caderneta da Bola regressa assim sob a égide do heroísmo, num terrível esforço de colaboração. A história, em particular a que remonta à bola lusa, é fértil em demandas a dois, magníficas descidas aos infernos em tabelinha e plantéis dos quais lembramos pouco mais do que a dupla goleadora, o yin e o yang simbólico da vontade de toda uma equipa. Serve o paralelismo para marcar, por um lado, o peso do regresso e, por outro, para homenagear, num momento singular, as duplas ofensivas que o destino tem oferecido ao futebol português. Fala-se em destino porque não se trata de uma combinação entre dois elementos de uma equipa, fala-se de uma nova ordem cósmica construída entre dois artífices da redondinha: a dupla é muito mais do que aquilo que qualquer um seria por si, só. Quando em acção, uma verdadeira dupla ofensiva é um exponenciar imprevisível e mágico de talento e eficácia, muitas vezes apenas apreciável em contextos bem precisos e delimitados no tempo e no espaço. A toda uma tradição, assinalamos uma apenas, exemplar aliás do que acima a Caderneta tentara transmitir – e que de resto é um pouco o leitmotiv da demanda há sensivelmente dois anos e meio -, a ilusão virtuosa que é toda a memória da bola. Dito isto, situemo-nos: o abrandar do comboio e o casario a densificar-se ao longo da praia não engana – Espinho. Fracturada entre o Casino e o Estádio Comendador Manuel Violas, a Atlantic City portuguesa e o seu entardecer diabólico habituaram o público desportivo às suas magníficas duplas, a mais proeminente das quais elevou mesmo o nome do império além-mar. 1996 foi o ano de Espinho: enquanto que a comunidade lusófona se impressionava com a prestação de Maia e Brenha nas areias olímpicas de Atlanta, às quais resgataram um quarto lugar, o mundo do futebol parava para celebrar com o Espinho a subida à divisão maior. Um momento de celebração mas sobretudo de respeito e admiração, já que o objectivo tinha o rasto preciso de dois prodígios – tal como nas olimpíadas, também em Espinho brilhava um dueto: Bolinhas e Artur Jorge, incansáveis corredores da grande área adversária, por eles transformada em Poço da Morte, grandes responsáveis pela quantidade de baixas deixadas pelos alvinegros no caminho para a Primeira. Autênticas gazuas, trabalharam a subida de divisão ao longo de duas épocas, de 1994 a 1996, esse verão ardente. E os número são claríssimos a esse respeito: o estágio saldou-se pela titularidade absoluta e 44 golos repartidos entre os dois. O número, suficiente no entanto para cumprir o objectivo, não traduz todavia a vastidão do repertório, distribuído pela complementaridade dos dois artilheiros. Artur Jorge, mais robusto e impositivo, de remate fácil e hábil jogo de cabeça, era um avançado senhorial, da escola vimaranense e percurso bucólico no cartel. Bolinhas, mais cerebral e urbanodepressivo, pautara até aí a carreira como viria a pautar a sua vida: a passear o drible curto e o último passe pelos subúrbios da bola, a ver os grandes palcos pela nesga fugaz da glória efémera – como um dia vira a primeira divisão a partir de Sacavém ou da Quarteira, onde jogara até encontrar paz na Costa Verde. A época de estreia na Primeira Divisão trouxe à boca o fel da ressaca da celebração estival. A titularidade mantém-se mas o choque com o primeiro escalão transformou a temporada numa difícl descida aos infernos. Cada jogo no Manuel Violas desonrava a prosperidade da família do comendador, precipitando o prometedor esquadrão de novo à Segunda Divisão de Honra. E num plantel praticamente galáctico – de Carvalhal a Besirovic, de Filó a Milton Mendes, do críptico magiar Lipcsei a Sérgio Lavos, entre outros – a dupla resistiu a todos os assaltos à titularidade e norteou a trágica campanha. Sete golos não foram suficientes para justificar o elan e muito menos para abalar o misticismo em torno daquela estranha simbiose: de volta ao escalão inferior, Bolinhas e Artur Jorge continuaram a envergar o 11 e o 9 da época anterior, apontando 15 golos e jogando praticamente a maior parte das partidas. A subida porém falhou e dupla apartou-se, pouco resistente aos estilhaços de 4 anos entre o céu e o inferno. A sabedoria de alguns lobos do mar tem, no entanto, vindo a assegurar uma diferente versão, ouvindo-se entre o morejar das ondas um cântico de lamento pela chegada à cidade de Artur Jorge Vicente, alegado intruso na dinâmica da dupla: um terceiro avançado, um terceiro titular, três nomes, três golos. Artur Jorge Vicente, um golo a mais que Bolinhas, e o incrível almadense embalaria a trouxa uma época depois, já sem o vil Vicente ao largo mas com crédito suficiente para assinar pelo Rio Ave e regressar a solo à primeira. Desfeita a dupla, ambas as carreiras entregaram-se a um lento eclipse, com Artur Jorge a vaguear mais uns tempos em Espinho, seguindo depois para a Póvoa do Varzim, Moreira de Cónegos e por aí fora, e Bolinhas a oscilar entre Vila do Conde e Coimbra. Alinhou de negro pela Briosa ao lado do lendário Febras, até há poucos meses embarcado numa odisseia singular a dois continentes de distância, ídolo da claque dos malaios Sabah Rhinos com a responsabilidade de fazer esquecer Josiah, o mago liberiano do ataque da equipa – mas isso são contas solitárias de outro rosário. Para Bolinhas, agora, o Almada, com quem revisitou o passado no Manuel Violas. O resultado desse desafio da Taça de Portugal na temporada passada importa pouco, mas importa: Bolinhas perdeu, nessa tarde, por 3-1, contra a sua antiga equipa, a sua equipa de sempre, perdendo igualmente a esperança de voltar um dia a uma última volta no Poço da Morte, com a morte no fundo do poço, da divisão, à mesma distância que a glória. Uma última volta, fora de tempo, agora que o inferno está ao abandono e a magia que criara com Artur Jorge se afasta do presente, sem conhecer epitáfios. É essa magia, afinal, a nossa tarefa.