segunda-feira, junho 30, 2003

Inaugura-se aqui mais uma secção temática dentro da Caderneta, para acumular às já referidas Suicídios Futebolísticos (ainda estamos à espera do texto sobre o suicídio do Peixe, Pedro!), Duelos Sanguinários e Retrospectivas de Plantéis: o tão útil e indispensável dicionário Português-Futebolês, acervo de expressões cunhadas tanto nos relvados como nas arenas de comentarismo, paineleiro e de cabine, cá da terra. A ordem alfabética será amplamente desrespeitada, assim como quem se esqueceu anos a fio da regra dos "6 segundos com a bola na mão dá direito a livre indirecto, ó redes". Hoje, e porque a hora já avança manhã dentro, começamos com a letra D: D para "Defesa a dois tempos": Expressão amplamente difundida em português (e que não encontra paralelo em qualquer outra língua, que se saiba), tem uma origem incerta. Há correntes teóricas que a associam a repórteres de rádio no terreno, daqueles que dão as suas achegas de trás da baliza e cujas tácticas de auto-legitimação perante os Perestrelos que ficam na tribuna incluem precisamente o recurso a expressões deste quilate; outras ligam-na ao mais mediático linguista do futebolês da década de 90, Gabriel Alves. Aqui na Caderneta inclinamo-nos mais para a primeira, deixando ao analista o título de principal difusor da expressão. Ora esta expressão é utilizada correntemente como referência a uma defesa, por parte do guarda-redes, que não é consumada no imediato da recepção da bola a partir do remate do avançado. Trocado por miúdos, é quando o guarda-redes, ao efectuar a defesa, só agarra a bola firmemente contra si à segunda, deixando-a primeiro cair ou rechaçando-a para a frente. O que nos intriga é a questão do "dois tempos". Porquê tempos? Porque não 'modos', uma vez que à primeira já ele tinha defendido, apenas de maneira diferente (mais inseguro)? Ou porque não 'passos', numa visão mais evolucionista de que a diferentes defesas correspondem diferentes percursos, sendo assim a defesa um fim e todos os passos até lá, o trajecto para esse fim? O emprego do termo 'tempo' é uma falácia, porque implica que a defesas diferentes seja inerente um mesmo compasso, uma mesma cadência. Esta constância, esta regularidade axiológica não se coaduna com a evidência ontológica de existirem tantos guarda-redes como estilos distintos. A coincidência de compasso nas defesas de um Hubart e de um Brassard residirá, até prova em contrário, num casuísmo que destrói a possibilidade de se falar de 'dois tempos' genericamente. A não ser que se pressuponha que estes dois tempos são de duração distinta e variável entre si, o que para além de chutar a discussão para um nível de abstracção absolutamente ridículo, só vem trazer à baila mais questões passíveis de a refutar: se os tempos são distintos entre si, porquê falar de dois e não quatro (GR lança-se ao ar, GR defende para a frente, GR lança-se ao chão, GR agarra a bola)? E qual a relação entre o tempo e a acção, ou entre o tempo e o modo? São estas questões que complicam irreversivelmente a sociabilidade entre os praticantes quotidianos do futebolês e as pessoas um pouco mais obsessivas com o idioma camoniano. Ou só picuínhas. Ou que não liguem puto a bola e a estas coisas. De qualquer modo, quem não conhecia a expressão, já não vai estranhar, da próxima vez que o Gabriel vir, em directo, o Pedro Roma assustar os tunos depois de um remate do Sokota e empregar, com alívio, esta expressão. A isto, nós aqui gostamos de chamar serviço público.
Caderneta da Bola: Um blog para quem nunca teve dificuldade em distinguir o Chiquinho Conde do Chiquinho Carlos! Passes em profundidade para: caderneta-da-bola@megamail.pt
E porque aqui na Caderneta da Bola também somos blogoesféricos (mais para o esférico do que para o blogo), não escapamos às polémicas que vão assolando este mundinho. Diz-nos um leitor que faltámos ao respeito ao União da Madeira e que fomos imprecisos no relato sobre Jokanovic e Latapy. Sustenta que quando se deu a vingança, Jokanovic já estava no Marítimo e a agressão foi no túnel. Lançado o anátema da dúvida, compete-nos alvitrar que aqui na redacção somos jovens e saudáveis demais para que a memória nos traia num assunto com esta dimensão. Existe uma recordação nítida e fotográfica e uma comprovação posterior. O único ponto em que se admite a falibilidade, ainda que remota, é na camisola que Jokanovic envergava na altura. O que afinal, tratando-se à mesma de clubes pagos maioritariamente pelos contribuintes, acaba por não ser assim tão relevante. Ainda assim, regista-se e agradece-se a informação sobre a agressão no túnel (ainda carente de confirmação) e aproveitamos para referir que, como eventual redenção pela troca do União com o Marítimo, num futuro próximo (infelizmente, não demasiado), aqui se dará ao União de Zivanovic, Rodrigão, Lepi, Helinho e, claro, Milton Mendes, a atenção merecida, numa detalhada, apetitosa e, acima de tudo!, respeitosa resenha historiográfica. Saudações cubanas.
Na semana em que Mauro Airez volta à ribalta como carrasco, desta vez não de clubes do meio da tabela mas dos cofres do Benfica, a Caderneta não pode deixar passar em claro a oportunidade de recordar esse vagabundo das pampas. Mauro Gabriel Airez, nascido em Buenos Aires em Outubro de 1968, começou a jogar à bola nessa magnífica cantera peronista que é o Gimnasio y Esgrima de la Plata, em cujos balneários tomaram banho estrelas como Guly (actualmente no Milan) ou os irmãos Schelloto. O jovem Mauro, acabadinho de ascender dos juniores, com 20 anos, rubricou na sua primeira época de sénior 5 golos, ao longo de 30 partidas. A posição? Avançado, claro está, e não se fala mais nisso, para já. As temporadas que se seguiram, repartidas entre o Gimnasio, o Argentino Juniors e o Independiente, todas elas recheadas de golos e de exibições perfumadas, valeram-lhe um lugar num charter para Bari, onde a época lhe terá corrido tão bem ou tão mal que dali saíu, meses depois, ainda em 91, para o Belenenses, à altura na Segunda de Honra. É escusado dizer que foi no Belenenses que o delantero Maurito conheceu o esplendor. Nessa primeira época rubricou, ao longo de 32 jogos, 11 golos e os vizinhos da Casa Pia subiram à primeira divisão. Confessamos que Mauro sempre agradou de sobremaneira ao dueto caderneto. O seu jeito índio e a propensão para a pantomina do esférico, o carinho com que tratava a bola, a movimentação imprevisível em campo e um baloiçar constante entre as alas, faziam de Mauro um jogador de encher o olho. Para além disso, era um exemplar executante de pontapés acrobáticos, um artesão ocasional mas retumbante de guapíssimos golaços de placa. Abreviando, as épocas seguintes em Belém colocaram Mauro na lista dos avançados mais carismáticos a pisar os nossos relvados, a par de nomes como Hassan, Chiquinho Conde ou Karoglan. Foram 3 épocas e meia de glória azul-monárquica até à transferência para a Luz, em Janeiro de 96. Como em qualquer transferência do Belenenses para outro clube, esta também envolveu mais do que um jogador. O parceiro de Mauro foi, na ocasião, o brasileiro Luiz Gustavo, também avançado com cara de mau que chegou a Benfica com craque escrito na testa e acabou por deixar o clube sem que alguém tenha tido tempo, afinal, de se lembrar dessa mesma testa. O desperado Airez, por seu turno, veio parar numa má altura à segunda circular: a movida era intensa e marcada pela chegada de camiões de jogadores como Clóvis, Ailton, Paulão etc, multidão que tornou indistinto o talento do nosso argentino, que até chegou a ser convocado para a selecção das pampas por Carlos Bilardo. Arriscamos dizê-lo que nas duas épocas em que equipou de vermelho, o mais significativo que soube fazer foi marcar um golo naquela final da taça, cujo jogo propriamente dito foi apagado da memória dos adeptos de futebol pelo lançamento dum very-light. A partir daí, começou o declínio: chutado para a Reboleira para emparelhar com Mário Jorge (outra ex-next big thing do futebol português), acabando depois perdido algures pela 2a de Honra. Hoje em dia, Mauro Airez é um esmerado empresário e representante de colossos como Zarate (fulminante sul-americano que encantou Alverca) e vai passando os dias a tentar liquidar as dívidas que o impeçam de passar pela dramática penúria em que se viu envolvido após a sua passagem pelo relvado do Estoril. Penúria que uma Brigitte Martins ou um José Gabriel Quaresma deveriam ter tratado com mais atenção no seminal Contra-Ataque, escusando Mauro de a relatar com humilhante indiferença a um jornal desportivo na época. Resta-nos acrescentar que futuros alvos de recensões aqui na Caderneta, como Salam Sow (um leão indomável), David Embé (outro, que ainda por cima fugiu de Belém para a Grécia) ou Gilberto Monga (apenas para citar alguns exemplos), nunca fizeram esquecer no Restelo o mítico argentino. Caso para dizer que, sendo agora o titã azul-celeste o tutor legal de algumas das maiores promessas do futebol latino-americano (Zarate! Zarate!), o Belenenses bem pode recorrer ao sábio pai para encontrar um filho pródigo. Temos dito.

quinta-feira, junho 26, 2003

Devemos confessar que ficámos algo sentidos com o epíteto de " o mais conservador dos blogs portugueses" no Quinto dos Impérios (http://noquintodosimperios.blogspot.pt). Podemos mesmo considerar tais declarações como um tackle por trás, à margem da lei, passível de ser admoestado com a exibição directa do cartão vermelho. Neste nosso primeiro e último post de teor político (a malta curte é bola!) afirmamo-nos, sem qualquer tipo de reservas, como adventistas do futebolismo dialético. Esses comentários são, no fundo, a antítese que, opondo-se à nossa seminal tese, ajuda a germinar a nova aurora futebolística, a síntese revolucionária que pintará de liberdade os anais da história da bola, quais Pedros Miguéis a emergir do proletariado barreirense para o patamar das classes esclarecidas. Isso sim, nós conservamos.
Infelizmente não temos tempo para responder aos e-mails todos, mas muitas das questões colocadas, ficarão a seu tempo, resolvidas ou quase. A paciência é uma grande virtude, como aliás ficou demonstrado na carreira de Herivelto, brasileiro do Marítimo que suou as estopinhas para ganhar a titularidade a Jorge Andrade.
Um ataque extremamente agudo de irresponsabilidade leva-nos a interromper por breves minutos os nossos afazeres técnico-profissionais-ó-académicos e partilhar com a imensa minoria mais uma memória, mais um símbolo, mais uma viagem. Desta vez, aterramos no já célebre triângulo Chaves-Braga-Croácia e raptamos à bruma da história essa lenda que dá pelo nome de Karoglan. Mladen Karoglan, um nome que dá vontade de saborear. O primeiro 'a' aberto, um 'den' quase apocalíptico, uma pausa para respirar no desabar do mundo, e recomeçar, 'karo', a expirar o 'o', lentamente, como quem fuma o último cigarro antes da execução, e 'glan'. Karoglan. Decorria o ano de 1964, os Beatles rebentavam as tabelas, Nelson Mandela era preso no Apartheid, revolta nas ruas do Harlem, motins raciais, o primeiro transplante do pulmão, e, no dia 6 de Fevereiro, na pequena cidade de Imotski, a cidade dos dois lagos do condado de Split e da Dalmatia, nascia Mladen Karoglan. Peripécias múltiplas e altamente fastidiosas, as futebolísticas das quais certamente orquestradas por maneigers sem escrúpulos, trouxeram o jogador até Chaves. E se para trás do Marão mandam os que lá estão, para os avançados de leste abre-se sempre uma excepção (rima e é verdade!). Se na época de 91-92, fora Rudi, com 10 golos e pela segunda vez consecutiva, a ostentar o galardão de melhor marcador dos flavienses (feito que viria a repetir no altar que o tornaria um santo, a Capital do Móvel Paços de Ferreira), em 92-93, Karoglan aterra no aeródromo para singrar e ser a única luz numa época de trevas. (pequeno parentesis: a referência ao aeródromo não foi inocente. Foi também neste aeródromo que anos mais tarde a equipa do Sporting viria a aterrar para jogar uns quantos minutos de descontos de um jogo que acabara dias antes porque a luz veio abaixo. fim de parentesis.) Nessa época mefistofélica, em que o GD Chaves desceu à 2ª divisão acabando com 16 pontos, o último lugar e apenas 4 vitórias, todas elas em casa, Mladen Karoglan conseguiu ainda assim marcar 10 golos. Se compararmos a perfomance do croata com a de Serifo e quejandos, percebemos facilmente que aquele não era jogador para alinhar na divisão de honra. Atentos como sempre, Mesquita Machado e seus capitães repararam nisso e levaram-no para a Nápoles portuguesa, Braga, essa cidade idiossincrática que tanto pode parir uns Mão Morta como um Cónego Melo. Em Braga, na época de 93-94, o nosso croata ficou-se pelos 9 golos mas no posto de titular indiscutível, com 33 partidas jogadas. O melhor marcador da equipa. Nada mau, para uma época de ambientação. Porque é que Karoglan marcava tantos golos? Porque, caríssimos, estamos perante o típico exemplar do avançado balcânico. O arquétipo do avançado móvel, aguerrido, repentino, de técnica rápida e repertório imprevisível. As comparações chovem em catadupa: lembram-se de Pedrag Mijatovic? Karoglan tinha a barba um pouco mais comprida e nunca usou, que se saiba, bigode. De resto, umbilicalmente semelhantes. Porquê Mijatovic na selecção das camisas mais parecidas com toalhas de mesa de pizzaria e não Karoglan? Expliquem-nos... Na época seguinte, ainda no arcebispado, tornou a ser titular mas facturou um pouco menos: apenas 7 golos. Em 95-96, 8 golos, 28 partidas jogadas. A influência crescia. Via passar ao seu lado jogadores como Forbs (em forma, uma autêntica gazela) e Toni (uma viga com a técnica de uma traineira), por exemplo, e mantinha-se tão firme no onze como no coração dos Red Boys, os irredutibile tiffosi minhotos. Recapitulando, estamos com 24 golos em 3 épocas. Karoglan achou pouco e vai daí carimba as redes por 14 vezes na época seguinte, em 96-97, ano em que Jardel já jogava nas Antas, e pontificavam por esse campeonato fora estrelas como Gilmar (no Guimarães), 47 avançados brasileiros na Luz e o tridente ofensivo flaviense que carregava a cruz de fazer esquecer Mladen: Miner, Sabou e Matute. Se Karoglan já estava no panteão dos artilheiros e já se falava em transferências para os grandes, assim ao jeito de um Drulovic, o croata repetiu a dose em 97-98 com mais 14 golos e mais uma época de glória. Note-se que estamos a falar de um jogador com a provecta idade de 34 anos. Porquê falar de Karoglan, afinal? Razões de várias ordens, entre as quais o esquecimento a que figuras como estas (que conseguem aguentar tantos anos seguidos em Braga e ainda por cima a marcar golos) têm sido votadas, o exemplo pedagógico que este jogador pode constituir para todo o menino cujo sonho é ser o próximo Eusébio (Akwá, Edgar, Pepa: ponham os olhos no mestre!) e, por fim e porque nunca é demais lembrar, o delicioso aroma do futebol de leste e a tradição que tem vindo a cunhar, desde o início dos anos 90, nos relvados viriatos. Disso são exemplos Djukic, Zoran Ban (um jogador bigger than life que a Juventus emprestou ao Belenenses nos idos anos de 94). Milovac (o arranha-céus de Paranhos) e metade do plantel do União da Madeira, onde pontificaram a dada altura, Lepi, Jovo, Simic e o já aqui referido Jokanovic. Venha a nós o vosso Leste...

terça-feira, junho 17, 2003

Serà difícil tornar a escrever nos próximos dias... mas o regresso... esse será em grande! Não percam... A aventura historiográfica continua dentro de momentos.
Ah! E continuamos tristes com tanta visita e tão poucas palavras de apoio ao Clube Futebol Benfica. Só para ficarem a saber.
Corria o ano de 1995 e a Federação vivia ainda na ressaca da profecia de Queiroz no Monte de San Siro no final da qualificação falhada para o Mundial de 94, quando atirou as tábuas divinas ao chão e declarou ser preciso limpar muita porcaria antes de irmos com as quinas a algum lado. Passaram largos meses até as sábias palavras do Professor do bigode (não o prof. Neca) serem postas em prática, numa urdidura tortuosa e vingativa. A vingança, caríssimos, seria ali mesmo ao lado das terras onde deveríamos ter estado a mundializar. Canadá, país de Celine Dion e Brian Adams, mas também de Alex Bunbury e Fernando Aguiar. Foi aí que a selecção exorcisou o fantasma do falhanço queirosiano, no retorno ao tecto do mundo, a Taça da Cúpula do Céu, no original, Skydome Cup. Esta Cup, no entanto, entrou para os anais como o Torneio dos Sintéticos de Toronto, das chuteiras com pitons esquisitos para jogar em alcatifa e do elenco de destemidos que aceitaram ser atirados para a fogueira e ficarem célebres como "uma selecção de 2ª". Porque é que este episódio assume importância aqui no contexto cadernético? Por várias razões: a afirmação da tugalidade em contextos de disseminação pós-moderna da prática desportiva (trata-se da assunção do kitsch futebolístico, com o conjunto de jogadores que já iremos expôr!), a arqueologia do refugo e a perspectiva diacrónica sobre uma selecção que assume a sua intemporalidade por vezes das formas mais insólitas. Deixemo-nos de paleio intelectualóide e vamos aos factos. No dia 26 de janeiro, Portugal defrontava o país anfitrião, onde pontificavam Alex Bunbury e, a então jovem esperança do país da folha de plátano, Fernando Aguiar. A nossa selecção essa, apresentava um 11 inicial capaz de rivalizar com um União da Madeira. Senão vejamos: Na baliza tinhamos Neno (ele novamente! O nosso Julio Iglésias!). A defesa estava entregue a Jorge "Bicho" Costa, que tinha a acompanhá-lo à guitarra Rui Bento, jogando a líbero ou carro-vassoura (a posição de que nunca deveria ter saído), Paulo Madeira, acabadinho de ganhar a titularidade a Lula em Belém, e Carlos "êli não gozou!" Secretário, o maior mistério do futebol(?) português. No meio campo começam as dificuldades argumentativas. Na ala esquerda, uma pantera boavisteira, mesmo de encarnado: Nelo. Se calhar, aquela questão do 'equívoco Secretário' é mais duvidosa do que parecia à primeira vista. Nelo, extremo-esquerdo também defesa lateral, também nº 10, mas não polivalente. Polivalentes eram os treinadores que o colocavam em campo sem percebermos bem porquê. Um jogador sem características assinaláveis tirando a técnica do passe em balão e aquela que tem sido injustamente considerada ao longo dos anos como 'uma especialidade', uma técnica traduzida no jargão da bola pela frase "o gajo marca muita bem livres!". Transferido do Bessa para a Luz com o seu colega Tavares, constituía na Avenida da Boavista um diabólico tridente, juntamente com o, também ele internacional, Nogueira, jogador defensivo de parcos recursos mas notável distribuidor de fruta e visual algures entre o intelectual de esquerda e John Holmes. Na ala oposta, Caetano, mítico do Bessa e de Santo Tirso, onde chegou a presidente da colectividade. Rapidíssimo, pungentíssimo na assistência, doces caracóis dourados pendendo sobre os ombros, vivaço e sempre sempre colado à linha lateral. Ao meio, o já aqui referido Vado. Número 10. Atenção: n-ú-m-e-r-o 10! O pensador, o regista, o vagabundo, o estratego, o general, o commander in chief. A pérola maior da ostra atlântica, o ídolo do Funchal, jogava como uma criança feliz, com a mesma alegria, com a mesma espontaneidade, com a mesma ingenuidade, com a mesma apetência tanto para o melhor como para o completo ocaso. Ao seu lado, outro vadio que dispensa epítetos, Pedro Barbosa. Note-se o pendor criativo e fantasista deste meio campo! Na frente, entregues à bicharada dos centrais canadianos e à vã esperança de que alguma bola chegasse algum dia das alas, dois avançados. Avançados, não pontas de lança, que a selecção tinha um e estava, nesse primeiro jogo contra o Canada, no banco, qual arma secreta. Falamos assim de Folha e Sá Pinto. Folha, avançado a descair sobre a esquerda era bom de bola, sim e chegou mesmo à titularidade no Porto. Sá Pinto, protagonista da transferência da época para o Sporting juntamente com Pedrosa, um avançado explosivo, temperamental, uma espécie de Di Canio da Cedofeita com um toque pavloviano de dizer "pócaralho" a cada adversário que se aproximava a menos de 2 metros de si. O jogo, esse, acabou empatado a 1 bola, golo de Folha e Alex, português emprestado. Nesse jogo, foi também utilizado o suplente Calado, de quem nos abstemos de comentar por respeito ao Clube Futebol Benfica, Barroso pé-canhão ("e marca muita bem livres, dasse!") e a arma secreta, ponta-de-lança do qual falaremos a seguir. No jogo seguinte, contra a Dinamarca, apenas duas alterações no já de si caricato onze inicial. Para a baliza, entrou Alfredo, o gangster, Cappo de tutti cappi boavistieri. Facilmente inserível na categoria que Lineu designaria de "Armarius Vulgaris", dois por três, mogno e nada de contraplacados, era um guarda-redes com um faro raro para cruzamentos. Raro, porque raramente acertava num. A outra alteração é então a entrada do ponta-de-lança das quinas. O nome? Alves, Paulo Alves. Alto e desengonçado, ganhou uma bota de ouro (ou de outro metal qualquer), literalmente, sem saber ler nem escrever. Mas era o nosso melhor cabeceador, o nosso Jardel transmontano. De nariz à Júlio Isidro, tinha também uma capacidade fora do comum para arrastar consigo os defesas mais ingénuos, crentes que Alves poderia criar algum perigo fora de situações de canto. Era no entanto eficaz, e que o digam, uma vez mais, as gentes maritimistas e, mais tarde, os hooligans da Juve Leo e de Barcelos. Não é à toa que esse jogo contra a Dinamarca foi ganho com um tento solitário deste matador, sendo no entanto injusto negligenciar o trabalho colectivo e olhos de lince do seleccionador que, ao minuto 70, colocou em campo Tulipa, enfant-terrible suburbano oriundo de Gaia, capaz de destruir completamente uma defesa e ainda engatar umas miúdas ao mesmo tempo. Um extremo à moda antiga dos tempos modernos, enfim. Esses cinco dias em Janeiro saldaram-se com uma Taça nas mãos, mais um troféu para a já de si atolada saleta da FPF. No entanto, e recuperando Queiroz, impõem-se algumas considerações finais: Está bem que era necessário limpar a porcaria, mas não deveriam ter sido estas palavras entendidas numa ordem conjuntural? Não estaria o Professor a falar do sistema federativo em vez do sistema de jogo? Se sim, porquê Nelo e Barroso? Cremos estar perante uma estratégia, assaz comum no estrangeiro, de levar aos amigáveis os jogadores que mais se destacam na época em curso, independentemente do clube (vide o exemplo Rogério Matias na era Scolari) e só por isso, pela preocupação de mostrar ao mundo os nosso cromos, podemos aceitá-lo. De qualquer forma, tratando-se da Taça da Cúpula do Céu (não confundir com a Cúpula do Trovão de Mad Max), acreditamos também que a comunidade emigrante merecia mais do que aquele defesa esquerdo ou do que as palavras "Secretário passa a bola para Caetano". Se era para isto, então porque não uma equipa com Bizarro na baliza, Portela à direita e Rui Gregório à esquerda, Paixão e Pedro Barny ao meio, e um meio campo com Rui Esteves, Hélio, Taira e Carlos Costa, por exemplo, e um ataque viperino com o astro Pedro Miguel e Vinha a finalizar? Quais são, afinal, os critérios? É a pergunta que sempre se impôs. Nós aqui, com franqueza, não percebemos.
Devido a motivos que fogem totalmente ao nosso controlo, não conseguimos saciar a sede dos milhões (mesmo!) de internautas que se têm mutiplicado em elogios à Caderneta. Nós tentamos... mas não somos nenhum Rashid Yekini em plena época 93/94, facturando jornada após jornada para júbilo das gentes do Sado. Dentro de umas semanitas, se os Deuses ajudarem, talvez a nossa odisseia historiográfica volte a embalar em velocidade supersónica, qual Rui Dolores criando caos na ala direita. Dentro de momentos... a tão prometida análise profunda a uma saudosa digressão da selecção de todos nós por terras americanas da Commonwealth...

sábado, junho 14, 2003

Já que estamos numa de leonices, esta vai direitinha para o Terceiro Anel, que nós bem sabemos como a rapaziada adora estas coisas: que é feito Mario Cáceres, 'El Toro', que chegou a Alvalade há dois anos rotulado de matador para fazer esquecer Acosta?
Breve apontamento antigo sobre uma resenha do Terceiro Anel, kuíca para inaugurar uma nova secção, a dos Suicídios Futebolíticos: De novo o Sporting. Julian Kmet, astro argentino promissor e tudo o mais que já foi mais que falado, terá assinado a sua sentença de morte em Alvalade, não com as exibições prometedoras mas pouco concretizadoras cada vez que entrava na 2ª parte, mas sim com um gesto, um único gesto fatal. Numa certa pré-época que nos bem sabemos, o Sporting defrontou o Bahrein numa noite de verão. Julian Kmet pega na bola a meio do meio-campo do Bahrein, levanta a cabeça, arma o pé-canhão e desfere, a uns bons trinta metros da baliza, um tiro descomunal ao ângulo do tipo do Bahrein que naquela noite calhou estar à baliza. As centenas de espectadores que estavam no estádio reagiram entre o estupefacto e o medianamente contente por o Sporting marcar um golo a uma selecção cujo país poucos sabiam que existiam. E Kmet, como reagiu? Talvez acossado pela pressão, o virtuoso argentino despe a camisola do Sporting, atira-a para o chão e vira-lhe as costas. Às vezes, há gestos capazes de demonstrar todo um estado de alma e despoletar todo um terramoto, e nós aqui na Caderneta acreditamos que desde então, tanto Julian já não contava alinhar de verde e branco por muito mais tempo como as gentes leoninas deixaram de o querer por lá. A pergunta que se mantém é: e se Kmet tivesse corrido metade do campo até ao topo sul, abraçado as redes e tivesse deixado a camisola entregue à Juve Leo?
Depois, um sincero agradecimento às palavras amigas do blog http://traducaosimultanea.blogspot.com e do blog http://escala_estantes.blogspot.com . E agora, após prolongada ausência por motivos de força maior (são sempre, amigos, são sempre...), impõe-se um apontamento sobre o terceiro búlgaro. O Terceiro Búlgaro. Fomos dando aqui conta que já se pegou demasiado no Porto, no Boavista e no Benfica e ainda pouco no outro grande, o Sporting. Tempos virão em que traremos à baila o historial dos defesas laterais, desde Gil, o Baiano a Andrija "trabalho para ser melhor que Maldini" Balajic. Por enquanto, somos movidos pela urgência da justiça. A justiça de dedicar umas linhas ao búlgaro que chegou a Alvalade para singrar mas que ficou infelizmente na sombra de Balakov, Iordanov e Cherbakov (que não era búlgaro mas como tinha um apelido terminado em 'ov' acabava por funcionar como 'búlgaro emprestado'). Trata-se de um homem que carregou, ao longo da carreira, a cruz de ostentar um epíteto não terminado em 'ov' mas em 'ev'. (e todos nós sabemos que os 'evs' búlgaros circulam ali no vector que vai do Penev ao Iliev e tudo o mais é paisagem). É mas não devia ser. Bontcho. Bontcho Guentchev, oriundo de Tarnovo (terra natal também de Balakov), assim se chamava esse médio-ofensivo de altíssima craveira que pouco tempo esteve em Alvalade, algures ali por 92-93 e 93-94, precedente e procedente para o Ipswich Town. Dos tempos lisboetas, fica um punhado de bons apontamentos e um mítico pontapé de bicicleta, golaço de antologia, ao Benfica numa Taça de Lisboa, no Zézinho de Alvalade. Era um centro-campista volante, de futebol alegre mas que oscilava entre o inconsistente e o mágico, com maior pendor para o primeiro. No entanto, aqui na Caderneta, acreditamos que só facto de ter estado na sombra dos 'ovs' o impediu de alinhar ao lado de Paulo Sousa e Figo na alta-roda do futebol português até ao Natal. A comprová-lo está o estatuto de ídolo a que ascendeu no coração dos exigentes adeptos do Ipswich Town, que até lhe fizeram um cântico adaptado desse hit clássico da electrónica do início dos anos 90 "No Limits", dos 2 Unlimited. Várias épocas no Ipswich, outras quantas no Levski de Sofia, campanhas de Mundial'94 (glorioso mundial da Bulgária, em que foi suplente utilizado mas chegou a marcar um penalty ao Mexico) e Euro'96 e depois o ocaso, pelo Luton Town até aos amadores do Hendon. E agora, aos 39 anos, que faz Bontcho Guentchev, questionar-se-ão muitos por aí? Bontcho tem um bar, o Strikers, na zona de West Kensignton (ali como quem vem de Charleville Road para Stamford Bridge), em Londres, onde torce, empedernido e em família, pelo Chelsea e ao comando do qual cumpre a sua função social de indutor alcoólico das hordas de hooligans que dos 'blues' que aí se deslocam. Bontcho, se puderes contacta, que temos algumas perguntas para te fazer. Como é que te tornaste um Paulo China londrino? Porquê o Chelsea com tanto clube aceitável aí na zona? E que história é essa de deixares o Iarvo crescer com uma camisola do Chelsea vestida em vez de uma do Sporting? Isso é maneira de criar um filho? Aparece, pá, e traz cerveja.
Antes de mais nada, uma preciosa adenda do Filipe sobre (como ele lhe chama) o Anúbis dos Ovos Moles, o nosso Magdi: o robusto centro campista do Beira-Mar não só foi o único internacional daquele clube a alinhar no Itália'90 como chegou mesmo a facturar contra... a Laranja Mecânica, num jogo em que Gullit e muchachos não foram capazes de abalroar a nau capitaneada por AbdelGhani. Muito obrigado, Filipe, e não te esqueças do relato da assistência de Ronald Baroni para Rui Barros em Santo Tirso!

segunda-feira, junho 09, 2003

Magdi Abdelghani, o Mujahedin da Ria, o Ayatollah do Mário Duarte. Centro campista. Forte. Portentoso. Poderoso no passe. Incisivo na desmarcação. Algo lento. Visão Periférica. Barba farta. Encorpado. 1,78 metro. 77 quilos. 37º melhor jogador africano de sempre pelo France Futebol. 4º melhor jogador africano do ano de 1987 (quando ainda jogava no Al-Ahly do Cairo), distinguido pela mesma publicação, ficando à frente de nomes como Roger Milla e Abedi Pelé. Esteve no Beira-Mar e foi o único jogador desta equipa a alinhar no mundial Itália'90. A-b-d-e-l-g-h-a-n-i. Quem já se havia esquecido deste nome merece escolher entre trinta chibatadas auto-infligidas e um apedrejamento em praça pública. O faraó egípcio que passou como um cometa pelos nossos relvados. Onde quer que estejas, estamos aí.
A notícia, se calhar não tão bombástica assim mas de qualquer modo significativa: Isidoro Rodrigues é cantor! A Caderneta da Bola viu, com estes quatro olhos que a terra há-de comer, o árbitro Isidoro Rodrigues a cantar no programa de Manuel Luís Goucha, algo como 'Ando louco para te ver' ou título similar de assinalável gosto. Depois de Neno, O Guarda-Redes cantor, o Júlio Iglésias Português (e protagonista de um dos mais macabros incidentes que o futebol português já viu, quando numa defesa mais efusiva abocanhou as redes, ficando pendurado e deslocando o maxilar), é o homem de preto que se lança nas lides. Isidoro vestia um pull-over vermelho e calças caqui e agitava o braço direito estalando os dedos, enquanto cantava algo entre o pimba (no refrão) e o canto gregoriano (nos versos). Isidoro é, como certamente recordarão, o árbitro que despontou para a ribalta num célebre União da Madeira-Sporting, jogo em que multiplicou cartões como Cristo fez aos pãezinhos, chegando ao cúmulo de manchar a vermelho o currículo do pastor Marco Aurélio, proeminente líder espiritual dos Atletas de Cristo, actualmente perdido em terras transalpinas, depois de passear a sua classe e o seu sorriso estupidamente imaculado por Alvalade.
Há uma informação bombástica que vamos divulgar nas próximas horas. Fiquem atentos.
Para arrumar temporariamente esta questão, acrescentamos que comparável a Constantino no panteão leceiro, talvez apenas Serifo. O guineense Serifo Soares Cassamá, kuíca familiar de Bambo Cassamá, contabiliza 12 épocas ao serviço do Leça FC, em 4 escalões diferentes do nosso futebol. Um resistente, um combatente, um lutador. Tudo isso, menos avançado e marcador de golos, que era aquilo que se lhe pedia. Serifo, ao longo de 12 anos e 105 jogos com a camisola verde e branca, conseguiu a proeza de marcar apenas 21 golos. Custa-nos comentar tanta falta de eficácia, tanta aptidão para tarefas defensivas, tanta inaptidão para o futebol kuíca para o desporto em geral. Porquê? Porque conseguiu a proeza paralela de contabilizar mais cartões amarelos do que golos, 29 ao todo. E 5 vermelhos! É de homem, mas é algo estranho para um avançado, convenhamos. Um avançado de qualquer equipa que não o Leça, perdão. Palavras para quê?
Pedindo desculpa aos nossos leitores pelo atraso, vamos agora retomar a análise da equipa do Leça Futebol Clube. Depois do "Aranhiço de Lovnica" Vladan e da dupla defensiva Matias e Alfaia, seria legítimo pensar que pouco mais haveria a dizer desta equipa... Mas não. Se o Leça nos habituou a alguma coisa, foi ao facto de possuir, desde sempre, jogadores portadores de características que importa relembrar até à exaustão. E é para isso que aqui estamos amigos! Aqui na Caderneta desafiamos os leitores a encontrarem, na história do Leça FC, um jogador denominado na gíria de 'criativo'. Um fantasista, um nº10, um maestro, um Milinkovic, um Abílio, um Hajry. É inútil: não há. O meio campo do Leça FC é uma faixa de relva povoada de artistas com torcicolos, de verem passar a bola de Vladan para os avançados. E quando ela passava por eles, a bola, essa, era como se não existisse. Senão vejamos: que dizer de Cao? Um trinco que só lhe faltava trincar tudo o que mexia. Não muito rápido, como convém a um cão de luta, não muito falador, como convém a um mercenário, não muito tecnicista, como convém a um centro-campista de uma equipa cujo objectivo é sempre permanecer na divisão onde se encontra jogando o pior futebol possível. E atenção, estamos a falar de um internacional português (como o foram Bambo, Vado, Tavares e outros...) de um jogador que se tivesse o apelido Vidigal até poderia estar a jogar na 2ª Divisão espanhola ou italiana. Para além de Cao, também sem características de maestro, mas noutro quadrante, temos Zé da Rocha, um extremo, não poucas vezes referenciado como avançado. As sete épocas consecutivas de Zé da Rocha no Leça FC fazem dele, quer se queira quer não queira, um histórico deste clube. Aquando da sua promoção à primeira divisão em 95, os leceiros foram às compras a Barcelos e adquiriram este natural de Cabo Verde, depositando nele todas esperanças de ver um futebol um pouco melhor do que o suburbio cinzento do Porto alguma vez vira. Contudo, e apesar de uma média de jogos absolutamente notável (sempre acima de 20 jogos por época ao longo dos sete campeonatos ao serviço do Leça), Zé da Rocha não conquistou o título de rei no coração dos adeptos leceiros. Era um homem que cumpria, regular e que nunca atirava a toalha ao chão, porém, em Leça esperava-se um pouco mais dele, esperava-se talvez um desiquilibrador, um homem que decidisse um jogo sozinho, mas, sejamos objectivos, Zé da Rocha era bom, mas não era nenhum Pedro Miguel. Talvez o homem que conquistou o coração dos tiffosi de Leça da Palmeira tenha sido mesmo o endiabrado Constantino. Constantino, era, e isto é importante, um filho do proletariado. Despontou para a relva no Sport Comércio e Salgueiros, onde nunca chegou a marcar mais de 6 golos por época e daí seguiu para uma travessia no deserto de Águeda e pelo operariado infantil do Vale do Ave. Foi do Desportivo das Aves (ou Desportivo de Neca) que saíu para ingressar no União de Lamas, na altura na 2ª B, onde fez uma época estrondosa, com 34 jogos e 21 golos. Assinalável sucesso no AC Milan do Alto Douro. Esses 21 golos foram assim o passaporte para a zona da Petrogal, onde se assumiu como um ícone. Em duas épocas facturou 14 tentos e levou o Leça da 2ª de Honra à 1ª, com um impacto assinalável no volume de assistências aos jogos, que desceu vertiginosamente face à categoria do futebol apresentado. Depois, amigos, foram 3 épocas 3, a marcar entre 12 e 15 tentos, a esmagadora maioria dos quais em contra-ataque e nos descontos. Não, o Leça não jogava melhor, não, o Leça não praticava bom futebol, mas Constantino era ídolo e retribuía com golos. Estavam reunidas assim condições para uma aventura no estrangeiro. Porém, o Salamanca já tinha fechado as portas depois de ter contratado metade do plantel do Belenenses durante várias épocas a fio, e o destino foi assim o Levante. Esperava Constantino que o Levante levantasse a sua carreira mas tal não aconteceu. Ao que parece, havia demasiados passes a surgir do meio campo e demasiado poucos a surgir de pontapés de baliza e alívios da defesa, e o nosso homem não singrou. Falta de hábito, dizemos nós. Mas só vantagens: voltou a Campo Maior, aos relvados lusitanos, daí voltou à terra de Lamas, onde conhecera em tempos o sucesso e daí de novo a Leça, já no ano passado, onde a sua marca esteve francamente abaixo daquilo que os leceiros já viram. Constantino Roberto, angolano, não deixa contudo de ser um jogador à imagem da equipa: baixinho, forte, rápido, uma finta aqui e ali para encher o olho (mas sem exageros, que a criatividade é non grata) e um sorriso largo e constante de Fernando Festas após cada empate a 1 golo. Sic Transit Gloria Leça.

sábado, junho 07, 2003

Convidamos agora os nossos leitores para uma "trip down memory lane" até 1987. Um dos nossos colaboradores contou-nos uma história, confirmada também por outra das nossas fontes, relativa às eleições no Benfica desse ano. Tendo em conta que mais de 15 anos nos separam dos factos relatados, pedimos desculpa por qualquer imprecisão ou excessiva frieza nas palavras proferidas. No Benfica perfilavam-se dois candidatos presidenciais. Presidente desde 1981, Fernando Martins enfrentava João Santos, candidato estreante que ganharia este escrutínio e que viria a ser substituído por Jorge “Jabba The Hutt” Brito uns anos mais tarde. A nação benfiquista vibrava por esse mundo fora, dividida entre ambos os candidatos. A RTP2, cedendo à vontade dos sócios encarnados, organizou um debate entre ambos. O conteúdo do debate, não nos recordamos (não nos peçam de mais), porém, o referido “embate” produziu uma das pérolas futebolísticas mais cintilantes de que há memória. O ainda presidente Fernando Martins proferiu algumas frases do género “o Benfica é o maior clube de Portugal, “kuíca” da Europa” ou “O Valdo é o melhor número 10 da Europa, “kuíca” do mundo”, etc... O que interessa aqui reter é que o referido senhor repetiu a palavra “kuíca” algumas vezes, em contextos diferentes e, não necessariamente, nos termos referidos em cima. “Kuíca”?!?! Interrogou-se o nosso colaborador, que ficou absolutamente estarrecido com aquela preciosidade linguística que, de todo, desconhecia... Até que uns minutos mais tarde se tornou óbvio que a palavra que o presidente Fernando Martins procurava era “quiçá”! “Quiçá”!! De “quiçá” a “kuíca”, vai a mesma distância do Benfica dos anos 80 ao dos últimos anos, e este episódio longínquo, devido ao seu valor inestimável, tem sem dúvida potencialidades que justificam a sua adição ao conjunto das doces histórias da bola lusa que a Caderneta se tem esforçado por recuperar... Mais uma vez pedimos aos nossos leitores que nos relatem episódios de que se recordem com particular afeição, já que nós, por enquanto, só somos dois e não podemos fazer tudo. Contactem. caderneta-da-bola@megamail.pt
Desde já fazemos uma vénia de agradecimento ao Gato Fedorento (http://gatofedorento.blogspot.com) pelas palavras tecidas em favor da Caderneta. Tomamo-las como um estímulo, como uma forte brisa de norte que ajudará esta caravela a navegar pelo mar do esquecimento e a resgatar para a memória colectiva de um povo os fenómenos mais sumarentos do nosso rico futebol nacional. Quanto à vossa sugestão, devemos afirmar que esse tópico já tinha sido discutido entre nós para futura publicação. Tentaremos, se a inspiração e a memória ajudarem, reintroduzir o tema dos comentadores da bola nas suas mais variadas vertentes e potencialidades. Porém, prioridades editorais "lá de cima", já foram traçadas e dessas... não conseguimos fugir.

sexta-feira, junho 06, 2003

Regressando ao domínio historiográfico. Depois do Gil de Caciolli, do Leiria de Pedro "O Cigano d´Ouro" Miguel, e antes do Chaves de Matute e do Tirsense de Best... eis o Leça Futebol Clube! O Leça de quem?!? Por onde começar...? Pela baliza? Pelo ataque? Esbarramos inevitavelmente na complexidade desse mantra, um fratal eterno de dívidas, barretes e futebol muito duvidoso. Assim, na dúvida, comecemos pelo princípio. E no princípio era o verbo, ao qual se seguiu, rapidamente, Vladan. O goleiro Vladan, também conhecido por Stojkovic, o Aranhiço de Lovnica, para quem as balizas sempre foram pequenas demais, foi anos a fio a maior esperança dos adeptos do subúrbio industrial do Porto. Era em Vladan que residia a confiança quando tudo parecia falhar, quando Fernando Festas era contratado pela 18ª vez, quando Alfaia perdia aquela bola preciosa para Dino, era para os quase dois metros deste sérvio que os olhos se voltavam nos momentos de maior aperto. Rápido entre os postes, lento em tudo o mais, uma gritante inaptidão para jogar com os pés, inaptidão que porém compensava com o seu sorriso característico e sempre constante (sorriso aliás que só teve paralelo em Portugal naquele que andou anos a fio estampado na boca de Milton Mendes). Extra-futebol, este Jorge Campos balcânico era também ele um esteta. Não é por acaso que foi por si que, a norte do Mondego, a moda da calça preta almofadada pegou de vez (apesar de correntes teóricas algo duvidosas associarem esta moda a Busquets do Barça ou a Kralj do FCPorto). Na defesa, referiremos apenas dois exemplares do rigor defensivo. Matias e Alfaia! Matias... o que dizer? Começar pela estética ou pelas aptidões futebolísticas? Central de vasto currículo, calcorreou clubes como o Gil Vicente e até mesmo o Futebol Clube do Porto (nada a ver com uma "ajudinha" um ano antes da sua contratação num jogo contra o FCP) mas foi no Leça que evidenciou todo o esplendor do seu futebol musculado e quase-autómato, de uma eficácia impressionante na difícil arte do alívio para onde está virado. Portador de um bigode que já não se via em relvados lusos desde Chalana e Frasco, jogava de igual forma com ambos os pés mas não necessariamente bem com nenhum deles. Foi também uma inspiração para as gerações seguintes. O mui aclamado central Gaspar viu em Matias o seu mentor, por exemplo, tendo inclusive actualizado o bigode para uma barba consistente. Passemos agora a rigorosa lupa historiográfica sobre Alfaia, seu companheiro timorense. Alfaia, o Xanana de Leça, não era, paradoxalmente, um arauto dos direitos humanos. Desconfia-se aqui na Caderneta que o próprio apelido, seu último nome e nome de guerra nas lides da bola, terá sido um exercício premonitório dos seus progenitores acerca da futura relação do seu rebento com os atacantes adversários. Alfaia começou em Portugal a carreira com uma travessia no Alentejo, entre o Portalegrense e o Elvas, até assinar pela Tuna da briosa, onde manteve a sua média elevadíssima de jogos por época, algures pelos 27 jogos. Depois da tuna, o Rio Ave (e decerto que haverá quem o relembre com saudades em Vila do Conde - Rui estás desmarcado, olha o passe em profundidade!) e, depois de um fugaz regresso a Elvas, ingressa no Leça para, em dois anos, ser um dos pilares da campanha de ascensão à primeira divisão. Era um central rápido e aguerrido, de esgar intimidatório e olhar algo vítreo. Um interessante contraste com Vladan dos Olhos Doces e com Matias. Foram épocas a fio (3, mais precisamente) na primeira e finalmente a descida à 2ª, tendo partilhado uma série de situações dramáticas, como ordenados em atraso, trabalhar com Joaquim Teixeira (sim, esse que "supostamente" encomendou a Paula para o estágio da selecção de todos nós), Rodolfo Reis e sucessivas humilhações nos media face à fraca prestação colectiva da sua equipa. Uma palavra de homenagem para Alfaia... continuou em Leça apesar de tudo isto e foi lá que terminou a carreira em 2000. Agora estamos a ser expulsos da redacção por uma ameaça de bomba (chamada anónima da zona de Chelas). Continuaremos mais tarde.
Esta manhã apetece-nos gritar bem alto: João Manuel Pinto, o Dread Malaico de Chelas! Pronto. Já gritámos. Devemos dizer que o modus operandi deste vivaço nunca nos enganou e não foi, por isso, com espanto que verificámos que o sujeito é dos mais puros produtos da cantera de Chelas, possuidora de toda a escola de futebol suburbano (o remate em jeito para não acertar nos carros estacionados, o jogo interrompido por causa do vidro partido da vizinha, a cuspidela ocasional no adversário e respectiva rixa entre bairros...). De notar também a relação estreita entre a escolinha de Chelas e o maior rival do Clube Futebol Benfica. Também Miguel, consagrado ícone do submundo lisboeta, nasceu para a bola em Chelas e agora é titular de águia ao peito. E também Miguel partilha com o Dread Malaico da pêra à D'Artagnan uma apetência para a confusão, ou partilhava, já que o castelhano Camacho tratou de refrear um pouco a fera, que esteve prestes a ser enjaulada depois de 2 amarelos em 30 segundos nas Antas, uma média de fazer corar Paulinho. Enfim, enough ie enough, e a Caderneta não veio ao mundo para relatos da ribalta mediática. Paramos por aqui a relação Chelas SLB e demais anexos e prosseguimos para outra.
Congratulamos uma vez mais a vaga revivalista em torno de figuras lendárias (e não do triste fado, caros comparsas do terceiro anel, não digam isso que nos dói a alma) mas não sem antes deixarmos de demonstrar ao éter o desencanto perante o silêncio demasiado ensurdecedor: "Fó-Fó", perdão Clube Futebol Benfica, é para continuar no esquecimento? Prometemos investir a fundo, apesar do silêncio, apesar das contrariedades.

quarta-feira, junho 04, 2003

A Caderneta, ao efectuar uma incursão pelos seus arquivos e fontes documentais com o objectivo de descobrir algures perdidas no meio dos anos 90 outras equipas cujos planteis fossem níveis de menção, descobriu informações saborosas sobre o Estrela da Amadora (Bem-vindos de volta à primeira!!). Ao contrário do que poderiam pensar os nossos estimados leitores, este post, não é dedicado ao Estrela, antes, através da análise do plantel dos amadorenses, descobrimos que essa (mais uma) promessa por cumprir, de seu nome Calado, antes de rumar à Amadora, militou nos planteis do segundo, para muitos primeiro, maior clube da freguesia de Benfica. Falo do Clube Futebol Benfica, apelidado pelos adeptos do Sport Lisboa de “Fó-Fó”. “Fó-Fó o caralho!”, diriam certamente os adeptos do CFB, e nós aqui na Caderneta assumimos que jamais nos referiríamos a este clube nesses termos depreciativos. O Clube Futebol Benfica tem história, e gloriosa também. Não pensem que as modalidades mais representativas deste clube são os dardos, a sueca ou o dominó. Não. O CFB chegou a ser campeão nacional de hóquei e hóquei em campo, além de ser um autêntico viveiro de futuras grandes promessas, não só no futebol, mas também em voleibol, andebol de sete, basquetebol, rugby, atletismo, ginástica, pesca desportiva, natação, ténis de mesa e "karaté". Este post pode ser considerado como uma justa homenagem a um clube que viu o seu rival de sempre lá da freguesia alcançar grandes conquistas aquém e além mar. Vivendo na clandestinidade, e suportando décadas de insultos e de humilhações, o Clube de Futebol Benfica manteve a sua identidade e cultivou um sentimento “anti-lampião” que os adeptos do FC Porto ou do Sporting jamais sonharão possuir. Neste clube estão os adeptos que mais repulsa sentem pelo SLB. Perguntem-lhes se tiverem coragem! Mas não lhe chamem “Fó-Fó”!! A não ser que a vossa integridade física não seja uma prioridade. Voltando a Calado. Os adeptos do CFB, num complexo paradoxo emocional, choraram de tristeza ao ver o seu menino de cabelos dourados partir para a Amadora, mas de alegria ao ver um filho da casa singrar na primeira divisão. Porém, nada podia preparar os adeptos do “Fó-Fó”, perdão, Clube Futebol Benfica, para o que se iria passar. Então não é que o seu menino, o seu ídolo, o seu surfista da bola, assinou pelo SLB?!? Não é possível, pensaram os tiffosi do CFB!! “O Record enganou-se pá”. “Alguma vez?”. Mas, infelizmente, era verdade. Uma onda de indignação e revolta deixou a freguesia de Benfica numa quase lei marcial, havendo mesmo notícias não confirmadas de atentados bombistas junto ao mercado de Benfica. Um fanático do CFB contactado agora mesmo via telemóvel a partir da Redacção da Caderneta confirma o cenário "Benfica a ferro e fogo" por causa da infame transferência do agora apelidado "Judas de Benfica". Não é por acaso que mais tarde, esta personalidade dos passes longos viu o seu percurso manchado por vis calúnias de autor incerto que nos recusamos a relembrar (apesar de vontade não nos faltar). Quem os consegue, afinal, censurar, doridos da alma e fúnebres que desde então viveram, os míticos de Sete Rios? Apenas conseguimos imaginar o que lhes perpassou pela alma...
(menos lúcido e convencido dos seus actos ficou Emílio Peixe quando, no mesmo jogo, atirou Semedo contra os placards publicitários, num dos tackles mais deslizantes e esvoaçantes de que há memória)
Zim e Pú, o perfume do futebol africano! A Caderneta congratula os recuerdos! De outros quadrantes ( http://blogueio.blogspot.com ) somos saudados e saudamos também, rejubilando com a recuperação de Kiki. Advertimos que chamar-lhe gorilão é que não é nada bonito e prevemos fazer-lhe em breve justiça, se para tal nos ajudar o engenho e a arte. Agora, porém, é altura de retomar o fio dessa brilhante meada que são os duelos sanguinários do nosso futebol. Desta feita, o episódio remonta à época de 93-94 e a uma visita da turma leonina às Antas. O Sporting ostentava na altura um plantel onde inexplicavelmente cabia tanto Balakov como Amaral e o Porto ia sobrevivendo muito graças à contratação do sniper sérvio Drulovic ao Gil Vicente (não era bem assim, nem no caso do Sporting nem do Porto, mas não percamos mais tempo). O duelo em causa opôs duas feras do futebol nativo, uma de créditos mais firmado na paródia do que outra, um português outro estrangeiro, um mais moreno, outro mais louro. Caía então uma mecha de jogadores de uma e de outra equipa sobre a linha lateral esquerda de quem ataca para norte, quando sobressaíem engalfinhados um no outro o Fernando Couto e Andrezj Juskowiak. Fernando Couto é um rapaz simpático que caíu em desgraça na imprensa lusa graças ao tristemente célebre episódio com a repórter do N Amadores já esta época. Andrezj Juskowiak, apresentado como "André, o Polaco" por Sousa Cintra, era um ponta-de-lança louro, alto, forte e espadaúdo, de bigodinho aparado e cara de quem vinha de ganhar um galardão de melhor marcador nos Jogos Olímpicos de Barcelona'92 (e vinha mesmo, vejam lá bem isto!). Continuando, estão engalfinhados um no outro, Couto agarrando Jusko pela cintura, Jusko agarrando Couto por outro sítio que não os cabelos, um dá a volta ao outro, agarrão para aqui e Jusko é projectado, permanecendo em pé, para cima da linha lateral enquanto Couto segue altaneiro com a redondinha nos pés. Aqui, e as imagens televisivas comprovam-no, Juskowiak tem uma sequência de reacções absolutamente notáveis e que espelham bem a diferença entre o futebol português e o polaco. Se Juskowiak tivesse sido formado nas escolas de um Desportivo de Elvas, ter-se-ia atirado para o chão agarrado à cara, encenando um atentado brutal e virulento. Mas não: o polaco levanta a cabeça, abre os braços e chama o árbitro da partida, reclamando uma falta não assinalada. Chama uma vez, chama duas, o árbitro manda seguir e já Couto pensa para onde vai a bola a seguir. Jusko não se conforma e se não é vingado de uma maneira, é vingador de outra. Assim que o árbitro confirma com o tradicional 'não há nada' (tão ouvido nas Antas épocas a fio), Jusko fixa Couto e arranca lesto para o alvo, desferindo um low kick às pernas de Fernando. Foi um pontapé de raiva sem qualquer intenção de jogar a bola, um pontapé que arrumou de imediato Couto durante uns minutos. E um pontapé como deve ser: joelho na coxa, canela na canela e chuteira a varrer o corpo do adversário por baixo. André, O Polaco, fitou Couto de cima, deitado aos seus pés, e contemplou o cenário destruído com olhos rasos de vingança. Evidentemente que a seguir foi expulso, mas tal como no caso de Jokanovic (hoje e sempre, Joka), isso era o menos importante. Foi o 3º Capítulo dos Duelos Sanguinários da Caderneta da Bola.
E a Caderneta saúda a Curva ( http://curva.blogspot.com ) e responde ao desafio. Joel, o menino da Ria, extremo direito diabólico, era de facto a next big thing, com uma ressalva necessária: nunca chegou a ser, de facto, big, a não ser na fabulosa época de 96-97, em que a Veneza portuguesa foi ao rubro com o seu diamante. Joel tinha um futebol jovem, esguio mas algo incipiente. Era um jogador de rasgos e (torna-se já um hábito no nosso futebol) um extremo que rematava mais do que cruzava, à imagem de Tulipa ou Vítor Vieira. Que é feito dele, pergunta-se na Curva? Pois é, Joelito foi premiado com uma contratação pelo Boavista e teve muita sorte em não ir parar ao Leiria, como aliás é costume da maior parte dos 'empurrados do Bessa'. Foi, em vez disso, para Chaves, ainda na ressaca da despedida de Milinkovic e de Carlos Alvarez (o espanhol que nunca fez esquecer Toniño). Fontes que preferem permanecer anónimas dizem-nos que a opção por Chaves se deveu à proximidade da sua terra natal, Bragança. Mas em Chaves, não foi, uma vez mais, feliz e daí zarpou para Moreira de Cónegos, terra conhecida por ter um clube de futebol. No Moreirense, uma temporada ao mais médio nível, com 19 jogos, 2 golos e certamente inúmeras assistências para avançados completamente desconhecidos à altura, em 99-00. Do Moreirense, saltitou para Gondomar e daí... A-ha! ...daí para a Galiza, em busca do sonho de um dia alinhar pela equipa principal do Celta de Vigo. Estávamos no ano do 7-0 e era perfeitamente natural que qualquer jovem quisesse rumar à equipa que acabara de o concretizar. Mas não, Joelito ficou-se pela equipa B, e tão traumatizante deve ter sido esta estadia em terras de prestígio, que Joel desceu à capital para representar... o Casa Pia. E chegando à Casa Pia, ficamos por aqui, obviamente.
Companheiros do Terceiro Anel: que nos dizem de Porcel? Recordamos o substantivo, faltam-nos os adjectivos. É a senda sul-americana, não lhe podemos escapar.
Continuando no clube do Lis, cumprimos o que prometemos: Bambo. Triste sina, triste fim, triste fado de Bambo, jogador que chegou a alinhar pelas selecções de esperanças ao lado de grandes nomes da Europa do Futebol, como o ex-Fafe Rui Costa e o ex-Pastilhas Luís Filipe Madeira F. Nascido na Guiné Bissau, terá crescido com a redondinha colega aos pés, pelo que cedo demonstrou apetência pela miséria na grande e na pequena área. Foi no Boavista que começou a dar nas vistas mas 11 jogos em três épocas atiraram-no para o mundo dos saltimbancos da bola. Começou no Leiria, integrando o já referido Pentágono, e fazendo parte do Pack Económico Boavisteiro (Álvaro, Fua, Bertolazzi e Bambo - leve os 4 e pague quando lhe der mais jeito). Em Leiria, jogou 15 jogos mas apenas marcou 1 golo (repetimos: terá sido um golo espantoso e pagamos a quem tiver memória do mesmo). Depois dessa época, 94-95, bamboleou pelo Estrela da Amadora e fez uma época bambástica repartida entre o Farense e o Felgueiras, clube de onde partiu para o Nacional. No Nacional, acabou. Quiseram os deuses que a pérola do atlântico fosse a desgraça do nosso menino de ouro negro, pois ao fim de 7 jogos, o ímpeto dos verdadeiros puros sangue, fê-lo galgar os placards publicitários para ir buscar a bola numa reposição em jogo. Fora o sétimo jogo com a camisola alvinegra. Salta os placards e o esférico está nas mãos do apanha-bolas. A partir desse momento, em que Bambo está no ar com o apanha-bolas a 3 metros de si, tudo se passou demasiado rápido. Bambo correu, trocou umas palavras com o moço, tendo de seguida o jovem tarefeiro caído no chão prostrado, já a bola repousava nas mãos de Bambo Cassamá. Agressão? Pedagogia um pouco mais viril? Pressa? Desgosto e frustração por não ter singrado como outros? Bambo, responde-nos, que nós aqui não sabemos porque te desgraçaste. Regressou ao relvado, foi expulso, suspenso, acabou em lágrimas uma carreira, apesar de ainda ter passado pelo Esposende, pela Naval e pelo Ribeira Brava, de novo na Madeira. Mas foi aquele momento fatídico que o matou para o futebol. Injustamente, pensámos nós. Raio do puto, pensámos nós. Porra, Bambo, porquê?! Consta que naquele jogo, Cristiano Ronaldo estava na bancada a assistir e jurou daí vingar para sempre o feiticeiro africano.
(é claro que o epíteto "clube satélite do Rio Ave FC" foi uma laracha própria da emoção de encontrar um plantel de genuínos companheiros!)
E agora, senhoras e senhores, Nelson Bertolazzi. Forte, lutador, de boa técnica, este avançado de ascendência italiana, conjuga por isso as duas maiores escolas de futebol do mundo, o calcio com o brasileirão. Tecnicista, imponente no um-para-um, vem para Leiria mostrar o quão enganados estavam os dirigentes do Boavista ao deitar às urtigas tamanha pérola. Urtigas, salvo seja, pois Leiria foi o palco onde este artista deliciou plateias tratando o esférico por tu e o guarda-redes por 'quem és tu?'. O único parceiro à altura de Pedro Miguel e com quem, coadjuvado por Bambo, Reinaldo e Fua, integrava o quinteto sinfónico que os melhores hinos ao futebol de ataque Leiria um dia ouviu. Bambo (triste fim para uma carreira de um genuíno campeão, já lá iremos), Fua (um angolano explosivo que também se perdeu) e Bertolazzi vieram os três do Boavista, empurrados sem honra nem glória e sem um electrodoméstico de recordação. Que tristeza, sr. Major. Alguns anos depois, regressou ao Brasileirão onde a Portuguesa o acolheu e pela qual marcou 2 golos, em 1998. Em jeito de síntese, é triste verificar que estes 5 mágicos andam hoje no limbo dos anjos caídos da bola lusa. É por isso que nós aqui estamos. Para se fazer justiça a quem a merece.
Deixando Tirsenses, Baronis e quejandos em banho-maria, viramos as atenção para o domínio historiográfico que justificou o aparecimento da Caderneta. As análises cuidadas, os relatos detalhados, o prazer da bola. Viramo-nos agora para a União de Leiria. Poderíamos ter escolhido um Desportivo de Chaves ou um Leça, mas, tal como no caso do Tirsense, são equipas demasiado ricas para a complicada altura pessoal em que nos encontramos presentemente. Requerem mais do que uns minutos entre trabalhos, requerem vidas inteiras de teses de doutoramento, requerem total dedicação e espírito de missão. Requerem, enfim, coisas que só poderemos dar na próxima semana. O clube do Lis sempre foi um viveiro recheado das lagostas futebolísticas mais saborosas que temos provado. Confessamos que, por isso, temos alguma dificuldade em começar a vistoria. Há no entanto um homem que, pela sua importância e dimensão maior, merece ser referido em primeiro lugar. Falamos de Pedro Miguel. Pedro Miguel. Nome aparentemente vulgar que o terá votado já ao esquecimento em muitos lares lá da terra. Nem todos podem ter a sorte de se chamar Bertolazzi, mas já lá vamos. Nascido no ambiente fabril do Barreiro antes do 25 de Abril, em 1970, perseguia o sonho de singrar no mundo da bola, tendo recorrido por isso à cantera mais produtiva do Campo Grande: o Sporting Clube de Portugal. Aí o menino se fez homem, aí Pedro Miguel se fez avançado volante, veloz e volátil. De cabelo ao vento, passeou a sua classe entre os leões uma breve época de juniores, até voltar sebastiânico à  terra que o viu nascer, já em meados de 89, onde em duas épocas apontou 1 golo. Terá sido um golaço de bandeira, pois a União de Leiria viu nele o seu Van Halen salvador e contratou-o. Não se deu mal, Pedro Miguel em Leiria, e 6 golos em 29 jogos levaram-no para Paranhos, já na primeira divisão. Era a glória burguesa do filho da classe operária barreirense. Abreviando, a época no Salgueiros foi uma merda da pior espécie e Pedro percebeu que o seu destino era Leiria, afundada e orfã na Segunda de Honra. Mas o Messias do Barreiro torna a levar a sua equipa de sempre à  Primeira, com uma época sublime, onde em 32 jogos apontou 13 golos. Era assim, Pedro Miguel: decisivo, mortal, vagabundo do vale do Lis, o rei do castelo, o Silence4 da bola. Longa melena, cara angulosa, barba por fazer. Pedro. Porém, os deuses, invejosos do seu sucesso, voltaram a não permitir à estrela o brilho que lhe era devido, e Pedro ficou-se pelos 15 jogos e 1 único golo, em 94-95. Aí começou um longo calvário, por Braga e Belenenses, até regressar a... adivinhem lá: Leiria, com uma vez mais o Leiria na Segunda de Honra. (um parentesis para reclamar que estes tipos da União não aprendem que cada vez que o despedem, descem de divisão). Mas aí, nessa época, acabou o sonho. Leiria já não era a terra simpática do castelo que o aclamara um dia, e tratava-o como mais um. Não, Pedro, tu não merecias isto. Vai daí, e Pedro vinga-se. Pedro Miguel, o Justiceiro, embala a trouxa e parte para Santa Maria da Feira. E aí, meus amigos, o Barreiro voltou a ter orgulho no filho que um dia viu partir. Uma meia época colossal contra até o que dizem as estatísticas, que contabilizam apenas 9 jogos e 1 golo. Porque as estatísticas não contam as salvas de palma da assistência, as estatísticas não contam os olhos esbugalhados dos defesas que o viam passar mais lesto sem lhe apanhar a matrícula, as estatísticas são números, não contabilizam magia. E Pedro Miguel era um desses, um mágico. Depois, foi o ocaso. Sábio como só os grandes sabem ser, retirou-se no auge e alinha agora pelo Amora, discreto, onde vai passando o que sabe aos mais novos sem que ninguém dá muito por isso. O nosso muito obrigado, Pedro Miguel, e perdoa Leiria, que eles não sabem o que fazem.

terça-feira, junho 03, 2003

A propósito do Tirsense, a Caderneta está a preparar um exaustivo dossier sobre o clube português com mais descidas de divisão consecutivas. De Caetano a Paredão, de Marcelo a Christian. Nos próximos dias, talvez próximos tempos...
Já que estamos numa maré de reptos, aqui fica mais um: Filipe, se nos estás a ler, contamos contigo para descreveres a colossal assistência de Ronald Baroni, caído no chão sobre a meia-esquerda, a isolar Rui Barros em Santo Tirso! Escreve! Queremos o relato de quem saltou do sofá nesses dois segundos absolutamente irrepetíveis! É contigo!
A Caderneta saúda e mostra-se sensibilizada com a atenção dispensada por Rui Malheiro, promissor artilheiro da historiografia da bola, nas duas últimas épocas ao serviço do Terceiro Anel Futebol Clube ( http://terceiroanel.blogspot.com ), clube satélite do Rio Ave FC que por ora se mostra bem mais interessante que o próprio. Aqui na Caderneta vergamo-nos à destreza com que maneja um vastíssimo e impressionante reportório factual e contamos com a sua sapiência nessa nobre arte que é legar às gerações vindoiras os talentos esquecidos da bola lusitana. Rui, tu e o teu Terceiro Anel são uma inspiração e um blog irmão, com quem esperamos profícuas trocas de informações. Agora, há aqui algo que não pode passar em claro. Aliás, duas questões nos assolam neste momento: 1. Chicabala, que é feito do jovem Vieri de Vila do Conde? 2. E o centro-campista Niquinha (um dos favoritos cá da Caderneta, a par de Sérgio China)?

segunda-feira, junho 02, 2003

Já a seguir (ou amanhã, ou depois...): o resto da pandilha - Ronald Baroni e Alejandro Diaz! Não perca! E entretanto vá escrevendo: caderneta-da-bola@megamail.pt
Em homenagem ao fã número 1 da Caderneta, e depois do esplendoroso naco de história em torno de Nicolau de Melo, parte-se agora para o já prometido esmiuçar do quarteto sul-americano que um dia aterrou nas Antas na senda de um sonho. O sonho de jogar de Revigrés ao peito e o duro pesadelo de não serem, de facto, os Francescolis e os Maradonas que se anunciavam à partida. Mas o erro não terá sido deles nem de Reinaldo, e sim do grotesco polvo mediático que se habitua a torturar os intérpretes de futebol bonito, qual Pedro Barny marcando Forbs. São esses senhores os responsáveis por respirarmos o fétido perfume da suspeição em vez do frutado aroma do futebol das pampas, aqui no nosso futebol. Enfim, vamos ao que interessa: Walter Paz, o primeiro e mais proeminente da pandilha, o Deco que nunca chegou a ser Deco, o centrocampista cujo toque de bola não foi suficiente para tirar lugar a jogadores explosivos como Kulkov, Semedo ou Emerson "O Príncipe do Soul Glo". A verdade, nua e crua, é esta: o argentino Walter Paz podia muito bem estar agora a jogar em vez de Alenitchev no actual FQP em vez de estar a dar pérolas a porcos num obscuro Tiro Federal de Rosario. Não era muito rápido, é certo, mas jogava tanto no meio como nas alas, tinha visão de jogo, poder de passe e um visual bastante mais sóbrio do que os seus restantes companheiros. E é pelo visual que importa começar a sucinta dissertação sobre o avançado com o cabelo mais bem tratado das Antas na década de 90, o argentino Roberto Mogrovejo. Roberto Mogrovejo nunca teve oportunidade de mostrar o seu valor e aqui na Caderneta arriscamos que terá sido mesmo votado ao ostracismo por ter defraudado as expectativas dos dirigentes e da massa associativa portista. Uma palavra de apreço, Roberto: a concorrência era fortíssima. Eles já não se lembram, Roberto, mas tu tiveste pela frente Mandla Zwane, Ettiene N'Tsunda, Ronald Baroni, Domingos e Iuran, só para citar alguns. Mas eles têm de saber, Roberto: tu eras alto, tu não eras rápido mas experimentem centrar para a tua cabeça contigo ao pé da marca do penalti e tu mostras-lhes. E agora, senhores responsáveis do futebol deste país, onde está Roberto Mogrovejo, depois do exílio a que foi obrigado? Nós na Caderneta temos registos de um Roberto Mogrovejo a jogar na Primera C (4ª divisão argentina) no J.J. Urquiza, mas será ele? Quem nos traz de volta aquilo que é nosso? Quem?
A Caderneta da Bola inicia com este post uma reflexão acerca de personagens lendárias que gravitaram em torno do futebol português. Não nos interessamos apenas pelos jogadores que trataram a "redondinha" com carinho, ou por aqueles que trataram o seu colega de profissão com uma rudeza genghiskhaniana (?) (como os já referidos Latapy e Paulinho "O Carniceiro da Antas" Santos). Abrimos aqui as hostilidades para tecer considerações sobre os lendários comentadores desportivos. Gabriel Alves? Era muito fácil... já tudo se disse sobre esta instituição. Perguntamos nós... Quem se lembra de José Nicolau de Melo?? É verdade... este comentador nortenho, possuidor de um timbre vocal absolutamente inconfundível é, porventura, o mais injustiçado de todos. Todos falam de Gabriel Alves, de Ribeiro Cristóvão, de Rui Tovar... mas e José Nicolau de Melo? Renegado para o esquecimento? Não! Nunca! A Caderneta não deixará que isso aconteça, e para tal, vamos contar uma aventura de José Nicolau num Boavista-Sporting sito algures na primeira metade da década de 90. A época... não sabemos (irrelevante), o local... Estádio do Bessa. José Nicolau de Melo inicia a transmissão em directo com os comentários da praxe enquanto as duas equipas entram em campo, de seguida anuncia que a emissão vai passar por momentos para a 5 de Outubro (outra forma de dizer, "Tomem lá o anúncio da Singer seus camelos!" - a propósito, avisamos os nossos leitores para aguardarem um post com uma reflexão sobre o anuncio da Singer que há 15 anos pelo menos passa antes dos jogos). Mas continuando... quando a emissão volta ao Bessa, passam-se alguns segundos nos quais não se houve José Nicolau de Melo... até que de repente... "Epá... tem cuidado caralho... olha essa merda pá! Olha essa merda pá!!", seguido de um silêncio sepulcral de alguns segundos e um nervoso "...estamos então de regresso ao Estádio do Bessa...". O que se passou com José Nicolau, não fazemos ideia. Mas o que sabemos é que nos anos seguintes, esta instituição televisiva, abandonou o comentário de jogos de futebol à noite para se dedicar exclusivamente às modalidades amadoras na RTP2 no fim-de-semana à tarde, hóquei, andebol e voleibol. A Caderneta pede, humildemente, à SportTV que integre o saudoso José Nicolau no seu naipe genial de comentadores (fazendo companhia a Vitor Manuel e Mozer), já que se encontrará, porventura, numa qualquer prateleira da RTP, local onde nós, simples mortais, jamais poderemos privar com a sapiência de tão lendária instituição.
Deveras oportuna a lembrança de Russel Latapy, mas serve a evocação para lembrar que há jogadores que não devem ser separados uns dos outros. Na Caderneta, honramos os laços de sangue, de pátria e de paridade da vã-glória futebolística. Por isso, há determinados jogadores que nos recusamos a separar uns dos outros. Latapy será talvez um caso excepcional, pois ostenta um currículo dourado por campeonatos ao serviço do FCP, presenças na Liga dos Campeões pelos azuis das Antas e de Glasgow e mesmo uma conquista da taça da Escócia ao serviço do Hibernians (clube onde começou a saga escocesa e de onde partiu para os Rangers). Apesar de excepção, todavia, é injusto falar de Latapy sem referir os outros dois elementos da Santíssima Trindade Tobaguenha que passeou o perfume de futebol do caribe pelos relvados lusos. Fala-se de Clint e de Lewis. Não nos alongamos em descrições, apenas referimos que Felgueiras só conseguiu momentos tão animados como os jogos com Lewis e Sérgio Conceição nas alas, agora que Fatinha foi ver jogos do Fluminense contra o São Caetano. E que Santa Maria de Lamas deve a Clint alguns dos mais bonitos detalhes futebolísticos de que há memória no seu estádio. Ok, não tão bons como os de Deocliciano Tavares, essa gazela da savana futebolística que em tempos esteve para explodir no Boavista, mas de calibre aproximado. Isto apenas, em jeito de apontamento breve, pois grupos de jogadores inseparáveis sempre frutificaram entre nós. Citamos, como exemplos, os sul-americanos de Robson, os argentinos do Sporting de Covilhã (mítico dia em que a Serra viu jogar Del Bosco), Zwane e N'Tsunda (diamantes negros) e a "quinta de Toniño" em Chaves. O futuro é pródigo e basto, aqui na Caderneta. Felizmente.
Voltando ao Gil Vicente, importará passar à vasta panóplia de artilheiros gilistas. "Ah, Paulo Alves!" Não, ainda não, havemos de lá chegar se o destino deixar, até porque estamos a falar de um jogador que, para além de ter passado pelo Sporting e pelo Marítimo, terá sido o segundo jogador português (depois do mítico extremo-esquerdo Folha) a marcar um golo pela selecção num relvado sintético de Toronto. [Fazemos aqui um voto solene de comentar futuramente essa mítica digressão pela América do Norte por ocasião da Skydome Cup] Da panóplia de artilheiros, dizíamos, resolvemos aqui destacar dois jogadores que encantaram a plateia barcelense durante a década de 90. Dois porque um seria Yin e outro Yang, um seria Sol e outro Lua, um não seria certamente sem o outro. Um com a Força, outro com a Técnica, um com a Finalização, outro com a Assistência. Em suma, um Mangonga, outro Nené Santarém. Makpoloka Mangonga, o zairense decisivo, tinha por hábito marcar golos na segunda-parte. Baixo, letal em frente à baliza, de poucas palavras, foi mais uma personalidade que viveu uns tempos à sombra de Drulovic. Injustamente, diga-se. Olhando à distância, reparamos que nunca teve uma selecção nacional à sua altura e nunca um clube se dignou a olhar para ele com olhos de gente a não ser o Gil. Era tosco, sim, mas para a técnica, naquela Armada ofensiva, estava Nené Santarém. Nené Santarém , brasileiro ex-Paysandu, teve que suar para ganhar o coração dos adeptos a Roberto Carlos, um avançado trintão com bigode de matador, que andou um par de épocas a fazer miséria no Nacional da Madeira. Bons pés, brinca na areia, mas de uma estética perigosamente parecida com a do seu homónimo cantor. O que só beneficiou Nené. Nené Santarém era um avançado baixinho (tradição gilista, com excepções ao já citado Paulo Alves e a Lim, matador da cantera gilista) mas de grande compleição técnica. Era o complemento ideal de Mangonga e não é à toa que os seus futuros misters (chegou a Barcelos em 1994) lhe aproveitaram a polivalência para ganhar um defesa evoluído. Foi nessa condição que jogou no Desportivo das Aves já em 2001. Desconhecida é, ainda hoje, a origem do epíteto "Santarém", dado a António Carlos Baía de Lima. Alvíssaras, a quem souber. E aqui terminam, provisoriamente, os relatos gilistas.
Justamente no dia em que Paulinho Santos arruma as chuteiras, menos usadas ao longo da carreira do que as cotoveleiras, a Caderneta da Bola acha por bem recordar aquele que terá sido o duelo mais obscuro da sua vida, injustamente ofuscado pelos embates Santos-Vieira Pinto (hoje comoventemente selado com uma troca de camisola e um aperto de mão mudo) e Santos-Acosta. Esse duelo, como aliás ja foi revelado aqui, foi o que opôs o truculento caxineiro a essa eterna jovem promessa nunca confirmada, Bino. A história conta-se em poucas palavras pois infelizmente momentos destes são difíceis de resgatar da obscuridade cultural a que estes factos têm sido votados. Corria Bino pela direita, algures no Belenenses ou no Marítimo (desculpem-nos a imprecisão, mas concordarão que será irrelevante) quando, após uma jogada em que fintou Paulinho, resolve tentar a façanha. Nada de especial, aparentemente. Acontece que Paulinho dispara uma entrada meio carrinho meio joelhada-conhecida-na-gíria-como-paralítica e atira com Bino para a maca e daí para a cama do hospital. Nada de especial, ou não fosse Paulinho um agressor quotidiano. O insólito da história está, tal e qual no embate Jokanovic-Latapy, nas declarações do hospital. Terá dito, na altura, Bino que Paulinho Santos o havia avisado que lhe partia a perna caso voltasse a fintá-lo naquele jogo. Dois comentários, duas morais, nesta história: 1. Paulinho é um homem responsável e de palavra. Prometeu e cumpriu, num acto de lealdade que não é vulgar no futebol de hoje em dia. De Paulinho nunca poderão dizer "é só garganta!" ou "cantas bem mas não m'alegras!". E Bino, grato e reconhecido, não teve pudor em mostrar esse facto ao mundo. 2. Os jogadores, em contexto hospitalar, abrem o livro e despejam a alma. A Caderneta deixa passar esta abébia e deixa a nota aos jornalistas desportivos deste país. Depois não digam que vão daqui.
Interrompendo agora por momentos a pertinente reflexão sobre o glorioso plantel do Gil Vicente Futebol Clube, os dois cromos que escrevem nesta Caderneta lembram que também se debruçarão sobre dados jogos ou acontecimentos que, por uma razão ou por outra, felizmente nunca esqueçeram. Recordamos ainda a temporada de 94/95. O saudoso União da Madeira - constituido por 4 brasileiros, 3 jugoslavos, 3 portugueses e 17 brasileiros naturalizados (mais coisa, menos coisa) - recebia o Futebol Clube do Porto no Estádio dos Barreiros. A dado momento, o jugoslavo e centro-campista Pedrag Jokanovic, portador de um porte físico impressionante (1,87m e 84k) e melhor marcador do União nessa época com 7 golos (!), recupera uma bola a meio-campo e parte para a defensiva azul-branca. O que Pedrag não reparou foi que atrás de si vinha Russell Latapy (lembram-se??), internacional das ilhas de Trinidad e Tobago que viveu na sombra (injustamente) do seu compatriota do Manchester United Dwight Yorke. Mas voltanto ao jogo... Jokanovic inicia o ataque do seu União quando é vítima de uma "tesoura" por trás do referido Latapy. Todos os adjectivos que, eventualmente, poderiam ser utilizados para descrever a dureza absolutamente assassina do referido "tackle" revelar-se-iam bastante insuficientes. O que se passou a seguir foi Pedrag Jokanovic rebolando no chão com o pé algo desalinhado da perna (tipo Rui Àguas em Kiev lembram-se?) e um cartão amarelo para o Tobagenho. Uma semana mais tarde ao folhear o "Record" vejo uma peça jornalística com o título "Latapy nem me veio visitar" e com uma foto do jugoslavo (ainda algo abalado) numa cama de hospital depois de ser operado e com a perna engessada. Jokanovic ficou, salvo o erro, seis meses sem poder jogar. Mas a história não acaba aqui... qual Conde de Montecristo, Jokanovic dedicou o tempo em que esteve impedido de espalhar o seu futebol pelos relvados nacionais a preparar a vingança daquele que lhe "lixou" a vida. Uns quantos meses mais tarde (na época seguinte se não me engano) reencontram-se União da Madeira e FCP. Jokanovic iniciou o jogo no banco pelo União, Latapy foi titular pelo FCP. Num glorioso momento de sanidade, o treinador do União resolve colocar o jugoslavo em campo. Acho que esteve cerca de 2 ou 3 minutos em jogo. O jugoslavo, ainda fresquinho por ter acabado de entrar procura o tobagenho e executa um carrinho de lado a pés juntos ao joelho de Latapy. O cartão vermelho foi imediatamente mostrado. Jokanovic levanta-se e sem olhar para o àrbitro dirige-se para os balneários com uma expressão de dever cumprido na cara. É para não deixar cair estas estórias no esquecimento que este blog existe. Mais uma vez apelamos aos nossos leitores que nos contactem e partilhem acontecimentos do glorioso futebol lusitano que achem demasiado bons para serem esquecidos. Próximo post subordinado ao tema "Duelos Sanguinários" : Paulinho Santos vs Bino !

domingo, junho 01, 2003

Antes de Vitor Vieira, no entanto, a ala direita do clube de Barcelos conhecera outros nomes proeminentes (a esquerda teve um Deus, Drulovic, sendo qualquer comentário redutor e simplista face ao esplendor dessa época). A Caderneta escusa-se a delongas sobre a história dos extremos direitos do GVFC e limita-se a dissertar sobre aquele que mais próximo terá estado do panteão gilista depois de Drulovic. Muitos tomaram-no como aspirante a Drulovic mas nós aqui reconhecemos-lhe mais qualidades: fazia a ala, sim, mas também construía jogo e recuperava bolas a meio-campo; cruzava, é certo, mas também fazia assistências milimétricas para a finalização de Mangonga (lá chegaremos, lá chegaremos...). Sósia de Atílio Lombardo, estamos evidentemente a falar de Cacioli. Milton Cacioli Junior, brasileiro de ascendência italiana, um jogador maduro e acutilante, espalhara antes de Barcelos o seu perfume por Braga. A imprensa da época refere-o como "indispensável", epíteto que veio a honrar mais tarde também no Farense. Era o motor do Gil Vicente, a alma de uma equipa destroçada pela queda do seu anjo montenegrino. Ao jeito de Zidane, e não só pela careca, era em torno de si que a equipa jogava. Todos perceberam isso a não ser o selecionador do escrete, que acabara de ganhar um Campeonato do Mundo com um meio campo onde brilhavam Dunga e Raí. Quem é que tem coragem de nos dizer que Cacioli *não* era uma síntese dos dois?
Continuando. No que concerne ao Gil Vicente Futebol Clube, o verdadeiro festival de artesãos da filigrana futebolística começa no meio-campo. "Nada disto é novo" pensarão uns, "Ultraje! Os centro-campistas não jogavam, a bola ia do Vital para os avançados!", pensarão outros. A verdade, como em tudo o mais na vida, estará algures no meio. No meio do campo, aliás. E se há jogadores que não enganam, que transportam a verdade seminal que mora no centro do esférico e que só alguns resgatam para deleite dos adeptos, esses jogadores são os filhos do Galo barcelense. Lirismos à parte, a verdade é que poucas torcidas tiveram a oportunidade de aplaudir os dribles de um verdadeiro extremo salta-pocinhas como a torcida do Gil Vicente. Falamos, por exemplo, de Vítor Vieira, o gémeo perdido de Luís Filipe Madeira F. Protótipo do jogador saltimbanco, requer a honra de não ver exposto aqui o seu currículo pois a valência deste reside precisamente na variedade. Passou por muitos sítios, viu muitas coisas, encontrou milhares de laterais pela frente, a maior parte dos quais futuros e ex-colegas. Mas, e o futebol de Vieira? Rápido, vadio, tão depressa alheado do jogo (temporadas a fio, dirão alguns) como explosivo na altura do remate. Era um extremo que rematava mais do que cruzava, assim ao jeito de um Tulipa (promessa nunca confirmada) ou de um Paulão (que passou pelo glorioso plantel do Espinho de Dagoberto, Carvalhal e o mortífero Bolinhas). Empolgante e dos raros futebolistas da nossa terra a animar o mercado de transferências de Dezembro entre clubes que lutam pela manutenção.