domingo, novembro 23, 2003

Caderneta da Bola: "A verdade é esta... Estamos desfalcados mas unidos. Sabemos o que queremos e vamos lutar todos os domingos pelos três pontos!" Pontapés de ressaca para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A essência do futebol... Bastas vezes foi escutada ou lida esta expressão nos mais diversos espaços que se debruçam sobre o roliço esférico lusitano. O que é afinal a essência do futebol? Serão os golos? Provavelmente sim na opinião de um José Carlos Soares. Para Gabriel Alves a resposta seria provavelmente o “futebol de ataque”, considerado aqui na sua dimensão mais abstracta, apimentado com umas quantas trocas de posições entre os dianteiros de um qualquer onze, conseguidas através de diagonais e desmarcações. Porém aqui no Desportivo Caderneta da Bola somos muito menos ontológicos. Seremos mesmo a atirar para o metafísico, assim como é Luis Campos a atirar clubes para a Segunda Liga. A irracionalidade. Sim caros leitores. O futebol está atravessado por uma profunda irracionalidade. E apesar d´A Caderneta da Bola se esforçar para proceder a análises pautadas por alguma objectividade, confessamos que por vezes tal tarefa se torna tão difícil quanto difícil foi para o jovem leão Litos perceber que, afinal, o mundo não iria ser seu. Porém, será porventura legítimo pensar que, a existir alguma área que gravite em torno do futebol que se deseja e se espera imúne a tal flagelo, esta deveria ser o dirigismo. Ou talvez não. A rivalidade entre clubes afecta mesmo o dirigente mais carrancudo, levando-o a cometer verdadeiros enigmas, contratando sem razão aparente um jogador de qualidade questionável só porque militou em tempos num rival, ou então, quando o defrontou, produziu exibições de encher o olho, despoletando a esperança no responsável desportivo, que tais exibições se repitam desta vez com o dito jogador no seu plantel. Terá sido isto que terão pensado os dirigentes leoninos, quando tomaram conhecimento que numa eliminatória da Taça de Portugal, um jovem avançado, portador de um nome que fez história no clube de Alvalade e na baliza da selecção nacional, enviou três bolas para o fundo da baliza do FC Porto. Sim... falamos de Ivo Damas. Jovem avançado do Maia que brilhou a grande altura nessa tarde contra os campeões nacionais, tendo sido o seu hat-trick, apesar de tudo, insuficiente para afastar os portistas que triunfaram 3-4. Passado apenas algumas semanas, este esguio e rápido dianteiro, tinha rubricado um contrato-relâmpago com o Sporting, Em dois anos, este penafidelense, passou do modesto Paredes da III Divisão, para um dos principais clubes nacionais. Porém, aquilo que esta transferência teve de mais surpreendente, foi a duração do contrato... 7 anos! Estaríamos diante da maior star-to-be da bola lusitana? Teriam os leões cravado as garras num intérprete cujo sublime manancial técnico-táctico passou ao lado dos seus rivais? Bom... a ver pelo que seguiu, a resposta será um rotundo “NÃO”. Uma mão cheia de jogos na principal equipa dos leões, e exibições que, de tão descoloridas, fariam um qualquer cruzamento de EL Hadrioui para uma qualquer bancada Superior da Luz, parecer um excitante lance do mais burilado futebol. O nosso Ivo foi para o satélite da altura, localizado no nosso Far-Oeste, lá para os lados da Lourinhã. E lá... depois de uns quantos Jack Daniels no Saloon da rua principal, tendo o som dos cascos dos cavalos e o constante ranger das portas e do soalho do estabelecimento como paisagem sonora , os nativos acederam em contar-nos a lenda de Damas, o Avançado mais rápido do Oeste, que iria levar o Lourinhanense até ao próximo escalão do futebol nacional. Pelo menos foi assim que ele foi anunciado... Porém, nunca ninguém lhe pôs a vista em cima. Ivo “A Bala”, como chegou a ser conhecido, nunca chegou a alinhar pelos Verdes do Oeste e, conta a lenda, terá sido o vento que o levou... sem ninguém alguma vez lhe por a vista em cima. Ivo subiu rápido é verdade... mas a Física não nos trai... e o que sobe, também desce. E por vezes bem rápido. Depois do Oeste e da rescisão do contrato com o Sporting, seguiu-se Alverca, depois a Ovarense e por fim os Dragões, não os da invicta, mas sim os de Sandim, que como é lá perto, acaba por ser quase a mesma coisa. O jovem Ivo sentiu na pele aquilo que muitos sentiram, o panteão dos eleitos à distância de um braço. Mas por vezes... um braço é muito, como muita foi a desilusão dos dirigentes leoninos ao verem a sua jovem aposta e o seu triste fado...