sábado, junho 25, 2011

Zito, ou o presença de todo o futebol na ausência de um canhoto - Parte I


Solta a bola mais cedo, Helmer”. Da equipa técnica, só o Quinas é que lhe chama Helmer e muito de vez em quando e agora só o Quinas é que ressoa dentro da sua cabeça, dentro do carro, debaixo da chuva, fora do Complexo do Senhor Comendador, fora dali. “Solta a bola mais cedo”. Passa em frente ao ginásio, esquerda, segue. Foge da Penha, do bairro da Oliveira do Castelo, foge ao lateral direito, ao longe o Paço dos Duques e o Castelo, desce a Carlos Malheiro Dias como quem desce o flanco esquerdo, ao longe o Paço como linha de fundo.

O Fredrik está bem, e há o Edmilson, também, e o Ricardo, Helmer, sabes que o Jaime gosta do Ricardo, e o Vítor também” e o resto dos nomes, “e tu não tens estado por cá, Helmer, é complicado, e agora há o Branko e vem o N’Tsunda, o do Chaves, se colaborares, claro, se colaborares”, e no meio não há lugar, nem no meio nem na ponta nem em lado nenhum, nem no complexo do senhor comendador. Não há lugar na família Pimenta Machado, Helmer, continua a tarimbar com os dedos no tablier, desvia o olhar do Castelo, do Jaime, do Quinas, do Neno e do Freitas e mais atrás do Tito, do senhor Augusto a dizer que o Presidente viu ali no N’Tsunda um novo Basaúla, “tu sabes que há tradição, Zito”, o riso convulsivo do Valter Ferreira quatro anos antes, “tu não chegaste aqui agora, tu sabes”.

Vira à esquerda, começa a procurar lugar para estacionar, hoje é melhor não ir justamente até à porta do Dom Afonso Henriques. Recorda quando saltou para o campo em Alvalade, a multidão leonina galvanizada pela entrada de Juskowiack e o terror na cara de Taoufik, os gritos do Matias, o pedido de substituição após aquele golo, o terror os dentes cerrados de esperança, aquilo não era o Malveira, era o Vitória em Alvalade e um nome de guerra. E agora a guerra perdida, estacionar o carro e subir para o gabinete, estão à espera para fechar o acordo, à espera lá em cima, em Chaves, no Zaire.

Todos à espera menos ele, “mas tu, Helmer, tens 26 anos, levanta-me essa cabeça, deixa-te de merdas”. Cruza o hall de entrada, cumprimenta aquele gajo meio desconfiado e nervoso do Comércio de Guimaraes mas contraem-se as cordas vocais, não há som mas entre as têmporas o ruído é ensurdecedor, “a sério que ele me disse que esperava muito de ti, Zito”. E o resto é, para ele e para os demais, uma espessa neblina, das que inundam a cidade de esquecimento nas manhãs frias de Fevereiro.

Solta a bola mais cedo, Helmer” e é como sair de um treino sabendo que amanhã é folga para sempre. Direcção a Fafe, a caminho de Chaves, os olhos vítreos como os faróis de nevoeiro, e esse manto branco, pesado e que não deixa confirmar a lenda que, quando se vai do Vitória um grande, latejam de raiva as veias da estátua de Dom Afonso Primeiro.

quarta-feira, junho 22, 2011

Interlúdio

Poucos blogues se podem orgulhar de ter no Google, site que está para a internet como o caboverdiano Zé de Angola esteve outrora para o Académico de Viseu, buscas que o relacionem tanto com "jogador box-to-box" como com "rui reininho industria club". O esférico continua a rolar.

quinta-feira, junho 09, 2011

Ziad: O voo rasante da Águia de Cartago rumo ao golo e à liberdade.

Retomar o fio à meada tem destas coisas. Os temas sucedem-se encadeados e cada treino que começa ao fim da tarde no pelado mal iluminado do grupo desportivo A Caderneta da Bola, começa instintivamente no ponto onde o treino anterior acabou. Um círculo sem fim nem princípio, no fundo, um maravilhoso carrossel a fazer lembrar o entrosamento de Yulian, Tulipa e Jaime Pacheco no meio campo de mogno da Mata Real a princípios dos 90, décadas antes do futebol contraplacado de Vitória.

O adepto atento, o do transistor e da sueca à sombra à espera do treino, já terá percebido que o que subjaz a este movimento perpétuo é a busca do futebol total na riqueza dos detalhes. Também não surpreende que essa deriva, esse vendaval ofensivo, nos motive a buscá-lo, pelo menos por agora, na origem, no começo de tudo, no berço. E é na cidade berço, no momento em que voltamos à interrompida saga vimaranense, que encontramos um dos mais pulcros exemplos do futebolista total. E o futebolista total é em primeiro lugar um homem novo que, neste caso, não vem da mata mas sim do deserto e novamente da Tunísia, que torna a ser fim e princípio de tudo. Filho do lendário Abdelmajid Tlemçani, puro sangue árabe que carimbou 54 tentos no final dos anos 50 tingido do vermelho e amarelo do Espérance de Tunis, falamos de outra estrela que viu em Guimarães uma parte importante do seu interregno de estrelato num dos principais clubes africanos. Ziad Tlemçani.

Chegados a este ponto, fácil seria discorrer detalhadamente sobre a sua trajectória em Guimarães, estada que o consagrou como um dos maiores avançados a pisar o território português desde que no território português se começou a pontapear esféricos de couro em direcção a balizas. Tão fácil, aliás, como a goleada infligida pelos vimaranenses ao promissor Famalicão de Medane, Menade (operaçao no defeso com o propósito expresso de confundir comentadores) e Barnjak, orientados por Josip Skoblar, o Neptuno de Prevlaka e timoneiro de um histórico e premiado Hajduk Split. Tão fácil como o golo disparado de primeira por Tlemçani nesse mesmo jogo.

45 golos em mais de 100 jogos ao longo de 5 épocas, vitórias europeias incluídas como aquela noite lendária contra a Real Sociedad, uma CAN jogada em casa na qual a sua selecção ficou pelo caminho na fase de grupos, em certame ganho pelo dream team nigeriano. Uma relação tumultuosa com alguns dos seus treinadores (que o diga Marinho Peres), outra de amor indestrutível com os Insane Boys (delicioso pleonasmo tratando-se de adeptos vitorianos) e outra, paralela, de elevado teor paternal na fronteira do freudiano com o seu presidente, quiçá reconhecendo em Dom Pimenta Machado a presença de um pai Abdelmajid que nunca chegou a ser suficientemente presente aos pés do Gerês.

Depois de Guimarães, quando todos os indícios de análise futebolística apontavam para uma carreira em declínio, Ziad decidiu, como no primeiro dia, que ainda havia história por escrever e embarcou na aventura de ser o primeiro futebolista africano a jogar no Japão. O destino foi uma Kobe na ressaca de um dos mais violentos terramotos que a história da humanidade conheceu e a missão a de reerguer os ânimos destroçados de uma cidade em profunda depressão. Na segunda divisão japonesa, apresentou-se às ordens de Stuart Baxter, ex escudeiro e oficioso conselheiro das noites de Malcolm Allison nas docas setubalenses com os fantasmas da Torralta ao fundo, ruínas de outros terramotos, e partilhou, no primeiro ano, o estrelato internacional no plantel com o suiço Thomas Bickel. A sua segunda temporada no país do sol nascente é a da confirmaçao que mais que o primeiro futebolista africano a subir à relva nipónica, Ziad erigiu-se um dos principais artífices da regeneração emocional da massa adepta do Vissel, contribuindo com 25 golos para a subida à J-League e deleitando o público com momentos de magia ancestral em parceria com Michael Laudrup. A terceira temporada é a da estabilidade ao mais alto nível e a do arigato profundo que só os samurais de cabeça alta pelas batalhas ganhas podem ostentar, antes do regresso a Tunes, onde lhe esperava o périplo pela liberdade.

É com o fim da carreira futebolística, com a distância, que a figura de Ziad adquire uma clareza tão imponente quanto perturbadora. Ao contrário do seu compatriota e antigo companheiro na cidade-berço Taoufik, que optou por abrir um conceituado ginásio para a burguesia magrebina e expatriados ávidos de exercício e volumosas carteiras - o esplendoroso California Gym, que a Caderneta da Bola recomenda para quem busque em Tunes uma sessao de fitness com classe - Ziad enveredou por uma nova carreira sempre em crescendo. Não contente com posições técnicas e directivas no Espérance, com a aprendizagem técnico-táctica ao lado de nomes como Sacchi ou Arsène Wenger e mesmo com alguns biscates no trading de camaradas da bola como o lateral Trabelsi, o mito preferiu navegar nos ventos da modernidade e da liberdade.

Prova disso é a pugna pela liberdade de expressão com uma polémica e transgressora candidatura à Federaçao de Futebol do país, bloqueada pelo hoje tirano caído em desgraça Ben Ali e a criação de aquilo que alguns designam já como o Sand Valley, o Sillicon Valley do deserto, liderando o sector dos cartões de telefone e telemóveis com a empresa de sua criaçao, Bitaka Tunisie. Nao é de estranhar que alguns rankings de popularidade o situem como o quinto tunisino mais famoso do país, numa lista encabeçada pelo Picasso da bola, Darragi, que numa ironia cruel parece estar prestes a assinar pelo seu rival figadal no Minho.

Como afirmávamos antes, os intermináveis brainstormings em frente à ardósia do pré-fabricado antes das sessões de treino cadernético conduzem a busca novamente à origem. Se recuarmos no tempo e no texto, o ímpeto com o qual agora Ziad empunha o jasmim é o mesmo dos 50 golos em Portugal, o mesmo dos 25 golos nas ruínas de Kobe, o mesmo da humildade sob a batuta de Sacchi, o mesmo no desafio ao establishment oligárquico. Uma raposa do deserto a caminhar no precipício, entre a glória e o abismo, entre o céu dos golos e o inferno dos fundos de investimento. Todos os elementos a fechar o círculo. E a guardar as bolas, os pinos e os coletes, que amanhã volta a haver treino.

quarta-feira, junho 08, 2011

Caderneta da Bola - Um blog para quem confia na Imobiliária Matute, tão sólida na hipoteca logroñesa como um dia o foi Roberto na grande área do Marão.

segunda-feira, junho 06, 2011

Shukran, Wenderson


A linha editoral da Caderneta da Bola, como a bola nos pés do mago marroquino farense Hajry Redouane, como a carreira da ex-promessa gloriosa João Peixe ou uma temporada do trajecto de Barrigana, pauta-se pela aleatoriedade e pela inconstância.
Várias obras ficaram por concluir, desde logo a relativa ao Vitória minhoto, síntese da bola no rectângulo nessa mítica temporada iniciada no verão quente de 1993, adiadas por singulares incursões cadernéticas repentinas e inevitáveis como uma arrancada de Caetano junto à lateral.

Assumimos o dever pelo regresso ao berço, sem porém chegar a confirmá-lo. Ainda assim recusamos esquecer os ensinamentos que esse singular plantel do futebol português nos deixa, enquanto amálgama ontológica de um irrepetível conjunto de heróis da relva, capazes de em si resumir a génese do futebol português dos últimos 30 anos. O patrão de bigode, a joia africana encravada no miolo de um escândalo de corrupção, o fantasista português, o magrebino carro de assalto feito ponta-de-lança, são tudo casos que tornam a bola que por cá se joga um incomum caldeirão de sabores exotico-bolisticos.

Seria de pensar que esta confluência de historiografias, estilos e idiossincradias aparentemente inconcilaveis só seria possível de ser encontrada, ainda que raramente, num colectivo de futebolistas. Não é assim e nós agradecemos. Por vós também e em antecipação. 

Quando estes vossos camaradas do peão à chuva se deparam com um caso em que um só jogador é, em si mesmo, um melting pot de duas diferentes culturas da bola, tão distintas que jamais se pensaria  poderem ser conciliáveis no colectivo, quanto mais no singular,

não temos como escapar a mais um momento em que se impõe uma abordagem específica, tal a raridade do espécimen.

O desafio está novamente relacionado com o momento em que escrevemos, o final desta temporada, e, como não, com o facto do futebol ser um sistema dinâmico e complexo.
Não é a primeira vez que a topografia do esférico luso nos inclina para a teoria do caos. Já sabemos que quando uma borboleta bate as asas aqui, Anderson Popó, antigo atleta do Salgueiros, desiquilibra uma transição defesa-ataque no Vissel Kobe japonês. O que a realidade nos demonstrou também nesta temporada foi a relação intrínseca entre o afundar da Naval figueirense, a consagração arsenalista contra os Shengens da bola e a revoluçao de Jasmim que assolou não só os estádios como as sedes dos clubes desportivos e recreativos de Sidi Bouzid a Tripoli.

A relação reside quiçá na chuteira esquerda de um vagabundo da ala que hoje respira tranquilo à sombra da história e das festividades do apóstolo Lucas em Aradippou, florescente subúrbio de Larnaca nesse enclave esquizóide entre a tradiçao helénica e o fulgor torrencial otomano, o Chipre. Ou o Pequeno Qatar, como é conhecido nos mentideros do agenciamento de futebolistas e também num snack-bar da Bobadela. Falamos de Wenderson Arruida Said, de Wender e do jasmim da sua revolução tranquila, algures entre o céu, a guerrilha e a linha de fundo.

Implacável lançador de fatahs no seu flanco, sempre sempre com as meias para baixo e olhos de garoupa a fitar o horizonte, a este Mahdavikia do Mato Grosso em versao canhota poderia servir também a alcunha d’O Tapete, mágico e majestuoso a voar sobre o lateral direito.
O desafio, a tal singularidade que referíamos, resume-se ao enigma de como interpretar a existência de um tropicalista da lateral canhota no mesmo corpo que um imam do drible curto?
Ainda que nem como tragédia nem como farsa, a história repetiu-se, já que chegou à Figueira da Foz tal como ao Chipre anos depois para consolidar equipa ainda aturdida por uma subida de divisão revolucionária. 

Recuando, nada disto é de todo inesperado: trata-se de um profissional nascido em Quiratinga, a Princesinha do Leste no calão leninista dos garimpeiros do Mato Grosso, no mesmo dia em que, no outro lado do Atlântico, Nick Hornby cumpria 18 anos. Consagrado para o desporto rei entre o decano clube Dom Bosco, o Leao da Colina, e o Esporte Clube Democrata, também de Minas Gerais, consolidou em meados dos noventa os atributos que fariam dele um ayatollah da bola underground amazónica. Foi aliás no relvado do Mamudão, santuário do Democrata, e diante da feérica torcida Pantera Cor de Raça que Wender assistiu impotente ao golo número 500 da carreira do lendário Túlio Maravilha, então ao serviço de um Cruzeiro onde também alinhava Valdo.
 
Daí para o Bento Pessoa, onde ao longo dos seus 92 jogos em 3 épocas, conviveu com artífices do calibre do histórico Canita, proeminente todo-terreno figueirense, o fleumático Jean-Pierre, a ex-promessa de Paranhos, o virtuoso Schuster (ou Rui Miguel, em dialectro transmontano), o incombustível Bento do Ó, Sérgio Lavos ou até Nabil Baha, franco-marroquino francamente felino. Não demorou por isso a ser captado pelo Sporting de Braga e a a ser um dos protagonistas da transformação radical de um clube ao qual chegou pouco acima da linha de água para deixá-lo no quarto lugar a sete pontos do campeão, numa progressão pletórica de futebol eficaz e testimonial da férrea militância de Wenderson Said.
Na sua primeira etapa em Braga, confirmou o estilo e aguçou a substância: da ala ao interior, as mudanças de velocidade e a força nas bolas paradas (quanto mais próximas melhor), simbolizava não só a confluência de culturas já referida como uma ponte entre a tradição sóbria arsenalista dos companheiros Barroso e Castanheira, a chispa de Glauber e a exótica modernidade de Hiroyama, Bordi ou “Palillo” Vanzini.
 
Na sua segunda etapa, já na Pedreira e curiosamente após uma curta estada a partir pedra num Lumiar traumatizado por finais perdidas e arlequins de Lezíria, veio a maturidade e, porque não dizê-lo, a acomodação. Said era o mesmo numa equipa que baixava preguiçosamente dos 58 pontos, que perdia algum fulgor, um terreno outrora fertil e que agora minguava em desilusões de “ex-futuros grandes”, como o “ex-ídolo da Bombonera”, “ex-novo Maradona” e demasiado “ex” dele próprio, Carlos Marinelli, ou Hugo Leal ou Delibasic. Demasiadas estrelas cadentes a desvir o tuaregue do seu oasis. Nem de propósito, encontrou-o em Belém, sem menino Jesus mas com Cândido Costa, José Pedro a fazer de santo carpinteiro ou de Noé, numa barca que afundou ao largo do padrão, falhando manter-se à tona da Primeira Divisão.
 
Ancorar no Chipre, entre o odor do cedro, das folhas da parra e da tensão prévia à liberdade, significava não só manter-se na primeira liga, ainda que noutra longitude, mas também almejar uma tranquilidade que não tinha há várias épocas, ainda que na primeira tenha sofrido as inclemências de um play-off de fundos. Além do mais, poder voltar a partilhar balneário com Evandro Roncatto ou o Gabriel “Gavilán” Gómez (antigo espólio do seu multicultural Belenenses, com quem poderá mesmo ter chegado a jogar a Copa América em matraquilhos algures num tasco da Junqueira) ou membros das ilustre armada lusitana em costa fenícia como o beirao Nogueira, curtido para as lides entre Paim e Kifuta na escola de Alvalade, ou o recém adquirido Paulo Costa, forcado da Moita há anos abandonado à pega do Minotauro, ou até mesmo a estrela salvadorenha “Cheyo” Quintanilla, pura faísca crioula.

Wender é, enfim, todos eles, mais a busca incessante da paz que só os que atravessam o deserto sabem o que é e expressá-la. A sua Sidi Bouzid é o flanco esquerdo, a sua voz a bola e o corpo movido pelo olhar perdido, a carregar no sprint todo o Mato Grosso, a Figueira, o Gerês, Monsanto e os cedros mediterrânicos em ebulição. Por agora em paz mas nisto da bola, como na vida, há muito jogo ainda para fazer. Inchalla, senhor Said.

sábado, junho 04, 2011

O regresso

Havia demasiados sinais.
Quim Machado, o gurú de Santo Tirso, a ascender o Feirense à divisão maior 21 anos depois.
O Borda d’Água para yuppies, a revista MaxMen, que em tempos ousou plagiar leituras técnico-tácticas gizadas nas profundezas do balneário pré-fabricado da Caderneta, a fechar as portas.
A iminente batalha de dois históricos alfacinhas em palcos secundários lusos na época que se avizinha, um deles fortíssimo na Tapadinha e no Dragão, o outro mais forte no requerimento e na secretaria.
O ano em que Bock, portentoso a destroçar estatísticas goleadoras na Liga Orangina ao serviço do seu Freamunde, volta a reclamar a injustamente nunca conseguida internacionalização.
O ano em que o Luvas Negras volta a trazer o histórico Servette para a alta roda do futebol alpino, triunfando por fim em casa emprestada. Um pequeno passo para a indústria farmacêutica suíça, um salto gigantesco para Alves.
Na Vila das Aves assistimos também ao regresso a terras viriatas desse jovem de Miranda do Corvo que há uns poucos anos levantou bancadas inteiras na 2a Divisão holandesa à custa de quase uma vintena de golos ao serviço do Zwolle, baptizado pelos Deuses da grande área com o nome de Tozé Marreco.
Demasiados sinais, indómitos da bola telúrica, a pedir um regresso. É por isso com uma profunda convicção de fazer um bom trabalho e com o olhos toldados de quem passou demasiados anos a contemplar nuvens negras sob um pelado à chuva, à espera do golo que chega sempre demasiado tarde, que a equipa técnica desta humilde publicação vos sussurra uma vez mais: A Caderneta da Bola está de volta.

segunda-feira, junho 29, 2009

Surpresa nos convocados: ainda não é desta que passamos à dissertação quimbertiana.

Há não muito tempo, sussurrava-se entre os cacifos do balneário cadernético que realmente a bola portuguesa não pára de nos demonstrar que todas as ocorrências, por mais insignificantes que pareçam, estão relacionadas de forma decisiva para congeminar a essência desta nossa fascinante realidade. O tal efeito mariposa, que em futebolês se formularia no teorema “quando um profissional guineense bate as asas na cara dum apanha bolas na Choupana, um ex-treinador do Casa Pia ganha o campeonato da Costa Rica”, revela-se uma vez mais e com arrepiante actualidade.

Na mesma semana em que resolvíamos abordar, ainda que superficialmente, o africanismo futebolístico, eis que salta para a ribalta justamente o mentor espiritual de uma das experiências melhor conseguidas nesse quadrante etnico-futebolístico. Falamos da feroz dupla Clint e Lewis que, de blaugrana em Felgueiras, e amparados por Baroti e os Lima Pereira, trouxeram para a montra da redondinha viriata a hipnótica cadência do futebol crioulo e deram ao condado do saco azul as últimas alegrias antes da descida de divisão do ano seguinte. O artífice desse “apogeu e queda” é o tal estratega hoje em dia tão em voga: Jorge Jesus, flamante empresário multifacetado, o Rinus Michel da Medideira que fez a baía seixalense parecer os diques que protegiam estoicamente o De Meer de Amsterdão, tal era a torrência do seu total voetbal nesses longínquos começos da década de 90, no começo da sua carreira. Honra lhe seja feita, não só trouxe à Atalaia a festa do centro-avante recorrendo a homens que anos antes se degladiavam pelo melhor lugar no banco de Alvalade, Rui Maside e Ali Hassan, como moldou o trinco Sessay e o infatigável lateral destro Tó Sá. Dois jogadores que viriam a elevar outra mística verde e branca, a de um Setúbal a ferro, fogo e mialgia, histórica geração de futebol extremo ainda hoje recordada pelos últimos pescadores de salmonete à linha como uma lenda somente com paralelo noutras latitudes futebolísticas (tema de elevada profundidade técnico-táctica a esmiuçar atempadamente). Adiante.

Esta emergência de Jesus que agora povoa o meio-campo dos jornais desportivos e que nos relaciona com o candomblé futebolístico praticado pelos tobaguenhos em Felgueiras, não é porém a primeira referência a Jesus no já vasto palmarés da Caderneta da Bola. Não querendo entrar nas lateralizações sumamente cristãs ao colectivo dos Atletas de Cristo feitas ao longo deste lustro e meio, outro colectivo entrou pela mão de outro Jesus aqui na nossa publicação corria o longínquo ano da graça de 2003. Concretamente, no dia 15 de Outubro, o senhor entrou nas nossas orações enquanto dissertávamos sobre o mítico Desportivo de Chaves. Como já terão percebido os mais perspicazes, trata-se de Jesus, sim, mas de um outro, um que espalhou a mensagem na ala direita por essa Europa fora e que não é da Galileia mas sim de Aragão: o cigano Jesus Seba, insígnia indomável de outro povo renegado que soube espalhar a mensagem do cruzamento contra toda a espécie de filisteu esquerdino.

Nascido 14 dias antes da revolução dos cravos, compensava o 1,68 metro com uma explosão e pantomina verdadeiramente flamencas. Ironicamente, o seu futebol soube criar as raízes que os preceitos étnicos sempre renegaram, e acabou por demonstrar qualidade suficiente para ser internacional esperança pelo país vizinho, enquanto maravilhava a sua Zaragoza natal. Com uma lesão gravíssima pelo meio, a sua problemática maioridade futebolística forçou-a a uma tão inusual como exitosa diáspora, naquela que era das primeiras incursões de futebol latino na Velha Albion. Aconteceu um daqueles fenómenos extraordinariamente raros que diferenciam o futebol de outras artes circenses: chegado com dois comparsas de diáspora a Wigan, essa terra incerta disputada pelos condados de Manchester e Lancashire, perigosamente próxima da letárgica Bolton, espalhou-se pela cidade a chegada do Messias e os Lactics vibraram com uma reinado de culto, de futebol fluído como sangria e sacramental como a guitarra de Paco de Lucía.

Juntamente com Isidro “Izzy” Díaz, que mais tarde também passaria pelo Barcelona do Marão, e com Robert “Bob” Martínez, carismático centro-campista eleito em 2005 como o melhor jogador de sempre da história do clube e hoje promovido a maneiger dos Lactics , formou um lendário tandem conhecido por Los Three Amigos, praticando um culto futebolístico que levou a equipa da quase descida à Conference division a um apostólico apuramento para a Second Division em apenas três anos. Um glória que Jesus não chegou a atingir: impelido por uma crónica dificuldade em dominar o idioma de Harry Redknapp nas profundezas da Albion e por uma tendência ao nomadismo quase genética, o torpedo caló voltou a Zaragoza e o mantra “Jesus is a Wiganer” não mais se voltou a ouvir em Springfield Park. Um ano depois, rumou ao Belenenses de Marinho Peres, e o resto é história, grande parte dela transmontana numa saga já aqui destrinçada. A verdade é que este sobredotado do cruzamento em arco elevou, como saltimbanco errante pelos relvados sem fronteiras, o trato do esférico a um estatuto de arte efémera e acrescentou o seu nome à não muito vasta lista de sacerdotes da mitologia futebolística europeia.

Hoje, o cigano Seba afundou por fim raízes na terra e escolheu-o bem perto de casa, numa aldeia que leva o nome do lugar mítico do povo mercador, esse lugar irreal que existe de e para o nomadismo da compra. Jesus tem hoje o seu templo em Andorra – não a autêntica, checkpoint comercial encravado nos pirinéus, mas uma de imitação, muito mais barata e em território espanhol. Perante três mil espectadores, volta a fazer do campo o seu tablado e quando se apagam as luzes aqui no balneário da Caderneta, é o som da sua boleria que recordamos.

quinta-feira, junho 18, 2009

Improvável, dizíamos, porque o destino não costuma reservar a filhos de emigrantes lusitanos na África do Sul oportunidades como a de assistir no banco a duas finais perdidas da Liga dos Campeões levando ao peito a insígnia de ganhador do escudete transalpino. Fulgurante porque escasos dois anos depois do idílio vimaranense, encontrou no Piemonte um N’Dinga chamado Deschamps, um Zahovic chamado Zidane e um Agostinho chamado Del Piero, sendo que este último jamais igualaria ao longo da sua carreira os feitos perpretados pelo rabino esquerdino pacence no Mundial de sub20 em terras qatarís – momento insígnia do apogeu daniano da bola lusitana. Terá sido este, porventura, o único ponto em que Dimas terá saído a perder com a sua pessoal evoluzzione e ainda hoje resistem alguns partisanos no peão do Delle Alpi que murmuram que a história das duas Champions perdidas - e consequente “princípio do fim” do projecto de Lippi – teria sido bem diferente com Agostinho a servir Alen Boksic (mais tarde baptizado Offsick aquando do seu retiro no Tyne) ou Bobo Vieri, o Chicabala bolonhês.

Posto que Agostinho preferiu o Real Madrid B, salvou-se a carreira de Del Piero, e Dimas não resistiria a mais de dois anos de aprendizagem com Gianluca Pessotto. Seguir-se-ia o Fenerbahçe, numa etapa curta mas plena de simbolismo. Literalmente baptizado como o “jardim do farol” em turco, a agremiação de Ataturk servira já de porto de abrigo a velhas glórias do futebol português. Já antes tinha envergado a camisola amarela o incombustível Stanimir Stoilov e cabia agora a Dimas a espinhosa missão de fazer esquecer Kostadinov como embaixador do futebol português no clube, no ano em que o búlgaro voltava à sua Sofia natal. Causando surpresa inusitado alvoroço na clandestinidade das apostas desportivas turcas, Dimas embalou para uma excelente temporada: com um perpétuo sorriso e a sua tão característica falta de qualidades assinaláveis, jogou mais de 20 jogos e assinou mesmo 4 golos. A nivel colectivo, evidentemente, a frustrante falta de eficácia era mais consonante com a real qualidade do futebol deste bafana bafana adoptado: o clube do farol nada podia fazer para contrariar a supremacia do intratável Galatasaray, liderado à epoca pelo Maradona dos Cárpatos e o mais notável semi-deus futebolístico dessa semi-nação semi-europeia, o grandíssimo Touro do Bósforo Hakan Sukur.

O posterior interregno noutra semi-nação, a belga Liège, serviria sobretudo para travar conhecimento com Mbo Mpenza, um púbere falso lento congolês com quem viria mais tarde a ganhar o campeonato português ao serviço dum clube do Lumiar, e um pequeno trotamundos bem conhecido no Douro Litoral chamado Tomislav Ivic. Na Bélgica, pela mão de Ivic, adaptar-se-ia também a uma escola de pensamento futebolística que conheceria a fundo na sua última etapa, à qual mais que futebolística chamaríamos de terapéutica ou (porque não?) termal, a do Marselha, onde reencontraria o mesmíssimo croata. Trata essa escola de pensamento, como provavelmente os mais perspicazes já terão adivinhado, de montar todo um esquema de jogo sobre o conceito do “sangue africano a destroçar os flancos”. Bobby Robson intentou com estrepitoso fracasso implantá-la nas Antas (com os diamantes negros Mandla Zwane e Ettiene N’Tsunda), um ex-chefe de Eduardinho colheu pouquíssimos frutos dessa estratégia sacrificial aplicando-a ao camaronês Douala (pecou por escassês, justamente, de “sangre africana”, dirão alguns) e apenas algumas variações ensaiadas tiveram algum sucesso, sobretudo exibicional, como o caso felgueirense, que seguiu princípios similares com o “sangue caribenho” de Clint e Lewis. No Marselha, os recursos eram imensos, com Olembe, Ibrahim Ba e sobretudo o dramaticamente incompreendido Ibrahima Bakayoko, e com treinadores menos defensivos que Tomi ou o talhante bilbaíno Clemente, talvez a classificação tivesse sido mais risonha do que o tímido 9º lugar. Quem sabe, já que poucas vezes a história do futebol centroeuropeu viu uma conjugação tão favorável entre teoria africanista e recursos humanos ao dispôr do timoneiro.

quarta-feira, junho 03, 2009

(O silêncio, como o cabelo de Dacroce, é de ouro, mas a Caderneta continua a correr atrás do prejuízo. Mais variações tácticas muito brevemente e de momento seguimos com a saga vimaranense...)
O segundo grande aspecto que distingue um Dimas de um Joaquim Alberto Machado - com todo o respeito, evidentemente, pelo legado deste último de várias gerações de cavalgadas pela ala direita e uma notável colecção de livres directos, entre outros atributos – é a origem sociofutebolística de cada um.
Seguindo a senda aristocrática lavrada desde o seu bíblico baptismo, Dimas teve uma educação física e intelectual forjada desde cedo em alguns dos melhores viveiros de futebolistas que o país conheceu. Falamos da assustadora geração de 89 em Coimbra, quando privou com o Sansão da Costa Verde, Fernando Manuel de nome próprio (hoje a soldo dum clube de Parma), na mesma etapa vital em que treinou cada dia com históricos estudantes como Mito ou Toninho Cruz. Na mesma era cósmica em que aprendeu o preceito da grandeza de avançados como Marcelo, ainda hoje uma lenda em Santo Tirso e antigo parceiro de goleadores como Aílton, Jorge Leitão ou como o sinuoso Eldon, destroçado anos antes pela concorrência no ataque no clube do Campo Grande ensaiando à época um renascimento à beira do Mondego.
Feita a passagem à maioridade futebolística, rumou a dois decisivos anos na Reboleira com a fina flôr do futebol português, entre astros da época a personagens pouco menos que fulcrais no que é hoje a actualidade da bola lusa. Acompanhar os primeiros passos do figurante Abel Xavier, então apenas aspirante a actor nesse grande cinema que é a bola, partilhar balneário com a velha glória barreirense Fernando Chalana na sua última temporada assalariada, mitos de Luanda a Marselha como Vata, ou hoje treinadores de craveira de um Álvaro Magalhães ou um Agatão, respeitável timoneiro do histórico Operário do Vale Escuro. Para além de um jovem trinco Bento às mãos de uma promessa dos bancos de suplentes, o professor Jesualdo.
As etapas de crescimento em Coimbra e na Reboleira, exponenciadas de forma perturbadora na sua maturidade em Guimarães, talharam naturalmente Dimas Manuel para uma tão fulgurante quanto improvável ascensão.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

O grande interesse desta abordagem comparada é realçar o facto de Guimarães ter sido, naquele ano, a antecâmara de dois arquétipos de carreira de um defesa lateral: por um lado a discreta até ao topo do futebol mundial, camuflando com um currículo aparentemente imaculado uma mediania que, de tão constante e regular em tantos relvados diferentes, se torna singular e digna de registo; e por outro a discreta carreira até à encruzilhada e a dúvida entre triunfar num grande ou sucumbir a essa mesma grandeza até acabar por resvalar para duelos épicos na divisão de honra. Depois de várias noites a esgrimir a giz algumas hipóteses na ardósia do nosso balneário, a Caderneta está em condições de fornecer algumas explicações para essa diferença tão radical e de natureza tão transcendente a ambos, demonstrando uma vez mais o quão importante foram esses 9 meses na cidade-berço para entender a bola tal como a temos hoje.
O primeiro aspecto é, obviamente, o mais superficial e tangível de todos: o rebuscado apadrinhamento do benjamim Marques Teixeira no hemisfério sul deu-lhe um nome que nenhum outro jogador do hemisfério norte ostentou com relevo numa divisão cimeira de algum país, seja ele eslavo ou latino. Da Reboleira ao Minho, Dimas vem no dicionário como "defesa esquerdo vulgaris de Lineu" antes do "honrado ladrão que deu guarida à sagrada família" e que inscreveu o nome próprio nos anais da história. Por outro lado, Joaquim Alberto Machado é sangue anónimo, a mais importante substância das massas e multidões que afinal, movem a história. Na bola, é um nome que se desmultiplica de forma arredia, como o temperamento de Sérgio Gameiro, ou camaleónica, como uma exibição de Prokopenko. Acima referimos a confusão que seria se Quim Berto tivesse mantido a fórmula "nome e apelido", e o injusto fardo que teria carregado ao apresentar a mesma designação que o gurú de Santo Tirso, Quim Machado.
E também não é por acaso que outro célebre Joaquim Alberto da bola autóctone adoptou um nome de guerra que ainda hoje faz tremer os ferros de algumas balizas do Ribatejo ao Douro Litoral. Falamos, obviamente, de Quinzinho, avançado indomável que, contratado por uma associação desportiva da zona das Antas, deixou pegadas de lenda no Estádio dos Arcos tendo chegado mesmo a ser treinado, na viragem do milénio, por um então desconhecido Juande Ramos no Raio do madrileno bairro de Vallecas. Talvez um dia decante esta vossa publicação servidora algumas linhas sobre esse personagem vanguardista que ousou ser Mantorras antes de Mantorras.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Parece tarefa impossível ensaiar qualquer tipo de explicação cósmica sobre o papel do Vitória de Guimarães de 1993/1994 nesse mecanismo misterioso que a máquina da bola sem invocar as bases da Teoria do Caos. Diz o enunciado do efeito borboleta que o bater das asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar, numa cadeia de pequenas relações causa-efeito, um tsunami no Golfo do México. Futebolisticamente falando, isto equivale a dizer que simples acto de dar, em 1969 e a um recém-nascido em Joanesburgo, o nome do bandido palestino que protegeu José e Maria da fúria de Herodes na noite do nascimento de Cristo, pode estar relacionado com uma sequência de slaloms na meia direita do serra-leonês Sessay, abrindo caminho para uma empolgante exibição de um franzino minhoto em Castelo Branco, circa 1992. Estes dois eventos passariam despercebidos no curso da vida da Bola se não fossem eles também outro bater de asas de mariposa que originou, em Guimarães, dois históricos tsunamis nas alas da defesa, um ano depois.
Esta abordagem comparada não significa, no entanto, que ambas figuras possam ser consideradas aço da mesma armadura. Pelo contrário, são uma representação exacta de dois trajectos e duas configurações físicas e tácticas tão típicas quanto opostas, e de como a simetria e uma mesma condição de escudeiros de nomeada nas batalhas do Afonso Henriques possam levar a caminhos tão distintos como o Panteão e o Esquecimento – ambas entidades uma sepultura injusta para a memória de cada um destes jogadores. Falamos, claro, de Dimas Manuel Texeira, que viveu em Guimarães um mandeliano exílio regenerador para depois abraçar a glória mundial qual Berardo do flanco esquerdo; e de Joaquim Alberto Machado, conhecido no futebol português como Quim Berto (e não como Quim Machado, para não se confundir com a lenda de Santo Tirso, também ele defensor vimaranense na temporada anterior à sua chegada, e figura de singular proeminência no futebol mundial, ao tentar ressuscitar, mais tarde e como treinador, duas entidades defuntas no universo futebolístico internacional: o futebol luxemburguês e o Tirsense).

terça-feira, novembro 13, 2007

O regresso implica, neste caso, um retorno à origem. A origem da bola lusa tal como a conhecemos reporta – como não? - aos desígnios originais da nação. A prolongada hibernação teórica esperou até ao momento de descoberta desse período e epicentro geográfico que descodificam, como se da Pedra da Roseta da redondinha se tratasse, o que é hoje o tal desporto a que os entendidos chamam futebol.

Voltar ao princípio, tal e como o entendemos, é voltar ao berço. O local de renascimento da bola é, afinal, o lugar essencial da fundação da país. Falamos, claro, de Guimarães, terra de estátuas metálicas do rei dito o primeiro, reconstruções de ruínas pela velha senhora (atenção à semelhança cromática entre o clube da terra e a vecchia signora de Turim) e covil de hooligans desalmados, entre outras delícias regionais.

Vitória foi o nome dado em 1922 à agremiação local num notável e paranormal prognóstico da única ocorrência deste género obtida pela sua categoria sénior do desporto-rei: a Supertaça Cândido de Oliveira, 66 anos mais tarde contra um Porto ainda bêbado da vitória no Ernst Happel. A única Vitória do Guimarães e a sua homenagem feita sessenta e tal anos antes – tantos quantos os anos do século XX que o país esperou até ver os patrícios subir ao pódio imaginário de um mundial de futebol - foi apenas o primeiro indício da propensão zandínguica associada ao clube. Há mais, claro, e esta dimensão de oráculo estende-se, atrevemo-nos a dizer, a todo o futebol europeu.

Agora, quando? O leitor não pode ser massacrado com a homérica tarefa de decifrar toda a história do clube em busca dessa temporada mítica que constitui a síntese da bola deste rectângulo. Não pode porque é uma chatice e, em boa verdade, nem sequer precisa porque a Caderneta tratou de fazê-lo por ele. Falamos da temporada que começou no Verão de 1993. Essa época, que acabou por ser o último campeonato ganho pelos rivais do Fófó desse século, que o clube do Campo Grande teve meia geração de ouro a ouvir traduções inglês-setubalense até se suicidar na neve de Salzburgo, e que nas Antas ainda não se conhecia a palavra penta mas em contrapartida Rui Filipe ainda era homem e não lenda, nessa época... o Guimarães fez história.

Nenhum outro clube em nenhuma outra época, de acordo com os registos recolhidos até à data, soube condensar tanto símbolo de passado, presente e futuro, num demónio de Laplace cujo resultado é, somente, o futebol tal como o conhecemos hoje.

Desde o homem que agarrou o braço de Luís Filipe e impediu um homicídio em pleno Estádio de Alvalade, bem recentemente, às velhas glórias da defesa, ao lateral português que vingou no estrangeiro sem que o estrangeiro se tivesse, de facto apercebido. Desde o protótipo do central canibal ao arquétipo do patrão de bigode, uma espécie de Humberto Coelho quase galego. Desde a actual dupla técnica do clube viscondal aos dois tipos de jogadores balcânicos, o que ficou conhecido além fronteiras por espalhar arte, valentia e psicose, e o que apenas ficou conhecido cá no burgo por espalhar discretamente as primeiras duas. Desde a incansável gazua africana ao involuntário epicentro da corrpução futebolística pós-quinhentinhos de Guímaro e pré-café com leite. Desde a jovem promessa dianteira lançada às feras com as quinas ao peito no Golfo Pérsico, ao mito cartaginês, avançado de faro e dimensão transahariana. Desde os primórdios ao obscuro desconhecido, pelas fronteiras do tempo. O berço tremeu por um ano e o destino ficou gravado para a eternidade.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Bicicletas e chilenas de boas vindas para: cadernetadabola @ gmail.com.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Enquanto não se escrever a última página na interminável esferico-novela, essa mesmo que perecerá de mão dada com a própria humanidade, e que há dezenas de anos divide o género humano entre os que crêem que Fábio Felício não passa de uma pálida réplica de Nuno Pintassilgo e os que defendem a constância deste último face à errância do primeiro, podeis estar certos, oh prezados leitores, esta vossa humilde publicação, outrora plagiada por vulgares fariseus de vãs edições em papel cuja atenção dada à reverente arte da redondinha é a mesma atribuida a fúteis acessórios para meios de transporte de quatro rodas, continuará a relatar o que a arte, o engenho, a memória e o relógio permitirem. Sim, porque se em 1993 foi permitido a Andrade, Bambo e Hugo Porfírio, entre demais compinchas, sonhar com o Tri-Mundial em terras de Bozinovski e Minogues, também a nós, meros operários da literatura bolística, será permitido levar a redondinha prá frente, eventualmente recorrendo ao ocasional chuveirinho. Não será demanda fácil. Sobretudo para o leitor que encontre em sucedâneos produtos, cuja arte se resume a digitalizações de cromos sitos no objecto que emprestou a este esforçado pasquim seu nome, o Santo Graal da esférico-historiografia. Prevêem-se jornadas duras. Duras como uma deslocação ao Bessa de Bóbó e Manuel José em alturas de janeiras. Falamos de longas e densíssimas incursões teóricas que, partindo de recordações fragmentadas, gizam estorietas floreadas a metáforas mais rebuscadas que o Poço da Morte erigido a tiros de Bolinhas e Artur Jorge. Os anos passaram. O futebol não terá mudado assim tanto, mas nós sim. E quem cresceu a comer cereais às 3 da manhã à espera da continuação da Ode a Matute, mudou connosco. E são a esses que temos que atender. Disse.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

A Caderneta da Bola regressa assim sob a égide do heroísmo, num terrível esforço de colaboração. A história, em particular a que remonta à bola lusa, é fértil em demandas a dois, magníficas descidas aos infernos em tabelinha e plantéis dos quais lembramos pouco mais do que a dupla goleadora, o yin e o yang simbólico da vontade de toda uma equipa. Serve o paralelismo para marcar, por um lado, o peso do regresso e, por outro, para homenagear, num momento singular, as duplas ofensivas que o destino tem oferecido ao futebol português. Fala-se em destino porque não se trata de uma combinação entre dois elementos de uma equipa, fala-se de uma nova ordem cósmica construída entre dois artífices da redondinha: a dupla é muito mais do que aquilo que qualquer um seria por si, só. Quando em acção, uma verdadeira dupla ofensiva é um exponenciar imprevisível e mágico de talento e eficácia, muitas vezes apenas apreciável em contextos bem precisos e delimitados no tempo e no espaço. A toda uma tradição, assinalamos uma apenas, exemplar aliás do que acima a Caderneta tentara transmitir – e que de resto é um pouco o leitmotiv da demanda há sensivelmente dois anos e meio -, a ilusão virtuosa que é toda a memória da bola. Dito isto, situemo-nos: o abrandar do comboio e o casario a densificar-se ao longo da praia não engana – Espinho. Fracturada entre o Casino e o Estádio Comendador Manuel Violas, a Atlantic City portuguesa e o seu entardecer diabólico habituaram o público desportivo às suas magníficas duplas, a mais proeminente das quais elevou mesmo o nome do império além-mar. 1996 foi o ano de Espinho: enquanto que a comunidade lusófona se impressionava com a prestação de Maia e Brenha nas areias olímpicas de Atlanta, às quais resgataram um quarto lugar, o mundo do futebol parava para celebrar com o Espinho a subida à divisão maior. Um momento de celebração mas sobretudo de respeito e admiração, já que o objectivo tinha o rasto preciso de dois prodígios – tal como nas olimpíadas, também em Espinho brilhava um dueto: Bolinhas e Artur Jorge, incansáveis corredores da grande área adversária, por eles transformada em Poço da Morte, grandes responsáveis pela quantidade de baixas deixadas pelos alvinegros no caminho para a Primeira. Autênticas gazuas, trabalharam a subida de divisão ao longo de duas épocas, de 1994 a 1996, esse verão ardente. E os número são claríssimos a esse respeito: o estágio saldou-se pela titularidade absoluta e 44 golos repartidos entre os dois. O número, suficiente no entanto para cumprir o objectivo, não traduz todavia a vastidão do repertório, distribuído pela complementaridade dos dois artilheiros. Artur Jorge, mais robusto e impositivo, de remate fácil e hábil jogo de cabeça, era um avançado senhorial, da escola vimaranense e percurso bucólico no cartel. Bolinhas, mais cerebral e urbanodepressivo, pautara até aí a carreira como viria a pautar a sua vida: a passear o drible curto e o último passe pelos subúrbios da bola, a ver os grandes palcos pela nesga fugaz da glória efémera – como um dia vira a primeira divisão a partir de Sacavém ou da Quarteira, onde jogara até encontrar paz na Costa Verde. A época de estreia na Primeira Divisão trouxe à boca o fel da ressaca da celebração estival. A titularidade mantém-se mas o choque com o primeiro escalão transformou a temporada numa difícl descida aos infernos. Cada jogo no Manuel Violas desonrava a prosperidade da família do comendador, precipitando o prometedor esquadrão de novo à Segunda Divisão de Honra. E num plantel praticamente galáctico – de Carvalhal a Besirovic, de Filó a Milton Mendes, do críptico magiar Lipcsei a Sérgio Lavos, entre outros – a dupla resistiu a todos os assaltos à titularidade e norteou a trágica campanha. Sete golos não foram suficientes para justificar o elan e muito menos para abalar o misticismo em torno daquela estranha simbiose: de volta ao escalão inferior, Bolinhas e Artur Jorge continuaram a envergar o 11 e o 9 da época anterior, apontando 15 golos e jogando praticamente a maior parte das partidas. A subida porém falhou e dupla apartou-se, pouco resistente aos estilhaços de 4 anos entre o céu e o inferno. A sabedoria de alguns lobos do mar tem, no entanto, vindo a assegurar uma diferente versão, ouvindo-se entre o morejar das ondas um cântico de lamento pela chegada à cidade de Artur Jorge Vicente, alegado intruso na dinâmica da dupla: um terceiro avançado, um terceiro titular, três nomes, três golos. Artur Jorge Vicente, um golo a mais que Bolinhas, e o incrível almadense embalaria a trouxa uma época depois, já sem o vil Vicente ao largo mas com crédito suficiente para assinar pelo Rio Ave e regressar a solo à primeira. Desfeita a dupla, ambas as carreiras entregaram-se a um lento eclipse, com Artur Jorge a vaguear mais uns tempos em Espinho, seguindo depois para a Póvoa do Varzim, Moreira de Cónegos e por aí fora, e Bolinhas a oscilar entre Vila do Conde e Coimbra. Alinhou de negro pela Briosa ao lado do lendário Febras, até há poucos meses embarcado numa odisseia singular a dois continentes de distância, ídolo da claque dos malaios Sabah Rhinos com a responsabilidade de fazer esquecer Josiah, o mago liberiano do ataque da equipa – mas isso são contas solitárias de outro rosário. Para Bolinhas, agora, o Almada, com quem revisitou o passado no Manuel Violas. O resultado desse desafio da Taça de Portugal na temporada passada importa pouco, mas importa: Bolinhas perdeu, nessa tarde, por 3-1, contra a sua antiga equipa, a sua equipa de sempre, perdendo igualmente a esperança de voltar um dia a uma última volta no Poço da Morte, com a morte no fundo do poço, da divisão, à mesma distância que a glória. Uma última volta, fora de tempo, agora que o inferno está ao abandono e a magia que criara com Artur Jorge se afasta do presente, sem conhecer epitáfios. É essa magia, afinal, a nossa tarefa.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Entradas à margem das leis e jogo de contenção para: caderneta-da-bola@megamail.pt
As notícias da morte da Caderneta da Bola foram manifestamente exageradas. Os últimos meses têm sido passados, sim, a debelar uma arrepiante lesão no menisco criativo e a decifrar, com método e rigor absolutamente científico, a paleta de sorrisos de Fernando Almeida, esse torpedo dos trópicos, artífice dos tempos em que Paranhos era mais samba e música balcânica do que gritos de Linhares. Não se promete, como o estimado amante da redondinha lusófona concordará, um regresso prematuro à competição regular, mas a fome de bola obriga a Caderneta ao abrilhantar de uns quantos amigáveis. Não há nada como o cheiro a relva e a balneário - e como o ardil de continuar a desfiar a frágil túnica da memória futebolística.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

A Caderneta da Bola regressa afinal do coma festivo a que esteve acometida, assim como da letargia criativa e excesso de outras coisas para fazer, sobretudo para provar e voltar a vincar periodicidade mais errática que as exibições de Marco Tábuas. Postos os entretantos, este regresso deve-se sobretudo a uma aturada pesquisa dos vários paradigmas tácticos que pautaram o futebol português, isto num momento, notem bem, em que a cultura táctica (outra entrada de dicionário que ficará para mais tarde) lusitana é praticamente um porta estandarte da alma de todos nós, incarnada que está num sadino endiabrado em terras de Sua Majestade. A pesquisa, o laborioso separar do trigo e do joio, o essencial do acessório entre apontamentos de Abel Braga e Bernardino Pedroto, a geometria descritiva de Henrique Calisto, permitiu descobrir que entre o 4-4-2 e o 4-3-3, existe uma configuração táctica singular, talvez a mais emotiva e provavelmente a menos apurada, escondida no final dos cadernos dos cursos de treinador da federação, rasurada pelo desespero. Selada num envelope a abrir apenas à entrada para os 80 minutos de um jogo de nervos, esta táctica entranhou-se na história sob o nome de chuveirinho. O chuveirinho é, claramente, a expressão táctica da angústia, uma predisposição de jogo tão nítida na tradução do estado de espírito dos executantes que a sua eficácia raras vezes emerge. O que é, afinal? É um sistema de jogo armado com os elementos mais recuadas da equipa a tentar defender o forte e a bombear bolas para a frente, uma linha média colocada imediatamente antes da grande área adversária, para recuperar a segunda bola (outra expressão a explorar ulteriormente) e os ressaltos que sobrem do resto da equipa, acampada na grande área do rival a tentar inventar jogadas a partir dos bombardeamentos dos colegas atrasados. Muitos cruzamentos, muitos passes em balão, muitas tentativas de semear a confusão, como saltos para a piscina - reparem: chuveirinho e saltos para a piscina; claramente uma táctica concebida por um nativo de Peixes. A questão astrológica é, também ela, controversa, uma vez que determinados analistas continuam a argumentar que a solução táctica emocional e desesperada é mais própria de nativos com Sol em Carneiro. Adiante, o chuveirinho é, como a Caderneta já avançou, mais frequente em finais de jogos ditos impróprios para cardíacos (oh meu El Pibe, outra!), em que uma equipa tenta reduzir uma desvantagem que não lhe é consentânea com o prestígio ou objectivos, ou um daqueles empates encravados Made in Bessa. Todavia, o detalhe mais importante e aquele que importa reter, é a carga de fiasco que o termo acarreta. Autêntica expressão de uma desolação kierkegaardiana, o treinador que ordena o chuveirinho sabe que não é capaz de fazer melhor naquele momento. Assume que falhou até ali, que a equipa partiu irremediavelmente, e que, mesmo que ganhe, restam-lhe as chagas de ter descido ao grau zero da criação futebolística. Prova disso mesmo é a alteração posicional mais frequente nestes casos de psicose da bola, a subida de um defesa central a ponta de lança. Ironia das ironias, há jogadores que usaram e abusaram desta esquizofrenia para brilhar e fazer nome na história da bola lusa, casos de João Manuel Pinto no Porto de Robson ou Paulo Pereira, anos antes um herói no Estádio da Luz. Claro está que nenhum treinador passa por esta experiência de calvário quase bíblico incólume, porque sabe que mesmo atingido o objectivo, houve uma espécie estranha de batota. Muitas vezes, em casos clínicos extremos, o chuveirinho nem parte da iniciativa do treinador, já derrotado dentro de si mesmo e remetido ao fundo do banco, mas dos jogadores, bloqueados pela pressão e pela obsessão do golo, um autêntico acto falhado freudiano. O objectivo intermédio, antes do golo, é, no entanto, a acumulação de cantos, porque garante um cruzamento para a área e um robustecimento das estatísticas no final do jogo, esse adereço indispensável a qualquer vitória moral. O que já de si é uma assunção da falha irrevogável. Um último detalhe sobre este filho bastardo da arte de bem tratar a redondinha é o facto de ser um fenómeno claramente transclassista. Desde os grandes aos pequenos (para quem acredita em diferenciações desta índole), desde os infantis até aos séniores, toda a equipa já passou por aí, seja o Manchester United (na final da Champions League em Camp Nou contra o Bayern, em que a coisa, claramente, resultou) ou o Leixões (na final da Taça de Portugal contra o Sporting, desaproveitando assim a nobre arte da bola no chão do artesão Detinho). É como uma fraqueza da espécie, um vício tribal, uma dessas imperfeições que nos lembram que até Capello e Diamantino Miranda são humanos, aliás, a expressão da persona da bola, em tudo aquilo que tem de bom, mau e por vezes assustador. Uma questão velha, tão velha quanto o medo sobre o relvado.
Caderneta da Bola: Pelo regresso de Manuel José e contra o frio moscovita. Donativos para a campanha em caderneta-da-bola@megamail.pt.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Quando falamos de Santana, falamos, claro, de Luiz Alberto Santana, conhecido para o mundo do futebol como Luizão, impiedoso defesa central brasileiro, um guerreiro cego que jogava como se a sua grande área fosse o Delta do Mekong em 1967. As origens duvidosas, o Londrina Futebol Clube, time do Campeonato do Estado do Paraná, não obstaram à sua contratação pelo tal polémico presidente, dr. Pimenta Machado, xerife do condado-berço que o trouxe para defender as cores do Vitória. A história, de resto, escreveu-se no post anterior: se o objectivo era num dia Portugal e no seguinte a Europa, Luizão, com quatro jogos, não foi longe no intento, tendo passado as duas épocas seguintes a almejar o lugar que outrora granjeara. Na primeira, com as cores do Varzim, foram 28 desafios de puro esplendor marcial, seguindo-se depois a defesa da linha de Chaves, alinhando na defensiva flaviense, guilhotinando os adutores de toda e qualquer invasão por 29 ocasiões. Saldo disciplinar das duas épocas: 6 vermelhos e 22 amarelos. Para o tal presidente, porém, tudo isso serão já águas passadas, material para esse enorme saco azul que é a memória distante. E selectiva.