quarta-feira, julho 07, 2004

Ainda com meio país de bandeirinha à janela, tentando perceber como se elimina a Espanha, a Inglaterra e a Holanda e não se consegue fazer o mesmo à Grécia, importa resgatar aquela que, até ver, se assume como a única glória da selecção nacional. Já aqui referida num post que aconselhamos aos nossos leitores (procurem bem que fica já aí nos arquivos) a Skydome Cup, jogada no Canadá em 1995 continua a deter o lugar mais importante na vitrine de troféus da FPF, como o único troféu jamais conquistado oficialmente pela Selecção Nacional Sénior. Importante aqui, aparte todas as razões invocadas aquando da nossa primeira referência ao evento, é contrariar a euforia reinante com um pouco de racionalidade. O facto de Luís Filipe Scolari ser um técnico da mesma fornada do mítico belenense Abel Braga ou condiscípulo de Marinho Peres, não o impermeabiliza de críticas. E essas, convém dizê-lo agora que o prudente silêncio a que nos reservámos enquanto o mundo girava em torno das quinas e dos pagodes finalmente terminou, essas críticas só podem referir-se ao conjunto de critérios utilizados pela equipa técnica da FPF para designar o lote de eleitos para este Neuro'2004. Dizem os escritos mitológicos gregos que a derrota agracia os que ostracizam o passado e a história (é questão de conferir as declarações desse deus grego Machairidis aquando da sua segregação lampiã). Não olhar para a história é, sob o ébrio da glória anunciada, escolher ignorar que o único troféu conquistado pelos séniores da FPF obedeceu a dois pilares primordiais. O primeiro é a raiva primitiva que só uma besta ferida no orgulho pode ostentar. Em futebol, como é do conhecimento geral, essa raiva tem uma única mãe: a derrota. Portugal, esquecendo Electra e os escribas clássicos, não deu conta, neste Neuropeu, que já não perdia nada há pelo menos dois anos. Em 95, a hecatombe de San Siro, na qualificação falhada para o Mundial'94, quase forçou a catarse canadiana. O segundo grande pilar é o princípio de jogarem os jogadores que estão em melhor forma no momento da convocação. Em melhor forma na Liga Portuguesa, entenda-se, sendo este conjunto complementado por uns quantos foras de série estrangeirados. Nacionalismo bacoco? Patriotismo neo-fascista? Nada disso. Puro entrosamento futebolístico, conhecimento empírico da realidade futebolística que dá à equipa representante o quinhão maior de jogadores, motivação e oportunidades a quem nunca as teve e, sendo isto o mais importante, preparar o dinâmico futebol português para continuar a produzir jogadores de craveira eliminando o fosso que separa os clubes de bairro dos grandes europeus, sem que os jogadores tenham que o saltar com as suas próprias pernas (como disso constitui exemplo a ascensão de Costinha). Em Toronto, jogaram aqueles que ao longo da época (ainda a meio, na altura) tinham evidenciado o maior número de argumentos. Claro que essa mudança no azimute foi publicamente justificada com o cansaço das grandes vedetas, treinador incluído, tinham afinal dados apenas tristeza e promessas falhadas ao povo português. Dizemos treinador incluído porque Queiroz foi substituído por um treinador à época sem curriculum nem palmarés, António "se eu soubesse que morria amanhã, agarrava numa metralhadora e fodia meia dúzia de gajos" Oliveira, que depois fez o que se viu em Toronto e mais tarde. Neste campeonato, esta linha não foi respeitada. Se é verdade que tínhamos Cristiano Ronaldo com convocatória justificada pelas maravilhas que fizera outrora no Sporting e sobretudo pela sua cruzada de vendetta pessoal do fado de Bambo, ou Hélder Postiga, do Tottenham desde pequenino segundo palavras do próprio, mostrando nos penaltis contra Inglaterra que soube assimilar a experiência de jogar no quinto clube de Londres e transformá-la em força de vencer, urge reclamar ao treinador que um dia agrediu a murro um pupilo palmeirista (perante o desconsolo dos olhos, já de si trocados, de Amaral) que reveja não só as cassetes da experiência canadiana como as de campanhas de equipas como Nacional ou o Rio Ave esta época nos relvados portugueses. É aí que nascem os grandes jogadores (aí e no Corinthians Alagoano). A Caderneta da Bola lamenta, uma vez mais, vestir, aos olhos de muitos, a pele de Velho do Restelo (quando o histórico belenenses curiosamente, pautou mais a sua história por mostrar ao mundo craques de além mar mais do que de aquém mar) e vir pôr o dedo na ferida que mais importa sarar, agora que todos digerimos o amargo fel que nos ficou da ceia grega. Aliás, se se derem ao trabalho de observar a selecção grega e o manual do professor José Mourinho, rapidamente chegam à conclusão que estas nossas ilações não são nada de novo para Oito Rehagels.

segunda-feira, junho 21, 2004

Caderneta-da-Bola: Umas vezes por Mounir, outras por Abazaj. E ningué se vai chatear por causa disso. Cruzamentos do menisco para: caderneta-da-bola@megamail.pt
Conhecer pessoalmente Mame Bangane, nome de guerra Birame, hoje gerente de um cybercafe nos arredores de Paris. E perceber que foi por coisas destas que nos lembramos de começar esta historia, para traçar o imprevisivel e conhecer peça por peça esse demonio de LaPlace, engenho triturador de almas que é o futebol portugues. Se a tal nos ajudar o engenho, a arte e o tempo livre, la chegaremos. La chegaremos à primeira entrevista da nossa historia. Mas nao se fiem, que até o Pitico falhou um penalti uma vez na vida.
Os que estiverem mais acostumados a reflectir longamente sobre a bola reconhecem de subito uma epifania. Ha que ter a sensibilidade quasi-religiosa de um devoto do futebol mas também o espirito critico e terra a terra que distingue aqueles que veem o jogo da tribuna daqueles que veem o jogo do peao (tranquilidade, pequena e media burguesia intelectual, assinante da Sport Tv, defensores de Luis Filipe Madeira F. e demais ouvintes: chegaremos a esta discussao num outro momento). A epifania é a centelha que distingue um Calita de um Borreicho. A epifania é o momento magico em que Lobao faz um corte limpo e sai a jogar com a bola dominada (nao é por acaso que a comunidade cientifica dedica em media mais tempo ao Cometa Halley que ao central brasileiro). A epifania é, apos meses de desanimo com este projecto, conhecer pessoalmente o portento senegales que aterrorizou a defesa de toda e qualquer equipa que tenha passado pela Reboleira entre 93 e 96, o camisola 9 que ostenta a arrepiante estatistica de 4 golos em 3 epocas mas muitos quilometros palmilhados, que em algumas noites de inspiraçao incendiava Milovacs e quejandos com a tecnica de dribble que Wayne Rooney se dedica hoje em dia a aperfeiçoar no estadio do Louletano ou noutro qualquer do Neuro2004, esse gigante cuja compleiçao fisica corresponde a dois Rui Barros e meio Marco Nuno.
A Caderneta da Bola tem errado no deserto ao longo dos ultimos meses. Facto. A Caderneta da Bola tem sofrido multiplas desagregaçoes e ataques pessoais, como a progressiva perda de importancia de Rui Dolores na ala ou mesmo o facto do avançado Gringo, homem com 80 jogos em tres epocas de Segunda Divisao B nunca ter chegado à Superliga. Facto. A Caderneta da Bola sempre tentou pugnar pela defesa do futebol sintese da dialectica entre a tecnica e a tactica, mas mesmo essa regurgitaçao pos moderna deixou de fazer sentido nos ultimos tempos. Facto. A Caderneta da Bola precisava, e agora mais do que nunca, de uma epifania.

terça-feira, março 30, 2004

Comunicado da Direcçao da Caderneta da Bola SAD: Tal como haviamos prometido, até meados de Março colocariamos aqui um post. Desdizendo a maxima do futeboles, que postula 'o que hoje é verdade, amanha pode ser mentira', aqui fica a breve e singela homenagem a esse jogador que cumprira 34 anos no proximo dia 17 de Dezembro e cuja fugaz passagem pelos relvados viriatos nao lhe deu mais a guardar que uns quantos trocadilhos acerca da sua origem geografica, curiosamente comum à de um joguete infantil muito popular aqui ha uns anos. Pois é: o Tamagotchi que fez uma pré-época nos defuntos campos de treino do SL Benfica (nao confundir com o historico da Luz, Clube Futebol Benfica) chamava-se, em realidade, Seo Jung-Won, nasceu em Seul e marcou presença em 3 mundiais. Se o seu metro e setenta, esparsamente suportados por 65 kilos de puro chop-suey nao foram suficientes para gravar em caracteres coreanos o seu nome no panteao lampiao, ide, arautos obscurantista da bolologia, perguntar aos ultras do Racing Club de Estrasburgo o que pensam sobre este kamikaze. Ficarao, acreditem-nos, surpreendidos.

domingo, dezembro 28, 2003

A voz. Detalhe importante na formação e composição de um futebolista, a voz tem sido esquecida ao longo dos anos. Não é à toa que a língua portuguesa cunhou, através dos tempos, a expressão "voz de comando". O comando, o carisma da liderança é o que distingue, por exemplo, um Portela de um Tó Sá. Sim, Portela granjeou durante épocas a fama de lateral direitocorrectíssimo, competente a defender, pontapé forte, o arquétipo do lateral mediano. Mas Tó Sá é o nome que emerge quando os adeptos sadinos se sentam à mesa numa tasca da baixa de Setúbal a relembrar os laterais direitos do histórico clube do Sado (à direita, porque José Rui, esse lateral quase selvagem, nunca se lhe comparou e à esquerda Rui Carlos ainda traz lágrimas de saudade aos mais indefectíveis da Fúria Sadina). Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir a um Vitória de Setúbal-Farense in loco facilmente discirnem que Tó Sá é um lateral de voz mais profunda que Portela. E este é um exemplo frágil, já que , salvo raras excepções, o lateral é mais solicitado que solicitador. Se falarmos de centrocampistas, como é o caso, a falta de voz torna-se um problema ainda mais grave. Infelizmente, a aturada investigação historiográfica dá-nos razão. Um caso paradigmático, o que trazemos aqui hoje, é o do maestro brasileiro Carlos Miguel. Contratado pelo Sporting naquela que é considerada a Idade das Trevas do clube verde-e-branco (as dinastias depois de Jozic, doravante designadas de DC, e antes de Inácio, AI). Nesse período de seca, em que o leme esteve inenarravelmente entregue a figuras como Carlos Manuel (que ainda hoje faz valer uma carreira de treinador às custas de um pontapé em Estugarda, carreira essa que encontra paralelo somente em nomes como Diamantino Miranda ou Bernardino Pedroto), Vicente Cantatore e, claro, o pioneiro dos três trincos Octávio Machado, Carlos Miguel chegou a Alvalade rotulado de "melhor número 10" no activo em terras de Vera Cruz. Ídolo no São Paulo, o regista nunca chegou a singrar no Sporting, onde prometeu na pré-época mas onde, em jogos oficiais, nunca pegou na equipa como era esperado. E estamos a falar de uma época em que os adeptos sportinguistas ainda estavam escaldados com o caso Roberto Assis, esse médio-centro vindo da Suiça com o colossal Ahmed Ouattara (e que hoje é empresário do seu irmão Ronaldinho, jogador do Barcelona) e perplexos com o fenómeno paraguaio César Ramirez, segunda encarnação de Cantiflas e ídolo do Topo Sul do defunto José de Alvalade, desde que foi a Israel fazer ao Beitar de Jerusalem o equivalente futebolístico daquilo que o Hamas tem vindo a fazer em Telavive. Voltando a Carlos Miguel, manteve-se o mistério do ocaso por mais de meia época. Porquê? Nenhum problema de adaptação noticiado, nenhuma lesão grave, nenhuma explicação oficial. Até ao dia em que a equipa da Caderneta da Bola se deslocou ao campo de treinos leonino, no âmbito de uma cadeira do Mestrado em Futebolês Contemporâneo - O Caso Português. Um treino, uma única sessão, talvez bastasse para descortinar o porquê do baixo rendimento da equipa em geral e do brasileiro em particular. E a realidade é que, uma vez chegados, apenas uma voz se distinguia das demais, a de Pedro Barbosa, o falso lento do futebol poético, por vezes belo e genial, por vezes ausente e superfluo. A voz, firme, segura, o "deixa, que é minha!" pronunciado na perfeição, o "estás só!" soprado com segurança, o clássico e eterno "vai, caralho!" articulado irrepreensivelmente. No meio de tudo isto, Carlos Miguel invisível. Até que, num dos raros momentos de silêncio, uma voz soa - "Aqui, passa passa!". A Caderneta olha em volta, pensando que a voz pueril que acabara de ouvir viera talvez de um miúdo a brincar com o pai. Uns segundos de desconcentração e, quando os olhos regressam ao relvado, a bola está nos pés de Carlos Miguel, que a devolve a companheiro tornado a gritar. O cenário grotesco do número 10 com voz de eunuco era demasiado real para ser verdade, com toda a carga paradoxal que isso carrega. A voz, num futebolista, salvando raras excepções de foras de série ou génios intemporais, torna-se, como comprovado, num critério tão válido como a idade ou o número de internacionalizações. Certas correntes defendem mesmo a substituição do sistema AA + Sub-21 pelo de Baixo + Barítono + Soprano. A verdade é que Carlos Miguel regressou ao Brasil no final dessa época sem ter ganho a confiança nem do treinador, nem dos adeptos, nem dos colegas. Nunca pegou no jogo, nunca encheu o campo. A voz, caríssimos, nunca lhe possibilitou impôr o espaço necessário a um número 10 para expôr a sua pleíade de artimanhas. E com estas incontornáveis idiossincrasias, o mundo da bola vai escrevendo a sua história, decepando cruelmente os mais fracos, trazendo Darwin para dentro das quatro linhas, desenhando uma linha de evolução que traz sempre um Punisic depois de um Abdel Ghani, um Fertout depois de um Embé, um Taoufik depois de um Basaúla. Lei da vida, norma da bola.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Caderneta da Bola: um blog com superavit tecnicista a meio-campo. Luvas pretas e suplementos vitamínicos para: caderneta-da-bola@megamail.pt
A Caderneta da Bola deseja uma óptima segunda volta a todos os adeptos da bola deste país e de além mar, especialmente aos mais desfavorecidos, como os adeptos dos históricos Leça FC (último classificado da Zona Norte da II B) e do Farense (penúltimo classificado da Zona Sul da II B). Votos de um Santo Natal e muitas trivelas, pontapés do meio da rua e golos limpos no ano que se avizinha, entre o Euro e o Neuro. Prometemos na chuteirinha uma série de novidades nos próximos dias, que é como quem diz "havemos de meter aqui algum post pelo menos até meados de Março", como o final da História Interminável de Chaves, assim como revisitações a outros plantéis históricos (o muito ansiado Farense, por exemplo), e a autópsia ao monstro (agora defunto) Parmalat, assassinado publica e barbaremente a tiros de Clóvis, Paulo Nunes e Donizette, tanto nos relvados como nas bolsas de valores por esse mundo fora.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Prossegue o jogo no Municipal de Chaves, desta feita com os canticos apontados para Edondo Amaral Neto, o pigmaleao brasileiro que marcou a decada de 90 em Tras os Montes sob o nome de codigo Edinho. Hoje com a provecta idade de 36 anos, Edondo resiste nas sinapses de todo e qualquer apaixonado pelo futebol dada a sua existencia contraditoria. Apesar de parecer esguio, baixo e encurvado, com uma tecnica repentista, ao jeito do italiano Sandro "La Cobra" Tovalieri, saudoso sniper da costa adriatica, numerosos relatos existem de um Edinho alto e possante, mais ao jeito de um belicoso Igor Protti, o Sansao retroescavador de Bari (nota: a Caderneta internacionaliza-se progressivamente, expandindo alem fronteiras a sua 'luta de classe'). Aquilo que concede a Edondo a sua aparencia hibrida, e aquilo que, porventura, tornou Edondo em Edinho, era a sua compleiçao solida, integral, como um so bloco de carne, osso, sangue e golo. A cabeça achatada, os ombros colados ao pescoço, um peito curvaceo e tenso como uma ameaça de bomba, enfim: Edinho, sintese tropical de David e Golias, era um jogador explosivo. FIM DA 1a PARTE

terça-feira, outubro 21, 2003

ROBERTO MATUTE: 3a E ULTIMA PARTE DA SAGA. Em Belem, o regresso as boas exibiçoes. 26 jogos e 8 golos, com os pasteis na Segunda Divisao de Honra, e o possante espanhol, olhos fixos no Tejo, cada vez mais a arrastar o seu poderio fisico pelo relvado. Apesar dos jogos correrem de feiçao e a sua media nao ser de menosprezar, notava-se em Matute um ligeiro aumento de peso e perda de velocidade. O dominio da tecnia da Morte Toraxica continuava intacto, mas Belem pedia mais. Assim, no final da epoca, com o passe na mao, é tempo para mais uma corrida, mais uma viagem. O destino? O Dundee United, lendario clube escoces do feiticeiro tobaguenho Russel Latapy, galardoado com um voto na escolha dos seleccionadores FIFA para melhor jogador do mundo, e sobejamente conhecido pelo sanguinario duelo com Jokanovic e por ter furado as redes de um estadio brasileiro num estagio do FC Porto de final de epoca (momento que o programa Contra Ataque registou para a posteridade, como é seu apanagio). Foi na Escocia que Matute viveu a febre do bug do milenio, alinhando apenas em 5 encontros. Os frios ares da Escocia fizeram dele o ultimo hispanico de renome a alinhar na frente de ataque do clube escoces, ate a chegada de Claudio Cannigia, ja devidamente recuperado do stress pos-traumatico provocado pelo embate com Coroado na Luz (a celebre Batalha dos Cartoes). Depois da Escocia, o regresso a casa e hoje pode dizer-se que Roberto Matute agita o mercado dos escaloes secundarios da Liga Espanhola, tendo recentemente protagonizado uma bombastica transferencia, ao recusar renovar com o Gramenet para assinar pelo Recreacion. Um cidadao do mundo, sempre na vanguarda, ou o ultimo de uma rara estirpe de colossos irredutiveis a tentar mostrar ao mundo que ainda ha espaço para a tecnica da força. Chaves e nos, como sempre, nao esquecemos.

segunda-feira, outubro 20, 2003

Depois de um tackle extremamente agressivo de um jogador magrebino ter transformado a ode a Matute num mero prologo de homenagem (um carrinho ao jeito do saudoso belenense marroquino M'Jid), urge continuar a travessia por esse homem que, tivesse tido arte, engenho e bons conselhos, seria um verdadeiro pichichi na liga de nuestros hermanos. Jogador sintese do poderio animal, Roberto Matute reinnava na area como o leao reina na savana, uma supremacia fisica imperial, qual Cortez a invadir as Americas. Nascido em Agosto de 1972, Roberto Matute Puras começou a dar nas vistas no Logrones, onde os olheiros flavienses o foram descobrir, a ensinar as camadas jovens a matar a bola no peito. "Matar no peito", expressao do futeboles que romanceia a arte de roubar a vida a uma vola veloz, fazendo-a adormecer na caixa toraxica, requer uma mestria acima da media: o gesto simultaneo de levantar a cabeça, calcular a trajectoria da bola, posicionar o tronco, dar-lhe a inclinaçao adequada e depois, encaixar o impacto deixando a redondinha rolar até a ponta da bota nao é facil, mas Matute fazia como quem come uma tapa. Em Chaves, obviamente, titular indiscutivel na temporada de 96-97, passeando numa frente de ataque que conheceria tambem os avançados espanhois Miner e Dani Diaz, para alem do poste romeno Cuc. Nessa temporada, 10 golos em 34 jogos, media assinalavel, em Tras os Montes. Na temporada seguinte, um ligeiro declinio para 26 jogos e 3 golos, perda de rendimento que levaram o tigre catalao a paragens mais a sul, e mais azul. Era tempo de Cruz de Cristo. FIM DA PARTE 2 Nao percam, carissimos leitores, a conclusao da odisseia de Roberto Matute, nos proximos dias!

quarta-feira, outubro 15, 2003

(ponto previo: este post sera escrito com muito poucos acentos, dada a longinqua proveniencia, um lugar onde os teclados sao tao diferentes quanto o estilo de jogo da lusolandia) Arrumado o ponto previo, o Chaves. Os rasgos de exuberancia futebolistica e os excelentes golos de bandeira dos saltimbancos da bola lusa regressam agora à sede dessa paladina missao que é o Tras-os-Montes All Stars da decada de 90. O holofote recai agora sobre o portento catalao Roberto Matute. Apesar de ser um nome que nao necessita de grandes introduçoes, impoe-se a resenha. Impoe-se porque se existiu jogador que personificava a expressao "mata no peito", era Matute. Um pouco à semelhança desse Messias chamado Jesus Seba, futebolista de 24 quilates, garboso bolide de 160 cavalos quando engatado na ala direita, Roberto Matute era tambem ele um genuino produto do animismo futebolistico, esse sentir do futebol como uma religiao primordial, que tranforma os jogadores na expressao pura da divindidade dos animais selvagens. Matute era assim, corajoso como um falcao, indomavel como um puro sangue arabe mas tambem preguiçoso como um reptil herbivoro. FIM DA 1 PARTE

segunda-feira, outubro 13, 2003

A Caderneta da Bola faz hoje uma viagem até à cidade do antigo governador civil, transformado em Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, viajando de moliceiro pela Ria de Aveiro, até chegar ao rural Mário Duarte, onde a relva é tão comprida quanto o cabelo do antigo central Dinis. O nosso visado é Aldo António da Costa Soares, conhecido no meio por Simone, que não tem como primeiro nome Marco, nem como apelido De Beauvoir, avançado da classe de 66, angolano de origem, descoberto para as lides da bola pelo mítico treinador dos onze dedos, Álvaro Magalhães, quando treinava o Lusitânia de Lourosa, repleto de figuras do 'triste fado' futebolístico nacional, como o 'veterano' ponta de lança Penteado, que até tinha pouco cabelo ou o defesa Carmindo, dos tempos do Águeda primodivisionário, isto para não falar dos promissores Basílio Almeida e da 'eterna promessa' Marco Stromberg, um extremo que, aos 10 anos, era vedeta dos infantis do 'Glorioso' da Luz. Esta equipa destacou-se na época de 93/94, por ter chegado aos quartos-de-final na prova rainha, eliminada pelo Sporting em Alvalade, depois de ter superado o Belenenses de João Alves, num jogo “bombástico”, numa partida em que a relva parecia ter chegado directamente de Paranhos para substituir a que tinha sido destruída por Mark Knopfler nos seus concertos à grande-jogador-só-que-temos-o-plantel-fechado. De qualquer maneira o Lourosa, foi para essa época aquilo que o Sandinenses viria a ser mais tarde, isto é, uma equipa, vinda do deserto do nada, em busca do Graal, impossível de alcançar, que é o ceptro de Taça, que às tantas, deixa de o ser. Depois de passagens pela terra de Vieira de Carvalho e pela Vila das Aves, o avançado Simone, que não era alto, muito menos loiro, mas era tão tosco como o jogador que deu origem a essa expressão, deu nas vistas na sua segunda época de Lourosa, onde marcou treze golos em vinte e nove jogos, e logo saltou para o Beira-Mar, onde nunca se impôs. É certo que a herança de Dino “Dumbo” era pesadíssima, mas o seu rendimento foi tão baixo, que acabou por ser recambiado para a margem...sul! A Amora era o destino, com José Rachão como técnico e o grande comentador e 'bombista' Manuel de Oliveira, que ao contrário do realizador, cultiva um estilo mais “mexido”. Na Amora, as coisas voltaram a não correr bem, e no final da época o jogador procurou a redenção em Fátima, onde nunca encontrou a luz, neste caso, das balizas contrárias. Mas a explicação até pode ser dada pelo facto de não ter sido orientado em território santo pelo 'mítico' Válter Ferreira, que, para alguns, foi um 'pastorinho' fora do tempo. Quem não se lembra da história dos dólares com a face de António Oliveira? E o carimbo do N'Dinga? Depois de três anos de rasto desconhecido, com passagem pelas divisões inferiores do futebol francês, o regresso deu-se no local mítico da queda do avião de Sá-Carneiro, Camarate, jogando pelas águias locais. Mais uma corrida, mais uma viagem, mais um descalabro! A carreira do jogador estava irremediavelmente destruída, registando ainda uma passagem pelo Barrosas, dos distritais nacionais. Perguntará o caro leitor o que é feito de Simone? Resposta : Está detido, em Paços de Ferreira, por tráfico de droga. A NTV ao reportar uma partida de presidiários, apitada por Paulo Paraty, auxiliado por Carlos Calheiros, sem bigode, num encontro de notáveis, onde não faltou a presença nas bancadas de um antigo presidiário do balneário de Chaves (Major oblige), Vítor Reis, o canal com pronúncia do norte descobriu o jogador, que se mostra arrependido do que fez e disposto, ano e meio depois da detenção, a mudar de vida quando cumprir os cerca de seis anos que ainda o esperam. Resta saber se essa vontade de voltar atrás, não passa por esquecer a carreira de jogador, que, diga-se, teve sempre uns milhares de miligramas a mais.

sábado, setembro 20, 2003

Aqueles que, sensatos, têm acompanhado o Terceiro Anel, constataram (emocionados, por certo) que estes sempre vossos partilham a odisseia historiográfica em duas mãos, uma aqui e outra lá mesmo - http://terceiroanel.blogspot.com . E é com profunda emoção e redobrada motivação que vemos expandir-se a ânsia do conhecimento e o número de pintores desta 'arte geométrica'. Bola para a frente.
O percurso historiográfico pelo Marão começa a revelar-se uma dor de cabeça, tal é a riqueza do plantel. Com efeito, desde os primórdios que a memória é a mais profícua fonte humana de surpresas e acreditem que mergulhar na memória até ao fundo para resgatar o Chaves tem tanto de doce como de conflituoso. Vêm estas linhas tentar justificar o facto de, depois de fechado o capítulo da defesa, e já em plena lavra de meio-campo, regressarmos à rectaguarda para dar conta de uma figura absolutamente imprescindível nos compêndios da bola transmontana. Ponderámos muito, sim, mas chegámos à conclusão que Denis Putnik merecia um memorial. Breve, mas suficientemente simbólico para o recordarmos como um dos esteios dessa agressiva transnacionalidade que tem feito do Municipal de Chaves esse campo de tiro que tão bem conhecemos. Denis Putnik, portentoso defensor, chega a Chaves com o título de campeão croata pelo Hajduk Split, à altura (93/94) com uma autêntica dream team (Milan Rapajic e Ivica Mornar no ataque, Balajic - "trabalho para ser melhor que o Maldini", disse um dia à chegada a Alvalade - e Buturovic - o nemésis de Secretário - na defesa). Alto, forte e espadaúdo, era a sombra onde Manuel Correia era a luz, era o gelo onde N'Dong era o fogo, era o rasto enlameado do atleta adversário. Apesar de apenas 3 jogos na época croata, chegou a Chaves para pegar de estaca e fazer, em duas épocas, cerca de 57 jogos e 3 golos, seguindo depois para... Leça. (é verdade, a Caderneta já lá andou!) Uma descoberta feliz de um dos mui obscuros agentes-fífia que pululam por esse Portugal fora, um homem recto e respeitado pela torcida (fontes bem informadas da Caderneta da Bola poderão vir, no futuro, a contribuir com curta prosa sobre a única claque organizada do Desportivo de Chaves, prestai atenção - ou talvez não), mas ainda assim, um incansável indutor de calafrios. Enfim, depois da curta abordagem aos guarda-redes, quem o pode censurar?

quinta-feira, setembro 18, 2003

Um pequeno interlúdio informativo na travessia blaugrana para uns quantos agradecimentos e umas declarações à imprensa. A Caderneta tem-se apercebido, com algum agrado, de que há cada vez mais adeptos a preencher as bancadas do nosso recinto, qual Estádio Diogo José Gomes nesse Sunday Bloody Sunday em que o Odivelas FC abateu, com um só tiro, o Salgueiros num duelo da Taça de Portugal. Serve a ilustração para registar uma curiosa analogia, entre o acréscimo de público e a emergência dos valores individuais no trato do esférico: tal como a sensacional façanha do modesto Odivelas FC foi meticulosamente orquestrada pelos pés de um homem cujo valor seria reconhecido anos mais tarde por esses relvados fora, Paulo Vida, também na agradecida Caderneta, coincidem os elogios e o aumento de visitas com a emergência dos mitos flavienses e a estreia a titular do virtuoso Rui Malheiro. De resto, o agradecimento às referências elogiosas e às palavras da massa associativa, que entre confusões de identidade e de heroísmos de anonimato (não o era também Kumba Ialá nos seus dois anos de futebol algarvio, afinal?), vai envergando com brio a camisola 12. E já a seguir, prossegue-se no porta-Chaves, com mais umas considerações sobre a escola luso-brasileira de comentarismo desportivo pelo meio. Ripa na rapaqueca.

sexta-feira, setembro 12, 2003

Só que o pior, o pior veio depois. Milinkovic decide abandonar a amada Chaves, rumando até território espanhol, criando um vazio na famosa e mítica posição "10". O filão "ex-jugoslavo" - expressão muito cara aos dirigentes portugueses nos 90's - era a solução desejada e a cassete milagrosa lá chegou às mãos de Álvaro Magalhães que lutava com unhas - ele até tem onze nas mãos - e dentes pela manutenção. Matic. Ivan Matic. O seu nome começado por "M", acabado em "ic", aproximava-o de MilinkovIC, assim como a sua respeitosa envergadura física (1,85/83), pois para "cérebros tarrecos" lá chegaria o tempo do ex-Celta, Carlos Alvarez. O sempre prestável presidente Luis Carneiro até terá mesmo confessado, a propósito da aquisição de Matic, que "este até tem um nome mais fácil de dizer que o outro". A camisola "10" estava entregue então a Ivan Matic, um ex-Hadjuk Split, mas pouco. Pouco? Pois, é que em Split poucos se lembrarão de o ter visto actuar com a camisola mais amada da mui bela cidade croata que viu nascer, em Abril de 1971, tão cerebral rebento. Infelizmente para as cores flavienses, cedo se percebeu que Matic, o Ivan no balneário, estava bem distante do Niko, o marido de uma campeã de basquete jugoslava. Matic até era canhoto, mas desde logo os "índios" flavienses começaram a usar expressões como "este é mais lento que a minha falecida avózinha". Que Deus a tenha em paz e sossego. Matic era defacto lento. Sem velocidade, sem chama e sem talento. Do seu pé esquerdo nem um golo saiu para amostra em duas temporadas e foi-se arrastando lentamente até à dispensa em direcção aos Açores, ao Operário. Mas operariado e Matic realmente não combinavam. Matic nunca foi homem de correr atrás da bola, mas, em abono da verdade, também nunca teve tempo para correr com a bola. Era tudo uma questão de desarme, de pressão e o bom do Matic lá ficava a ver os navios passar. Desconhecemos se terá regressado à sua Croácia de navio, no entanto, sabemos que andou a arrastar-se, pós-Operário, em clubes da dimensão de um NK Posusje e de um NK Marsonia, clube pelo qual - pasme-se! - apontou 4 golos, mas também deixou marcas do seu mau feitio, com alguns cartões vermelhos a serem-lhe exibidos. Esse facto ter-lhe-á valido a dispensa e, segundo o que conseguimos apurar, o bom do Ivan, aos 32 anos, anda a procurar clube. À atenção, é claro, de alguns clubes da 2ªB e 3ª Divisão portuguesas que ainda procurem um estrateg"ic".

terça-feira, setembro 09, 2003

Finda por ora o périplo pela defensiva flaviense, não sem antes uma palavra de apreço a dois homens que em muito contribuíram para o Chaves ser aquilo que é hoje. São eles Patrick - não confundir com o médio Patrick Vaz (rebento de cópula luso-francesa, a outra face, figurativamente falando, claro, de uma moeda boavisteira chamada Quevedo) - e Vinagre. Estes dois jogadores 'eternamente jovens' foram e serão os expoentes da vaga de laterais rápidos que um dia pôs fim ao primado de stoppers fecha-bem-a-ala de fidalgos como Amarildo, por exemplo. Para estes dois, o campo adversário era sempre a descer, como quem desce a serra do Marão de bicicleta, ou como quem aprende a conduzir no IP5, quando vai dar passeios ao Sul. Enfim, como o tempo não existe, também não é a propósito destes dois bravos rapazes que o vamos inventar. Até porque adiante vem o Almirante Toniño, centro-campista e estratega de proa na Invencível Armada Espanhola que em tempos dominou airosa a terra Chaves.
Prosseguindo na flávia odisseia, eis-nos defronte de Parfait N'Dong. Excelso sapador gabonês, este portento é o protótipo do 'homem sem passado'. Nem a companhia, nunca confirmada além dos confins dos cafés do interior e do peão dos estádios secundários, do seu irmão N'Zé N'Dong ajuda a conferir a N'Dong (denominado em diversas sedes como apenas Parfait, numa curiosa acepção francófona do seu estilo de jogo) um carácter familiar, próximo, duradouro no tempo, uma carreira, até uma família, que certamente a terá. 'Homem sem passado' porque mesmo uma aturada busca nos registos cadernéticos é escassa para traçar a Parfait um percurso que vá além de 4 clubes em Portugal, o mais eminente dos quais o nosso GDC. 'Homem sem passado' porque Parfait N'Dong pura e simplesmente apareceu. Não veio de um clube, não granjeou uma fama de qualquer espécie, nada. Apareceu. Talvez fosse boa ideia inquirir os dirigentes do Amora que com ele assinaram contrato, no vetusto ano de 1994. Nessa época, o Shaka Zulu da Retranca alinhou em 21 jogos de camisola azul, manchando o prémio da montanha com uns indisputáveis 11 cartões amarelos e 1 vermelho. Em Novembro de 1995 assina pelo Maia, vergando os ímpetos à insustentável leveza da tutela de Vieira de Carvalho. Os 6 cartões amarelos em 22 jogos são afinal, a prova da brandura crescente. É depois da Maia que o guerreiro chega a Chaves. Em Chaves, caros leitores, Parfait faz 17 jogos em 2 épocas na 1ª Divisão. 9 cartões amarelos, ao todo. 17 jogos e a imortalidade no panteão flaviense aqui erigido? Mas por que carrinho a pés juntos é que alguém se lembra disto? Simples. O Chaves é, como Parfait, um clube cuja história pública é marcada pelo vazio, pelos hiatos. Também o Chaves, como Parfait, parece não existir quando não está no escalão principal ou a jogar contra um grande na Taça de Portugal. Também o Chaves encerra na sua tumba futebolística tesouros e mistérios, fantasistas bipolares como Milinkovic, heróis de pé face aos vendavais da bola como Paulo Alexandre, máquinas goleadoras como Matute. Uma tumba obscura e por resgatar, escondida como o Gabão se esconde atrás de um continente aos olhos portugueses. Parfait, longe de ser perfeito, era um garboso defensor. Um 'homem sem passado' (e cujo futuro foi, depois de Chaves, o Penafiel e depois a penumbra, de novo) não tem nada a perder e N'Dong nunca perdia nada além dos jogos e dos rins, de vez em quando. Um jogador duríssimo, inexpressivo, um toque de bola que a impiedosa escola de comentaristas lusitrastes se habituou a alcunhar de exótico (com toda a carga etnocêntrica que lhe subjaz) e, no entanto, um retrato fiel de toda a história de um clube. Uma história que, mesmo aos olhos dos homens que fazem esse mesmo clube, ele não tem. E no entanto, não é preciso grande esforço para recordar a absoluta e ingénua ausência de medo neste defensor, e perceber rapidamente como, apesar do espécimen ser um jogador vulgar, constituir esse um dos traços mais raros da bola actual.