terça-feira, novembro 13, 2007

O regresso implica, neste caso, um retorno à origem. A origem da bola lusa tal como a conhecemos reporta – como não? - aos desígnios originais da nação. A prolongada hibernação teórica esperou até ao momento de descoberta desse período e epicentro geográfico que descodificam, como se da Pedra da Roseta da redondinha se tratasse, o que é hoje o tal desporto a que os entendidos chamam futebol.

Voltar ao princípio, tal e como o entendemos, é voltar ao berço. O local de renascimento da bola é, afinal, o lugar essencial da fundação da país. Falamos, claro, de Guimarães, terra de estátuas metálicas do rei dito o primeiro, reconstruções de ruínas pela velha senhora (atenção à semelhança cromática entre o clube da terra e a vecchia signora de Turim) e covil de hooligans desalmados, entre outras delícias regionais.

Vitória foi o nome dado em 1922 à agremiação local num notável e paranormal prognóstico da única ocorrência deste género obtida pela sua categoria sénior do desporto-rei: a Supertaça Cândido de Oliveira, 66 anos mais tarde contra um Porto ainda bêbado da vitória no Ernst Happel. A única Vitória do Guimarães e a sua homenagem feita sessenta e tal anos antes – tantos quantos os anos do século XX que o país esperou até ver os patrícios subir ao pódio imaginário de um mundial de futebol - foi apenas o primeiro indício da propensão zandínguica associada ao clube. Há mais, claro, e esta dimensão de oráculo estende-se, atrevemo-nos a dizer, a todo o futebol europeu.

Agora, quando? O leitor não pode ser massacrado com a homérica tarefa de decifrar toda a história do clube em busca dessa temporada mítica que constitui a síntese da bola deste rectângulo. Não pode porque é uma chatice e, em boa verdade, nem sequer precisa porque a Caderneta tratou de fazê-lo por ele. Falamos da temporada que começou no Verão de 1993. Essa época, que acabou por ser o último campeonato ganho pelos rivais do Fófó desse século, que o clube do Campo Grande teve meia geração de ouro a ouvir traduções inglês-setubalense até se suicidar na neve de Salzburgo, e que nas Antas ainda não se conhecia a palavra penta mas em contrapartida Rui Filipe ainda era homem e não lenda, nessa época... o Guimarães fez história.

Nenhum outro clube em nenhuma outra época, de acordo com os registos recolhidos até à data, soube condensar tanto símbolo de passado, presente e futuro, num demónio de Laplace cujo resultado é, somente, o futebol tal como o conhecemos hoje.

Desde o homem que agarrou o braço de Luís Filipe e impediu um homicídio em pleno Estádio de Alvalade, bem recentemente, às velhas glórias da defesa, ao lateral português que vingou no estrangeiro sem que o estrangeiro se tivesse, de facto apercebido. Desde o protótipo do central canibal ao arquétipo do patrão de bigode, uma espécie de Humberto Coelho quase galego. Desde a actual dupla técnica do clube viscondal aos dois tipos de jogadores balcânicos, o que ficou conhecido além fronteiras por espalhar arte, valentia e psicose, e o que apenas ficou conhecido cá no burgo por espalhar discretamente as primeiras duas. Desde a incansável gazua africana ao involuntário epicentro da corrpução futebolística pós-quinhentinhos de Guímaro e pré-café com leite. Desde a jovem promessa dianteira lançada às feras com as quinas ao peito no Golfo Pérsico, ao mito cartaginês, avançado de faro e dimensão transahariana. Desde os primórdios ao obscuro desconhecido, pelas fronteiras do tempo. O berço tremeu por um ano e o destino ficou gravado para a eternidade.

segunda-feira, novembro 12, 2007

sexta-feira, novembro 09, 2007

Enquanto não se escrever a última página na interminável esferico-novela, essa mesmo que perecerá de mão dada com a própria humanidade, e que há dezenas de anos divide o género humano entre os que crêem que Fábio Felício não passa de uma pálida réplica de Nuno Pintassilgo e os que defendem a constância deste último face à errância do primeiro, podeis estar certos, oh prezados leitores, esta vossa humilde publicação, outrora plagiada por vulgares fariseus de vãs edições em papel cuja atenção dada à reverente arte da redondinha é a mesma atribuida a fúteis acessórios para meios de transporte de quatro rodas, continuará a relatar o que a arte, o engenho, a memória e o relógio permitirem. Sim, porque se em 1993 foi permitido a Andrade, Bambo e Hugo Porfírio, entre demais compinchas, sonhar com o Tri-Mundial em terras de Bozinovski e Minogues, também a nós, meros operários da literatura bolística, será permitido levar a redondinha prá frente, eventualmente recorrendo ao ocasional chuveirinho. Não será demanda fácil. Sobretudo para o leitor que encontre em sucedâneos produtos, cuja arte se resume a digitalizações de cromos sitos no objecto que emprestou a este esforçado pasquim seu nome, o Santo Graal da esférico-historiografia. Prevêem-se jornadas duras. Duras como uma deslocação ao Bessa de Bóbó e Manuel José em alturas de janeiras. Falamos de longas e densíssimas incursões teóricas que, partindo de recordações fragmentadas, gizam estorietas floreadas a metáforas mais rebuscadas que o Poço da Morte erigido a tiros de Bolinhas e Artur Jorge. Os anos passaram. O futebol não terá mudado assim tanto, mas nós sim. E quem cresceu a comer cereais às 3 da manhã à espera da continuação da Ode a Matute, mudou connosco. E são a esses que temos que atender. Disse.