domingo, dezembro 28, 2003

A voz. Detalhe importante na formação e composição de um futebolista, a voz tem sido esquecida ao longo dos anos. Não é à toa que a língua portuguesa cunhou, através dos tempos, a expressão "voz de comando". O comando, o carisma da liderança é o que distingue, por exemplo, um Portela de um Tó Sá. Sim, Portela granjeou durante épocas a fama de lateral direitocorrectíssimo, competente a defender, pontapé forte, o arquétipo do lateral mediano. Mas Tó Sá é o nome que emerge quando os adeptos sadinos se sentam à mesa numa tasca da baixa de Setúbal a relembrar os laterais direitos do histórico clube do Sado (à direita, porque José Rui, esse lateral quase selvagem, nunca se lhe comparou e à esquerda Rui Carlos ainda traz lágrimas de saudade aos mais indefectíveis da Fúria Sadina). Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a um Vitória de Setúbal-Farense in loco facilmente discirnem que Tó Sá é um lateral de voz mais profunda que Portela. E este é um exemplo frágil, já que , salvo raras excepções, o lateral é mais solicitado que solicitador. Se falarmos de centrocampistas, como é o caso, a falta de voz torna-se um problema ainda mais grave. Infelizmente, a aturada investigação historiográfica dá-nos razão. Um caso paradigmático, o que trazemos aqui hoje, é o do maestro brasileiro Carlos Miguel. Contratado pelo Sporting naquela que é considerada a Idade das Trevas do clube verde-e-branco (as dinastias depois de Jozic, doravante designadas de DC, e antes de Inácio, AI). Nesse período de seca, em que o leme esteve inenarravelmente entregue a figuras como Carlos Manuel (que ainda hoje faz valer uma carreira de treinador às custas de um pontapé em Estugarda, carreira essa que encontra paralelo somente em nomes como Diamantino Miranda ou Bernardino Pedroto), Vicente Cantatore e, claro, o pioneiro dos três trincos Octávio Machado, Carlos Miguel chegou a Alvalade rotulado de "melhor número 10" no activo em terras de Vera Cruz. Ídolo no São Paulo, o regista nunca chegou a singrar no Sporting, onde prometeu na pré-época mas onde, em jogos oficiais, nunca pegou na equipa como era esperado. E estamos a falar de uma época em que os adeptos sportinguistas ainda estavam escaldados com o caso Roberto Assis, esse médio-centro vindo da Suiça com o colossal Ahmed Ouattara (e que hoje é empresário do seu irmão Ronaldinho, jogador do Barcelona) e perplexos com o fenómeno paraguaio César Ramirez, segunda encarnação de Cantiflas e ídolo do Topo Sul do defunto José de Alvalade, desde que foi a Israel fazer ao Beitar de Jerusalem o equivalente futebolístico daquilo que o Hamas tem vindo a fazer em Telavive. Voltando a Carlos Miguel, manteve-se o mistério do ocaso por mais de meia época. Porquê? Nenhum problema de adaptação noticiado, nenhuma lesão grave, nenhuma explicação oficial. Até ao dia em que a equipa da Caderneta da Bola se deslocou ao campo de treinos leonino, no âmbito de uma cadeira do Mestrado em Futebolês Contemporâneo - O Caso Português. Um treino, uma única sessão, talvez bastasse para descortinar o porquê do baixo rendimento da equipa em geral e do brasileiro em particular. E a realidade é que, uma vez chegados, apenas uma voz se distinguia das demais, a de Pedro Barbosa, o falso lento do futebol poético, por vezes belo e genial, por vezes ausente e superfluo. A voz, firme, segura, o "deixa, que é minha!" pronunciado na perfeição, o "estás só!" soprado com segurança, o clássico e eterno "vai, caralho!" articulado irrepreensivelmente. No meio de tudo isto, Carlos Miguel invisível. Até que, num dos raros momentos de silêncio, uma voz soa - "Aqui, passa passa!". A Caderneta olha em volta, pensando que a voz pueril que acabara de ouvir viera talvez de um miúdo a brincar com o pai. Uns segundos de desconcentração e, quando os olhos regressam ao relvado, a bola está nos pés de Carlos Miguel, que a devolve a companheiro tornado a gritar. O cenário grotesco do número 10 com voz de eunuco era demasiado real para ser verdade, com toda a carga paradoxal que isso carrega. A voz, num futebolista, salvando raras excepções de foras de série ou génios intemporais, torna-se, como comprovado, num critério tão válido como a idade ou o número de internacionalizações. Certas correntes defendem mesmo a substituição do sistema AA + Sub-21 pelo de Baixo + Barítono + Soprano. A verdade é que Carlos Miguel regressou ao Brasil no final dessa época sem ter ganho a confiança nem do treinador, nem dos adeptos, nem dos colegas. Nunca pegou no jogo, nunca encheu o campo. A voz, caríssimos, nunca lhe possibilitou impôr o espaço necessário a um número 10 para expôr a sua pleíade de artimanhas. E com estas incontornáveis idiossincrasias, o mundo da bola vai escrevendo a sua história, decepando cruelmente os mais fracos, trazendo Darwin para dentro das quatro linhas, desenhando uma linha de evolução que traz sempre um Punisic depois de um Abdel Ghani, um Fertout depois de um Embé, um Taoufik depois de um Basaúla. Lei da vida, norma da bola.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Caderneta da Bola: um blog com superavit tecnicista a meio-campo. Luvas pretas e suplementos vitamínicos para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A Caderneta da Bola deseja uma óptima segunda volta a todos os adeptos da bola deste país e de além mar, especialmente aos mais desfavorecidos, como os adeptos dos históricos Leça FC (último classificado da Zona Norte da II B) e do Farense (penúltimo classificado da Zona Sul da II B). Votos de um Santo Natal e muitas trivelas, pontapés do meio da rua e golos limpos no ano que se avizinha, entre o Euro e o Neuro. Prometemos na chuteirinha uma série de novidades nos próximos dias, que é como quem diz "havemos de meter aqui algum post pelo menos até meados de Março", como o final da História Interminável de Chaves, assim como revisitações a outros plantéis históricos (o muito ansiado Farense, por exemplo), e a autópsia ao monstro (agora defunto) Parmalat, assassinado publica e barbaremente a tiros de Clóvis, Paulo Nunes e Donizette, tanto nos relvados como nas bolsas de valores por esse mundo fora.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Prossegue o jogo no Municipal de Chaves, desta feita com os canticos apontados para Edondo Amaral Neto, o pigmaleao brasileiro que marcou a decada de 90 em Tras os Montes sob o nome de codigo Edinho. Hoje com a provecta idade de 36 anos, Edondo resiste nas sinapses de todo e qualquer apaixonado pelo futebol dada a sua existencia contraditoria. Apesar de parecer esguio, baixo e encurvado, com uma tecnica repentista, ao jeito do italiano Sandro "La Cobra" Tovalieri, saudoso sniper da costa adriatica, numerosos relatos existem de um Edinho alto e possante, mais ao jeito de um belicoso Igor Protti, o Sansao retroescavador de Bari (nota: a Caderneta internacionaliza-se progressivamente, expandindo alem fronteiras a sua 'luta de classe'). Aquilo que concede a Edondo a sua aparencia hibrida, e aquilo que, porventura, tornou Edondo em Edinho, era a sua compleiçao solida, integral, como um so bloco de carne, osso, sangue e golo. A cabeça achatada, os ombros colados ao pescoço, um peito curvaceo e tenso como uma ameaça de bomba, enfim: Edinho, sintese tropical de David e Golias, era um jogador explosivo. FIM DA 1a PARTE

domingo, novembro 23, 2003

Caderneta da Bola: "A verdade é esta... Estamos desfalcados mas unidos. Sabemos o que queremos e vamos lutar todos os domingos pelos três pontos!" Pontapés de ressaca para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A essência do futebol... Bastas vezes foi escutada ou lida esta expressão nos mais diversos espaços que se debruçam sobre o roliço esférico lusitano. O que é afinal a essência do futebol? Serão os golos? Provavelmente sim na opinião de um José Carlos Soares. Para Gabriel Alves a resposta seria provavelmente o “futebol de ataque”, considerado aqui na sua dimensão mais abstracta, apimentado com umas quantas trocas de posições entre os dianteiros de um qualquer onze, conseguidas através de diagonais e desmarcações. Porém aqui no Desportivo Caderneta da Bola somos muito menos ontológicos. Seremos mesmo a atirar para o metafísico, assim como é Luis Campos a atirar clubes para a Segunda Liga. A irracionalidade. Sim caros leitores. O futebol está atravessado por uma profunda irracionalidade. E apesar d´A Caderneta da Bola se esforçar para proceder a análises pautadas por alguma objectividade, confessamos que por vezes tal tarefa se torna tão difícil quanto difícil foi para o jovem leão Litos perceber que, afinal, o mundo não iria ser seu. Porém, será porventura legítimo pensar que, a existir alguma área que gravite em torno do futebol que se deseja e se espera imúne a tal flagelo, esta deveria ser o dirigismo. Ou talvez não. A rivalidade entre clubes afecta mesmo o dirigente mais carrancudo, levando-o a cometer verdadeiros enigmas, contratando sem razão aparente um jogador de qualidade questionável só porque militou em tempos num rival, ou então, quando o defrontou, produziu exibições de encher o olho, despoletando a esperança no responsável desportivo, que tais exibições se repitam desta vez com o dito jogador no seu plantel. Terá sido isto que terão pensado os dirigentes leoninos, quando tomaram conhecimento que numa eliminatória da Taça de Portugal, um jovem avançado, portador de um nome que fez história no clube de Alvalade e na baliza da selecção nacional, enviou três bolas para o fundo da baliza do FC Porto. Sim... falamos de Ivo Damas. Jovem avançado do Maia que brilhou a grande altura nessa tarde contra os campeões nacionais, tendo sido o seu hat-trick, apesar de tudo, insuficiente para afastar os portistas que triunfaram 3-4. Passado apenas algumas semanas, este esguio e rápido dianteiro, tinha rubricado um contrato-relâmpago com o Sporting, Em dois anos, este penafidelense, passou do modesto Paredes da III Divisão, para um dos principais clubes nacionais. Porém, aquilo que esta transferência teve de mais surpreendente, foi a duração do contrato... 7 anos! Estaríamos diante da maior star-to-be da bola lusitana? Teriam os leões cravado as garras num intérprete cujo sublime manancial técnico-táctico passou ao lado dos seus rivais? Bom... a ver pelo que seguiu, a resposta será um rotundo “NÃO”. Uma mão cheia de jogos na principal equipa dos leões, e exibições que, de tão descoloridas, fariam um qualquer cruzamento de EL Hadrioui para uma qualquer bancada Superior da Luz, parecer um excitante lance do mais burilado futebol. O nosso Ivo foi para o satélite da altura, localizado no nosso Far-Oeste, lá para os lados da Lourinhã. E lá... depois de uns quantos Jack Daniels no Saloon da rua principal, tendo o som dos cascos dos cavalos e o constante ranger das portas e do soalho do estabelecimento como paisagem sonora , os nativos acederam em contar-nos a lenda de Damas, o Avançado mais rápido do Oeste, que iria levar o Lourinhanense até ao próximo escalão do futebol nacional. Pelo menos foi assim que ele foi anunciado... Porém, nunca ninguém lhe pôs a vista em cima. Ivo “A Bala”, como chegou a ser conhecido, nunca chegou a alinhar pelos Verdes do Oeste e, conta a lenda, terá sido o vento que o levou... sem ninguém alguma vez lhe por a vista em cima. Ivo subiu rápido é verdade... mas a Física não nos trai... e o que sobe, também desce. E por vezes bem rápido. Depois do Oeste e da rescisão do contrato com o Sporting, seguiu-se Alverca, depois a Ovarense e por fim os Dragões, não os da invicta, mas sim os de Sandim, que como é lá perto, acaba por ser quase a mesma coisa. O jovem Ivo sentiu na pele aquilo que muitos sentiram, o panteão dos eleitos à distância de um braço. Mas por vezes... um braço é muito, como muita foi a desilusão dos dirigentes leoninos ao verem a sua jovem aposta e o seu triste fado...

terça-feira, outubro 21, 2003

ROBERTO MATUTE: 3a E ULTIMA PARTE DA SAGA. Em Belem, o regresso as boas exibiçoes. 26 jogos e 8 golos, com os pasteis na Segunda Divisao de Honra, e o possante espanhol, olhos fixos no Tejo, cada vez mais a arrastar o seu poderio fisico pelo relvado. Apesar dos jogos correrem de feiçao e a sua media nao ser de menosprezar, notava-se em Matute um ligeiro aumento de peso e perda de velocidade. O dominio da tecnia da Morte Toraxica continuava intacto, mas Belem pedia mais. Assim, no final da epoca, com o passe na mao, é tempo para mais uma corrida, mais uma viagem. O destino? O Dundee United, lendario clube escoces do feiticeiro tobaguenho Russel Latapy, galardoado com um voto na escolha dos seleccionadores FIFA para melhor jogador do mundo, e sobejamente conhecido pelo sanguinario duelo com Jokanovic e por ter furado as redes de um estadio brasileiro num estagio do FC Porto de final de epoca (momento que o programa Contra Ataque registou para a posteridade, como é seu apanagio). Foi na Escocia que Matute viveu a febre do bug do milenio, alinhando apenas em 5 encontros. Os frios ares da Escocia fizeram dele o ultimo hispanico de renome a alinhar na frente de ataque do clube escoces, ate a chegada de Claudio Cannigia, ja devidamente recuperado do stress pos-traumatico provocado pelo embate com Coroado na Luz (a celebre Batalha dos Cartoes). Depois da Escocia, o regresso a casa e hoje pode dizer-se que Roberto Matute agita o mercado dos escaloes secundarios da Liga Espanhola, tendo recentemente protagonizado uma bombastica transferencia, ao recusar renovar com o Gramenet para assinar pelo Recreacion. Um cidadao do mundo, sempre na vanguarda, ou o ultimo de uma rara estirpe de colossos irredutiveis a tentar mostrar ao mundo que ainda ha espaço para a tecnica da força. Chaves e nos, como sempre, nao esquecemos.

segunda-feira, outubro 20, 2003

Depois de um tackle extremamente agressivo de um jogador magrebino ter transformado a ode a Matute num mero prologo de homenagem (um carrinho ao jeito do saudoso belenense marroquino M'Jid), urge continuar a travessia por esse homem que, tivesse tido arte, engenho e bons conselhos, seria um verdadeiro pichichi na liga de nuestros hermanos. Jogador sintese do poderio animal, Roberto Matute reinnava na area como o leao reina na savana, uma supremacia fisica imperial, qual Cortez a invadir as Americas. Nascido em Agosto de 1972, Roberto Matute Puras começou a dar nas vistas no Logrones, onde os olheiros flavienses o foram descobrir, a ensinar as camadas jovens a matar a bola no peito. "Matar no peito", expressao do futeboles que romanceia a arte de roubar a vida a uma vola veloz, fazendo-a adormecer na caixa toraxica, requer uma mestria acima da media: o gesto simultaneo de levantar a cabeça, calcular a trajectoria da bola, posicionar o tronco, dar-lhe a inclinaçao adequada e depois, encaixar o impacto deixando a redondinha rolar até a ponta da bota nao é facil, mas Matute fazia como quem come uma tapa. Em Chaves, obviamente, titular indiscutivel na temporada de 96-97, passeando numa frente de ataque que conheceria tambem os avançados espanhois Miner e Dani Diaz, para alem do poste romeno Cuc. Nessa temporada, 10 golos em 34 jogos, media assinalavel, em Tras os Montes. Na temporada seguinte, um ligeiro declinio para 26 jogos e 3 golos, perda de rendimento que levaram o tigre catalao a paragens mais a sul, e mais azul. Era tempo de Cruz de Cristo. FIM DA PARTE 2 Nao percam, carissimos leitores, a conclusao da odisseia de Roberto Matute, nos proximos dias!

quarta-feira, outubro 15, 2003

(ponto previo: este post sera escrito com muito poucos acentos, dada a longinqua proveniencia, um lugar onde os teclados sao tao diferentes quanto o estilo de jogo da lusolandia) Arrumado o ponto previo, o Chaves. Os rasgos de exuberancia futebolistica e os excelentes golos de bandeira dos saltimbancos da bola lusa regressam agora à sede dessa paladina missao que é o Tras-os-Montes All Stars da decada de 90. O holofote recai agora sobre o portento catalao Roberto Matute. Apesar de ser um nome que nao necessita de grandes introduçoes, impoe-se a resenha. Impoe-se porque se existiu jogador que personificava a expressao "mata no peito", era Matute. Um pouco à semelhança desse Messias chamado Jesus Seba, futebolista de 24 quilates, garboso bolide de 160 cavalos quando engatado na ala direita, Roberto Matute era tambem ele um genuino produto do animismo futebolistico, esse sentir do futebol como uma religiao primordial, que tranforma os jogadores na expressao pura da divindidade dos animais selvagens. Matute era assim, corajoso como um falcao, indomavel como um puro sangue arabe mas tambem preguiçoso como um reptil herbivoro. FIM DA 1 PARTE

terça-feira, outubro 14, 2003

Existe um conjunto de jogadores, admiráveis exemplos de dedicação e profissionalismo, hoje em dia ídolos de torcidas, fantásticos intérpretes dessa arte que todos amamos, que começaram a carreira de jogador de futebol espalhando a sua magia pelos campos pelados e irregulares das divisões distritais nacionais, prepassando contextos amadores dos quais certamente fariam parte os balneáreos sem àgua quente, as invasões de campo semanais e o fanático adepto decano que se encosta todas as semanas no mesmo local do varão de metal que divide o campo da assistência, insultando o lateral da sua equipa que adoptou como ódio de estimação. É por estas e muitas outras razões que uma Ode a estes esmerados proletários da bola se torna absolutamente inevitável. Como é possível que, nas condições eufemisticamente acima descritas, tenham brotado talentos de valor inquestionável que, desafiando as leis da reprodução social, romperam as amarras que os prendiam à mediocridade e ao amadorismo, libertando-se para os principais palcos nacionais e não só, delineando uma trajectória ascendente da qual são eles os principais responsáveis, vertendo sangue, suor e lágrimas para obter o reconhecimento que justamente julgaram merecer. Certamente foram mais e provavelmente haverá outros cuja referência seria de uma elementar pertinência. Porém, aqui na Caderneta, confessamos que existem dois jogadores de quem somos incondicionais fans e em quem vemos todos os outros que ficaram por referir. O primeiro chama-se Marco Júlio Castanheira Afonso Alves Ferreira. Conhecido para o mundo da bola como Marco Ferreira, diabólico extremo-direito, sublime personificação do Mighty Mouse e executante na linha de um Gamboa ou de um Rui Borges. Actualmente ao serviço do FCP, este extremo transmontano também avançado ou segundo ponta-de-lança, começou a sua carreira no Vimioso corria a época de 95/96. Apenas uma época nos séniores foi suficiente para que o Tirsense, clube que estava nesse momento no início da sua dolorosa descida directa da primeira divisão para os distritais e que militava na divisão de honra, reparasse no talento que brotava dos pés deste ala supersónico. A seguir a Santo Tirso veio o reconhecimento além-fronteiras. Marco ruma até Madrid para jogar no Atlético... B. Sublinhe-se aqui o facto de nunca ter sido dada uma oportunidade ao nosso driblador transmontano na principal equipa dos colchoneros, algo que cremos ser uma profunda injustiça, sobretudo se pensarmos que por volta desta altura andava Carlos Secretário a provocar ataques cardíacos aos adeptos blancos do Real, jogando ao lado de Raul, Seedorf e Mijatovic. A seguir veio o Oriente. Enquanto os grandes jogadores lusos na pré-reforma como Paulo Futre ou Rui Esteves viam no futebol asiático um palco para acabarem as suas carreiras, o nosso jovem Marco via no país do sol nascente um campeonato capaz de lançar definitivamente a sua, algo que efectivamente não se passou..Da sua passagem pelo país da Yamaha e do sushi não rezam grandes crónicas. Desiludido com a sua aventura além fronteiras Marco regressa a Portugal. Recusando ser mais um exemplar do tipo de jogador que, à falta de melhor termo, definiremos de “next-big-thing-que-nunca-chega-a-ser”, o nosso extremo começa a cimentar a sua posição no nosso futebol. Uma época no Paços de Ferreira, seguida por três no Vit. de Setúbal e exibições de encher o olho levaram-no à selecção de todos nós e ao Futebol Clube do Porto, onde alcançou o estatuto de arma-secreta na final da Taça UEFA do ano passado. Do Vimioso transmonano até à final da Taça UEFA em Sevilha, Marco Ferreira escalou todos os degraus que separam o mais patético amadorismo da elite do futebol europeu. Marco... terão sido muito poucos a conseguir o que tu conseguiste. We bow to thee... Existe ainda outro homem que também admiramos de forma incondicional e que também se enquadra no perfil a que aqui se procura prestar tributo. José Alberto Mota Barroso. Mais conhecido pelo seu último nome, este trinco, também carregador de piano e homem do pontapé canhão iniciou a sua carreira de sénior no Arsenal de Braga, clube que militava nos distritais. Com uma carreira com mais de 10 anos, Barroso é um historico do principal clube da cidade episcopal, o SC Braga, e apesar de nunca ter conhecido outros paises na sua trajectória profissional, conheceu os balneários do Rio Ave , da Académica e do FC Porto, onde se sagrou campeão nacional. Também este esmerado artista alcançou o estatuto de internacional fruto de uma regularidade impressionante, regularidade esta adornada com uns quantos golos de fora da área que conseguiu amealhar ao longo das épocas, figurando alguns deles entre os melhores dos últimos anos do futebol nacional. A sua imagem de marca é sem sombra de dúvidas o seu remate violento, injustamente apelidado por algumas correntes duvidosas de pontapé “à matreco”. Alusão ao jogo dos matraquilhos e aos golos que, por vezes, se obtêm quando a bola depois de rematada bate num par de jogadores antes de entrar na baliza. A esses hereges dizemos “no passaran”! Barroso é um jogador que seria titular em quase todas as equipas da divisão maior do futebol nacional e não seria totalmente desprovido de sentido uma convocatória para o Euro. Este desejo já foi expresso pelo próprio. Pelo menos uma oportunidade nos amigáveis deveria ser-lhe dada. Alguém consegue dizer que Luis Loureiro é um jogador mais completo que Barroso? ...Meros mortais ou algo mais? Marco Ferreira e Barroso representam uma estirpe rara de praticantes do desporto rei, estirpe essa cujo carácter se encontra atravessado por uma irreverência indomável que parece dotar estes magos do esférico de capacidades sobre-humanas, capazes de os fazer escalar todos os escalões até aos píncaros da bola.
Devido à contratação relâmpago de um dos nossos redactores pelo Sportif d´Nanterre parisiense, contratação essa que contou com o dedo mágico do seu empresário Monsieur Erasmus, a Caderneta da Bola encontra-se algo desfalcada para atacar em força a época que agora se inicia. Descansem os leitores. A saga flaviense será concluída. Porém, impõe-se agora uma Ode a alguns dos mágicos da bola que, em tempos idos, antes de brilharem na divisão primeira do futebol português e na selecção de todos nós, passaram pelas divisões distritais, enriquecendo os planteis de clubes que nem o adepto mais conhecedor terá ouvido alguma vez falar.

segunda-feira, outubro 13, 2003

A Caderneta da Bola faz hoje uma viagem até à cidade do antigo governador civil, transformado em Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, viajando de moliceiro pela Ria de Aveiro, até chegar ao rural Mário Duarte, onde a relva é tão comprida quanto o cabelo do antigo central Dinis. O nosso visado é Aldo António da Costa Soares, conhecido no meio por Simone, que não tem como primeiro nome Marco, nem como apelido De Beauvoir, avançado da classe de 66, angolano de origem, descoberto para as lides da bola pelo mítico treinador dos onze dedos, Álvaro Magalhães, quando treinava o Lusitânia de Lourosa, repleto de figuras do 'triste fado' futebolístico nacional, como o 'veterano' ponta de lança Penteado, que até tinha pouco cabelo ou o defesa Carmindo, dos tempos do Águeda primodivisionário, isto para não falar dos promissores Basílio Almeida e da 'eterna promessa' Marco Stromberg, um extremo que, aos 10 anos, era vedeta dos infantis do 'Glorioso' da Luz. Esta equipa destacou-se na época de 93/94, por ter chegado aos quartos-de-final na prova rainha, eliminada pelo Sporting em Alvalade, depois de ter superado o Belenenses de João Alves, num jogo “bombástico”, numa partida em que a relva parecia ter chegado directamente de Paranhos para substituir a que tinha sido destruída por Mark Knopfler nos seus concertos à grande-jogador-só-que-temos-o-plantel-fechado. De qualquer maneira o Lourosa, foi para essa época aquilo que o Sandinenses viria a ser mais tarde, isto é, uma equipa, vinda do deserto do nada, em busca do Graal, impossível de alcançar, que é o ceptro de Taça, que às tantas, deixa de o ser. Depois de passagens pela terra de Vieira de Carvalho e pela Vila das Aves, o avançado Simone, que não era alto, muito menos loiro, mas era tão tosco como o jogador que deu origem a essa expressão, deu nas vistas na sua segunda época de Lourosa, onde marcou treze golos em vinte e nove jogos, e logo saltou para o Beira-Mar, onde nunca se impôs. É certo que a herança de Dino “Dumbo” era pesadíssima, mas o seu rendimento foi tão baixo, que acabou por ser recambiado para a margem...sul! A Amora era o destino, com José Rachão como técnico e o grande comentador e 'bombista' Manuel de Oliveira, que ao contrário do realizador, cultiva um estilo mais “mexido”. Na Amora, as coisas voltaram a não correr bem, e no final da época o jogador procurou a redenção em Fátima, onde nunca encontrou a luz, neste caso, das balizas contrárias. Mas a explicação até pode ser dada pelo facto de não ter sido orientado em território santo pelo 'mítico' Válter Ferreira, que, para alguns, foi um 'pastorinho' fora do tempo. Quem não se lembra da história dos dólares com a face de António Oliveira? E o carimbo do N'Dinga? Depois de três anos de rasto desconhecido, com passagem pelas divisões inferiores do futebol francês, o regresso deu-se no local mítico da queda do avião de Sá-Carneiro, Camarate, jogando pelas águias locais. Mais uma corrida, mais uma viagem, mais um descalabro! A carreira do jogador estava irremediavelmente destruída, registando ainda uma passagem pelo Barrosas, dos distritais nacionais. Perguntará o caro leitor o que é feito de Simone? Resposta : Está detido, em Paços de Ferreira, por tráfico de droga. A NTV ao reportar uma partida de presidiários, apitada por Paulo Paraty, auxiliado por Carlos Calheiros, sem bigode, num encontro de notáveis, onde não faltou a presença nas bancadas de um antigo presidiário do balneário de Chaves (Major oblige), Vítor Reis, o canal com pronúncia do norte descobriu o jogador, que se mostra arrependido do que fez e disposto, ano e meio depois da detenção, a mudar de vida quando cumprir os cerca de seis anos que ainda o esperam. Resta saber se essa vontade de voltar atrás, não passa por esquecer a carreira de jogador, que, diga-se, teve sempre uns milhares de miligramas a mais.

sexta-feira, outubro 03, 2003

Façamos então mais uma pausa na odisseia flaviense agora que já se vislumbra a linha avançada deste notável mantra internacionalista que encantou durante anos a fio quem acompanha este nosso futebolinho lusitano para prestar homenagem a um homem que, injustamente, tem sido relegado para as trevas do esquecimento. Corria o ano de 1995. O dia? O de Portugal, Camões e das Comunidades... o 10 de Junho. O local? Estádio Nacional, ou como diria Pinto da Costa... “o Estádio de Oeiras”. Na final da Taça de Portugal defrontavam-se o Sporting, ainda na fase de seca e acabadinho de cumprir 13 anos desde o último título oficial, e o Marítimo, responsável pela eliminação do FCP nas meias-finais. No Sporting pontificavam nomes como Naybet, Balakov, Amunike, Iordanov, Carlos Xavier, Figo e o capitão Oceano. O Marítimo era capitaneado pelo duríssimo central Carlos Jorge e contava ainda com Zeca, Soeiro, Alex, Paulo Alves e o homem do pontapé canhão Heitor. Neste dia tão português, em que o Sporting com dois golos de Iordanov consegui finalmente beber àgua após 13 longos anos, quem brilhou foi um brasileiro. E esse brasileiro estava do lado dos derrotados naquela tarde de Junho. Falamos do guardião Everton. Quem esteve no Jamor nesse dia recordará com certeza a exibição absolutamente estratoesférica (mais para o esférico do que para o estrato) do Guardião das Barbas, responsável único pelo conservador resultado de 2-0, magnífico intérprete de uma dezena de intervenções grandiosas, havendo mesmo três ou quatro que raiaram o domínio do impossível. Everton foi grande. Enorme. O único jogador insular que não merecia ter perdido aquela taça. Podemos mesmo afirmar que se o Marítimo tivesse a sua baliza entregue a um Luis Vasco ou a um Vitor Nóvoa, o Sporting teria certamente chegado aos 6 ou 7 golos. A Caderneta deixa aqui a homenagem a este homem, último representante da corrente estilística jogador-barbudo (uma palavra para Zahovic que no princípio da corrente época adoptou um admirável visual guevariano) e personificação suprema de uma colossal força de vontade, ao continuar a prática desportiva após lhe serem retirados um rim e o baço, não deixando que o referido handicap lhe amputasse a carreira, proseguindo sempre ao mais alto nível e produzindo exibições como aquela aqui descrita. Everton, mereces toda a nossa reverência. Foste um dos melhores. Podiam ter-te tirado mais uns quantos orgãos que continuavas a estar no panteão dos guardiões de eleição. Nunca serás esquecido.

sexta-feira, setembro 26, 2003

Após uma breve pausa na Cruzada Flaviense, helas Toniño. Porque não apelidá-lo de Comandante da Armada? Centro-campista sem grande poderio físico, era no entanto o verdadeiro timoneiro da nau do Marão e por quem os adeptos flavienses não deixavam de sentir uma reverência inabalável. Quando o extremo adversário deixava por terra Vinagre, lá vinha ele, num carrinho esforçado junto à linha lateral fazendo levantar as bancadas do Municipal e evitando, sem o saber, uns quantos ataques cardíacos nos tiffosi transmontanos. Este basco defendia as cores do Chaves como se disso dependesse a autonomia da região que o viu nascer, e fazia-o de uma forma que deveria servir de exemplo aos jovens centro-campistas do miolo, de uma forma abnegada, altruísta, recusando qualquer tipo de protagonismo. Era aquele tipo de jogador discreto, por vezes nem se dava por ele, fazendo o trabalho invisível, de marcação no meio-campo e de corte de linhas de passe. Era ele que dobrava os devaneios driblísticos de Milinkovic ou de Paulo Henrique que, em irresponsáveis subidas, comprometiam a robustez táctica da equipa. Aliado a isto tudo, tinhamos como anexo um poderosíssimo pontapé de longa distância. Talvez não ao nível de um Heitor, mas também capaz de causar sérios danos na integridade física de quem se encontrasse na trajectória da bola. Este estilo de jogo foi refinado ao longo de vários anos na cantera do Athletic Bilbao. O comunitarismo calculista e a rebeldia contida e permanente encerram toda uma postura marcadamente regional. Toniño porém, na sua polivalência silenciosa, stranger in a strange land como era Chaves perante o seu carisma, transportava o grupo para aquele patamar de jogo em que se distinguem os conjuntos de homens das equipas entrosadas, chamando a si o papel da referência. Não a referência técnico-fantasista, como Milinkovic, não a referência autoritária, como Manuel Correia, mas a referência da salvaguarda, de segurança e lucidez. Os companheiros e a afición sabiam que aquele ali seria o último a cair. E cairía com arte, de pé, como as árvores dos sábios que aprenderam a venerá-lo.
Eis-nos então prontos para mais uma incursão no universo dos programas desportivos. Não tão mediático como o Domingo Desportivo, não tão exaustivo como Desporto 2, não tão polémico como os Donos da Bola nem tão político como o Jogo Falado. Falamos do Contra Ataque. Programa com a mesma idade da televisão da igreja, orientou os acólitos em manhãs de verdadeiro catecismo futebolístico e viu passar pelos seus quadros algumas das mais inesqueciveis personagens da bola falada. Possuidor de um elenco eclético e esmagador, capaz de acolher da mais doce donzela ao mais rude analista. Passemos, então, em revista os arautos da nova mensagem da bola. Tutelados pelo mentor Silva Resende, que com a sua rubrica "De Cabeça" dava autênticos cursos de religião e moral futebolística, aos que se conseguissem manter acordados e atentos aos galões deste encartado ex-dirigente federativo e eminente diplomata da FIFA, a equipa mostrava grande entrosamento. Na baliza, José Carlos Soares. Pausa para respirar fundo. O que dizer? O bombástico polivalente da televisão portuguesa, mostrando grande à vontade na socialite desportiva (um autêntico Paulo China com carteira profissional de jornalismo), apimentava as sessões televisivas com argúcia e tenacidade. Rápido na análise, precipitado por vezes nos comentários aos jogos (visível pela reputação de enfant terrible que granjeou ao emparelhar relatos da Liga Espanhola com Carlos "Terminator" Mozer). A irreverência leva-o mais tarde ao posto de guardião da selecção portuguesa de futebol de praia e, por consequência, ao lugar de compagnon de route de ídolos como Hernâni (a fenix renascida nas areias da Figueira da Foz) e Nunes. Como jornalista, o Contra Ataque foi o começo, como foi o Beira Mar para o jovem Joel. Depois de JCS, Brigitte. Brigitte Martins, número 10 na camisola, distribuindo jogo como a cara vísivel do Contra Ataque. Incompreendida aprendiz dessa tágide do desporto, essa Pierre de Coubertin de saias que foi e é Cecília Carmo (de quem nós aqui somos indefectíveis), Brigitte mostrava mais à vontade nas Docas (com Kenedy, por exemplo, ou qualquer outro jogador que quinze dias atrás houvesse marcado um golo de belo efeito e por conseguinte elevado à categoria de esperança lusa) do que a ler o teleponto. Os seus trunfos: o sorriso e a postura hirta, para além do corte de cabelo que, apesar de tirado a Cecília Carmo, mostrava aquela extravagância que só um par de madeixas caju conseguem imprimir. O carregador de piano e ocasional central de marcação, no entanto, era um brasileiro de peso, José Roberto Tedesco de seu nome. Tedesco acompanhou todavia apenas os primeiros anos desta equipa, dada o seu retorno prematuro ao futebol brasileiro. Aqui na Caderneta crê-se que o afastamento da equipa terá estado alegadamente relacionado com um episódio de infeliz precipitação, ao comentar uma substituição de Artur Jorge ao serviço do Benfica como uma alteração digna de "um treinador com tumor na cabeça". O (mau) génio do comentarista ter-se-á assim devido a esse carácter volátil e jocoso do tropicalismo, bastas vezes incompreendido pelos sorumbáticos adeptos lusitanos, mas também à dura realidade que era o Benfica Parmalat de Nelo, Tavares e restantes. Tedesco era autor da rubrica Brasileirão onde, pela primeira vez em Portugal, os bolómanos tinham oportunidade de vibrar com os lances mais importantes de jogos como Paysandu vs. Curitiba ou acompanhar a carreira do Juventude de Ponte Preta. O choque civilizacional terá sido demasiado forte para este ácido zagueiro de 150 quilos. Terminando o périplo, o benjamin da equipa, entretanto promovido também a reportér de exteriores em eventos de maior envergadura, como Europeus e Mundiais, o José Gabriel Quaresma. Sem dúvida o elemento mais discreto e cerebral da equipa, este médio direito repentista e de baixa estatura (e os especialistas sabem o quão importante é um centro de gravidade baixo num jogador que se quer rápido e eficaz) apresenta também credenciais que, extravasando a irreprensível leitura do teleponto e a antevisão au ralenti de cada jogo da jornada - com vedetas convidades a jogar ao Totobola - avançam até domínios inovadores como a reformulação de pronúncia de nomes de cidades europeias. Por exemplo, alguém alguma vez percebeu em que cidade é que Portugal estagiou no Euro2000? Ermelo ou 'Err-méh-lô'? José Nicolau de Melo, agarra este pupilo e, se estiveres a ler, responde-nos. Por todas estas razões, considera-se aqui injusto estes pedaços de análise televisiva ficarem atrás do palanque de programas como os citados no início, apenas porque Brigitte nunca foi bombardeada com sacos de urina ou porque o Rui Reininho nunca discordou de José Gabriel Quaresma no resultado de um Rio Ave-Campomaiorense.

quinta-feira, setembro 25, 2003

A Caderneta sente-se na obrigação de partilhar com o seu auditório um acontecimento de uma importância inquestionável. Vimos por este meio, o mesmo de sempre, confirmar que este vosso cantinho de bola falada, ontem um menino imberbe e sem provas dadas (lembrando o jovem Ramos que Paco Fortes um dia lançou às feras no S.Luis), hoje transformado numa amálgama de experiência e técnica que se assemelhará a um Milton Caccioli em plena época de 94/95 atingiu a mítica fasquia das 10000 visitas. Este número é tão mais intimidatório se pensarmos que se a cada visita correspondesse uma pessoa, seria mais que suficiente para encher um Eng. Vidal Pinheiro em Paranhos ou um Capitão César Correia localizado no quintal da família Nabeiro que alguém um dia apelidou de Campo Maior. A redacção agradece a preferência e promete aplicar-se a fundo, nem que para isso seja necessário uma tesoura por trás sem bola, para não defraudar as espectativas em seu torno criadas. E agora... bola p´rá frente... que para trás mija a burra.

sábado, setembro 20, 2003

Caderneta da Bola: Para quem prefere Mamadú Bobó a Aniki Bobó. Passes a rasgar ou entradas a pés juntos para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Aqueles que, sensatos, têm acompanhado o Terceiro Anel, constataram (emocionados, por certo) que estes sempre vossos partilham a odisseia historiográfica em duas mãos, uma aqui e outra lá mesmo - http://terceiroanel.blogspot.com . E é com profunda emoção e redobrada motivação que vemos expandir-se a ânsia do conhecimento e o número de pintores desta 'arte geométrica'. Bola para a frente.
O percurso historiográfico pelo Marão começa a revelar-se uma dor de cabeça, tal é a riqueza do plantel. Com efeito, desde os primórdios que a memória é a mais profícua fonte humana de surpresas e acreditem que mergulhar na memória até ao fundo para resgatar o Chaves tem tanto de doce como de conflituoso. Vêm estas linhas tentar justificar o facto de, depois de fechado o capítulo da defesa, e já em plena lavra de meio-campo, regressarmos à rectaguarda para dar conta de uma figura absolutamente imprescindível nos compêndios da bola transmontana. Ponderámos muito, sim, mas chegámos à conclusão que Denis Putnik merecia um memorial. Breve, mas suficientemente simbólico para o recordarmos como um dos esteios dessa agressiva transnacionalidade que tem feito do Municipal de Chaves esse campo de tiro que tão bem conhecemos. Denis Putnik, portentoso defensor, chega a Chaves com o título de campeão croata pelo Hajduk Split, à altura (93/94) com uma autêntica dream team (Milan Rapajic e Ivica Mornar no ataque, Balajic - "trabalho para ser melhor que o Maldini", disse um dia à chegada a Alvalade - e Buturovic - o nemésis de Secretário - na defesa). Alto, forte e espadaúdo, era a sombra onde Manuel Correia era a luz, era o gelo onde N'Dong era o fogo, era o rasto enlameado do atleta adversário. Apesar de apenas 3 jogos na época croata, chegou a Chaves para pegar de estaca e fazer, em duas épocas, cerca de 57 jogos e 3 golos, seguindo depois para... Leça. (é verdade, a Caderneta já lá andou!) Uma descoberta feliz de um dos mui obscuros agentes-fífia que pululam por esse Portugal fora, um homem recto e respeitado pela torcida (fontes bem informadas da Caderneta da Bola poderão vir, no futuro, a contribuir com curta prosa sobre a única claque organizada do Desportivo de Chaves, prestai atenção - ou talvez não), mas ainda assim, um incansável indutor de calafrios. Enfim, depois da curta abordagem aos guarda-redes, quem o pode censurar?

quinta-feira, setembro 18, 2003

Um pequeno interlúdio informativo na travessia blaugrana para uns quantos agradecimentos e umas declarações à imprensa. A Caderneta tem-se apercebido, com algum agrado, de que há cada vez mais adeptos a preencher as bancadas do nosso recinto, qual Estádio Diogo José Gomes nesse Sunday Bloody Sunday em que o Odivelas FC abateu, com um só tiro, o Salgueiros num duelo da Taça de Portugal. Serve a ilustração para registar uma curiosa analogia, entre o acréscimo de público e a emergência dos valores individuais no trato do esférico: tal como a sensacional façanha do modesto Odivelas FC foi meticulosamente orquestrada pelos pés de um homem cujo valor seria reconhecido anos mais tarde por esses relvados fora, Paulo Vida, também na agradecida Caderneta, coincidem os elogios e o aumento de visitas com a emergência dos mitos flavienses e a estreia a titular do virtuoso Rui Malheiro. De resto, o agradecimento às referências elogiosas e às palavras da massa associativa, que entre confusões de identidade e de heroísmos de anonimato (não o era também Kumba Ialá nos seus dois anos de futebol algarvio, afinal?), vai envergando com brio a camisola 12. E já a seguir, prossegue-se no porta-Chaves, com mais umas considerações sobre a escola luso-brasileira de comentarismo desportivo pelo meio. Ripa na rapaqueca.

sexta-feira, setembro 12, 2003

Só que o pior, o pior veio depois. Milinkovic decide abandonar a amada Chaves, rumando até território espanhol, criando um vazio na famosa e mítica posição "10". O filão "ex-jugoslavo" - expressão muito cara aos dirigentes portugueses nos 90's - era a solução desejada e a cassete milagrosa lá chegou às mãos de Álvaro Magalhães que lutava com unhas - ele até tem onze nas mãos - e dentes pela manutenção. Matic. Ivan Matic. O seu nome começado por "M", acabado em "ic", aproximava-o de MilinkovIC, assim como a sua respeitosa envergadura física (1,85/83), pois para "cérebros tarrecos" lá chegaria o tempo do ex-Celta, Carlos Alvarez. O sempre prestável presidente Luis Carneiro até terá mesmo confessado, a propósito da aquisição de Matic, que "este até tem um nome mais fácil de dizer que o outro". A camisola "10" estava entregue então a Ivan Matic, um ex-Hadjuk Split, mas pouco. Pouco? Pois, é que em Split poucos se lembrarão de o ter visto actuar com a camisola mais amada da mui bela cidade croata que viu nascer, em Abril de 1971, tão cerebral rebento. Infelizmente para as cores flavienses, cedo se percebeu que Matic, o Ivan no balneário, estava bem distante do Niko, o marido de uma campeã de basquete jugoslava. Matic até era canhoto, mas desde logo os "índios" flavienses começaram a usar expressões como "este é mais lento que a minha falecida avózinha". Que Deus a tenha em paz e sossego. Matic era defacto lento. Sem velocidade, sem chama e sem talento. Do seu pé esquerdo nem um golo saiu para amostra em duas temporadas e foi-se arrastando lentamente até à dispensa em direcção aos Açores, ao Operário. Mas operariado e Matic realmente não combinavam. Matic nunca foi homem de correr atrás da bola, mas, em abono da verdade, também nunca teve tempo para correr com a bola. Era tudo uma questão de desarme, de pressão e o bom do Matic lá ficava a ver os navios passar. Desconhecemos se terá regressado à sua Croácia de navio, no entanto, sabemos que andou a arrastar-se, pós-Operário, em clubes da dimensão de um NK Posusje e de um NK Marsonia, clube pelo qual - pasme-se! - apontou 4 golos, mas também deixou marcas do seu mau feitio, com alguns cartões vermelhos a serem-lhe exibidos. Esse facto ter-lhe-á valido a dispensa e, segundo o que conseguimos apurar, o bom do Ivan, aos 32 anos, anda a procurar clube. À atenção, é claro, de alguns clubes da 2ªB e 3ª Divisão portuguesas que ainda procurem um estrateg"ic".
Deixando o Almirante da Armada para depois, avançamos rumo a Milinkovic. Nikola Milinkovic, Nico para os amigos. Ide perguntar com brio por quem é que os forcados ribatejanos gritavam em êxtase na ida temporada do Alverca em 2000. Ide a Chaves, visitai os sábios vividos plantados à sombra de árvores centenárias e perguntai-lhes quem foi o maior armador de jogo que Trás-os-Montes viu até hoje. Ide às nevadas montanhas austríacas, ao Tirol, falar com os ultras do Graz AK, e perguntai-lhes quem é aquele imponente maestro de 1,90, forjado na Bósnia e amadurecido na bola portuguesa. Nikola Milinkovic era um jogador como já não se vê. Mágico e repentino, sem ser nervoso ou demasiado mexido, 190 metro a acabar com o reinado do número 10 franzino e bailarino. Um número 10 que literalmente empurra a equipa para a frente. Uma técnica diabólica, de elevar o futebol ao nirvana. Um fiorde na marcação de penaltis. E um semblante oprimido, austero e anguloso, sofrido. Não era só na alegria floreada que Nikola contrastava com a horda de usurpadores ao trono dos registas. Milinkovic transportava com a bola, a mágoa da sua alma. Atentemos na sua carreira: tal como um Miguel Torga do desporto rei, construíu a sua carreira por regiões como Trás-os-Montes, ou a galiza profunda e semi-urbana de Ourense, ou a lezíria plácida ao largo de Alverca, ou as inóspitas fendas cravadas no maciço austríaco. Um bucólico traduzido num futebol directo mas desencantado, apaixonado pelo simples que se faz onírico. Visto de si, o relvado era a densa e cruel Twin Peaks, e os escassos golos resultavam sempre em comemorações fantasmagóricas. De facto, no seu estilo bipolar, que de tão supremo parecia por vezes um caso clínico, criava, aos olhos do espectador atento, a ilusão de que à sua volta, em campo, jogavam apenas fantasmas.
Notícia de última hora: É com celestial prazer e fruição indescritível que partilhamos com a comunidade cadernética que a missão do enviado especial a parte incerta redundou num estupendo sucesso. E é com essa alegria que podemos confirmar finalmente - A Caderneta da Bola viu, com os olhos que a terra há-de comer, o Cigano d'Oiro Pedro Miguel. Todas as provações físicas e metafísicas compensaram. O enviado especial chegou vivo ao Estádio do Amora e pôde assistir in loco e unplugged a um treino da formação alviceleste da margem Sul. Na verdade, esta descoberta epifânica foi fruto do acaso. Ao largo do Estádio, há um vulto distinto que se destaca do plantel. Os olhos fecham para reabrir completamente pasmados. Pedro Miguel e seus apóstolos. Claro que toda a verdade contém dor, Pedro Miguel cortou o cabelo e, por causa da sua coluna, já não joga tão hirto e panorâmico sobre o campo. Ainda assim, transpira carisma e a classe inconfundível dos grandes timoneiros. Faça-se a vénia: Deus fez-te a ti e depois partiu o molde, Pedro.
Caderneta da Bola: Para quem os blaugrana jogam atrás do Marão. Passes picados para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Caderneta da Bola: para quem Anabela Chalana é a Yoko Ono da Luz. Passes picados para caderneta-da-bola@megamail.pt
Mais uma vez somos obrigados a interromper mais um, pensamos nós, sumarento relato historiográfico para nos direccionarmos para a dissipação de dúvidas e insinuações que à volta da Caderneta têm gravitado por essa blogoesfera fora. No blog Alegria do Povo (http://alegriadopovo.blogspot.com/) foram tecidas considerações que, não só por serem infudadas, não deixam de provocar no seio da Caderneta algum desconforto. Afirmamos desde já, sem reservas, que não somos os autores do "cautchú" do jornal "A Bola". Esses respeitaveis senhores, sem dúvida nenhuma grandes promessas da bola humurística, chegaram mesmo a treinar à experiência na Academia Caderneta XXII, não tendo no entanto convencido os responsáveis técnicos encarregados da capatação de jovens talentos que consideraram o que plantel já se encontrava fechado. Desejamos, como o desejámos aquando da sua partida, as maiores felicidades às pessoas em questão, que consideramos irmãos nesta penosa cruzada materializada na primordial urgência de provar ao mundo que Gil tinha 20 anos no Mundial de sub-20 de 91.

terça-feira, setembro 09, 2003

Finda por ora o périplo pela defensiva flaviense, não sem antes uma palavra de apreço a dois homens que em muito contribuíram para o Chaves ser aquilo que é hoje. São eles Patrick - não confundir com o médio Patrick Vaz (rebento de cópula luso-francesa, a outra face, figurativamente falando, claro, de uma moeda boavisteira chamada Quevedo) - e Vinagre. Estes dois jogadores 'eternamente jovens' foram e serão os expoentes da vaga de laterais rápidos que um dia pôs fim ao primado de stoppers fecha-bem-a-ala de fidalgos como Amarildo, por exemplo. Para estes dois, o campo adversário era sempre a descer, como quem desce a serra do Marão de bicicleta, ou como quem aprende a conduzir no IP5, quando vai dar passeios ao Sul. Enfim, como o tempo não existe, também não é a propósito destes dois bravos rapazes que o vamos inventar. Até porque adiante vem o Almirante Toniño, centro-campista e estratega de proa na Invencível Armada Espanhola que em tempos dominou airosa a terra Chaves.
Prosseguindo na flávia odisseia, eis-nos defronte de Parfait N'Dong. Excelso sapador gabonês, este portento é o protótipo do 'homem sem passado'. Nem a companhia, nunca confirmada além dos confins dos cafés do interior e do peão dos estádios secundários, do seu irmão N'Zé N'Dong ajuda a conferir a N'Dong (denominado em diversas sedes como apenas Parfait, numa curiosa acepção francófona do seu estilo de jogo) um carácter familiar, próximo, duradouro no tempo, uma carreira, até uma família, que certamente a terá. 'Homem sem passado' porque mesmo uma aturada busca nos registos cadernéticos é escassa para traçar a Parfait um percurso que vá além de 4 clubes em Portugal, o mais eminente dos quais o nosso GDC. 'Homem sem passado' porque Parfait N'Dong pura e simplesmente apareceu. Não veio de um clube, não granjeou uma fama de qualquer espécie, nada. Apareceu. Talvez fosse boa ideia inquirir os dirigentes do Amora que com ele assinaram contrato, no vetusto ano de 1994. Nessa época, o Shaka Zulu da Retranca alinhou em 21 jogos de camisola azul, manchando o prémio da montanha com uns indisputáveis 11 cartões amarelos e 1 vermelho. Em Novembro de 1995 assina pelo Maia, vergando os ímpetos à insustentável leveza da tutela de Vieira de Carvalho. Os 6 cartões amarelos em 22 jogos são afinal, a prova da brandura crescente. É depois da Maia que o guerreiro chega a Chaves. Em Chaves, caros leitores, Parfait faz 17 jogos em 2 épocas na 1ª Divisão. 9 cartões amarelos, ao todo. 17 jogos e a imortalidade no panteão flaviense aqui erigido? Mas por que carrinho a pés juntos é que alguém se lembra disto? Simples. O Chaves é, como Parfait, um clube cuja história pública é marcada pelo vazio, pelos hiatos. Também o Chaves, como Parfait, parece não existir quando não está no escalão principal ou a jogar contra um grande na Taça de Portugal. Também o Chaves encerra na sua tumba futebolística tesouros e mistérios, fantasistas bipolares como Milinkovic, heróis de pé face aos vendavais da bola como Paulo Alexandre, máquinas goleadoras como Matute. Uma tumba obscura e por resgatar, escondida como o Gabão se esconde atrás de um continente aos olhos portugueses. Parfait, longe de ser perfeito, era um garboso defensor. Um 'homem sem passado' (e cujo futuro foi, depois de Chaves, o Penafiel e depois a penumbra, de novo) não tem nada a perder e N'Dong nunca perdia nada além dos jogos e dos rins, de vez em quando. Um jogador duríssimo, inexpressivo, um toque de bola que a impiedosa escola de comentaristas lusitrastes se habituou a alcunhar de exótico (com toda a carga etnocêntrica que lhe subjaz) e, no entanto, um retrato fiel de toda a história de um clube. Uma história que, mesmo aos olhos dos homens que fazem esse mesmo clube, ele não tem. E no entanto, não é preciso grande esforço para recordar a absoluta e ingénua ausência de medo neste defensor, e perceber rapidamente como, apesar do espécimen ser um jogador vulgar, constituir esse um dos traços mais raros da bola actual.

quarta-feira, agosto 27, 2003

Um interregno na saga do Chaves (estão avisados: o defesa que se segue é Parfait N'Dong) para uma entrada do Dicionário Português-Futebolês há muito em congeminação mas agora tornada imprescindível pela menção num e-mail recebido recentemente. C para "Carregador de Piano". Expressão imortalizada no léxico comentarista mas, de tão rebuscada e ilustrativa, decerto amplamente utilizada em palestras de balneário por esse Portugal fora. Estamos em crer que a expressão remonta ao tempo em que o piano era um instrumento central em qualquer soirée artística digna desse nome. Ainda hoje o solista ou colectivo orquestral conserva os louros da fruição pública, mas cabe ao carregador do piano a árdua tarefa de proporcionar as condições para que a magia aconteça. Por outras palavras, se não fosse o carregador de piano a (passe a redundância) carregar o piano, escada acima, num trabalho de simultânea força, perícia e sobriedade, nunca o artista poderia dar ao mundo um pedaço de si mesmo. Voltando à bola, se não fôr o sapador de meio-campo a recuperar, constante e no limiar da invisibilidade, as bolas posteriormente bombeadas para as alas de onde saiem os cruzamentos ou desmarcações para o número 10 ou para o ponta-de-lança carimbar os corações dos adeptos de glória, poucas vezes todos nós conheceríamos o travo doce da mesma. O "carregador de piano" é assim o centrocampista cuja função maior é estar em todo o lado e carregar a equipa, por assim dizer o piano, para a frente. Este carregar não é só o mero recuperar de bola para lançar a jogada. É também um complexo processo psicológico de potenciar motivação, empolgar os adeptos mas fazê-lo a dançar no paradoxo de não ser, ao mesmo tempo, o centro ou o culminar desse trabalho. O bom "carregador de piano" transporta a equipa recuperando bolas, dobrando companheiros, abrindo espaços à subida do central ou à penetração dos médios ofensivos, lateralizando jogo e, ao mesmo tempo, incentivando, gesticulando, filtrando no campo as orientações tácticas vociferadas no banco. Está claro que, dada a multiplicidade de funções e o requisito de qualidade e ubiquidade, a existência de "carregadores de piano" rareia no futebol luso de hoje em dia. Tanto que a própria expressão tem vindo a ser gradualmente ofuscada por outras de significado similar mas de alcance e profundidade claramente inferior, como é o caso de "jogador box-to-box" (e aqui, Gabriel Alves e a escola Sport TV assumem particular preponderância, num movimento de contornos quase escolásticos contra o monopólio vocabolar e aforístico da rádio). A qualidade e o estatuto do "carregador de piano" também dependem do colectivo em que o jogador joga. Nos grandes, algumas referências por demais evidentes são os casos de Semedo e Douglas, no FCP e SCP, respectivamente, mas outros ilustram com maior amplitude a formulação idiomática, casos de Bobó no Boavista (o tal jogador citado no e-mail recebido) ou N'Dinga no Vitória de Guimarães. Ambos exemplos de uma força inexcedível, de um carisma intocável, de uma técnica que, não sendo basta, bastou, isso sim, para passar a bola, em boas condições e com todo o fulgar, a outros mais dotados, como Timofte no Bessa ou o tunisino Ziad, o astro magrebino da cidade-berço, o Ali Babá das 40 Assistências. A emergência deste tipo de figuras no futebol português (e, sobretudo, na leitura comentada do futebol português) deve-se, a nosso ver, a dois factores: o primeiro é o facto de nunca ter sido desenvolvido de um modo próprio cá no burgo o estilo de jogo cunhado na Holanda por Rinus Michels, o 'futebol total', em que todo o jogador estaria virtualmente preparado para ocupar qualquer posição no terreno, apesar de especializado na sua posição específica. A dicotomia entre a técnica e a força (sempre ela, uma vez mais) segregou, durante largos anos, os tecnicistas dos jogadores duros, sendo o "carregador de piano" uma espécie de mediador diplomático entre as duas facções, responsável, em boa medida, pela paz na relva e glória nas balizas. O segundo factor é a propensão nativa para a produção de anti-heróis na sombra dos ídolos, plastificados e nascidos já em apogeu e com pés de barro prontos a partir. O goleador da bola é idolatrado e exige-lhe-se, por assim dizer, o circo. Ao "carregador de piano" exige-se o pão, e a ele devolve-se o respeito. Daí o segundo nunca cair em desgraça, daí ser ele escassas vezes apontado como o responsável pelo falhanço da sinfonia. Fazendo a ponte com o Chaves, e reforçando a tese do post anterior, Toniño era um homem assim.

quarta-feira, agosto 13, 2003

Um pequeno parêntesis à laia de glossário: o catenaccio transmontano. Desenho táctico desenvolvido por António Jesus e continuado depois pelo trainador-comentarista Vítor Manuel, assenta, até ao meio campo ofensivo, numa formação com dois laterais rápidos, dois centrais de marcação, um líbero a marcar à zona que também sobe para trinco, e ainda um outro trinco que subia no contra-ataque. Esta última era a posição ocupada pelo mítico centrocampista castelhano Toniño, homem de palavras brandas e pontapé fortíssimo. Caríssimos, se algum dia lerem que Toniño era número 10, fazei, por favor, orelhas moucas a tais ignomínias. Havemos de chegar a Toniño e dealbar toda esta historieta, esta advertência prévia é só para os mais incautos. Acrescente-se que, tanto era assim, que o substituto de Toniño no Chaves, o também espanhol Carlos Alvarez, já tinha um estilo de jogo cuja adequação a este lugar táctico não deixa margem para dúvidas (vide trabalho posterior do mesmo no Vitória de Guimarães).
Depois de Manuel Correia, a senda dos históricos Defensores de Chaves prossegue até Paulo Alexandre. Esta natural de Vilarelho da Raia, onde nasceu em 1970, joga no Desportivo de Chaves (dizemos joga porque alinhou ainda esta época que findou em Junho, e com a braçadeira de capitão) desde – abrir a boca de espanto, por favor – 1983, com apenas uma época de interregno (99-00), em que alinhou pelo Desportivo das Aves. Caso para dizer que, em 20 anos de carreira futebolística, o grande Paulo Alexandre, apenas deixou cair o “Ch” durante um deles. Afinal, até o clube no qual resolveu desanuviar do Marão se chama Desportivo e acaba em Aves. Adiante. Em 1983 começa a jogar nos iniciados, fazendo a sua primeira época de sénior em 1989-1990. Os anos 80 foram portanto passados na pardacenta cidade transmontana a jogar na cantera chavista. Definimo-lo anteriormente como um central que gosta de subir e marcar uns golos. Há que explicitar melhor esta afirmação. Na realidade, ao longo destes anos, Paulo Alexandre não marcou, pelo Chaves, mais do que 10 golos. No entanto, e tendo em conta que é jogador e defesa do Desportivo de Chaves, essa meta chega para caracterizá-lo como um central que marca alguns golos. Até porque, um dos pontos fortes deste jogador, mais ainda do que a característica “saber sair a jogar” (tanto quanto é possível no catenaccio transmontano) era o jogo aéreo. No rigor dos conceitos, Paulo Alexandre tanto era exímio no cabeceamento como no ocasional alheamento completo do fluir do jogo e consequente criação de espaços vazios à mercê do intruso adversário (uma postura, por si mesma, aérea, uma vez mais). As estatísticas, no entanto, falam por si: de 1990 a 2001, nunca menos de 17 jogos por época. Seja a companhia Manuel Correia, Amarildo, Carvalhal, Parfait N’Dong, Correia, Luisão, Auri ou Jorge Neves (para citar apenas alguns), Paulo Alexandre estava lá, a segurar e a marcar, como central de marcação que era e é, o ponta de lança adversário. As crónicas descrevem-no como sólido, um jogador com personalidade. Numa comparação aparentemente algo desfasada, imaginem, os que não o recordam, um Helguera arraçado de Jorge Soares. Algures, no mesclar de memórias futebolísticas, encontrarão o vosso, que também é nosso, homem. Agora, vira o jogo.

segunda-feira, agosto 11, 2003

Antes de falar dos defesas do Barça do Marão, uma palavra de solidariedade a esses esmerados operários, pelos durí­ssimos momentos em que, antes da partida, o treinador anunciava qual o guarda-redes que a pandilha ia ter atrás de si. Imaginamos os suores frios de Amarildo, as temporas latejantes de Paulo Alexandre ou os tremores contínuos nos joelhos do jovem Vinagre. E o perverso desta situação é que, durante algum tempo, o treinador dos flavienses foi, ironicamente, um ex-guarda-redes do Chaves, o tutelar e já mí­tico António Jesus. Depois do gesto de solidariedade, o abraço sentido, não podemos senão continuar, e continuar num caminho espinhoso que nos obrigarão a alguns comentários menos bonitos sobre a zaga transmontana. Já aqui falámos do catenaccio transmontano. Pode pensar-se, a partir desta expressão, que Chaves foi, duravelmente, um feudo impenetrável de defesas rudes, grosseiros no trato e no expôr do futebol, agressivos e de uma violência quase patológica na lida com o adversário. Não. É certo que vestiram aquela camisola, alguns exemplares dessa espécie, como é o caso de Luisão, o brasileiro que foi infeliz protagonista de momentos quase criminais, ou mesmo o central ex-Guimarães Auri, remanescente de uma época de ouro em que, na cidade-berço, pululavam senhores de um futebol monstruoso como Márcio Theodoro ou Arley (este íltimo um interessantí­ssimo case-study forense). Em Chaves, não era tanto assim. Aliás, a 'linha recuada' (mais um termo do futebolês que será tratado a seu tempo) flaviense sempre aliou o central cerebral (caso de Manuel Correia, o eterno capitão), o defesa central que gosta de subir e chega a marcar uns golos (caso de Paulo Alexandre), o central sombra de marcação, violento (caso de Parfait N'Dong ou o, hoje treinador esperança, ontem stopper de respeito, Carlos Carvalhal) e também o central rápido e razoavelmente móvel ao longo de toda a linha defensiva (caso de Amarildo). Comum a todos eles, um denominador: a raça. Todos eles eram jogadores raçudos. Essa coisa do saber jogar à  bola deve ser entregue a quem joga mais à  frente, terão pensado os responsáveis flavienses. Destes vários nomes, destacam-se Manuel Correia, Paulo Alexandre e Parfait N'Dong. Manuel Correia é, sem dúvida, a referência maior. A este nativo do Seixal não pode assentar outro epí­teto que não o de patrão da defesa transmontana. Atentem: de 1989 a 1996, ano em que arrumou as chuteiras, fez mais de 250 jogos com a camisola do Desportivo de Chaves. Foram 7 anos de temporadas consecutivas acima dos 30 jogos por época e, numa equipa periclitante entre a 1a e a 2a, quantos cartões vermelhos, perguntam vocês? Um, e apenas um, e podemos afiançar que o primeiro amarelo nesse jogo foi mal mostrado ("não houve contacto!!"). Um defesa cerebral (prova disso é o bigode, sólido sem ser pesado, cuidado sem ser obsessivo), com um sentido posicional absolutamente assombroso, impressionando, por vezes, com uma invulgar capacidade de recriar a ubiquidade no relvado. Era, além disso, o pedagogo, o mestre em quem os novos bebiam referências sobre como estar e fazer jogar no Municipal de Chaves. E é, por fim, curioso, que tanta experiência tenha sido ganha numa carreira em que passou por tão poucos clubes desde os iniciados, a saber, o Seixal, o Sporting (como juvenil), o Elvas, o Vizela e o Penafiel, até chegar em 1989 a Chaves. Nunca deu o salto para um grande injustamente, ainda para mais se atendermos a equí­vocos como Lula ou o central Marcos, por exemplo. Manuel Correia grava o nome numa outra dimensão, a do bom futebol obscuro e sobrevivente apenas nos cadernos e nas congeminações dos mais atentos. Vale a pena relembrá-lo.
Importa aqui dizer que esta abordagem ao Desportivo de Chaves refere-se, sobretudo, aos anos que vão de 94 a 98, a Idade de Ouro do futebol do Marão, essa época de pendor quase renascentista nessa cidade Condal à beira-Espanha plantada. E nesses anos, Bastón não guardou para si o título exclusivo de guarda-redes bigger than life. Há outros dois nomes que importa recuperar. É curioso reparar que neste lote de três guarda-redes, registamos uma espécie de reflexo de três escolas futebolísticas, as que têm marcado mais decisivamente a história do desportivo de chaves. Um espanhol, Bastón, um balcânico, Poleksic, e um português, Luís Vasco. Os mais atentos dirão "sim, mas «e a escola africana?!»". É verdade, concordamos. Não ignorar o peso desse paradigma futebolístico que trouxe a Trás-os-Montes esse diamante negro chamado N'Tsunda ou os impiedosos irmãos gaboneses Parfait e N'Zé N'Dong, citando apenas alguns. Ou mesmo os brasileiros, em que o expoente máximo é esse homem sem pescoço que um dia foi engatado por Sousa Cintra, Edinho. Voltando às redes, cada qual representa algo de muito específico na história do Chaves. O que vale é que nós aqui não damos respostas, levantamos sim à História as questões que interessam. Adiante. Luís Vasco. O protótipo do 3ª guarda-redes, essa raça maldita de sujeitos que, vivendo e abastecendo-se da experiência profissional da alta-roda do desporto, não ganham nem mediatismo nem progressão de carreira, nem tão-pouco aquela notoriedade que permite depois fazer escola no comentarismo ou na restauração. Homem grande e anguloso mas de ternos caracóis castanhos, também veio provar que um guarda-redes precisa de mais do que ser alto, forte e espadaúdo para vingar. Jogou no Sporting (onde não conseguiu tirar a titularidade a Zoran Lemajic por mais de 10 jogos, o que já diz bastante, tanto de si como do Sporting daqueles tempos) e no Estrela da Amadora, cujas balizas, depois do belga Guy Hubart e Vital, nunca mais foram as mesmas. De seguida, Dragoslav Poleksic. Atentem, caríssimos, no padrão. De onde veio Poleksic? Da Segunda Divisão jugoslava, mais propriamente do Hadjuk Kula. Palpite: ou há empresário obscuro à mistura, ou o director desportivo do GDC tem uma casinha de campo e um par de bisavôs à beira do Adriático. Poleksic, hoje com 34 anos, fez 8 jogos, mal repartidos por 2 épocas, até rumar a Campo Maior, onde fez 31 jogos em 3 épocas de 1ª divisão. Pouco mais terá retirado da sua experiência no futebol luso do que umas tardes à volta da sericaia, o café delta, e um português mais perfeito do que o de muitos nativos. Da sua aptidão para a bola, uma vez mais, não reza a história. Alto, tosco e bonacheirão, não era líder nem carrasco, não enterrava nem deixava de sofrer. Pouco mais há a dizer, na linha desse interessante paradoxo que vai marcando a genealogia do futebol português: tanto jogador, tanta diversidade, tão pouco espectáculo. Perdoem-nos a amargura, não é todos os dias que tropeçamos num Jorge Plácido ou num Caccioli.
O Grupo Desportivo de Chaves, essa agremiação recôndita que encanta o mundo a partir das profundezas da serra do Marão, é um manancial quase inesgotável de histórias e episódios e factóides. A convulsão desportiva e as consecutivas condenações e salvações in extremis espelham toda uma maneira colectiva de lidar com o sucesso no Portugal profundo. A torrente de contratações na exploração desalmada do futebol de leste, a busca da quimera do outro distante, aliada ao fascínio da liga espanhola. O relvado maltratado e a imagem do semi-amadorismo aliada ao fantástico equipamento blaugrana, projectando Trás-os-Montes como Catalunha. E, claro, aquilo que nos traz: os intérpretes de tantas e magníficas sinfonias tanto do mais puro contra-ataque de midtable como do salutar catenaccio transmontano, essa feijoada de cartões amarelos, lesões no menisco e outras inventadas para segurar o zero-zero. E que intérpretes, desde o mais solícito 'carregador de piano' (termo a abordar breve e futuramente na categoria do Dicionário Português-Futebolês) até ao mais excelso e ímpar solista vagabundo. Comecemos pelo princípio. No princípio está a baliza. E na baliza, obviamente, está Bastón. Bastón, oriundo de terras de Leão e Castela, chegou a um Chaves recém-promovido na época de 94-95, vindo do Rugby de Burgos, um clube obscuro com ligações universitárias. Tendo ganho rapidamente a notoriedade, ganhou também a discussão existencial que muitos adeptos foram travando na introspecção dos seus lares, estabelecendo o axioma: sim, é possível ser completamente inapto para desempenhar o papel de guarda-redes e, mesmo num plantel que conta com mais dois, jogar quase a época inteira num campeonato profissional europeu. Mas não sejamos demasiado duros: a verdade é que Bastón, não bastando já chamar-se Bastón, deixou uma simpática villa castillana com historial académico para se estabelecer em Chaves e discutir a titularidade com Silvino (ex-Famalicão, notabilizado nas artes do goleiro, apesar do seu 1,72m e 66 kgs, ao serviço do 'hoje e sempre' Sporting de Espinho) e com Orlando (de quem não rezam grandes crónicas flavienses, como aliás acontece geralmente com os 3os guarda-redes). E também é verdade que chegou a fazer algumas boas exibições com a camisola do GDC vestida. Porém, a lentidão nas saídas da baliza, uma atroz falta de intuição e colocação nos cruzamentos e uma insegurança quase neurótica nos remates de longe, fizeram dele uma lenda dos aviários futebolísticos. Mantém o risco ao lado e tira uma licenciatura, Chaves não é para ti, Bastón.
Agora sim. O centrocampista levanta a cabeça com a redondinha colada ao pé direito. Dá dois... três passos... não mais. Percorre o relvado com os olhos numa diagonal à procura do jovem avançado a desmarcar toda a uma carreira de sucesso na europa para marcar o golo. Não. Continua a correr, passa por um. O jovem avançado que espere. Tem do outro lado o velho companheiro da 2ª divisão a abrir a linha para o passe a rasgar. Não. Tem mais um defesa pela frente e, a três palmos, a linha limite da grande área. O jovem avançado grita mas o ruído, o som das bancadas, é uma massa imperceptível. É o ponto de não retorno. Pontapé-canhão. Já está: senhoras e senhores, o Grupo Desportivo de Chaves, o golo de bandeira com mais anos do futebol português.

quinta-feira, julho 31, 2003

Com meia Caderneta ainda em treino condicionado (impedida portanto de alinhar com o onze titular na mui ansiada deslocação a Chaves), avança-se aqui para um singelo naco de prosa em honra de um dos melhores centrocampistas portugueses de todos os tempos. Atenção: não é laracha, é um memorial à carreira de um dos mais virtuosos artistas por quem a relva portuguesa teve o deleite de ser pisada. Trata-se, objectivamente, de um futebolista de craveira internacional e, sem qualquer sombra de dúvidas, de um homem que na Caderneta ocupa um dos lugares cimeiros no ranking das preferências. Jorge Plácido. A pouco menos de um ano de completar 40 aniversários, merece as nossas palavras por vários motivos. Primeiro, a qualidade estelar do seu futebol. A fineza no trato, a raça na abordagem, o arquétipo do número 10, uma vez mais (e perdoem-nos a queda para este tipo de atletas) um artista polivalente e multi-instrumentista. Segundo, o palmarés impressionante para um astro tanto capaz de vencer uma Supertaça europeia ao serviço do Futebol Clube do Porto como carregar o Salgueiros às costas na heróica eliminatória da Taça UEFA de 90-91 contra o Cannes. Literalmente um franco-atirador em várias frentes, mas já lá vamos. Agora os factos: nasce em Luanda, começa a carreira no Barreirense, continua na margem sul ao serviço do Amora e, depois, do Vitória de Setúbal quando, em 86-87, emigra para Chaves (vêem como o GDC está sempre presente?). Em Chaves, alinha provavelmente no melhor plantel de sempre do clube, onde é o maestro por trás dos solistas sangrentos Jorge Silva e Rady, numa cruzada que termina no 5º posto e no acesso à Taça UEFA. Acabado de rotular como uma jogador interessantíssimo e a seguir atentamente, ingressa, fruto da excelente prestação transmontana, no Futebol Clube do Porto, em 87-88. Cremos aqui que esta época dispensa comentários, no que concerne à prestação dos azuis e brancos. Faça-se, isso sim, a vénia a Jorge Bravo Plácido. No início da época seguinte ainda arranja tempo de fazer uma perninha na Supertaça Europeia contra o Ajax, que vence, e segue depois Artur Jorge para o já extinto Matra Racing, esse funesto cabaret da bola parisiense, de existência fugaz mas intensa. No Matra, Plácido faz dois jogos mas prossegue para época seguinte, podendo orgulhar-se de alinhar num clube que mudou de nome durante a sua estadia. O Matra, na viragem dos 80 para os 90 (miserável efeméride, essa), passa a chamar-se Racing Paris I, mudando também o nosso homem para o "suplente que agora alinha quase a época toda e, apesar de não levar o clube além do 19º lugar da liga francesa, condu-lo bravamente à final da Taça". No final desse ano, regressa à casa das Antas onde o seu futebol é incompreendido e desrespeitado, apesar de contribuir para a vitória na Taça de Portugal. Não contente com isso, mas sofrendo de uma inexpugnável ligação à Invicta, ingressa no Salgueiros onde torna a ser o Hamlet dessa enorme tragédia chamada futebol português. É nesse ano que o Salgueiros, na sua primeira participação na Taça UEFA, consegue vencer o jogo da primeira mão frente ao Cannes numa excelente partida iluminada pelo génio de Plácido, autor do único golo, e quase passa a eliminatória, não fosse um golo de Oman-Biyik (internacional camaronês e mundialista em 90) aos 85 minutos e a malapata na lotaria dos penalties. Registe-se que o feito do Salgueiros foi apenas ofuscado por uma colossal eliminação do Inter de Milão pelo Boavista, com uma eliminatória garantida na primeira mão por um 2-1 de Marlon Brandão e Pedro Barny. Enfim, Jorge Plácido fica mais uma época no Salgueiros onde continua a brilhar, embora um pouco abaixo da temporada transacta e, em 93, parte de novo rumo à France para jogar no Créteil. No Créteil fica uma época até viajar, encore par l'autoroute, até aos arrabaldes da Cidade Luz. O destino era os Lusitanos de Saint-Maur, à altura uma desconhecida equipa de emigrantes saudosos da bola lusa (com tudo o que isso tem de tenebroso). Entre 94 e 97, altura do primeiro período Saint-Mauriano de Plácido, o clube passa de um grupito de solteiros e casados com sotaque entre o français e o minhoto que joga nos (equivalentes a) distritais a clube irredutível capitaneado pelo craque campeão europeu que já anda ali entre os distritais e (equivalente a) terceira divisão. Segue-se uma curta paragem de uma época no Saint-Denis-Sains-Leû e o regresso, logo de seguida, aos Lusitanos em 1998, onde alinha até ascender ao posto de treinador principal em 2000. Note-se que por esta altura, ou kuíca [ver significado do termo num post de glossário por ora em arquivos cadernéticos] um pouco mais tarde, que os Lusitanos cometeram a proeza de chegar aos quartos de final da Taça Francesa onde defrontaram com brio o Bordéus. Como cereja no topo do bolo, falta acrescentar que este sacerdote das jogadas sagradas vestiu a camisola das quinas por 3 ocasiões tendo facturado 2 golos com a mesma no corpo. Reverência, caríssimos, reverência. Não se trata de um qualquer parodiante de alma vendida ao diabo na encruzilhada do defeso, não se trata de um pantomineiro que promete mais do que dá, antes de um Homem cuja quimera era a auto-superação, o atingir do inominável (vide Chaves na Taça UEFA, por exemplo). Sem a tentação da carne ou das liras ou das libras ou das pesetas, o sucesso, isso sim, trazido a quem nunca o tinha conhecido, a partilha honesta da magia com quem até ali vivia no mundo enfadonho e obscurantista da bola sem cor. Ao leitor ou leitora que acaba de ler este post tomando-o por uma ode a Jorge Plácido, desengane-se: Jorge Plácido é ele, sim, uma ode a si, amante de futebol.

quarta-feira, julho 30, 2003

A Caderneta da Bola investiu no estádio e agora os espectadores passam a contar com um sistema de comentários para uso e desfruto desenfreado. Quem aprecia, ama e, sobretudo, respeita a boa bola sabe que um bom desafio não passa sem o salto na cadeira e o vociferar de espanto, êxtase ou desgosto. Foi a pensar nisso que instalámos o aparelho.

terça-feira, julho 29, 2003

Caderneta da Bola: Para quem sabe a diferença entre um centro-campista e um médio-volante! Passes em tribela para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Já por diversas vezes o, por ora, duo cadernético efectuou incursões no estimulante universo dos artistas profissionais na arte da bola falada, cada qual com particularidades absolutamente inconfundíveis para o observador amante do desporto-rei, particularidades essas que se assumem verdadeiramente como a pitada de sal naquilo a que os não crentes designam normalmente de “onze gajos a correr atrás duma bola”. A esses pobres de espírito irremediavelmente presos num deserto de ignorância, dizemos: Acordem! Reparem no que vos passou ao lado! Nunca vibraram deliciados com um grito de golo de Cinha Jardim num jogo de pré-época entre o Benfica e o PAOK de Salonika aquando de um cabeçeamento de Nuno Gomes que passou 5 metros acima da barra. Nunca sentiram vossos tímpanos estremecer de prazer ao saborear o timbre e, sobretudo, a pronúncia exímia de José Nicolau de Melo ao referir jogadores estrangeiros que nunca ninguém teve a certeza como se pronunciavam, tendo a certeza que, se Mestre Nicolau o disse de dada forma, é essa a forma correcta! Nunca ficaram absolutamente deprimidos com a vossa pequenez perante um guru como Gabriel Alves, enquanto este num discurso ensopado de emoção, vai produzindo pérolas como “fino recorte técnico”, “passe a rasgar” ou o internacionalmente conhecido: “a força da técnica contra a técnica da força”. Ai... (suspiro) Adiante... Este post é dedicado a uma personagem que merece ser lembrada. Não terá contribuído da mesma forma que Mestre Nicolau ou o Guru Alves para o robustecimento do futebolês, porém, a existência dos episódios abaixo referidos ao longo da trajectória deste comentador justifica a sua análise enquanto mais um cromo desta Caderneta. Seu nome... José Eduardo. A primeira nota vai para a pouca consistência que a sua colocação no grupo “comentadores” poderá ter. Afinal, este homem já teve diversos ofícios... senão vejamos... Em primeiro lugar exerceu o mais nobre ofício de todos, foi jogador de futebol. Porém nunca foi além de um jogador mediano... tipo aqueles “Satisfaz +” do nono ano. Dava para o que era preciso, mas era pouco. Mesmo assim teve uma carreira recheada de momentos assinaláveis, como por exemplo o título de campeão nacional ao serviço do Sporting CP em 1981, e a célebre entrada a matar em que trucida a perna a Jordão, ”A Gazela Africana”, e manda o internacional português para a box durante alguns meses. Uns anos mais tarde e depois de encerrada a sua carreira futebolística, José Eduardo passa para o domínio da bola falada, onde durante uns curtos anos se consolida como protagonista de charneira nesta difícil e exigente arte. Durante este período, há a reter, mais do que o seu desempenho aquando do comentário em directo ao jogo, os programas de debate desportivo em que participou. Recordo o seu jeito pedagógico no Jogo Falado enquanto dançava com seu ponteiro prateado em frente ao ecrã que mostrava a “disposição táctica” das várias equipas, ou então, no mesmo programa, uma acesa discussão (“troca de ideias” dirá provavelmente José Eduardo) com o treinador Manuel José relacionada com os aspectos tácticos do União de Leiria (seria?), formação por ele treinada na altura. Porém, o seu momento do glória televisivo aconteceu nessa instituição chamada Domingo Desportivo. Alguém na RTP decidiu dar cinco minutos semanais no final do DD para José Eduardo ensinar os vários aspectos técnicos do jogo. A “tabelinha”, o “drible”, o “carrinho”, entre outros. Numa dessas aulas dadas por este catedrático da bola, José Eduardo explica em quem o quiser ouvir como se faz um “bloqueio”, “gesto técnico” que possibilita a um jogador, ao colocar o seu corpo entre o adversário e a bola, manter a posse desta. Aquilo que eu retive e guardei em minha memória foi um delicioso momento no final desta aula que passo a descrever: Imaginem José Edurado num qualquer jardim lisboeta, vestindo uma camisa kuíca Cortefiel e segurando o casaco ao ombro com um dedo apenas, de óculos escuros, qual Martini Man. Eis quando no olhar deste homem da bola se cruza uma mulher deliciada com os raios de sol que enfeitam o cenário. Ao reparar em José Eduardo, a donzela deixa escapar um suave sorriso. Este aproveita a deixa para se aproximar da senhora com um andar ritmado e confiante e quando se encontra já perto do seu objectivo, é interceptado por um outro homem que se coloca entre ele e a senhora. Imediatamente a seguir a este empolgante momento, José Eduardo tira os óculos, fita a câmara nos olhos e solta a bomba: “Porém, há outro bloqueios que não ajudam nada...”. Mas que glorioso momento televisivo... Passado uns tempos, José Eduardo deixa de fazer parte dos planos da RTP. “Rotação normal de comentadores” disse a direcção da estação pública, “decisão política” disse o comentador. Segundo José Eduardo, o seu afastamento da RTP prendeu-se com uma decisão do Presidente Pinto da Costa que, através da Olivedesportos pressionou a estação pública para o afastar, uma vez que, acreditava o comentador, estaria a ser demasiado incómodo para o “sistema instalado”. Aqui na Caderneta temos dúvidas relativamente a qual das versões será a verdadeira e pedimos aos nossos leitores que partilhem conosco suas teses, porém, manifstamos a nossa inclinação para a tese avançada por José Eduardo. As suas aguçadas análises tácticas à segunda-feira no Jogo Falado eram passíveis de mandar pelos ares toda a estrutura de poder do futebol português. Há quem diga que o comentador se preparava para apresentar uma peça em que defendia a utilização de Rui Dolores à esquerda! Como poderiam o Presidente Pinto da Costa, o Major Valentim e sus muchachos sobreviver no poder depois da verdade ser revelada às massas?!? Depois da sua saída pela porta do cavalo da RTP assistitu-se a um declínio acentuado na sua carreira que foi, em poucos meses, de comentador de futebol residente, a proprietário da empresa de catering que operará no novo Alvalade XXI, ofício que presentemente exerce. Assim como o fizemos aquando da recordação de José Nicolau de Melo, o fazemos neste post em que recordamos José Eduardo. Apelamos à SportTV que seja arrojada e ambiciosa na contratação de comentadores para a época que vem aí. José Eduardo seria uma exelente aposta. Um comentador polivalente, arrojado, sem medo de treinadores com 1,80m e com peito forte para aguentar a perseguição do sistema déspota que vigora no futebol português.

sábado, julho 26, 2003

Caríssimos leitores, Em altura de extrema azáfama para o duo caderneto, é com algum pesar que anunciamos que ainda não é neste post que começamos a discorrer torrencialmente sobre a bola do Marão. No entanto, e porque temos um compromisso com a história, inauguramos aqui mais uma secção temática, Os Misters Preferem os Loiros. Como já devem ter calculado, não existe outro homem mais capaz de encabeçar esta secção do que Vlado Bozinovsky, o australiano que um dia chegou a Aveiro para mostrar que os australianos não só sabiam jogar à  bola como também manter um couro cabeludo em óptimo estado para a alta competição. Parece que através das linhas vos conseguimos ler os pensamentos a fervilhar: "de certeza que o nome está bem escrito?". A verdade é que nos faz falta um José Nicolau de Melo, conhecido por questionar os jogadores sobre a pronúncia nativa dos seus nomes (revolucionando a fonética da bola com a transformação de Drulovic em 'Drulóvich' ou Zahovic em 'Zahóvich'), para resolver essa dúvida, pelo que adoptamos Bozinovsky e não Bozinosky, como muitos se recordarão de ter lido na imprensa desportiva. É também curioso que em Aveiro desemboquem tantos saltimbancos intercontinentais, desde o faraó Magdi Abdelghani até este australiano, ou, mais recentemente, o ídolo senegalês Fary Faye. Este facto ainda carece de explicação. Falemos então de Vlado Bozinovsky. Nascido em 1964, espalhou o perfume do seu futebol (e do seu amaciador) pelo South Melbourne, onde deu os primeiros passos. Estava visto que a colónia penal anglófona não era suficientemente grande para o quilate deste médio polivalente, com apetência para o ataque e óptimo tiro de meia distância. Vai daí, não é de espantar o seu percurso por terras jugoslavas, onde apurou ainda mais esse jeito vagamente latino de vagabundear pelas alas e envolver-se em tabelinhas vistosas pelo centro, alinhando no Dínamo de Zagreb, clube do país onde nasceu, a Jugoslávia. É claro que o Dínamo, num país dividido entre as equipas de Belgrado, o colossal e inspirador Estrela Vermelha e o Partizan, não oferecia aos bons jogadores um bom espaço de projecção para o futebol internacional. No entanto, Vlado não foi lá muito esperto já que o futebol belga, para onde transitou, não era muito melhor. É certo que estamos num tempo, no final da década de 80, em que este vivia ainda à sombra dos feitiços dos alquimistas Vicenzo Scifo e Bruno Versavel, mas o Club Brugge continuava e continua hoje a ser um clube pouco acima da mediania. Discreto em terra de boa cerveja, uma vez mais se torna complicado compreender a opção Beira-Mar. É por aqui que podemos começar a traçar Bozinovsky como um jogador inconstante, sofrendo a qualidade do seu futebol com essa periclitância, essa incapacidade de criar raízes. Bozinovsky, nascido na Jugoslávia, feito futebolista na Austrália, regressado a uma terra transfigurada, emigrado na Bélgica, refugiado em Aveiro, é assim produto da bola apátrida e trituradora, de um mundo desmembrado e criminoso que ataca os calcanhares dos artistas a golpes de rescisões e truques mediáticos. Em Aveiro, no entanto, arranca para uma grande época. Faz 32 jogos, pega na equipa, assumindo-se tanto como ministro, no planificar eficiente dos ataques, como operário, a fechar nas alas e a dobrar os companheiros no segundo terço do terreno. A inconsistência do seu futebol, porém suficiente para um clube como o Beira-Mar, não impede a transferência para o Sporting, em 91, alinhando de verde e branco na época da histórica campanha da UEFA em que o Sporting foi trucidando adversários até claudicar estoicamente frente ao Inter de Milão nas meias-finais. Um plantel onde tinha como companheiros jogadores como o gaúcho Douglas (trinco cerebral mas duríssimo), Oceano, Carlos Xavier e a promessa Filipe (um jogador eternamente jovem, de magnífica visão de jogo, que poucos anos depois viria a abandonar o futebol com uma série terrível de lesões graves), entre outros. Ainda assim, perante este naipe de centrocampistas, Bozinovsky teve poucas oportunidades para brilhar, fazendo no entanto bons jogos na Taça UEFA. No campeonato, alinhou apenas 11 vezes, pelo que no final dessa mesma época regressou a Aveiro, clube de onde viria a sair um ano mais tarde para ir para o Ipswitch Town, de Bontcho Guentchev. Porém, também em Inglaterra, já no seu quinto país futebolístico, o australiano não viria a ser feliz, jogando muito pouco. É por isso que, em 93-94, regressa a Portugal para jogar no Paços de Ferreira onde, como titular indiscutível ao longo da época, vê o clube dos móveis afundar-se e descer à Segunda de Honra. Aí ficou mais uma época, alinhando no escalão secundário, para no ano seguinte regressar à  Primeira Divisão, com a camisola do Felgueiras, carimbando o livro de ouro do clube naquelas três ou quatro épocas em que essa terra viu crescer Sérgio Conceição e os tobaguenhos Clint e Lewis e o brasileiro Ronaldo. Em Felgueiras também jogou a maior parte da época, não conjugando todavia a assiduidade com a regularidade exibicional. Depois de Felgueiras, a Turquia, no Ankaraguçu, e depois de um ano na Turquia, duas épocas douradas (no cabelo e na carteira) ao serviço do Tanjong Pagar, clube de Singapura. Por esta altura, já Vlado se podia orgulhar de ter alinhado em 7 países e 3 continentes diferentes (ou 4, se não metermos os Turcos na Europa). Senhor de um futebol altamente turístico e vistoso, Bozinovsky conquista o coração dos adeptos asiáticos e protagoniza, em 1999, uma sensacional transferência para outro dos grandes de Singapura, o Home United FC. Depois disso, o ocaso, o eclipse da ribalta da bola. Pode ser que Vlado, hoje com 39 anos, continue a encantar plateias indochinesas como já fazia aos 36 anos. Ou pode finalmente ter posto de lado a mala de cartão e assentado arraiais em África ou na América, continentes ainda por descobrir ao ícone futebolístico da globalização. A verdade é que, passeatas aparte, também o seu futebol derivada, não tendo passado dos bons pormenores e do estatuto de "bom jogador mas com muito a provar, ainda". Aquela centelha que separa um Alex de um Ricky (numa comparação boavisteira). A abertura de possibilidades e a fluidez do mercado podem ter, como se vê, tanto de bom como mais ainda de mau, tendo criado em Bozinovsky um fracturante crise de identidade que terão conspuracado irreversivelmente a pureza do seu futebol. Mesmo assim, jogou regularmente, salvo uma ou outra excepção, nos clubes onde foi alinhando, o que só prova que mesmo o futebol impuro ganha, com um cuidado e tratamento diário do escalpe capilar e umas madeixas ou nuances duas ou três vezes por semestre. Afinal, o seu futebol teve momentos esplêndidos e é também por isso que muitos misters continuam a preferir os loiros.

terça-feira, julho 22, 2003

ÚLTIMA HORA: Após um forcing negocial, a Caderneta da Bola SAD vem por este meio comunicar que chegaram a bom termo as negociações com o astro da bola escrita, falada e comentada Rui Malheiro, o regista do Terceiro Anel ( http://terceiroanel.blogspot.com ). Quando os craques são pessoas sérias, idóneas e interessadas, não é difícil chegar a acordo e as verbas são relegadas para segundo plano, pelo amor à camisola futebolístico-historiográfica. Ganham os adeptos, ganham o futebol, ganhamos, enfim, nós todos. Palpitamos a escolha da camisola 11, em homenagem a Pedro Miguel, e os golos surgirão no final de Agosto, depois de umas merecidas férias, juntando-se nessa altura ao restante plantel. É claro - e esta informação não pode também passar ao lado de quem lê - que toda a grande transferência (com franqueza, perante isto, custa-nos a compreender o frisson em torno de Ricardo...) envolve contrapartidas, neste caso bastante interessantes. Haverá mais novidades do defeso nos próximos dias, pois o momento, nos plantéis coesos, é de planificação serena da época que aí vem.

sábado, julho 19, 2003

Caderneta da Bola: contra a pubalgia e as lesões no menisco. Golos de letra para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Temos recebido uma quantidade assinalável de correio de leitores. Agradecemos os elogios e registamos as referências. Recordamos o surgimento do Futeblog Total ( http://futeblog-total.blogspot.com ) e do Adepto de Bancada ( http://adepto-de-bancada.blogspot.com ) e agradecemos todas as sugestões, que serão sujeitas a rastreio consoante as prioridades editoriais. O Vitória de Guimarães é um manancial interessante mas, frisamos, as próximas aventuras serão José Eduardo, o comentador, e o Desportivo de Chaves. Na próxima semana, metade da Caderneta estará a vistoriar as obras dos estádios do Euro e a outra metade não estará a vistoriar as obras dos estádios do Euro, pelo que será complicado produzir ao ritmo alucinante a que os leitores se têm habituado. Será, no entanto, um quase-silêncio de pouca dura.
ÚLTIMA HORA: A Caderneta da Bola, neste altura de defeso, é um clube sempre atento ao mercado de transferências e a quem todos os bons jogadores interessam. Por isso, e perante insistentes rumores surgidos nos mentideros da bola escrita, vem por este meio assumir publicamente o seu interesse na contratação do mais promissor falador de futebol a actuar, neste momento, em Portugal. Trata-se, como já adivinharam, de Rui Malheiro, um jovem com cartel e provas dadas no futebol português e com quem a Caderneta gostaria de contar para uma colaboração regular e de cariz estritamente historiográfico, um pouco à semelhança da escola táctica que o próprio já tem vindo a desenvolver na secção 'Recordar é Viver' do incontornável Terceiro Anel. Dizemo-lo publicamente e antes de contactos com o empresário porque não tememos a concorrência: temos camisolas feitas, só falta escolheres o número, e um contrato de 3 épocas à espera. Qualquer oferta superior, nós cobrimos. Seguimos para estágio brevemente e o campeonato está à porta. Que nos dizes?
Quanto aos ajudantes da armada, temos em Beto, Carlos Alberto Santana de seu nome, um contra-almirante de respeito. Com uma compleição física que o capacita tanto para a bola, como para a estiva como para a porta de uma discoteca na 24 de Julho, pulverizou a concorrência ao marcar 16 golos na época de 92-93, o glorioso ano da subida. Carioca, era um avançado fortíssimo, que corria e rompia defesas dentro e fazendo sobejo uso do seu remate fácil e poderoso. Proveniente do América do Rio de Janeiro, esteve 5 anos no União, ao longo dos quais marcou 39 golos. Depois do União, seguiu-se uma experiência em Espinho, na esteira de pontas-de-lança memoráveis como Bolinhas (a quem tiver a arte, que lhe dê voz, ou nós próprios o faremos em tempo certo) ou Artur Jorge Vicente. Já Manú é outra conversa. Também brasileiro mas de Brasília, este dianteiro fazia da classe e do jogo de anca o seu ponto forte, impecavelmente penteado e senhor de um futebol melodioso, espraiou o tropicalismo ao longo de 4 temporadas e 24 golos, tendo seguido depois para o Chaves (está para breve, a resenha), Espinho (de novo o Espinho, hoje e sempre), Académica de Viseu e Imortal de Albufeira. De notar que se trata de um jogador temperamental e com personalidade, pelo que o respeito que ganhou, granjeou-o muitas vezes à custa de um ou outro vermelho e uns quantos amarelos. Bem sabemos que hoje em dia pouca diferença faz, mas falamos aqui de um tempo e de um lugar onde a ética e o savoir-faire ainda vinham no dicionário. Ou não fosse um pastor o capitão.
Existe, no futebol, uma série de verdade tidas como absolutas, isto é, consensuais desde os relvados até às cabines dos relatores, desde os jornais aos Donos da Bola. Falamos de afirmações como "Geraldão marcava muita bem livres directos" ou "o Porfírio, se tivesse cabeça, podia ter sido um grande jogador". Lugares comuns, enfim. Um desses, aliás de dimensão internacional, é o incontroverso postulado "os jugoslavos são os brasileiros da Europa". Para se compreender melhor o União da Madeira, o clube cuja missão é precisamente provar cientificamente esta tese, temos de a ter em conta aprofundadamente. A urdidura estratégica absolutamente prodigiosa dos gialloblui do Funchal pode resumir-se num raciocínio silogístico de razoável complexidade: brasil = bom futebol; jugoslavos = brasileiros da europa = bom futebol; brasilileiros + jugoslavos = bom futebol; (comprar) brasileiros + (comprar) jugoslavos = (comprar) bom futebol. Se tomarmos 'comprar' como prerrogativa da acção 'jogar', temos o resultado final: (comprar) brasileiros + (comprar) jugoslavos = (jogar) bom futebol. Tem tudo para dar certo. Aparentemente. Sem grandes delongas neste preâmbulo teórico, porque não é este o objectivo do post, podem apontar-se, assim de repente, duas falácias nos planos dos patos bravos da bola madeirense: a falácia da 'falsa totalidade' (o futebol é idiossincrático, nem todos os brasileiros e jugoslavos são bons) e a do 'entrosamento' (os bons jogadores, para obterem sucesso individual e colectivo, têm de estar entrosados entre si [voltaremos a este termo]). Estas podem ser duas causas possíveis para, apesar de um ou outro apontamento, a canarinha do Governo Regional SAD nunca ter acabado um campeonato acima do 8º lugar. Há, no entanto, um acervo considerável de "gestos técnicos" que acabam por sustentar, ainda que debil e discutivelmente, a invocação da tal teoria dos brasileiros e jugolsavos. E esse acervo devemo-lo, na Madeira unionista, quase por inteiro à armada ofensiva balcânica e a dois franco-atiradores sambistas. Já aqui falámos do trio maravilha e dos dois comparsas tropicais, pelo que há que mergulhar de cabeça nas águas tépidas dos golos insulares: Jovo. Nascido Jovo Bosansic, em Novisad, na antiga Jugoslávia. O mais novo do trio. Não sendo demasiado alto (1,79m), era senhor de um físico equilibrado, um porte elegante. Homem de poucas palavras e olhos de um doce azul oceânico, chegou à Madeira na temporada de 92-93, proveniente do Vojvodina, para alinhar na maior parte dos jogos e facturar 9 golos e assinando o livro dourado da subida de divisão. Nas duas épocas seguintes não alinhou tantas vezes, tendo marcado apenas 1 golo em 94-95, ano em que o União desafiou a comunidade de estudiosos ao falhar a manutenção com uma equipa em que apenas tinha 3 portugueses e tudo o mais era brasileiros e jugoslavos, as tais garantias de bom futebol. No que concerne a Jovo, podemos dizer que a candura não o ajudou, em Portugal, mas que a elegância atraíu terras de Sua Majestade. Em 95-96 ainda começou a época no União mas transferiu-se de seguida para o Barsnley, onde fez duas temporadas a jogar regularmente nos escalões inferiores. Depois disso, seguiu-se o futebol francês e o Guingamp, também da 2ª divisão francesa. De regresso ao União em 99, foi no Nacional que prosseguiu a carreira, depois disso. Agora, Lepi. O avançado Lepi, petit-nom para Dragoslav Lepinjica,é o mais velho dos três. Poderoso, sorridente e bem penteado, era temível na grande área e fez escola no futebol jugoslavo, onde se formou, no Osijek e de onde saíu para jogar no Dínamo de Zagreb, ainda nos anos 80. Chegado à Madeira em 1990, é um dos históricos do clube, onde alinhou seis épocas seguidas e facturou, ao longo desse tempo, 25 golos, tendo participado em duas descidas de divisão e nunca jogando menos de 14 jogos por época. Na segunda descida, não resistiu e viajou uns quilómetros para o Machico, à altura, em 96, na segunda divisão B. Porém, foi e será sempre uma referência do ataque madeirense. Simic, Sasa Simic. Belo jogador. Explosivo no drible, atómico no pique, ágil no um-para-um. Dava gosto vê-lo escapulir-se aos adversários. Descoberto no Banja Luka, chegou à Madeira para imprimir velocidade no ataque, em 94-95, ano em que, malogradamente, os seus seis golos não foram suficientes para evitar a descida de divisão. A vingança do sniper não se fez porém esperar e no ano seguinte, ao longo de 28 jogos, marcou 12 golos, o que lhe valeram uma transferência para o Bessa, onde era visto como aquele que faria esquecer o brasileiro Artur, a quem muitos chamaram Rei daquela távola redonda onde também cavalgavam Timofte, Sanchez e Nuno Gomes. No Boavista fez duas épocas, não foi muito feliz (alinhou 18 jogos na primeira e apenas 11 na segunda) e o Beira-Mar foi o destino seguinte, onde alinhou quase a época toda e apontou 8 golos. Depois disso, o coração deste bólide falou mais alto e abdicou da Veneza portuguesa para regressar ao seu União, na altura, em 99, na segunda B. E aí, já em declínio, ficou, passeando a sombra daquilo que já foi, e as saudades dos antigos companheiros de bombardeio.

segunda-feira, julho 14, 2003

E ao 10º dia, a Caderneta renasce, qual Cesár Brito na Covilhã. Uma complicada lesão académica nos ligamentos internos cruzados impediu-nos de alimentar este monstro a papas de história e arroz de bola, nos últimos dias. Mas após o calvário, os leitores poderão contar com uma imparável torrente de posts e mais posts sobre os vários assuntos que a Caderneta foi deixando pendente. Apenas para abrir o apetite, viramos mais uma página do Dicionário Português-Futebolês e prosseguimos para a letra G: G para "Gesto Técnico": Expressão cunhada ao longo dos tempos no dialecto, é hoje uma das mais importantes e utilizadas muletas de comentador televisivo e radiofónico. A expressão é volante, volátil e polivalente, pois refere-se a qualquer gesto de um jogador de futebol em pleno desafio que agrade ou exclusivamente ao comentador ou ao público presente no estádio em geral. Por exemplo, quando um ponta esquerda a abrir um espaço para a entrada de um segundo médio ala numa diagonal, o seu papel pode ficar obscurecido pelo sucesso do ponta-de-lança que conclui. No entanto, o bom profissional de imprensa não deixará de salientar o "belíssimo gesto técnico" do ponta. Esta expressão tem vários equivalentes, mas raros são os que atingem o seu quilate lexical. Falamos, claro, de expressões como "execução" ou "trabalho" ou ainda "apontamento". Indispensável a esta expressão é também o seu adjacente qualificativo. Raros são aqueles que falam do gesto técnico sem lhe acrescentar "perfeito" e "belíssimo", ou, caso não tenha resultado, "imperfeito" ou "de fraca execução". Note-se que o acervo de qualificativos depende da escola teórica do comentador. Se estivermos a lidar com um Ribeiro Cristóvão, não é de espantar ouvir "gesto técnico de grande categoria", ao passo que um Gabriel Alves já apostará no rigor proto-científico de um "excelente gesto técnico" ou até mesmo "gesto técnico irrepreensível, a revelar excelente capacidade de leitura técnico-táctica", em momentos de maior inspiração. Jorge Perestrelo, por seu turno, já acrescentará duas ou três palavras em crioulo e um abraço para o seu grande amigo que almoça, à hora do jogo, na Mealhada. Outra grande questão em torno do "gesto técnico" prende-se com a validade da expressão: em rigor, qual é o gesto que não contém uma técnica? Ou, por outras palavras, a técnica não se verifica ontologicamente através dos gestos? Parece-nos que a utilização do termo visa elogiar determinado lance de um determinado jogador. No entanto, basta de redundâncias! Digamos sim à higiene discursiva, no que à bola diz respeito! Se todo o gesto inclui uma técnica, todo o gesto é técnico, mesmo que a especialização na técnica não se verifique, ou mesmo que a técnica não seja aplicada conscientemente. Há no entanto outra explicação avançada para a utilização tao corrente desta expressão. A explicação de que em Portugal, nem todo o gesto futebolístico chega a conter técnica, tal é a pobreza de muito do futebol aqui jogado. Atenção: a quem se esconde à sombra cobarde deste tipo de teses, respondemos com elevação teórica - mesmo o futebol, quando não é bem jogado, implica técnica. os falsos profetas que não reconhecem isso apoiam-se num paradigma caduco e há muito abandonado na ciência da bola, o paradigma de que há a "técnica" e a "força", quando na realidade (já o dissemos!) tanto uma como outra são componentes da mesma acção. A esses, e por respeito tanto à língua como aos leitores como ao verdadeiro amante do desporto rei, dizemos de uma vez por todas: dicotomias, só a "técnico-táctica", e o resto são centros para a bancada.